Por Anita Krepp

Raísa Cetra foi a única outsider a participar da reunião convocada pela deputada Erika Hilton, na semana passada, contra a censura da Meta após a derrubada de quase 50 perfis no Instagram ligados à legalização da cannabis, à redução de danos e à crítica ao proibicionismo. Para Raísa, diretora executiva da Artigo 19 no Brasil e na América do Sul, a censura histórica de vozes incômodas no país estava ganhando uma nova versão, mediada por algoritmos e pela opacidade das big techs. Já não são os generais da ditadura, mas os executivos de tecnologia, embalados pela lógica de mercado e pressionados por alinhamentos políticos, que tentam abafar o campo antiproibicionista.
A história de Raísa com esse tema começa muito antes, ainda na adolescência. Educada em escola católica, recebeu as mensagens que boa parte da juventude brasileira ouviu nos anos 1990 e 2000 sobre que “a maconha é porta de entrada” e que “as drogas destroem famílias”. Foram aulas escuras, vídeos de terror moral e narrativas simplistas que fizeram de Raísa uma adolescente conservadora, assustada, permeada por medos. “Falar sobre prevenção do vício é uma conversa importante, mas a forma como se aborda isso com a juventude, por uma lógica maniqueísta e pouco baseada em evidências, transforma uma conversa social muito necessária em um grande tabu permeado por medos.”
O ponto de virada começou dentro de casa. Seu pai, professor de biologia e consumidor de artigos científicos, resistia à lógica do terror moral e sutilmente lhe oferecia informações baseadas em evidências. Ele cutucava, mostrava pesquisas sobre os danos do álcool e do cigarro, estudos sobre o viés medicinal da cannabis e outros dados que colocavam em xeque o discurso hegemônico da escola. Raísa resistia, mas as provocações de seu pai deixaram rachaduras na parede das suas certezas absolutas.
O tabu ficou ainda mais evidente quando a família enfrentou de perto problemas com o abuso de drogas. O silêncio era ensurdecedor, e o diálogo, quase impossível. Foi uma tia, engajada na pauta da redução de danos, quem abriu para Raísa a possibilidade de enxergar e lidar de outra forma com a situação de alguém muito próximo. Ela entendeu que o debate não precisava ser sobre medo, mas sobre cuidado, informação e estratégias para proteger quem mais sofre. Foi nesse momento que o tema deixou de ser apenas abstrato.
Cura proibicionista
Na faculdade, o incômodo se transformou em vocação. Raísa lembra que estava no bar com os colegas de curso quando pipocaram as notícias da ocupação militar no Complexo do Alemão, e ela finalmente se deu conta da dimensão política e social do tema. “Meu olho encheu de lágrima, tivemos uma discussão no bar sobre isso, olhei pra todo mundo e disse: vou estudar pra entender por que acho isso tão ruim e encontrar razões para estrategicamente lutar contra a violência nos territórios periféricos”, disse, firmando um compromisso, principalmente, consigo.
A partir dali, mergulhou no campo dos direitos humanos. A violência estatal, os impactos da guerra às drogas nos territórios periféricos e a criminalização seletiva passaram a ser seu motor. Chegou a Artigo 19 – ONG internacional que trabalha para defender liberdade de expressão e o acesso à informação – com a convicção de que essas premissas não poderiam ser um luxo de elite, mas uma ferramenta vital para quem foi historicamente silenciado.
O problema não é novo. Há décadas, são poucas as famílias que controlam a circulação de ideias no Brasil. O que mudou foi a escala. Com as redes sociais, a promessa de democratização deu lugar a um mercado ainda mais concentrado, monopolizado por poucas plataformas globais. Facebook, Google, X, Instagram, TikTok – a lista é curta e o poder é imenso. “A concentração da comunicação nunca foi tão brutal”, alerta.
Quando Raísa fala em regulação, não se limita à moderação de conteúdo, a face mais visível, mas também a mais perigosa se feita isoladamente. Ela defende um tripé: a regulação de serviços, que assegure transparência nos algoritmos, prestação de contas ao Estado e clareza nos critérios de decisão; a regulação econômica, voltada a quebrar monopólios, abrir espaço para midtechs e diversificar o ecossistema; e, por fim, a moderação de conteúdo, necessária, mas insuficiente sem as duas anteriores, pois sem salvaguardas pode se converter em atalho para censura e silenciamento seletivo.
Raísa teme que o Brasil esteja indo direto para a terceira via, incentivado por decisões do STF sobre o novo marco civil da internet, que responsabilizam plataformas pela permanência de conteúdos ilegais. O risco, diz ela, é dar ainda mais poder de decisão às big techs, alinhadas estrategicamente com agendas conservadoras e de extrema direita. “Nossa grande hipótese é que a recente decisão do Supremo vai afetar de maneira desproporcional grupos que lutam pela ampliação de direitos como aborto, expressões periféricas, pela legalização e pelo fim da guerra às drogas.”
Luta coletiva mas também individual
Foi com esse olhar que Raísa chegou à reunião proposta por Erika Hilton. A queda coletiva dos perfis sobre cannabis não parecia erro de algoritmo, mas uma ação orquestrada, alinhada à lógica da guerra às drogas e às pressões políticas do momento, por isso é preciso conectar esse episódio às lacunas regulatórias, ao risco de que novas regras fortaleçam ainda mais a censura.
Na sua visão, recuperar a agenda da liberdade é urgente, e isso só se faz estando ao lado de quem mais sofre censura: movimentos pelo aborto legal, expressões culturais periféricas e coletivos antiproibicionistas, normalmente vistos como pautas marginais, mas que são, na verdade, a essência da democracia.
O arco narrativo fica completo quando Raísa conecta sua história pessoal à luta coletiva. Da adolescente conservadora que acreditava no terror moral das drogas à executiva que lidera uma organização internacional de direitos humanos, há um fio coerente de superação do medo pelo acesso à informação.
“Na adolescência, eu tinha uma visão bastante conservadora em relação às drogas. Estar hoje nesse lugar representa, para mim, não apenas um avanço coletivo, mas também uma conquista pessoal ao superar as informações distorcidas que circulam na sociedade, o moralismo e o tabu em torno do tema. Foi, sim, uma luta coletiva, mas também uma jornada individual de desconstrução desse raciocínio conservador que ainda impera sobre as drogas.”
Hoje, a missão de Raísa é garantir que a sociedade possa acessar informação baseada em evidência e falar desses temas sem tabu para que possamos ter um debate público qualificado. Um debate que não ignore a prevenção, mas também não se limite a ela, que aborde liberdade e autonomia, mas sem deixar de discutir criminalização e violência estatal e que traga à luz todas as camadas dessa grande questão social.
A pergunta que move Raísa é simples e complexa ao mesmo tempo: qual democracia queremos construir? Uma democracia que salva apenas as instituições formais ou uma que assegura voz para quem nunca teve vez? Ao conectar as quedas de perfis de cannabis às batalhas por aborto legal, cultura periférica e liberdade de protesto, Raísa nos lembra que a luta pela expressão é, no fundo, a luta pela própria democracia.