Na Breeza

O super-herói de todas as rodas

A história de origem do Capitão Presença, que salva quem tá no corre faz vinte anos. Segundo nos conta o quadrinista Arnaldo Branco, pode ser que ele volte agora num formato mais, digamos assim, maduro, como graphic novel
15|08|24

O Capitão Presença tem um poder que cai bem em qualquer roda: sempre tem um em cima pra descolar. Quando tá na seca, é só chamar o Capitão Presença.

Sua história de origem remete a uma época tenebrosa do Rio de Janeiro, cidade de disparidades, de onde saem milícias, mas também nascem Cartola, Fernanda Montenegro, Machado de Assis, Marisa Monte e tantos e tantas que nos dão orgulho. Era 2002 ou 2003 (seu criador, o carioca Arnaldo Branco, não lembra ao certo, o que ele nem pode culpar o fumo de hoje em dia, já que não é mais tão costumaz assim), quando lá nasceu o nosso super-herói.

Costumaz se pode chamar aquele que inspirou Capitão Presença, o jornalista e fotógrafo Matias Maxx, conhecida presença da comunidade canábica, principalmente no Rio. “Naquela época o tráfico tava fazendo estrago, muitas guerras por territórios, o pessoal fechando as lojas na zona sul, o Rio extremamente policiado, se você se deslocava três bairros, eram duas blitz”, lembra Arnaldo.

Maxx era o salvador. “Esse cara conseguia chegar na sua casa com um tijolo de maconha, gigantesco, sempre tinha”, recorda o quadrinista. Um dia, ele trocava e-mails com um amigo em comum quando comentaram do super-poder de Matias Maxx: a “presença”, gíria para aquele amigo ou aquela amiga que tá sempre com uns badegos para compartilhar.

Arnaldo se inspirou e assim desenhou Capitão Presença, um Super-Homem sempre com um baseado na boca, no peito o símbolo clássico da planta da maconha. Mais para zoar com o amigo, publicou os desenhos em seu blog. Viralizou e, após voltar de umas férias, Arnaldo se surpreendeu com uma série de artistas que se inspiraram para traçar suas histórias com o Presença, nomes do calibre de Allan Sieber, MZK e Schiavon.

POR TRÁS DA MÁSCARA

Arnaldo assume que sempre quis ser um novo Angeli, ícone das HQs e dos punks. Inspirou-se ainda em Glauco, Laerte, Adão Iturrusgarai e outros astros dos quadrinhos que representavam também a contracultura de alguns períodos de nosso país. Para criar o personagem, o quadrinista relembrou de uma juventude na qual lia todos os gibis da Marvel e da DC, e passou a pesquisar sobre super-heróis maconheiros que já então existiam, como os Freak Brothers.

Ao caldo adicionou tempero carioca e assim gerou o Capitão Presença. Quando os primeiros desenhos viralizaram, resolveu continuar com a ideia e ele e Mathias Maxx lançaram histórias do super-herói na revista Tarja Preta, na estreia com dezesseis artistas com suas versões do personagem.

“As primeiras histórias foram praticamente todas feitas sob efeito, pois naquela época a gente estava muito juntos e fumava demais”, lembra Arnaldo, que hoje em dia afirma ser um “Super Aba”. Ele faz referência a um parceiro meio pentelho do Capitão Presença, que é aquele parasita que nunca tem um, mas sempre quer pegar dos outros. Claro, é uma piada, tanto que ele a faz consigo mesmo.

Em 2006, as histórias do Capitão Presença ganharam um livro. Depois disso, Arnaldo deixou sua criação de lado para se dedicar a trabalhos vários como roteirista, além de outras obras como quadrinista e chargista.

AS AVENTURAS DO CAPITÃO PRESENÇA

O super-herói chega para salvar as secas nas rodas, mas não só. Ele usa seus superpoderes para combater a parte suja da PM, interferir na ONU, enfrentar a Bancada Evangélica, e bater de frente com vilões improváveis, como o Mané Bandeira, aquele que sempre dá pinta bem na frente da polícia, aquele que sempre explana.

Se passaram mais de vinte anos da origem do Capitão Presença, e se ele voltasse a voar pelos ares do Brasil de hoje? “Naquela época só tinha prensado, hoje tem maconha boa; mudou o cenário mundial, em vários lugares não é mais proibido. Naquela época o Gabeira era o maconheiro, hoje ele é mais careta que o Bolsonaro”, analisa Arnaldo, agora com 52 anos.

Ele planeja um retorno do Capitão Presença, provavelmente em formato de graphic novel. “Quais são os verdadeiros problemas do maconheiro médio no Brasil?”, pergunta o quadrinista, quando questionado sobre o que o super-herói enfrentaria no país em que estamos. “A maconha ajuda a relaxar e pensar, a ficar num modo que não é alienante, em um estado de espírito que é difícil de ser explorado pela extrema direita”, opina Arnaldo. Faz sentido?

O Capitão Presença hoje teria como inimigo a hipocrisia. “Achava que depois de vinte anos, não ia ser assim, que a coisa já ia ter baixado a bola e nem precisaríamos mais desse super-herói”. Parece que tem sido um tanto o oposto, né? Um Capitão Presença cairia bem para melhorar a brisa que paira em nosso país. “É um super-herói anticapitalista, contra a acumulação de riquezas. Ele vem dessa coisa da contracultura da maconha”.

Filipe Vilicic