Na Breeza

A influência canábica compensa?

Por Anita Krepp

“Eu estava em um período sem nenhum patrocínio fechado quando recebi a proposta deles, já tinha visto a marca em perfis grandes e minha autoestima voltou. Foi assim que começou esse filme de terror na minha vida”, relembra Rhaynara Didoff, uma das três influenciadoras acusadas na Operação Refil Verde, que investigava a venda e a divulgação de vapes de maconha, em abril de 2024.

Highnara – trocadilho do nome com o qual ela ficou conhecida nas redes – não chegou sequer a receber dinheiro pela parceria com a marca, que ofereceu “recebidos” em troca da divulgação que acabou levando-a à prisão por cinco meses, até outubro de 2024.

Há poucos dias, Highnara recebeu a notícia da condenação em 1ª instância pela acusação de organização criminosa, com pena de cinco anos em regime semi-aberto e mais 60 dias de multa. Os advogados dela, no entanto, dizem que tem muita água para passar debaixo dessa ponte, e que ainda podem recorrer a outras instâncias para provar a inocência de sua cliente, que recebeu a menor pena entre os nove indiciados e condenados.

A juíza entendeu que as acusações de tráfico de drogas e apologia não faziam sentido para Highnara, mas, no entanto, manteve a acusação de organização criminosa. “Por causa da quantidade de pessoas que me seguem e do profissionalismo da minha parte, mas isso não condiz com organização criminosa. Estamos confiantes de que vamos conseguir apelar e ser aceitos, estou com minha consciência tranquila, durmo em paz.”

Coisa de filme

Parecia coisa de filme. “Uma semana eu tava comemorando a minha participação num programa da Rede Globo e, na outra, recebendo aquele meme do ‘Toc toc, quem bate? É a polícia federal’. Nunca imaginava que isso ia acontecer na minha vida”, reflete. “Foi muito ruim imaginar que uma semana eu tava realizando um sonho de conseguir estar na telinha fazendo uma graça e, na outra, estar na telinha de uma maneira totalmente errada e negativa, que não condiz com a minha pessoa e com o meu posicionamento na vida.”

Quando a polícia chegou à casa de Rhaynara, ela, sem entender nada do que estava acontecendo, pensou que tinha a ver com o uso medicinal da erva que ela faz para tratar de uma artrite reumatóide e dermatite atópica, de raiz ansiosa. Foi, então, explicando que era paciente, tinha receita, autorização da Anvisa e tudo mais aos policiais, que eles se compadeceram e tiraram o celular do bolso para mostrar a ela a reportagem que, segundo os policiais, havia sido publicada pelo jornal Metrópoles antes mesmo que a operação começasse. 

“Eu fui descobrir o que estava acontecendo porque um policial me mostrou no telefone dele. Foi muito difícil ver as matérias com um tanto de armas, drogas e dinheiro, citando meu nome, sendo que não tinha nada a ver, não foi encontrado nada comigo, nem uma caneta, nenhum vape, nenhuma ponta. Nem uma miserável duma ponta foi encontrada comigo”. Revolta-se ela, que pretende contar a sua versão da história num documentário. “Foi uma vivência que me deu muita história para contar.”

Durante os cinco meses em que amargou prisão preventiva, Highnara só pensava no sofrimento de sua família e principalmente da mãe, que considera sua melhor amiga. O tempo em que passou privada de liberdade modificou profundamente o jeito com que ela vê e se relaciona com o mundo. “Pensei muito na grande mentira que é a rede social e que a vida pode ser uma grande ilusão. Eu fui ingênua, muito leiga, devia ter estudado mais e não achar que porque tava escrito óleo e vaporização que tava tudo certo”, conta ela, alertando outros influenciadores para que sejam mais criteriosos do que ela foi na hora de fechar parcerias. 

A reconstrução depois do tornado

“Mesmo que a marca tenha outros influenciadores, não dá para confiar. Vivemos em um mundo proibicionista, cheio de preconceitos, onde muita gente resiste a normalizar a cannabis”, relata a influenciadora, que retornou às redes nesta semana após um ano e meio afastada do Instagram por orientação judicial. A volta, porém, vem acompanhada de uma decisão definitiva: ela não publicará mais nada sobre o universo canábico. Highnara anuncia assim o fim da sua trajetória como influenciadora da cannabis, um caminho que, como experimentou na própria pele, para ela não vale a pena seguir.

“Tenho muito a agradecer ao universo canábico, ao que ele me trouxe e ao que eu vivi nele. Foi muito legal, mas nem só de ganja vive o homem. Agora peço um pouco de paz e respeito no nosso término”, brinca ela, que tenta lidar com humor com o trauma que ficou. Justo antes dessa bomba estourar na sua vida, a criadora de conteúdo já vinha pensando em sair da cena pela mesma precariedade que outros influencers denunciam como sendo a base da maioria das relações de parceria com as marcas canábicas. “Conversando com outras amigas da área, eu já havia reparado que o conteúdo canábico não ia pra frente, porque, no fim das contas, não estávamos ganhando reconhecimento como artistas que somos”, desabafa.

Além do mais, Highnara, que é profissional formada em marketing, dava de cara com muitas barreiras nas tentativas de conseguir o tão almejado emprego fixo na sua área. “As pessoas não me contratavam porque quando entravam no meu perfil, viam a ganja e desistiam”, conta ela, que diz ter perdido tudo, mas ao mesmo tempo ter podido se reconstruir graças à oportunidade que recebeu da empresa ByStartup, que mesmo sabendo do ocorrido, decidiu contratá-la como head de marketing.

“Estou muito feliz, essa recolocação profissional me trouxe uma força enorme para não desistir”, conta ela, que agora trabalha com carteira assinada enquanto redireciona sua produção de conteúdo digital para a música e o humor — pilares que sempre marcaram sua trajetória online e magnetizam seus seguidores.