Saindo da estufa

Fernando Meirelles: “Dou abacate e maconha para os meus filhos”

Em tempos de Oscar, Fernando Meirelles compartilha, nesta entrevista com Anita Krepp, editora desta Breeza, os bastidores das indicação ao maior prêmio do cinema mundial que, invariavelmente, impulsiona a carreira e o cachê dos indicados, coisa que merecidamente queremos que aconteça com a nossa querida Fernanda Torres.

Mas como nem só de prêmios vive um diretor premiado, Fernando falou também sobre a sua relação com a maconha e contou uma história inusitada: ele já cultivou a planta, mas não para consumo próprio, senão para presentear seus filhos. Essa anedota reflete bem a sua abordagem aberta e pragmática sobre um tema que, segundo diz, está coberto de contradições em um sistema que penaliza o uso recreativo enquanto perde oportunidades de arrecadação e controle.

Adepto dos psicodélicos, Fernando anda bem informado na teoria e na prática, através de sessões que realiza com certa frequência com LSD, ayahuasca ou psilocibina em busca principalmente das experiências de dissolução do ego. O cineasta descreve momentos de profunda conexão com a natureza e um intenso processo de autoconhecimento, incluindo uma bad trip que teve quando tomou cogumelo sozinho na fazenda.

Fernando, você, que foi indicado ao Oscar em 2004 com Cidade de Deus, e vendo a maratona que a Fernanda Torres tá fazendo pra campanha de “Ainda Estou Aqui”, passando por vários países… Vale a pena esse esforço?

Vale a pena o esforço. Se o filme foi indicado, ou se você é um diretor indicado, ou uma atriz indicada, você realmente muda seu status, o seu cachê, por exemplo. Pra Fernanda, a menos que ela não queira, mas ela passa a ser uma estrela internacional, o cachê dela triplica e as ofertas aparecem. Então, do ponto de vista do trabalho como business, vale a pena. Se não valesse, ninguém investiria tanto nisso. Se investe num filme 3, 4 milhões de dólares para divulgar, para conseguir fazer o filme estar naquela lista. A minha própria carreira foi um pouco baseada na indicação ao Oscar, né? Na verdade, não, eu fiz o Jardineiro Fiel. Cidade de Deus foi para Cannes, aí me convidaram por causa do Cidade de Deus, mas depois que fui nomeado ao Oscar eu recebo muito convite, o tempo inteiro, e tudo que eu fiz tem um pouquinho a ver com isso. Então, sim, se você tem chance, vale a pena. Outra questão é se tem chance. Eu acho que o filme do Walter não dá para dizer certamente, mas tem altíssima chance de estar entre os cinco indicados para melhor filme estrangeiro, porque é um bom filme e a Variety, eles têm um negócio que chama Variety Oscar Prediction, a partir de setembro, eles colocam para todas as categorias quem que são os indicados com mais chance. Eu acompanho isso faz um tempo e é impressionante como eles acertam. É muito difícil a lista do Oscar Prediction da Variety não bater. E o filme do Walter desde setembro tá na lista entre os cinco melhores. Atualmente está em segundo ou terceiro, e nunca saiu daí. Por ser um excelente filme, eu acho que certamente vai ser indicado. Para ganhar já é muito difícil, porque este ano tem um filme que eu acho que vai estourar, que é o “Emilia Pérez”, que certamente vai ser indicado a melhor filme estrangeiro, e eu acho que “Emilia Pérez” pode ganhar o melhor filme também. Então ganharia o melhor filme, o melhor filme estrangeiro. Ele está indicado com melhor direção, melhor trilha sonora, melhor… Então acho que vai ser muito difícil. Foi pena que o filme do Walter tá batendo com esse filme que vai ser extraordinário, vai ter muitas indicações.

Como é que você fazia pra relaxar nessa tensão de nominado ao Oscar? Fumava um beck?

Não (risos). Pra falar a verdade, eu não participei em nada disso, porque no ano em que deveria ter sido indicado, que eu lancei o filme, o filme foi submetido ao Oscar, só que não foi indicado. Então esse Oscar saiu do meu sistema, e aí no mesmo ano eu entrei na pré-produção do “Jardineiro Fiel”. No meio do ano me ligaram da Miramax falando, “olha, o Harvey Weinstein”, que agora virou a pessoa proibida, “acha que seu filme foi injustiçado e ele quer fazer uma campanha pro Oscar, você pode entrar como um filme normal, não um filme estrangeiro”. E eu falei pro cara “olha, infelizmente tô aqui em Londres, tô fazendo uma pré-produção, se vocês quiserem fazer, façam, mas eu não vou participar de nada, não vou viajar porque eu não posso e eu acho que não tem chance”. Um dia eu tava fazendo uma reunião discutindo o roteiro numa salinha, eu nem sabia que tava fazendo campanha pro filme, aí entrou a produtora e falou “Fernando, você acabou de ser indicado para o Oscar”, e eu falei, “quem? o filme?” e ela “não, você”. E eu nunca esperava. E também, depois que eu vi a lista dos indicados, falei “não tem a mínima chance”. Tinha O Senhor dos Anéis pela terceira vez e eu falei “não, esse ano vai ser o Senhor dos Anéis”, porque ele tá indicado para tantos prêmios e nunca ganhou nada. E de fato, no Oscar em que eu concorri o Senhor dos Anéis ganhou 12 prêmios, em todas as categorias. Então quando foi chegando as categorias que “Cidade de Deus” estava concorrendo, roteiro, fotografia e direção, eu já sabia que ia ser um strike. E de fato, Senhor dos Anéis ganhou em todas as categorias que a gente estava concorrendo, eles fizeram barba, cabelo e bigode. Mas foi ótimo, essa simples nomeação de um filme falado em português, de um diretor que dirigiu um filme em português, me trouxe um monte de convites e viabilizou uma carreira internacional.

Você não passou por essa ansiedade, mas fuma um beck?

Não, eu fumava quando eu era moleque e depois parei, começou a ficar ruim, sabe? Não era agradável mais. Eu nunca fumei muito, fumava de fim de semana, nas festas, assim, mas nunca fui um fumante de ter maconha em casa e fumar regularmente. Absolutamente nada contra, meu filho fuma muito mais do que eu fumava, mas eu lembro que uma época eu fumei e foi ruim, foi ruim, foi ruim, uma sensação ruim, aí eu parei. Depois fumei uma vez ou outra. Agora, curiosamente, eu tô pensando em voltar a fumar maconha.

Por quê?

Porque eu andei lendo que, a partir dos 60 anos, faz muito bem. Eu li uma matéria de um neurocientista que diz que a maconha cria conexões e cria sinapses que a gente tem, as sinapses que conectam um ponto ao outro do cérebro. A gente vai envelhecendo e vai perdendo essas sinapses, essas ligações. Aí pro seu impulso elétrico de A a B, tem que fazer uma volta, por isso que fica mais lento o cérebro. E a maconha cria novas sinapses, então você fica mais esperto. Era um trabalho muito sério, falava que até os 20 anos você não deve fumar maconha porque é muito prejudicial para a formação neural e depois dos 60 é recomendável fumar regularmente porque te deixa mais ligado, te cria a neurogênese, fica mais esperto. Então tô pensando em voltar, preciso ver se eu consigo gostar ainda. Eu andei testando, se for um pouquinho, só uma ondinha, funciona. Se fuma um pouco mais, aí não é bom.

“Depois dos 60 é recomendável fumar (maconha) regularmente porque te deixa mais ligado, te cria a neurogênese, fica mais esperto. Então tô pensando em voltar, preciso ver se eu consigo gostar ainda”

Você co-dirigiu um episódio do Pico da Neblina junto com seu filho, Quico. Você já tinha tido conversas com ele a respeito da maconha antes da série?

O tema sempre foi zero tabu em casa, porque eles sabiam, sempre souberam que eu que eu fumei, então esse assunto não era tabu nem na minha família com os meus pais, quando eu tinha 22, 23 anos, que eu fumava às vezes, meus pais e minha mãe falavam “ai que horror”, mas dando risada, ninguém nunca ligou muito. Meu pai, uma vez, a gente conversando disso, ele quis experimentar e eu dei um baseado para ele, e acabou que ele deu esse baseado, ele ia experimentar, mas desistiu, ele é médico e achou que não devia, então ele deu para uma prima minha, e ela resolveu fumar em casa à noite sozinha. Fumou um baseado grande que eu tinha dado, e aí ela ligou duas da manhã para o meu pai. Tio Zezinho, eu tô mal aqui, não sei o que vai acontecer comigo, acho que vou morrer… E eu falei “é normal, se ela comer passa”. Pede para ela comer açúcar e tal, que a coisa passa. Mas ela tomou um susto. Como é que ela tinha aquele baseado? Meu pai falou “ah, eu dei pra ela, não quis fumar, dei pra ela”. Foi uma pequena piada interna da família.

Já ouvi boatos de que você planta maconha no seu sítio, é verdade?

Não, eu não planto. Eu plantei em casa, numa hortinha que eu tinha, mas quase que acidentalmente. Nasceu, e aí eu acabei com elas, porque se você planta, você perde o terreno. Se você plantar no chão da sua casa, a propriedade onde tem maconha plantada, você perde a propriedade. Dá uma checada nessa lei, mas eu acho que tem isso. Então, se você quiser plantar em casa, o negócio é plantar em vaso. Porque se tiver uma plantação na fazenda, por exemplo, uma fazenda que tem plantação de maconha, você perde a propriedade da fazenda. Mas uma vez eu comprei umas sementes, foi só um experimento e já se foi.

Conseguiu frutos? Porque plantar é simples, mas não é fácil.

Consegui, consegui. Não como a foto que vinha com a semente (risos). Mas consegui alguma coisa. Tudo que eu produzi, dei para o meu filho, e pra minha filha também, o namorado dela fuma, então eu reparto, dou abacates e maconha para os meu filhos (risos). Teve uma época que minha mulher tirava sarro. “Pô, você é o primeiro pai que planta para distribuir para os filhos”. E é fato, eu fiz isso por um tempo. Meu barato, na verdade é plantar, ver semente bruta. Eu como uma fruta, enfio a semente no bolso e planto, tenho essa pequena loucurinha pessoal. E aí comprei essas sementes na época do Pico, na verdade, foi quando eu comecei a entender de maconha, porque tem as espécies, aí você vê que existe uma quantidade de cepas e tal. Dali que eu comecei a entrar nesses sites para entender o que era cada uma, a potência e o desenho que cada uma fazia na cabeça. Daí eu comprei uns três, quatro tipos de sementes, plantei e depois não fumei, dei para os filhos. Agora, como você sabe que eu plantei? Quem que te conta essas coisas? Risos.

“Tudo que eu produzi (de maconha), dei para o meu filho e pra minha filha também (…) eu reparto, dou abacates e maconha para os meu filhos. Teve uma época que minha mulher tirava sarro”

Ah, eu sou uma jornalista que protege as suas fontes… E a terceira temporada de Pico da Neblina vem aí?

Não, a gente deu azar, a gente fez uma segunda temporada, eu acho, melhor do que a primeira, só que na hora de lançar a segunda temporada, tipo três meses antes do lançamento, quando ia começar o lançamento, a HBO foi vendida para a Warner, mudou de dono, e toda a equipe do Brasil que tinha feito a série saiu, começou a entrar gente nova e a matriz não sabia o que fazer, então a série foi lançada sem nenhum esquema de marketing, porque não tinha departamento de marketing. Foi lançada quando estava uma bagunça. Eles deviam ter segurado a série e lançado. Mas eles tavam numa de lança o que tem que lançar e tal. E aí a série foi lançada num período muito baixo, não deve ter dado muita resposta porque ninguém nem ficou sabendo que houve uma segunda temporada. Então, é quase certo que não haverá uma terceira.

E, Fernando, a maconha é um elemento comum nos sets de filmagem? Porque, assim, eu soube que, por exemplo, no caso do Pico da Neblina, acho que até por se tratar desse tema, tinha ali uma barreira de segurança, digamos, de 500 metros. Ninguém pode fumar em 500 metros. Mas num set ´normal´ é mais de boa?

Como é que você sabe disso? (risos) É verdade. Porque lá muitas pessoas fumavam, como em qualquer lugar, mas por ser esse tema e por a gente ter ´maconha´, uma maconha que era, na verdade, um chazinho, não lembro se era alecrim, mas era um chá, e por ter essa maconha falsa, a gente realmente não podia correr o risco de ter maconha de verdade no set ou com o elenco, então a gente proibiu. A gente não pode proibir as pessoas de fumar, então quem queria fumar ia pra mais de quatro quarteirões do set. E as pessoas respeitaram, não tivemos nenhum B.O., nem B.O. interno, e muito menos B.O. externo.

Mas em outros sets acontece?

É raro, porque… é claro que as pessoas fumam e muitas pessoas fumam antes de trabalhar e tal, mas no set é muito raro você encontrar, sentir cheiro, porque pode dar problema mesmo. Se alguém não gosta e denuncia, é por uma bobagem, então a orientação é sempre ´você quer fumar, a vida é sua, mas por favor, ande uns dois quarteirões aí, resolve sua parada e volta´. Faz tempo que eu não sinto cheiro de maconha.

Em 2014, quando o Pico tava em produção, a sala de roteiro tinha um medo de que a obra ficasse datada, porque havia uma esperança de que a legalização viria antes. E cá estamos, 10 anos depois, ainda enrolados com essa bendita legalização. Será que vai precisar de mais 10 anos pra conseguir dar esse passo?

Não é mais crime você ser pego com maconha, isso já foi um grande avanço, mas eu acho que legalização mesmo demora, por que enquanto a gente tiver essa bancada evangélica, de direita, controlando o Congresso, eu acho que não sai não. Mas é um grande adianto você descriminalizar o porte, né? E talvez pegar essa mesma lei e aperfeiçoar, turbinar ela… Mas alguém propor uma descriminalização total, como em outros países, vai acontecer, não tem jeito, porque no mundo inteiro está acontecendo e não tem porquê ser proibido, não faz nenhum sentido. Por causa do nosso Congresso, vai ficar assim um tempo. Para a igreja evangélica isso ainda é coisa do demônio, aquelas coisas todas, né? E o nosso Congresso, a bancada evangélica é muito grande, né? Imagina, se a maconha medicinal movimenta R$ 800 milhões por ano, a recreativa deve ser o que? Uns R$ 7 bilhões para mais. A arrecadação disso, se tiver uma taxa como de bebida, entra lá naqueles impostos especiais como bebida, salgadinho, refrigerante e tal. O governo tá perdendo uma arrecadação de R$ 7 bilhões no mínimo, no mínimo, se não for uns R$ 12 bilhões. Tá perdendo por uma legislação que é moralista, que não faz nenhum sentido. Por essa lógica faria todo sentido mudar a legislação. E tem outra, mantendo a maconha ilegal, você financia o crime. Esse pra mim é o grande ponto. Porque o mercado de maconha é o que mantém o giro na boca pra cocaína, é a porta de entrada. Não é a porta de entrada para as drogas, é a porta de entrada para o crime. É um aviãozinho para vender um pacotinho de maconha e vai crescendo. Você legaliza, ganha receita e tira o financiamento do crime. Enfim, eu não entendo não ser legalizado, não faz nenhum sentido. Por uma questão moralista.

“Você legaliza, ganha receita e tira o financiamento do crime. Enfim, eu não entendo não ser legalizado, não faz nenhum sentido. Por uma questão moralista”

Pra você nunca foi uma questão moralista, né? Como foi que aconteceu o seu entendimento sobre o que na verdade era a maconha?

Eu não tinha um interesse em maconha porque, enfim, nem era uma coisa muito do meu universo, dos meus amigos. Aí um dia eu fui viajar, eu morei um ano na França, acabei o colégio e fui morar um ano na França. Até lá eu nunca tinha experimentado. E aí teve um período em que, coincidentemente, a nossa turma inteira, eram seis ou sete colegas, por razões diferentes, todo mundo se encontrou em Paris, por cinco ou seis dias. E aí um deles tinha maconha, os outros fumavam, eu nem sabia, mas experimentei lá pela primeira vez e sempre voltei a experimentar. Mas nunca foi um tabu. Eu não tinha experimentado antes porque nunca tinha aparecido na minha frente, em festa nunca tinha aparecido. Quando apareceu, eu experimentei e gostei e aí passei a fumar, mas era realmente festa, era coisa de fim de semana, ou vamos ver um filme, era muito pontual. Eu era dos poucos que não fumava na turma, eu era o inocentão, mas também nunca vi isso como um problema. A gente falava em casa. Você falar pros seus pais hoje que você fuma maconha é normal, mas nos anos 70 não era tão normal assim.

E com os psicodélicos você chegou a ter alguma experiência?

Com os psicodélicos, sim. Tomei LSD algumas vezes. Foi sempre excelente, nunca tive nenhuma bad. Tomei psilocibina também, o cogumelo mágico, que também é uma onda muito, muito bacana, eu recomendo. Atualmente é muito legal, você consegue comprar psilocibina pela internet, tem alguns sites e você recebe em casa, bonitinho. Você pode tomar em cápsula seca, como se você fosse tomar um comprimidozinho, ou o próprio cogumelinho seco que você mastiga e tal. E essa é uma experiência que eu recomendo altamente para todo mundo, pelo menos umas três, quatro vezes na vida, porque é muito linda, uma experiência de paz, para mim todas as vezes que eu tomei cogumelo foi muito linda, uma experiência de integração, de se sentir que faz parte do todo, ainda mais se você estiver na natureza, que você faz parte, está conectado com as árvores, com as flores, com as plantas… Tomei até recentemente cogumelo com os amigos, a gente foi para Paraty com esse objetivo, vamos para Paraty para tomar uma psilocibina. Isso faz uns dois, três anos, daí tomei umas outras vezes ainda há pouco tempo, na fazenda, e eu tive uma experiência que não foi boa. Há um ano e meio, mais ou menos, eu tomei, estava sozinho e em geral dizem que não é bom tomar sozinho, né? Eu tomei sozinho e foi me batendo uma ansiedade, uma bad trip, e eu queria sair daquilo e não saía, aí eu dei uma paradinha. Quando eu tomei ayahuasca, algumas vezes também, umas quatro ou cinco vezes… As primeiras vezes foi com um xamã, em Cotia, depois mais duas vezes com outro cara que faz umas cerimônias em São Paulo, muito legal, cerimônias pequenas, das quais minha filha participa. A minha filha é meio assistente desse xamã, e ela toma todo mês. Fez uma agora, sábado passado, na casa dela, com umas 18 pessoas. Ela ajuda a puxar os cantos, ela fica vigiando se as pessoas estão bem, ela faz aquela assessoria.

Você tomou ayahuasca com a sua filha?

Foi uma vez sem ela, depois, uma vez com ela, e é bonito… Mas era muito pesado, e depois eu tomei também na União do Vegetal, e aí foram experiências muito bonitas, queria até ter continuado, mas eu fui viajar, fui para o Rio de Janeiro, depois para Belém para fazer os filmes… Parei, mas eu quero voltar. A experiência na União do Vegetal é muito mais leve, muito mais tranquila, e igualmente, para mim, pelo menos, muito boa, muito bonita, sempre muito boa, e eu quero continuar. Vamos ver se agora que voltei, a partir de janeiro, que eu dou uma acalmada, volto. É que a União do Vegetal tem que fazer duas vezes por mês e eu viajo muito. Aí eu acho que eu vou furar muito os horários e não sei se pode ficar faltando muito.

O que você aprendeu dessas experiências com ayahuasca, LSD e o cogumelo?

Eu acho que talvez tenha reforçado uma sensação que eu tenho, uma visão de uma ideia de vida que eu já tinha e só reforçou. Eu tenho dimensão da minha pequenez, da minha insignificância, e sempre tive. Às vezes você se leva, sei lá… Lê matéria de jornal, as pessoas vêm te elogiar, tem gente que acredita nisso. Eu nunca acreditei, porque a gente não é nada. Se você comparar com o tamanho do universo… Eu nunca entrei nessa viagem de egotrip. E essas experiências, principalmente com ayahuasca, só reforçam isso. A gente sente que a gente é um micro da micro da micro dentro de um troço de energia muito maior, muito mais amplo. Você sente que você faz parte daquilo e que a sua individualidade, o seu ego, realmente é pó de bosta, é esterco. É menos, é nada, não tem. Então te coloca no chão. Calma gente, eu sou parte disso aqui, então ansiedade fica menor, sofrimento é menor. Tô sofrendo por quê? Sofri porque o cara falou isso, porque isso aconteceu… Diante do tamanho que é o universo, o que é o meu probleminha? As experiências psicodélicas me fazem uma pessoa mais em paz, mais tranquila, por saber da minha insignificância. Me ajuda muito.

E quando você vai atrás dessas experiências tem alguma coisa que motiva ou vai de peito aberto?

Eu voltei a essas experiências depois de um tempo e comecei a ficar interessado em tomar psilocibina porque eu adoraria ter uma experiência de dissolução do ego. Se você toma uma dose, sei lá, a partir de cinco gramas de psilocibina, de cogumelo, você chega numa experiência que realmente você dissolve o seu ego, você se desintegra. E eu vi algumas narrações disso, a emoção, a sensação de você se desintegrar, que é maravilhosa, e essa, sim, profundamente transformadora. Eu sempre tive essa vontade. Eu sinto que tô vendo muito pouco aqui, tem mais coisas aqui em volta que eu não vejo e eu quero ver, então é um pouco essa vontade de ver e de conhecer, e de me conhecer e de me dissolver. Tem uma experiência, talvez seja bom para os seus leitores, o Sam Harris, ele é um neurocientista e agora ele tem um aplicativo de meditação, ele é totalmente ateu, é um cara intelectual, filósofo e tal, e ele tem, você acha no YouTube, um vídeo em que ele conta como foi tomar uma dose alta de psilocibina e que ele chegou nessa dissolução do ego. Ele conta como foi a experiência, desde o momento em que ele tomou, as condições que a coisa tinha que ser feita, ele tinha uma pessoa junto com ele e tal. Ele narra a viagem dele e até a volta. Pô, você ouve aquilo e fala “eu quero, essa é a viagem que eu quero, esqueça a Disneylândia”. (risos) Eu falei “não, eu preciso dissolver o meu ego em algum momento, mas eu não tenho coragem de tomar cinco gramas”. Eu falei “não, deixa eu começar devagar aqui”. Eu fiquei com medo com duas gramas… Aí que foi ruim, eu fiquei com medo e me pegou a ansiedade. Eu tomei duas mas estava sozinho, daí eu dei um tempo, mas eu ainda quero voltar lá, e quem sabe eu chegue nas cinco gramas.

O que você fez quando você tava na bad sozinho? Porque quando você tá acompanhado já é difícil, sozinho, então…

É, ainda mais na fazenda, à noite, tudo escuro, eu queria sair, não saía… lembro que acendi todas as luzes da casa, botei uma música mais tola possível, uma música de rádio, e fui comer para ver se comida, sei lá, açúcar e tal, me ajudavam a sair daquela situação. Acho que talvez comer tenha me ajudado, mas eu não queria pensar, não queria entrar na onda, porque, né, em geral, cê toma e até fecha o olho pra tentar entrar, e aí foi o contrário, vou acordar total, andar, inventar fazer coisas, vou arrumar, limpar a sala, entrei em uma de objetivos concretos do meu lado pra não deixar a cabeça vazia. Deixa eu lavar a louça aqui, vou fazer um arroz, aí a hora que foi passando, eu distraí minha cabeça pra não entrar na viagem. Mas foi muito angustiante, por um tempo foi muito ruim.

“As experiências psicodélicas me fazem uma pessoa mais em paz, mais tranquila, por saber da minha insignificância”

Imagino, acho que eu não tomaria nada sozinha, olha, muito corajoso.

Eu já tinha feito na fazenda duas vezes e foi muito bonito. Numa delas tomei no fim de tarde e fui andar, aí começou a chover e eu estava no meio de um bosque, tudo brilhava. Nossa, foi tão lindo. Aí eu fui repetir e deu ruim.

Tem alguma coisa de criativo nesse contato com os psicodélicos? Tem alguma coisa disso que possa desencadear numa produção para o futuro? 

Acho que não objetivamente, não vou tomar um psicodélico para ter ideias para um roteiro, mas é uma experiência que passa a fazer parte da sua vida e não é uma experiência pequena, não é uma experiência que você esqueça. Então ela faz parte. O que eu crio, o que eu penso, o que eu sinto, certamente está banhado por aquilo também, porque aquilo passou a fazer parte de mim. Eu tenho 69 anos, já tive muitas experiências na vida, viajei muito, conheci muita gente. Tem uma hora que a gente vai sentindo, a idade é boa por causa disso, você vai sentindo que as coisas só se repetem, não tem muita novidade, você fica menos deslumbrado porque é só uma repetição, de novo, de novo, de novo. Os psicodélicos é como se fosse um recomeço, abre uma outra porta. É uma experiência forte também por isso, porque as emoções do dia a dia já estão meio mapeadas, então é um jeito de você entrar numa área da sua vida que não tá mapeada, que não tá experimentada. É uma área para desbravar. Eu tenho esse interesse de desbravar também, quero morrer tentando.