Reportagens

É (nada) fantástico!

Matéria alarmista e reducionista do dominical da Globo une a cena em repúdio e na busca por espalhar informações corretas. Na reportagem da Breeza, ouvimos quem realmente sabe e tomamos fôlego para soprar pra longe essa névoa de desinformação e pânico

Por: Filipe Vilicic

Você que está lendo esse texto na Breeza provavelmente se deparou com a reportagem do Fantástico falando dos “perigos do ice”, a “maconha de playboy”, espalhando desinformação e pânico moral. Se não viu ou leu, e há nas duas versões, deve ter se deparado com posts de influencers, vozes da nossa cena, marcas que nos representam, rebatendo em uníssono a matéria do dominical da Globo. Isso se você, como eu, viver majoritariamente na nossa roda.

Fora das nossas bolhas, os poucos minutos de noticiário global tiveram o êxito que pareciam querer ter, espalhando medo e fake news, numa mescla tão dos dias de hoje. Nossa colunista Letícia Ravelly, a Papa Flor, farmacêutica, diretora de associação, cultivadora com tudo legalizado, soube da reportagem do Fantástico por sua mãe. “Mesmo ela convivendo comigo e entendendo o mínimo da planta, esse clima pesado que eles passam causou medo na minha mãe, que veio me perguntar ‘o que é esse ice?’”. Imagina o que causou nas mães, pais, tios, avós, filhas, filhos, em tantas famílias brasileiras?!? (Ouça aqui como ironia, naquele mesmo tom usado pelo Fantástico para colocar o ice como um perigo para as famílias da classe média).

O Fantástico parece ter compilado todos os clichês de uma abordagem do assunto que corrompe o Brasil faz séculos. Opina o redutor de danos Michel De Castro Marques, membro do Conselho Nacional de Política sobre Drogas: “Uma fórmula cansada, com a autoridade policial, o usuário em sofrimento, o profissional da saúde, representando o tripé do proibicionismo: proibição, patologização e vitimização”.

Enquanto a Papa Flor assistia à reportagem do Fantástico que havia alarmado sua mãe, algo que logo saltou aos seus olhos e ao seu conhecimento é que muito do que mostravam nem era bem ice, como daqueles usados em óleos medicinais. “Estava na forma de prensado, as imagens que mostram é de prensado. Uns tabletes de ice sendo cortado”, no máximo, vá lá. Ela, porém, entendeu porque a narrativa da pauta impactou tanto sua mãe.

Olha, a reportagem parece saída de uma cena de um filme de comédia canábica dos EUA, daqueles em que os vilões são exatamente os manjados de sempre, e os mocinhos só querem fumar uns no fim do dia, em paz, com responsabilidade, em boas rodas. Como há quem fume uns charutos, uns maços de cigarros, uns cigarros eletrônicos, ou quem beba sua cerveja ou seu uísque. Em países legalizados, quem fuma seus baseados. Combinemos, nos descriminalizados e nos ilegais, na prática também é assim. Chega de hipocrisia.

Na reportagem do Fantástico, o que não faltou foi hipocrisia e narrativa de criminalização. Teve até aquela musiquinha meio entre filme policial e de terror; o usuário apresentado como bandido, com voz robótica e escondendo rosto e silhueta em uma sombra; o delegado que nem sabe o que é haxixe, achando que ice é crack e se preocupando só porque virou “droga de playboy”; o psiquiatra falando umas coisas que não são só de dar vergonha alheia, como são perigosas. A abordagem da reportagem é bélica e danosa. “Esse tipo de reportagem não é a primeira, não será a última, e segue um roteiro que parece que usam como gabarito para montar a matéria, pois só trocam a droga, as falas, tudo basicamente para botar medo; nada induz à informação, apenas ao medo”, comenta o psicólogo Lauro Pontes, que pesquisa cannabis faz mais de 10 anos.

Para Pontes, ouviram “basicamente um usuário que não fala coisas que se traduzem como é realmente o uso da maconha, seja ela a ‘comum’ ou a em ice”, um psiquiatra com “falas generalistas”, sendo que deveriam ter entrevistado “estudiosos do assunto”, além da autoridade policial. “Uma forma de criar arbítrio sobre as pessoas é fabricar um problema para poder falar dele depois”, conclui assim sua reflexão.

O redutor de danos Michel De Castro Marques reforça como o médico ouvido reproduz “a visão da medicalização, do sofrimento pelo uso, como se todas as substâncias levassem à dependência e à destruição de famílias, mas isso não corresponde às evidências ou às pesquisas”. E acrescenta: “Ao patologizar, isso inviabiliza a possibilidade do cuidado em liberdade, faz com que as pessoas tenham dificuldades de procurar possibilidades de cuidados”.

Para Renato Filev, neurocientista, pesquisador, ativista, membro da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, a forma como se tratou o usuário entrevistado teria sido a parte mais prejudicial da abordagem. “Reforça alguns estigmas, como a questão de não comprar comida, a mão tremendo, a voz de pato. Colocaram um idoso, em idade mais avançada, sendo que a população que faz uso de ice é a do público jovem”. Analisa ainda que poderiam ter explicado melhor o contexto do usuário entrevistado para compreender os possíveis riscos e vulnerabilidades aos quais estava submetido. “Orientar a população, não só aterrorizar. Mostrar estratégias de redução de danos, ao invés de confundir mais”. 

Para Michel De Castro Marques, quando se associa o uso ao “fracasso, ou à loucura, ou à criminalidade, as pessoas sentem vergonha, medo, culpa, e isso as afasta ainda mais de serviços de saúde ou das possibilidades de cuidado”. Mais uma vez, incentiva-se que usuários sejam vistos pelas ações de punições da segurança pública, e não pelo cuidado da saúde pública. Prevalece novamente o olhar racista, elitista e persecutório da lei brasileira.

Jogo de vários erros

Maconha de playboy? Nova droga, mais cara e mais potente? Resultado de processos químicos pesados? Perigosa e mega viciante?

Parece que a única coisa que o Fantástico acertou foi no apelido que damos hoje para esse tipo milenar de haxixe: “ice”. Ele é baseado no uso de uma planta que está conosco faz mais de 12 mil anos, desde o período Neolítico, para fins industriais, religiosos, medicinais e por prazer. Assim como em um elemento que nos acompanha há bem mais tempo, desde o início de tudo: água.

“Precisa de gelo, filtragem e muita paciência”, resume a Papa Flor, listando ingredientes bem primitivos. Mesmo assim, o Fantástico insistiu num discurso de que seria uma droga nova e cheia de químicas pesadas.

Onde é legalizado, ou ainda onde é parte da cultura faz tanto tempo, como no Marrocos, o haxixe nada mais é do que uma forma de maconha concentrada, muitas vezes usada como base para outros produtos, como óleos medicinais. A química pesada e contaminações várias podem ser originadas justamente dos processos ilegais de se fazer, distribuir e vender o produto, como é e como foi com qualquer coisa que é ou foi ilegal, do álcool da Lei Seca dos EUA, aos óleos contaminados do mercado clandestino de vapes no Brasil ou com o prensado. A solução para ter um produto controlado, restrito para adultos e para seu devido fim é qual? Legalizar, justamente. Dos usuários aos empresários sérios, cientistas e o governo só têm a ganhar (muito) com isso.

E essa de ser maconha de playboy? Nada disso, também. Talvez o que tenha ocorrido é que alguns só perceberam que o ice existe por ter chegado às festinhas dos mais abastados. Mesmo assim, nem a própria reportagem do Fantástico comprova isso, afinal usa como exemplo um dependente químico (sem sabermos o contexto da dependência, se o abuso é apenas de haxixe, dentre outras informações) que é mais velho, tem problemas financeiros, definitivamente não se trata de um playboy.

“Não se baseou na realidade das coisas. Criaram mais conexão (com a audiência do Fantástico) por serem pessoas de classe média, mas acontece que não é só bairro chique que tem ice, nas quebradas também têm. Fazer esse debate da maconha sem trazer o debate racial e de classe, não tem como levar a sério”, alerta Diva Sativa, ativista e nome por trás de movimentos como o da Marcha da Maconha de São Paulo.

Diva aponta uma falha jornalística evidente da reportagem, a de ter ouvido apenas três fontes, como se representassem o todo do cenário, sendo que uma delas é um delegado (a autoridade, que segue a lei atual de forma acrítica); outro, um dependente, sendo que não ficamos realmente a par do contexto de sua história (e fica claro que ele está preso em um ciclo problemático de abuso, o que acomete uma pequeníssima minoria dos usuários de maconha); e um psiquiatra que não é especialista em abordagens atuais do tema, como o da redução de danos. Avalia ela: “Deveriam ter ido atrás, por exemplo, de pais e mães que fazem ice e, com ele, diluem (a maconha) para dar para crianças. Será que sabem que têm crianças se tratando com óleo a partir do ice? Será que estão ligados nos serviços terapêuticos?”. Ou será que o Fantástico classifica esses usuários-pacientes como “playboys”?

“Não teve nenhuma pessoa negra sendo entrevistada (em um país em que a história de proibicionismo é ligada à perseguição do povo preto). Não tinha nenhuma mulher, parça!, que é quem verdadeiramente lida com os problemas, cuida dos viciados… então, sinto que esse pânico moral vai sendo levado por eles sem medir esforço”, complementa Diva Sativa. “É bom a gente também lembrar que no ano que vem tem eleições presidenciais novamente, e geralmente agora é quando começam a fazer um jogo contra maconheiros, quem luta por direitos. É isso que fomenta a Guerra às Pessoas, que é o verdadeiro nome da chamada Guerra às Drogas”. 

Em diversos momentos a reportagem global evidencia sua ótica que estigmatiza a droga e seus usuários, em tom policialesco que não seria usado para falar de álcool, cigarro ou mesmo do que insistem em nomear de “cannabis medicinal”. “Na Globo, quando se fala do uso medicinal da cannabis, tudo pode, tudo é lindo, tudo é maravilhoso, a emissora faz várias reportagens interessantes sobre. Mas quando vai falar do uso ‘recreativo’, do não regulamentado, é sempre esse alarmismo, esse pânico moral que é a grande marca do proibicionismo”, avalia o advogado Emilio Figueiredo, um dos nomes mais influentes e fortes do ativismo e das áreas jurídicas e legislativas do que envolve nossa planta no Brasil. Aí só vale lembrar que haxixe (inclusive o ice), a flor pura, prensado, óleo, produtos medicinais, tudo vem da mesma fonte: maconha. O que muda é o rótulo dado, muitas vezes por próprio conforto de linguagem e classe de quem expressa o que acha que tem a dizer sobre a ganja.

Sempre foi assim? Pode mudar?

Emilio Figueiredo faz questão de recordar que a Globo do Fantástico é a mesma empresa por trás de momentos vergonhosos da cobertura jornalística sobre a cannabis, como de quando, “em agosto de 1930, saiu na capa do O Globo uma notícia mostrando a maconha como ‘veneno africano’, ‘droga da morte’, da alucinação'”. 

Enquanto nos primeiros séculos de Brasil a diamba passava mais despercebida pelas autoridades, justamente pela ampla adoção do cânhamo pelas indústrias e pelos usos tradicionais estarem então mais restritos à população negra, há uma onda de proibicionismo que se intensificou principalmente entre o fim do século XIX e início do XX. Em movimento que acompanhou uma tendência mundial de repressão que sempre visou excluir e aprisionar minorias, como o povo preto no Brasil e os negros, os latinos e os nativo-americanos nos Estados Unidos.

Como contamos recentemente aqui na Breeza, o historiador Gustavo Maia fez um amplo levantamento de notícias sobre a diamba no nosso noticiário entre os séculos XIX e hoje em dia, em trabalho contínuo que também pode ser acompanhado em seu Cannabis Monitor. Na conversa que tivemos com ele, destaca-se como o racismo, o elitismo, dentre várias outras atitudes preconceituosas guiaram as políticas e leis no país. Por outro lado, Maia ressaltou também como sempre houve resistência, sendo que nos jornais de há dois séculos também era possível encontrar alguns artigos ressaltando o lado prazeroso da maconha, assim como as vantagens dos fins industriais.

“A mídia é livre como um táxi, vai na direção de onde o dinheiro manda. Quando tiver dinheiro para falar bem do uso recreativo, aí o ice vai virar maravilhoso, delícia para tomar com café da manhã…”, ironiza Emilio Figueiredo. Como ativista, contudo, Diva Sativa observa como o repeteco alarmista de reportagens como a do Fantástico acaba por fortalecer o discurso antiproibicionista: “Na Kamah a gente costuma dizer que a educação é a nossa arma na Guerra às Drogas. Assistindo à reportagem, senti muita vontade de expandir o trabalho de informação que a gente faz. Isso tem de alimentar a gente pra correr atrás, e não tirar nossas esperanças, não podemos nos sentir intimidados”. 

Nesta reportagem da Breeza, ouvimos bem mais usuários, especialistas, coletamos dados, evidências. Em cada link que clicar ao longo deste texto, será levado a mais informações que apuramos ao longo de nossa jornada com nossos leitores e ouvintes breezers. Se para esta matéria, feita por um único jornalista, que se ocupa com afazeres vários como publisher da Breeza, e concluída em dois dias após a publicação da Fantástico, foi possível… como um dos principais programas noticiosos da Globo não conseguiu ao menos manter o nível esperado de apuração e jornalismo, né? A torcida não é contra, mas a favor: que na próxima acertem e marquem gols que somem ao placar, não que sejam contra as famílias de sua própria audiência.