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A SEMENTE

Do agreste nasce flor e luta

Por Letícia Ravelly (Papa Flor)
Apoio: Flora Urbana

Chega mais: quem planta essa ideia por aqui sou eu, papaflor_.

Peço licença pra me apresentar: sou Letícia Ravelly, a ativista de sotaque arrastado que precisou mudar o próprio nome pra um dia ter liberdade de cultivar. Nesse mundo verde, você vai me encontrar como @papaflor_ — e se quiser me seguir no Instagram, é só buscar por esse nome.

Sou uma mulher do agreste alagoano, nascida em Arapiraca, que escolheu fazer da planta uma aliada — pra saúde, pra luta e pra construir um futuro possível. Farmacêutica, com especialização em produção de produtos à base de cannabis, paciente com autorização judicial pra autocultivo e presidente da Associação Liamba de Plantas Medicinais.

Minha relação com a maconha começou na curiosidade e floresceu como escolha. Aos 17 anos, usei o primeiro baseado e descobri: “ô negócio bom danado”. Foi na universidade que entendi o que fazia tão bem e comecei a questionar: por que algo assim é proibido?

Foi aí que nasceu a Letícia ativista. Não podia ver um verde que já queria apertar e trocar uma ideia. Em 2019, comecei a cultivar — com a cara e a coragem. O primeiro pezinho que cuidei foi presente de internet: ganhei porque coloquei a cara no Instagram. Desde então, virei aprendiz e entendi que, pra ter acesso de verdade, de qualidade, eu mesma teria que produzir.

E cá estou: a mina que papou a flor. Não posso ver uma que já quero criar. Aprendi a olhar pra planta com cuidado, entender qual a melhor forma de acessar essa medicina — que vai muito além de um baseado. Eu papo a flor e produzo o que eu quiser: de comestível a pomada pro dedão do pé.

Percebi que meu acesso só seria verdadeiro se fosse construído por mim: com consciência, cuidado e com foco nas minhas reais necessidades.

Na faculdade de farmácia, a ficha caiu de vez. A cannabis podia ser mais do que meu tratamento: era também meu caminho profissional. Então fui buscar espaço pra trabalhar com ela no Brasil — me joguei em alguns estados, trabalhei, aprendi, mas também me frustrei. Vi de perto o abismo entre o discurso e a prática. E foi aí que entendi: se quero um mercado justo, seguro e acessível, tenho que ajudar a construir.

Foi assim que voltei pra Alagoas e plantei a semente da Associação Liamba, que hoje é espaço de acolhimento, informação, cultivo, pesquisa e resistência. Já são mais de dois anos de atuação no estado.

Mas quer saber mais de mim? Então segura esse cordel que saiu depois de um baseado:

Sou Letícia, sou do mato,
Sou do agreste e da raiz,
Me chamam de papaflor_,
Numa estrada que eu mesma fiz.

Foi na dor que fiz conexão,
Na busca por paz, por libertação.
Na erva vi mais que fumaça,
Vi saber, vi força, vi raça.

Me formei na farmácia,
Mas foi a planta que me curou.
Na ansiedade encontrei
O motivo que me guiou.

Hoje ensino e aprendo,
Sigo firme no caminho.
Com a Liamba ao meu lado,
Ninguém mais fica sozinho.
Se a mudança eu queria,
Fui eu mesma a começar.
Pois quem planta sua verdade
Faz o mundo germinar.

Gostasse? Pois esse espaço aqui vai ser nosso ponto de encontro. Um canto pra dividir saberes, contar causos, trocar dicas de cultivo, desabafar sobre o corre, aprender sobre os direitos e os desafios de quem usa e trabalha com maconha no Brasil.

Vou te contar a realidade como ela é: com altos, baixos, dúvidas, vitórias, tombos, reencontros, flores e prensados. Porque ser paciente, ativista, profissional e cultivadora aqui no Brasil é um caos delicioso — e é só vivendo (ou lendo por aqui) pra entender.

Então, peço licença pra entrar na sua tela, no seu tempo, e quem sabe… no seu pensamento.

Hoje falo, escrevo, me exponho,
Com coragem, com medo e com sonho.
Nem tudo são flores no mato,
Mas sigo firme no meu trato.

Se é real que a vida é montanha,
Com descida, subida e façanha,
Que nesse blog tu encontre também,
Um pouco de mim — e muito além.

Comente o que achou do texto e me conte o que quer ver nas minhas próximas colunas lá no Insta da Breeza, o @breeza_revista, ou no meu, o @papaflor_.

Com amor 🌱