Reportagens

A velha desculpa da Guerra às Drogas

Como o império dos EUA criminaliza as substâncias do Sul Global como tática para fazer da América Latina o quintal deles e usar de desculpa para interferências econômicas e até militares

Por Filipe Vilicic

“Nada impede que o Trump faça o mesmo aqui no Brasil e use de desculpa para colocar navios de guerra no nosso litoral”. A frase do advogado Erik Torquato, referência em nosso mercado canábico, me fez levantar as sobrancelhas. Ele discursava em debate mediado por Anita Krepp, que comigo fundou esta Breeza, na última edição da Expo Head Grow, em que nossa revista esteve presente com um espaço que atraiu filas.

Se você tem se informado do noticiário, há navios, caças e tropas dos Estados Unidos no Caribe, em pressão ao governo da Venezuela. Por mais que você discorde ou mesmo tenha asco pelas políticas de Nicolás Maduro, vamos compreender os perigos das justificativas usadas pelos Estados Unidos para ameaçar e chantagear um país na América Latina. Isso porque, o mesmo pode ser feito com o Brasil, como pontuou Torquato. E ver circulando a foto de uma bandeirona dos EUA na Avenida Paulista, pedindo por intervenção assim, em pleno 7 de setembro de nossa Independência, nos mostra que o risco pode ser real.

Se for resumir em uma frase: Donald Trump usou a desculpa da Guerra às Drogas, disfarçada de combate ao terrorismo, como forma de criar o inimigo imaginário que precisava de motivo para interferir na América Latina, onde tem perdido terreno – principalmente econômico – para a China. Segue assim a tradição dos EUA de construir a Guerra às Drogas como um inimigo (ilusório) que precisa ser vencido, para justificar intervenções em países estrangeiros, numa estratégia imperialista que vem desde os anos de 1970, quando o corrupto governo Nixon fabricou a “War on Drugs”.

Para quem não compreende o cenário, será que é preciso desenhar? Foi o que fez o quadrinista estadunidense Brian Box Brown em sua obra “Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos”, referência em retratar essa história de opressão e punição que visou reprimir povos negros e latinos, os do Sul Global. Na HQ, parte-se das origens históricas e mitológicas da maconha, como as na Índia e na religião hindu, para chegar ao momento no século XX em que se iniciou o esforço regional e depois global dos EUA em criminalizar não só a cannabis, mas as substâncias associadas a culturas de países africanos e latino-americanos – tabaco e álcool, além de outras drogas “do Norte” (como os remédios a base de opióides) não enfrentam a mesma perseguição, e isso obviamente não é por acaso.

Para Box Brown, não é o seu povo, o estadunidense, que é priorizado nessas manobras, mas, sim, apenas uma elite política e econômica. Nos diz ele agora, diante das assombrosas manobras de Trump, que radicalizam as ideias persecutórias de Nixon:

“Onde eu moro (na Filadélfia), existe a maior “cracolândia” a céu aberto do mundo. Muitas, muitas pessoas em situação de rua e desesperadamente viciadas. O governo federal não faz nada para ajudá-las, exceto chegar e “passar o trator” por cima das suas barracas. Ao mesmo tempo, investem bilhões para ‘impedir que o fentanil entre no país através das fronteiras’. E usam esses bairros como justificativa para investir bilhões nos militares para combater o tráfico de drogas. Mas é claro que eles não dão a mínima para as pessoas viciadas que vivem aqui”.

É até um pequeno alívio saber que boa parte, senão a maioria, do povo dos EUA não têm concordado com as políticas de seu presidente. Trump tem tido enorme resistência não só internacional, como interna. 

A nova Guerra às Drogas

Donald Trump repete a fórmula persecutória de outros povos na tentativa de demarcar a América Latina como quintal dos EUA e, portanto, onde ele deveria fazer o que bem entender, seja extorquir com tarifas abusivas ou interferir na Justiça e nas eleições locais. Jamais pensando em sua própria população, mas, sim, na manutenção e expansão do império estadunidense, que está sob risco de falência diante principalmente da ascensão da China, hoje o principal parceiro comercial das duas outras maiores economias das Américas, o Brasil e o México.

Nos diz o pesquisador Thiago Rodrigues, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF): “O descontrole parcial dos Estados Unidos em outras regiões e a própria crise econômica, social e política interna, fez o Trump ressuscitar o argumento do inimigo externo, um truque antigo de governantes em crises, né?”. A crise do império estadunidense é, portanto, tanto interna quanto externa.

Não é exagero ressaltar que Rodrigues é tido como um dos maiores entendidos do assunto no mundo. No ano passado, foi eleito pelo AD Scientific Index, plataforma global de medição de impacto científico, como um dos 100 cientistas de maior impacto internacional na área de Ciência Política e Relações Internacionais. Para ele, o crescente desespero dos EUA se dá diante da também crescente influência da China, em particular na América Latina.

Logo que assumiu o mandato em janeiro, Donald Trump começou a criar seus inimigos imaginários, como os palestinos na Faixa de Gaza (que para ele deveriam ser dizimados, e colocar no lugar um resort) e cartéis estrangeiros de drogas. Na Guerra às Drogas, decidiu classificar grupos narcotraficantes de terroristas. Por enquanto, a medida atingiu organizações criminosas (mas não terroristas, de forma alguma) de três países: México, Venezuela e El Salvador.

“Por razões diferentes, no caso de El Salvador é para fortalecer o governo do aliado dele, que é o Bukele (de extrema direita). Para dizer: ‘Ó, o Bukele tá fazendo o que tem que fazer mesmo’”, comenta Thiago Rodrigues. Em todos os casos, quer que latino-americanos sejam (ou continuem a ser) reféns dos mandos e desmandos vindos do Norte Global.

No mundo acadêmico, explica-se a manobra pela teoria da securitização. Essa tese explica como governantes criam inimigos externos, decretados como perigos existenciais à nação, usualmente de forma ilusório e falsa, para justificar ações atrozes: de invadir Gaza a bombardear civis em um barco no meio do mar. 

No campo jurídico dentro dos EUA, mesmo que em manobra não válida para organizações internacionais, ao classificar grupos narcos como terroristas (mesmo que um nada tenha a ver com o outro), Trump procura ter liberdade de combatê-los por meio do exército, e não com polícias federais e internacionais. Explicou o advogado Erik Torquato, aquela da fala na Head Grow que despertou ainda mais assombro diante do que está ocorrendo, em conversa com a Breeza:

“Pelo ponto de vista jurídico, quando se rotula como grupo terrorista, abrem-se portas para operações militares e sanções internacionais. É um atalho muito perigoso, pois transforma um problema social e de saúde pública em uma questão de guerra internacional. E a associação (de traficantes com terrorismo) é uma deformação jurídica muito grande, pois o terror se caracteriza por questão ideológica, fundamentalista, de cunho religioso, o que não tem nada a ver com narcotráfico, que é puramente econômico”.

O historiador Henrique Carneiro, professor da USP e autor de livros como “Drogas: a História do Proibicionismo”, vê os interesses econômicos, além dos geopolíticos e das perseguições a povos racializados, como centrais a esse jogo imperialista e neofascista de Trump. “O tráfico de drogas é um ramo econômico importantíssimo, agroindustrial, que corresponde a uma enorme parcela do PIB de muitos países”, diz ele.

Segundo observa, a criminalização das drogas que vêm do Sul procura sufocar economias locais. Não por acaso a maconha passou a ser legalizada nos EUA quando se tornou um produto que dentro da lei daria mais lucros aos próprios estadunidenses. Antes, quando seria de maior interesse financeiros de latino-americanos, o que valia era a ilegalidade. 

“A regulação que existe, sobretudo nos EUA, o maior país consumidor do mundo, inclusive de drogas, é para garantir maiores vantagens econômicas e, portanto, retirar os lucros de cartéis mexicanos, colombianos, ou seja, em função de beneficiar os cartéis dos EUA”, comenta Carneiro. No território deles estão, aliás, aqueles que mais lucram com a venda de drogas, no topo da cadeia. “Escondem o fato de que o sistema financeiro dos EUA e os grandes grupos econômicos vinculados a esses negócios são os que mais arrecadam com a maior parte do dinheiro desses mercados ilícitos”, acrescenta o historiador.

Para se justificar pela pressão militar que faz nas águas caribenhas, Trump afirmou que Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, seria líder de um cartel de drogas que agora os EUA vê como terrorista, o Cartel dos Sóis, e assim também colocou uma recompensa de 50 milhões de dólares por sua captura, a maior já oferecida pelo governo estadunidense pela cabeça de um cidadão estrangeiro. Acontece que…

“Um colega venezuelano, que é de oposição a Maduro, me disse literalmente: ‘Olha, isso não existe, foi uma invenção dos caras que estão em Miami conspirando contra o regime, e e é óbvio que isso é muito apetitoso pros Estados Unidos porque criminaliza o Estado inteiro, né?”, afirma o pesquisador Thiago Rodrigues, especialista no tema.

Ou seja, o presidente dos EUA parece ter inventado uma organização terrorista como forma de pressionar um país latino-americano e incentivar a captura de seu governante. Não para aí. 

No último dia 3, neste mês de setembro, os militares dos EUA em águas caribenhas atacaram um barco venezuelano com onze pessoas nele, matando todas elas. Justificativa: seriam “narcoterroristas”. Dentro da linha trumpista do que seriam terroristas, apenas ele e outros dos seus extremistas conseguem ver onze criminosos numa canoa (que são uma questão da segurança nacional e de polícias locais) como terroristas. Na prática, o que o governo dos EUA parece ter feito, então, foi assassinar onze civis no meio das águas caribenhas.

“O que justifica essa execução sumária? Como se ele (Trump e os EUA) tivesse direito de julgar, condenar e executar com sentença de morte quem for, onde for”, protesta, com razão, Erik Torquato.

O Brasil pode ser o próximo?

Será que mísseis americanos vão cair nas nossas águas, ou no meio de uma comunidade do Rio, com a desculpa de combate ao PCC ou ao Comando Vermelho?

“É uma estratégia deliberada de intervencionismo, com o aumento da verticalização e do autoritarismo do poder imperial dos EUA, que cada vez mais abdica de organismos internacionais”, avalia o historiador Henrique Carneiro, da USP. “Há risco do PCC ser classificado (por Trump) como terrorista e isso servir de pretexto para esse tipo de intervenção”.

Seu colega Thiago Rodrigues, da UFF, vê como pouco provável que Trump vá além dos latidos com o Brasil: “É um cara que fala alto, grita, gesticula, é histérico, é histriônico, mas ele não tem assustado muito não, né?”. Será? Opina mais: “Os países importantes da região, como o Brasil e o México, têm resistido bem às pressões dos Estados Unidos, então me parece que esse deslocamento (dos militares estadunidenses para o Caribe) até tem um certo grau de desespero, assim, simbólico, do Trump”.

Porém, pela total imprevisibilidade do presidente dos EUA, que lembra a volatilidade dos ditadores europeus da década de 1930, Rodrigues também não descarta manobras radicais, inclusive as militares.

Como Brasil e como povo e cidadãos, há duas posições clássicas de países latino-americanos diante das grandes potências: ser entreguista ou autonomista. Os primeiros preferem, como o termo denuncia, se entregar ao império e seguir mandos e demandas, por mais que eles sejam, por exemplo, de cunho neofacista. Já os autonomistas privilegiam a autonomia da nação, como militar, econômica, política e jurídica. 

Você tá mais pra entreguista ou autonomista?

Vai erguer a bandeira dos EUA ou a do Brasil?

Estamos diante de questões que podem nos definir como nação e nessa História toda.