Saindo da estufa

Matheus Nachtergaele: “As drogas são um dos caminhos que o ser humano usa para acessar graus de consciência”

Matheus Nachtergaele nos recebeu com a doçura de quem conhece os próprios silêncios e as palavras que valem ser ditas. Nessa conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, o ator, que atravessa o imaginário brasileiro há décadas com personagens inesquecíveis, fala sobre drogas com a mesma profundidade com que discute a função social do artista. Maconha? “Um pega me derruba por horas”. LSD e cogumelos? “Vislumbres do todo, quase religiosos”. Cocaína? “Ilusão podre de poder”. E o MD, que ele experimentou numa noite mágica sob uma mangueira, virou símbolo de afeto coletivo. 

O artista mergulha na contradição de quem já navegou entre expansões de consciência e os abismos do vício. Abandonou o álcool, mas segue fumando tabaco, o seu “pequeno suicídio”, e usa outras drogas sempre em doses mínimas, em festas, e com um pé na realidade. “O uso contínuo quase inviabiliza sua participação no mundo”, reflete. E o mundo, para ele, é um lugar de violência e beleza.

No centro dessa dança, está o teatro — seu antídoto e sua redenção. “É onde a catarse coletiva acontece sem drogas”, diz, defendendo a arte como “redução de danos” para a alma. Nachtergaele fala do ofício com reverência quase mística: atores como “cordeiros que tiram os pecados do mundo”, oferecendo ao público alívio e verdade. Seja no carnaval, num palco ou num momento raro de silêncio, sua busca é sempre a mesma: “entender a dança total” — com ou sem químicos.

A gente tá conversando em pleno feriado, que é quando você finalmente para em casa. Então, como é que você curte um bom feriado?

Acredito que eu e um monte de artistas nunca paramos de verdade, e no feriado é até ao contrário, ele é uma hora de você trabalhar por dentro, de você farejar, pressentir, lembrar, refletir um pouco, ficar quieto. É claro que com esse novo mundo da tecnologia você tem cada vez menos tempo de reflexão. O Paul Preciado chama de a era pornô-tecno-farmacêutica. Todo mundo medicado, viciado na internet, de alguma forma, e acredito que a menção pornô não significa exatamente a pornografia consumida em cada celular ou em cada site pornográfico, mas a transformação do afeto em um afeto sublimado. Acho que é isso que o Paul Preciado chama de pornô, da era pornô-farmacotecnológica. Então, o tempo de ócio, o feriado, meio que não existe mais. Assim como nas antigas dominações, nós trocamos nossa vida pelos espelhinhos. O nosso espelhinho é a rede social. A gente trocou a nossa vida, o nosso tempo, pelos espelhinhos. E fomos enganados lentamente, mas de forma abrupta. Logo no começo, não sei se você lembra, a promessa era de que nós ganharíamos muito tempo, tudo seria resolvido no celular, primeiro no computador, depois no celular e a gente ganharia tempo para estar com os amigos, estar com a família e etc. Eu acho que é o contrário, né? Você tem uma demanda constante, tem esse afeto pornográfico, você se comunica de maneira sublimada com muitas pessoas, finge que está dando mais atenção aos mais amados, e os encontros são mínimos. E também os silêncios são mínimos. Mesmo pessoas antigas que eu conheço, pessoas com idade avançada, estão presas no novo espelhinho. Na minha profissão, está o espelhinho que reflete uma imagem que você meio que decide qual é, e que está colocada em risco todo o tempo, porque rapidamente cancela-se alguém. Um ato falho e você pode ir para o beleléu, e olha, tudo isso, na verdade, é mentira. Mas nós estamos nessa crença. Então eu procuro ficar quietinho no feriado. Eu quase não tenho tido feriados, porque eu estou trabalhando em uma empresa, segunda novela consecutiva, então estou levando a vida de CLT há um bom tempo, trabalhando, trabalhando, trabalhando. Então eu estou com uma vida regradinha pelo sistema. Mas nos poucos feriados eu tento sair das redes, na medida do possível. Eu volto para elas, às vezes, meio obcecado, como se eu tivesse perdido alguma coisa. Mas tentando te responder, eu procuro ficar mais em silêncio, pensar. Eu gosto muito de ficar quieto pensando, fico em casa bastante, curtindo minhas plantas, meus cachorros, eventualmente abrindo o zap com pessoas que eu amo para bater um papo, com as poucas pessoas com quem eu converso muito, profundamente. Então é esse o meu feriado hoje em dia. De qualquer maneira, também é uma oportunidade para trabalhar de verdade, para se inspirar, para ter ideias de coisas que se quer fazer e tal. Acho que o artista trabalha incessantemente. Na hora do trabalho físico, é quando ele menos está trabalhando. É quando ele está apresentando. Hoje em dia dizem entregando, quando ele está entregando algum resultado. O que vai contra, na verdade, toda a filosofia bonita do que seja a liberdade de um artista. Então nós, artistas, estamos num mundo que funciona meio que na nossa contramão. A gente é obrigado a participar dele, e patrocina ele fortemente. Então a gente é levado a procurar likes, seguidores, e corroborar com um mundo do qual, na real, a gente discorda, se a gente tiver lúcido como artista.

É interessante você falar isso porque eu sempre te vi como um cara muito autêntico. Sem muita paciência para bobagem, e eu fico pensando se essas características fizeram da sua vida profissional mais difícil em algum sentido.

Eu não sei. Tenho a sensação de que as minhas antenas eram muito afiadas para o que era para ser feito no mundo, durante muito tempo. Aí esse mundo digital, esse mundo pornô-fármaco digital me quebrou um pouco as antenas. Eu tenho agido um pouco diferentemente do que eu gostaria, em geral. Falando mais do que eu gostaria. Dando mais atenção à bobagem do que eu gostaria, quase que à força. Mas sim, não é bem uma seriedade sombria, mas é uma busca de um sentido para a minha expressão. Eu gostaria de não ficar me expressando à toa, causando mais barulho do que o mundo já está. E procuro confiar no resultado das interpretações dos personagens no teatro, no cinema e na TV. Procuro confiar que o resultado das interpretações diga mais do que eu possa dizer em posts ou em entrevistas constantes. Agora, eu continuo achando que o ofício de ator tem uma função social. Acho que isso não é substituível. Continuo com alegria achando que é das últimas profissões analógicas e isso eu admiro demais na nossa gente de teatro.

“Aí esse mundo digital, esse mundo pornô-fármaco digital me quebrou um pouco as antenas. Eu tenho agido um pouco diferentemente do que eu gostaria (…) gostaria de não ficar me expressando à toa, causando mais barulho do que o mundo já está”

Tenho a sensação que com essa nova era digital, o mundo perdeu a importância. Não sei o que veio antes, o ovo ou a galinha. Não sei se as tecnologias estão nos preparando para uma espécie de apocalipse do mundo natural ou se já é o resultado do fim do mundo (risos). De qualquer maneira, cada vez mais, eu tenho uma admiração um pouco melancólica, um pouco nostálgica, mas muito profunda, de quem tem uma atividade humana fora das tecnologias digitais. Eu tenho amado quem gosta do seu ofício de verdade, quem sabe cultivar uma hortaliça, quem sabe fazer, em um pequeno ateliê, uma linda tapeçaria, quem sabe tirar moldes para fazer uma roupa e costurar uma peça única. Meu avô era alfaiate, também tapeceiro, e também marceneiro, meu avô belga. Eu estou amando cada vez mais as memórias que tenho, por exemplo, do ateliê do meu avô, da quantidade de coisas úteis que ele tinha e que não são coisas do falso valor da imagem, mas coisas concretas que eram utilizadas para fazer coisas bonitas que se usavam.

Você não sente que a gente está voltando para esse momento? Porque eu, particularmente, tenho visto esse retorno de uma certa juventude que vai lá querer mexer com madeira, que vai lá querer mexer com a terra.

Eu sinto, sim. Eu não sou totalmente pessimista, sou mais realista. Eu sinto esse retorno, mas eu sinto maior a onda da bobagem digital do que o retorno. E espero que – e você tem a razão – que tenham jovens que mantenham vivas as tradições do analógico, das manufaturas, daquilo que é artesanal. Espero que uma parte da gente mantenha esse conhecimento. Ele está em alguns livros, mas ele está principalmente no saber. Então, eu espero que isso esteja sendo transmitido. Na minha profissão, se é que é uma profissão específica, existe um saber que é muito pouco transmitido. O que eu sinto é que são raros os exemplos na nova geração que desejam realmente esse saber. Quando você entrevista um ator hoje em dia, é muito raro que você se debruce sobre o que é o trabalho dele de verdade. Pouco se sabe sobre isso. Sabe-se sobre a fama ou o sucesso de um trabalho ou outro, mas da marcenaria do cara, do ateliê do cara, fala-se pouquíssimo. Até porque, como é uma arte que acontece no corpo durante uma ação viva, é como se não houvesse um ateliê ou uma cozinha, mas há. Estou gostando desse papo. Acho que, com essa nova era, e aí volta a história do ovo e a galinha, o mundo natural, o mundo das coisas, para quem quiser o mundo dos deuses ou de Deus, essa coisa em que estamos, essa dança em que estamos, é menos importante, ela é vista em frestas. Uma viagem cheia de selfies até uma cachoeira, que serve mais para postar e menos para viver. E eu sou da observação. E também todo personagem meu é o resultado de uma observação do mundo dos homens, mas naquilo que ele tem de natural, das pulsões. Porque o ser humano, apesar de gostar de acreditar que está separado da natureza ou de que foi expulso de um paraíso qualquer, ele está preso a essa dança. Ele é oriundo dessa dança e dança conforme a música.

“Na novela, e principalmente a novela das oito, você entra em contato profundo com o teu país diariamente, dentro da casa das pessoas”

Os personagens sempre são uma oportunidade para você averiguar algumas dessas pulsões. Às vezes de maneira elogiosa, às vezes de maneira crítica. Em geral, o ideal é que sejam as duas coisas. Que você possa fazer um personagem não moralizando, mas mostrando as belezas e os horrores desse personagem. Claro que isso pode acontecer em qualquer lugar, inclusive em uma novela de televisão que foi considerada ou é considerada por muitos uma esfera menor do trabalho dos atores. Há um preconceito e, ao mesmo tempo, um desejo louco de estar na novela em todos os atores. O preconceito vem porque, como a coisa acontece num ritmo industrial, você precisa estar muito concentrado para fazer nascer uma flor em cada cena. É preciso que você abra a mão de muita bobagem para conseguir fazer bem uma novela de verdade. Por outro lado, é quando você realmente se comunica com as pessoas no Brasil. É claro que agora as coisas estão se espraiando, estão aí as virtudes do mundo tecnológico, muitos streamings, muitas vias para se apresentar um trabalho, a novela não tem mais o alcance que tinha. Mas no Brasil, que é uma terra primitiva, que é uma espécie de curral, ainda é o lugar onde as pessoas assistem o trabalho dos atores e acompanham uma dramaturgia. Então eu faço novela envolvido, envolvido mesmo. 

Por que você ficou dez anos fora das novelas?

Durante dez anos eu fiquei mais focadão mesmo em fazer teatro. Eu voltei para o teatro com força, depois de uma ausência grande durante a retomada do cinema. Eu coloquei muito a minha energia na retomada do cinema brasileiro, e num certo momento eu voltei para o teatro e não tirei mais os pés. Sempre muito cinema, mas também fazendo televisão. Agora na novela, e principalmente a novela das oito, você entra em contato profundo com o teu país diariamente, dentro da casa das pessoas. Eu voltei e voltei com tudo, enfiei o pé na jaca de novo. 

Voltando à cozinha do ator, o que mais te marcou durante a pesquisa que você fez para interpretar um traficante, o Cenoura, em Cidade de Deus?

Na época de Cidade de Deus eu estava recém morando no Rio de Janeiro, estava muito encantado por essa cidade que é tão representativa do que o Brasil é, e que de uma certa maneira é tão drasticamente diferente de São Paulo, onde nasci. Principalmente essa convivência tão próxima das pessoas, entre as classes sociais, e da presença tão forte do tráfico de drogas no cotidiano da cidade. O Rio de Janeiro é interessantíssimo, porque é a meca do turismo exploratório, isso é um orgulho de uma certa maneira para nós aqui. Mas também são características vibrantes do Brasil, todas colocadas num só lugar. O horror da organização das cidades, a cidade é altamente abandonada no sentido técnico e político. Ela é um caos, e há um convívio quase promíscuo das classes sociais todas. E da mentalidade mais avançada com a mentalidade mais conservadora, tudo isso com muita malandragem. Nada é sério. Tudo é para aquele dia. Não existe amanhã no Rio de Janeiro. Nenhuma construção é sólida no Rio de Janeiro. Tudo está por cair. Então eu estava muito fascinado com essa minha chegada no Rio. Foi incrível. E Fernando Meirelles me procurou. Eu ia fazer o Zé Pequeno, mas tinha feito o Auto da Compadecida, e ele não podia mais me colocar como o Zé Pequeno, porque ele queria fazer um filme todo feito com pessoas das comunidades. Mas, assim, quase ele estava me chamando, porque tinha me convidado já (risos). E eu agarrei a oportunidade e disse “não me tira não, que eu vou sumir no meio da galera”. E fiz isso. Foi bem importante para mim. Sumi. Ele quis me dar um roteiro, mas ele falou ‘mas a galera não lê o roteiro’. E eu falei então não me dá o roteiro, também não quero ler roteiro, eu vou com eles. Então não tive camarim próprio, não tive transporte próprio. Fui para os ensaios com a Fátima Toledo, fiquei com eles, fiquei no Rio de Janeiro, fiquei na Cidade de Deus, com eles, filmando ou não filmando. Foi um conhecimento da cidade em que eu moro, por dentro, de modo profundo. Então eu nem considero o Sandro Cenoura o resultado de uma construção de ator clássica. A diferença é que todos eles estavam vivendo aquilo, e eu não. Eu estava tendo que fingir que não estava interpretando. Eu tinha que construir para desconstruir. Foi muito forte, um dos melhores filmes que eu fiz. 

“Se você quiser a recreação com drogas, que os homens ainda não aprovaram por lei, você vai ter que burlar algumas regras e, portanto, você vai de uma certa maneira patrocinar algum grau de violência. E aí é melhor você se afastar”

Mas foi o seu primeiro contato com a traficância?

Como pessoa, eu tinha contato com a traficância no meu uso recreativo de drogas lá na juventude. Mas de maneira muito inconsciente, leviana. Quando eu fui para o Cidade de Deus é que eu fui tentar me interar da real disso tudo, da violência real que isso causa. Eu senti, percebi o que era, de verdade. É um bang bang. Mas também é uma acusação. É uma acusação das violências. E a consciência do que envolve esse mundo te afasta um pouco das drogas. Quando você entende a violência que está envolvida ainda nessa coisa toda você se afasta, você se retrai.

Mas aí como é que faz? Porque as drogas acompanham o ser humano desde que o mundo é mundo. E aí tem a proibição dos homens e obviamente que tem esse impacto da violência. Mas como é que a pessoa, a usuária faz para se livrar dessa carga?

Ela teria que burlar algumas normas, ainda, infelizmente. Se você quiser a recreação com drogas, que os homens ainda não aprovaram por lei, você vai ter que burlar algumas regras e, portanto, você vai de uma certa maneira patrocinar algum grau de violência. E aí é melhor você se afastar. É melhor você se afastar e torcer para que haja consciência do que realmente faz mal e do que é mais importante. É mais importante um consumo mais regulado e com produtores comprometidos e que pagam impostos, ou você se divertir? Porque você pode fazer a tua viagem de ampliar a consciência por muitos caminhos, não só através das drogas. Nesse momento eu não bebo mais álcool, que é uma droga lícita, e que foi a minha droga principal durante muitos anos. Eu até gostaria de ter tido outras drogas como principal fonte de inspiração ou de libertação, mas foi no álcool que eu encontrei o divertimento que depois se tornou horror.

E quando você deixou o álcool você substituiu por alguma outra substância ou por algum hábito?

Não. Eu permaneço fumando cigarros caretas, o que faz muito mal para a saúde. Mas que ainda responde um pouco ao meu, a minha doença da fase oral da minha infância. Eu preciso ficar ou sugando ou mamando, sei lá (risos). Então eu trago cigarro à boca de maneira compulsiva e trabalho. O que eu entendo é que eu não tenho preconceito com drogas, só tenho alguma consciência do quão mal algumas podem fazer quando usadas em excesso ou até mesmo quando usadas sem excesso. Estou incluindo as drogas psicotrópicas da medicina, os antidepressivos, os ansiolíticos, os emagrecedores. Estou incluindo tudo isso aí. É claro que a gente ia chegar nesse ponto nessa conversa nossa. Quando você toma um ácido, você consegue às vezes ter uma percepção do todo, do mundo, muito violenta e muito, muito esclarecedora.

“O que eu entendo é que eu não tenho preconceito com drogas, só tenho alguma consciência do quão mal algumas podem fazer quando usadas em excesso ou até mesmo quando usadas sem excesso. Estou incluindo as drogas psicotrópicas da medicina, os antidepressivos, os ansiolíticos, os emagrecedores”

Hoje em dia existem esses cogumelos secos que as pessoas podem comprar pela internet. Uma dose grande de cogumelo, por exemplo, também pode te fazer ter insights reveladores sobre como funciona o mundo, às vezes, com impressões que se tornam quase religiosas. Ou efetivamente religiosas. Muitas religiões ao longo da história utilizaram drogas para que você tenha revelações, epifanias, entretanto, é também possível num trabalho como o que eu realizo você ter grandes epifanias sem estar usando nenhum tipo de estímulo de substância. Às vezes, num lapso durante a apresentação de um espetáculo ou vendo um desfile de carnaval muito bonito, ou durante uma grande festa na beira do mar, uma festa de Iemanjá, por exemplo, próximo à natureza, você consegue ter esse entendimento do todo e com droga ou sem droga, isso fica em você para sempre. Esses entendimentos, essas aberturas acontecem e depois se fecham de novo. É como se o ser humano não tivesse como suportar esse entendimento o tempo todo. Seria impossível viver o cotidiano, fazer o trabalho que tem que ser realizado para a sobrevivência, suportar a sociedade como ela é. Na verdade, estamos todos participando de uma grande farsa que serve para que o sistema continue funcionando, e é o que temos, então nós vamos participar disso de alguma forma. Inclusive o uso contínuo de drogas me parece que quase que inviabiliza sua participação no mundo como ele é. Que é feio e cheio de defeitos por muitos lados, mas que também é bonito nas suas tentativas de beleza e humanistas. O uso exagerado de qualquer droga impede você de participar plenamente disso. Então, usar drogas hoje em dia ficou muito restrito a momentos de extremo lazer em festas coletivas de maneira bem medida e calma, para poder brincar quando a sociedade está em orgia carnavalesca ou em orgia qualquer, e aí, dou um pega no baseado de alguém, porque eu mesmo não tenho comprado. Ou cogumelinho que alguém comprou na internet e aí brincar um pouco durante um momento, quando as pessoas estão em festa. Mas o uso cotidiano, para mim, é o cigarro, essa merda que eu quero largar e ainda não consegui. O cigarro é meu apoio e é também o meu pequeno suicídio, o suicidiozinho que me sobrou, porque é claro que a gente quer brilhar, a gente quer ser feliz, a gente quer estar bem de saúde, a gente quer ter uma vida agradável. Já que é curta, que seja agradável, mas também tem um lado nosso que quer ajudar na nossa destruição, que é inevitável. Isso é um cacoete bem comum, principalmente em pessoas mais melancólicas ou angustiadas como eu, participar nem que seja um pouco da sua morte, brincar um pouquinho disso também junto com os deuses. Agora, é claro que na idade em que eu estou, com quase 60 anos, estou doido para largar, porque agora o meu corpo está mostrando os sinais irreversíveis do plano divino – e olha que eu estou falando como um ateu – eu prescinto o milagre, mas eu me digo ateu, eu me ajoelho diante de alguns esplendores da natureza e dos mistérios, mas eu não dou nome a Deus e vejo com fascínio, mas também com pena as práticas religiosas, acho fascinante e comovente que as pessoas se reúnam dessa forma.

Eu vou falando com você e vou sentindo você, bem psicodélico, né?

Lembra o Obelix, do Asterix e Obelix? (risos) Ele não podia tomar a poção mágica porque ele tinha caído lá quando ele era criança, talvez eu tenha isso, sim (risos). Já que a gente pode falar sobre isso abertamente nessa revista, se eu dou um pega num baseado eu fico muito louco, muito louco mesmo durante muitas horas. A maconha nunca poderá ser uma droga para mim de uso cotidiano, pra eu se fumar um baseado eu tenho que estar na fazenda, com amigos, porque eu vou ter revelações loucas, é forte para mim, então acho que eu caí na poção mágica mesmo, não posso usar e acho que todas elas são um pouco assim para mim, por isso que eu tive que parar com álcool. Eu abusei, e eu já sou um pouco bêbado, já estou com uma dose de whisky a mais em mim. Desde sempre as impressões do mundo para mim são fortes.

Você chegou a participar de algum ritual de ayahuasca?

Eu tomei ayahuasca fora do ritual na época que eu fui casado com Marcelo Drummond, que era o marido do Zé Celso, do Teatro Oficina. Eu tomei em casa e não dentro do ritual, eu sou contra usar ayahuasca dentro de um ritual que não fosse libertador, eu não gostaria de tomar ayahuasca com alguma ideologia de base me cercando, não gostaria. Então eu tomei em casa, com dose pequena, porque para mim sempre tudo é muito forte. Tive revelações bacanas… Ah, eu acho que as drogas são um dos caminhos que o ser humano usa para acessar coisas, graus de consciência. Nossa consciência, a gente sabe, ela é muito grande, mas ela também é muito pequena perto do todo, mas eu acho que é possível alcançar muitas iluminações também sem estar usando droga. Eu usei de maneira recreativa e também durante o uso de drogas tive revelações como qualquer ser humano de qualquer civilização antes de nós. Muitas coisas foram descobertas com o auxílio de uma substância química.

“Acho que as drogas são um dos caminhos que o ser humano usa para acessar coisas, graus de consciência. Nossa consciência, a gente sabe, ela é muito grande, mas ela também é muito pequena perto do todo”

Tem alguma descoberta que você levou pra vida?

Acho difícil resumir em palavras, esses vislumbres do todo são difíceis de serem reunidos em palavras. O que eu posso dizer é que com auxílio de substâncias e também sem auxílio de substâncias eu tive algumas vezes o sentimento do todo, um vislumbre da dança total e que durou pouco e que eu não consigo reter plenamente. Eu agradeço esses momentos, eles são assustadoramente bonitos. Você se sente realmente uma pequena parte de um grande todo, isso é ensinatório com certeza, agora tem outras drogas que te dão a ilusão de poder e que eu acho podre, uma ilusão narcísica ruim que se parece com o que a gente tem vivido no mundo de hoje, quando cada um com seu espelhinho. Por exemplo, a cocaína só quer a si própria, a minha experiência com cocaína me conta isso, você só quer falar as suas verdades, afirmar aquilo que você sabe, independente dos outros, e que na verdade, você só quer a próxima carreira, você não quer nada mais, e por isso que eu acho ela terrível. Não sei como é que é a experiência com a droga mais pura, mas eu tive essa experiência aqui na cidade, e foi ruim – e olha que eu gostei de brincar disso uma época quando eu bebia… Depois que eu parei de beber eu vou pouquíssimo a festas e principalmente as festas mais aburguesadas. Eu continuo gostando das festas populares, mas as mais aburguesadas, para consumo de álcool e droga, eu não vou mais e as poucas vezes que eu vou eu acho que as pessoas ficam feias quando usam cocaína, assim como acho feias as pessoas extremamente chapadas de maconha, acho que elas ficam bobas, abobadas, e que no excesso da droga elas ficam ausentes. E na cocaína também só que por um outro lado, com a cara branca, mascando, com o maxilar tenso, falando verdades, não ouvindo os outros. Então é isso, tenho achado a droga gostosa numa medida bem pequenininha, na festa coletiva, e como hoje eu não bebo mais, é um pega num baseado ou comer um pouquinho de cogumelo no carnaval. Cogumelo é gostoso para dançar porque daí você vê o ser humano como um grupo em festa, dá uma viajada, mas tem que ser pouquinho para que acabe logo, porque também você não quer ficar naquilo tanto tempo (risos).

Eu te vejo muito um cara MD, e acho que você fica derretido.

Derretimento total (risos). O último MD que eu tomei, olha como faz tempo, foi na festa de encerramento das filmagens do Piedade. A gente estava na praia em Piedade e organizaram uma festa embaixo de uma grande mangueira, uma festa com todo mundo meio descalço, e aí tinha tinha MD na festa. Eu nunca tenho droga, isso é um fato, mesmo nos meus momentos mais loucos eu nunca tive uma droga para chamar de minha. Frustra-se quem vem atrás de mim achando que eu vou ter, não tenho (risos). Tem é que me oferecer e, dependendo, se eu tiver num momento bom eu uso, e nesse dia eu tomei MD embaixo da árvore, foi delicioso, muito dionisíaco. Eu fiquei dançando, amando muito as pessoas, com muita muita vontade de amar cada uma delas, percebendo claramente o quanto cada um era amável no sentido pleno, amável de namorar, amável de ser amigo, amável de beijar, e também embaixo daquela árvore, com aquele chão de terra de verdade, aquilo tudo foi uma noite inesquecível para mim, foi bem gostoso e muita água, né? Tem que tomar muita água para depois não ficar triste no dia seguinte.

Você tem alguma técnica de redução de danos além da água?

Minha arte. Teatro é redução de danos para mim, para quem faz teatro, e para quem vai ao teatro. É a última religião livre, o último encontro coletivo do livre pensamento que se parece com a prece e não deixa de ser prece, mas é com inteligência crítica, e ao mesmo tempo, todo mundo faz um pacto para acreditar numa história com sentido de descoberta, tem catarse coletiva, no caso do ator mexe o corpo, amplia os movimentos, a respiração, você usa o diafragma, você dança. Teatro é pura dança que envolve palavras e texto, mas é dança, então a minha redução de danos sempre é o teatro.

Eu ouvi dizer que você é antifamília, me explica esse conceito?

Isso aí foi uma coisa que eu falei e acabou saindo separada do contexto, ela virou uma coisa que não é exatamente o que eu queria dizer, que a família tradicional, papai mamãe e filhinhos, de maneira produtiva e consumidora, não é o que me comove. Já foi o meu porto seguro na minha infância, mas logo depois da minha adolescência já não foi. Minha família não é funcional, os meus avós belgas eram muito funcionais e foi muito agradável estar com eles em família, é meu paraíso perdido a casa dos avós belgas, mas a minha família como um todo não é nada funcional, nunca foi, então a minha família foram os amigos que eu fui fazendo principalmente quando eu cheguei no teatro, é nesse contexto que eu falei antifamília, mas eu acredito muito na necessidade de vínculos, de afeto, de confiança, e de colaboração, só que eu acho que eles não necessariamente estão na família e nos tempos de agora com as famílias sendo tão diferentes umas das outras, o conceito de família antigo é que me parece morto. Eu adoro, por exemplo, estar com meus irmãos, são todos meio irmãos do segundo casamento do meu pai (a mãe de Matheus se suicidou quando ele tinha três meses) e apesar da desfuncionalidade total da nossa família, nós quatro nos amamos muito e colaboramos muito e a gente fica muito bem juntos como amigos. A gente reconhece nosso passado, a gente divide alguns traumas e só a gente sabe as nossas alegrias. É muito agradável estar com eles, que não são caretas. Cada um tem uma profissão diferente, então os conhecimentos se completam e na verdade eu tenho um lado de vínculo familiar forte principalmente com meus três irmãos, a gente se comove quando a gente se vê, a gente se gosta de verdade. Eu não gosto de família que pisa no rabo um do outro, que depende financeiramente um do outro, que atrapalha a vida do outro, que sabe o cotidiano do outro de maneira crítica, isso me incomoda, eu sou mais livre, mais sozinho, mas eu gosto de voltar para o abraço dos meus irmãos, não da minha família como um todo, principalmente depois do bolsonarismo, quando uma boa parte do que a gente chama de família acabou, né?, quando você percebe que ideologicamente uma boa parte das pessoas com quem você conviveu na sua infância são seus inimigos ou pelo menos são inimigos do que você representa, de como e do que você acredita que possa ser bom para todos nós no mundo.

Tem muita gente que vive essa desfuncionalidade na família e acaba usando as drogas como um escape.

Com certeza. Para não entrar nessa naquela época eu fui para o teatro e me salvei no teatro, isso é um fato, encontrei as minhas pessoas, uma possibilidade do trabalho ser prazer, não ser trabalho. Uma retirada do foco financeiro como principal meta do ofício. O povo de teatro não faz isso por dinheiro e eu acho que confunde-se muito isso. A classe artística dominante acabou muito monetizada, o sucesso monetiza a atividade e o dinheiro não é o foco quando se faz teatro de verdade, mesmo quando dá dinheiro no fim das contas. O teatro me libertou, me deu uma nova família, fui abandonando a parte mais careta do que significa conviver em família, tendo meus amigos que estão até hoje perto de mim de alguma forma, sem grandes cobranças para datas de festejos comerciais, porque a maioria das datas se tornou um festejo comercial, então também me livrei dessa e no fundo, no fundo, eu sou um solitário. Sou um capricorniano solitário muito mais apegado a coisas materiais até do que eu gostaria, mas o teatro me deu o dionisíaco que estava em mim e eu não percebia antes do teatro.

Eu não vejo tanto apego material em você.

É, organizado materialmente, apego de organização, garantia de futuro, isso é muito capricorniano, não quer ficar de calça curta, ele entende como funciona a tal da roda da fortuna e ele não quer ser massacrado por ela, até conseguir uma certa liberdade ele fica muito preocupado, depois ele consegue uma liberdade grande nas suas escolhas porque ele se organizou, então ele não tá mais obrigado a fazer nada.

“Ego dá uma pirada sempre, em vários vários sentidos, para os atores. E eu repito, no mundo de hoje com o espelhinho na mão (o celular), o ego dá várias piradas”

Você é um ator super premiado nacional e internacionalmente e eu fico me perguntando se teve algum momento em que em meio a tantas honrarias o ego deu uma pirada?

Ego dá uma pirada sempre, em vários, vários sentidos, para os atores. E eu repito, no mundo de hoje com o espelhinho na mão (o celular), o ego dá várias piradas. Mas eu passei por isso muito cedo e tive rapidamente a experiência das quedas de popularidade, de aceitação, o sobe e desce da tua imagem diante da comunidade e a real disso. Mas, sim, há um grau grande de narcisismo para alguém se expor até o ofício de ser ator, é uma das patologias que formam os atores. Mas eu fui bem treinado para as sovas que isso acarreta, e tento até hoje manter a clareza. Você quer colocar seus chifres para fora e acima da manada, mas isso só serve de verdade se for bom para manada. Nos momentos em que é bom para a manada, é melhor ficar quietinho, ficar na sua. A real é, se você não tem nada a dizer então não diga, é isso que eu aprendi. Não, não diga o tempo todo, não é preciso dizer o tempo todo, a relevância de um trabalho é mais importante do que a relevância de uma fala sua. A beleza de um filme é mais importante do que a repercussão de uma entrevista sua sobre o filme. Como aconteceu comigo muito depressa o dito sucesso, o reconhecimento pelo meu trabalho, para mim foi violento, rápido, cedo, eu sofri com isso, e acho que o meu abuso de álcool também teve um pouco a ver com isso para um pouco me ajudar a suportar o que o meu ego estava deformando e também para ajudar a suportar a excitação da sociedade com relação a mim, foi cedo que meu ego explodiu para o lado errado e para o lado certo, mas sempre o teatro, de novo, me ensinando. Porque ali é o dia a dia, ali é uma plateia por dia, uma tourada por dia, e se você não for dono do teu ofício de verdade, para isso você tem que estar atento às técnicas, ao sentido do texto, à vocação do projeto, você tem que, com o teu corpo inteiro, o teu conhecimento e o teu carisma, levar a plateia até uma catharsis. É um trabalho concreto de lida, assim como o trabalho de alguém que prepara a terra para plantar uma uma floresta ou uma horta, você tem que ter o domínio da técnica, uma partitura concreta, isso cura o ego que está desmedido.

Por outro lado, você só consegue ser um artista bonito se você consegue contar o mundo individual que você viu, a tua subjetividade, então essa dança narcísica entre a doença e a saúde disso vai me acompanhar para sempre. Quanto mais eu tiver uma perspectiva subjetiva, melhor fica o meu trabalho. Quanto menos em geral ele é, mais profundo ele é. E quanto mais profundo ele é, estranhamente, mais geral ele consegue ser. Porque você é um só concretamente, mas você é um de um todo, e a observação única conta do todo, conta sobre aquilo que é só teu, diz muito respeito ao todo, revela ao todo, coisas. Então acho que um artista bonito é aquele que tem uma visão muito única do mundo. Todos temos, mas que tem a necessidade de revelar isso, de expressar isso, de contar isso, coisa que só o ser humano tem; esse desejo profundo de colocar em arte, em palavras, em dança, em gesto, de colocar para o mundo essa impressão tão única, um desejo de não ser extinguido, uma luta contra a morte. Eu gostava de pensar, quando eu comecei a ser ator, e eu acho que eu ainda penso, que a gente é como aqueles cordeiros que tiram os pecados do mundo. Antigamente sacrificavam animais ou até pessoas para chamar a atenção dos deuses, e um ator é colocado em sacrifício também. Tem um lado bonito de sacerdócio nisso, reunir aquilo que você observou do mundo, as coisas que você observou de você, e sentiu, e viveu, e ser o bode da expiação, e ser o judas, o prato de aleluia para que as pessoas façam a catarse e possam seguir suas vidas um pouco mais aliviadas. Você vai carregar com você as dores de ter vivido aquilo, mas talvez por doença narcísica, feliz ou infelizmente, existem atores e eles tem uma função de limpeza, de abutre, de camarão. São os cordeiros de deus que tiram os pecados do mundo na única igreja saudável que tem, que é o teatro. Eu admiro todas as religiosidades, acho bonitas as cerimônias, todas são muito teatrais, primitivas, a busca coletiva por sentido estará sempre no teatro, o priminho bastardo das religiões, é onde você reza com liberdade para o horror e para a gargalhada, que é sempre de espanto, tanto a lágrima que o teatro causa quanto a gargalhada que o teatro causa ou a atuação, em última instância causa, é sempre catártico e religioso. É uma fenda para o entendimento do todo.