
“– Tudo por causa de uma planta!
– Pois é, e dizem que a legalização é uma questão de tempo. Mas quando legalizarem a maconha, será que vão lembrar da gente aqui?”
O diálogo é entre um jovem e um idoso negros. O primeiro, preso por causa de um boné com o símbolo da planta. O segundo, por plantar, ou seja, por causa de umas sementes no jardim.
A relação dos dois é fio condutor de “Diamba“, HQ em que o quadrinista Daniel Paiva relata a história da maconha e do proibicionismo no Brasil. Essas conversas entre os dois homens de duas gerações é a única parte mais, digamos assim, ficcional da obra. Todo o restante retrata como foi construída uma falácia de Guerra às Drogas no país como forma de perseguir o povo preto, descendente dos escravizados que fizeram brotar a cultura canábica brasileira.
Mesmo assim, jovem e velho não são assim tão ficcionais. “Parti de uma matéria de jornal de um cara que foi preso só pela estampa de folha de maconha no boné, pelo ícone que representa”, nos conta o autor, Daniel Paiva.
Em sua pesquisa, o carioca achou mais casos similares. “Tinham muitos, de quem foi preso por bermuda, por estampa na camisa. Aí fui misturando as histórias e (na HQ) fiz o cara tirar onda (com os policiais), e plantam flagrante”.
OS CAPÍTULOS ATÉ AQUI
Paiva já tinha envolvimento prévio com o mundo da maconha, e não só como usuário. Ele conta participar das Marchas desde a segunda, em 2004. Como quadrinista, contribuiu com a revista Tarja Preta, clássico canábico brasileiro. Também são dele personagens emaconhados, com destaque pros fumacentos Beto e Dê.
No início da pandemia, em 2020, pegou pra ler “Cannabis – A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos”, HQ de Brian Box Brown que conta a saga da erva na América do Norte. Aliás, aqui na Breeza entrevistamos o Brown e falamos de suas estupendas obras documentais em forma de quadrinhos.
Foi aí que Paiva sacou: “Tinha de ter uma versão brasileira. Aqui essa história é tão mais sinistra e antiga. Começou a proibir antes do que nos EUA. Esse proibicionsmo daqui, com o Rodrigues Dória”.
Se tem um vilão em “Diamba”, é o médico José Rodrigues Dória. Em 1915, ele demonstrou seu pioneirismo… em repressão, perseguição, negacionismo, racismo. Com a falácia que chamou de trabalho de pesquisa “Os Fumadores de Maconha: Efeitos e Males do Vício”. Uma atrocidade, mas exibida ao mundo na capital dos EUA e que acabou se tornando base para políticas de perseguição e encarceramento ao redor do mundo.
“Diamba – Histórias do Proibicionismo no Brasil”, lançada no ano passado, é fruto de várias pesquisas. Ao fim da obra há, inclusive, uma lista de referências bibliográficas. “Fumo Negro, Sonhos de Diamba, Fumo de Angola…”, durante a entrevista, Paiva começa a tirar da prateleira uma série de livros que lhe serviram de base de estudos.
A HQ traz a história completa da erva no Brasil, desde que a ganja chega pelas caravelas e, em particular para a construção de nossa cultura canábica, nos navios negreiros, até quase os dias atuais. Quase pois vem aí um próximo capítulo.
DIAMBA 2
Paiva conta que está desenhando agora “Diamba 2”. “O assunto não acaba e vou fazendo enquanto as coisas vão acontecendo. Todo o debate no STF (de descriminalização), os votos de cada um, tenho tudo registrado e estará na próxima HQ”.
A esperança é publicar a obra quando for anunciada a legalização no Brasil. Esperamos que o mais breve possível.
Na Expo Cannabis deste ano, de 15 a 17 de novembro em São Paulo (e olha só: a Breeza é media partner da Expo e estaremos na feira com um stand, nos visite!), a Brasa, editora da HQ, irá vender em forma de gibi um dos primeiros capítulos prontos da nova obra. Chamará “Diamba: A Utopia”, terá cerca de trinta páginas e, segundo Paiva, mostrará o personagem principal do primeiro volume refletindo sobre como seria um processo saudável de legalização.
Filipe Vilicic


