
Liberdade de expressão, do corpo e da alma. Laerte Coutinho é sinônimo de liberdade desde a década de 1980, quando se tornou conhecida do grande público, primeiro como jornalista, e mais tarde como cartunista, aquela pessoa que fala o que quer, inclusive de assuntos tabu, despida de pudor e vestida de ousadia.
Assim como a arte, as drogas acompanharam o desabrochar de Laerte durante a vida, e formaram uma espécie de rede de proteção contra o tédio. Experimentar é o verbo que foi mais conjugado na trajetória de Laerte, e embora atualmente a artista esteja um tanto contida em suas experimentações, elas foram parte importante na formação da sua personalidade.
Laerte se sente parte de grupos que lutam ou se esforçam pra mostrar que a guerra às drogas é uma loucura, uma coisa que precisa ser superada por nós enquanto sociedade, e sempre foi pró-legalização de todas essas substâncias.
Nessa entrevista conduzida por Anita Krepp, jornalista da Breeza, Laerte fala sobre a dificuldade que tem para trabalhar fumada, conta que o primeiro ímpeto trans que sentiu foi na sua primeira sessão de ayahuasca, no começo dos anos 2000 na igreja Céu de Maria, do amigo e também cartunista, Glauco, e faz uma recapitulação da sua relação com as drogas ao longo da vida.
Se as drogas fazem parte da cultura humana, como elas fazem parte da sua cultura e formação?
Olha, eu já tive opiniões mais próximas desse tema. De uns tempos pra cá, de umas décadas pra cá (risos) eu tenho vivido de uma forma bem mais careta. Eu tomo um pouco de vinho, mas muito modestamente. A fase que eu usava mais, que eu fumava maconha, que cheirava cocaína, que eu transitava pelo universo de alteradores de consciência, alteradores de percepção, nem foi tanta coisa assim. Tomei daime, ayahuasca. São coisas passadas, eu não tomo há bastante tempo. E a interação com o trabalho também sempre foi muito problemática pra mim, mesmo. Quando eu usava mais intensamente eu não conseguia trabalhar com desenvoltura, do mesmo modo que eu trabalhava careta, então preferia sempre estar careta para trabalhar, para produzir meus desenhos, minhas ideias. Era um momento de exploração, de fazer algumas descobertas.
E a coisa com o trabalho, você ficava inquieta? Não vinha ideia?
Me deixava dispersa, muito dispersa. Eu já sou uma pessoa com dificuldade de me concentrar, organizar as ideias. Com alguma dificuldade eu faço isso, nunca foi muito fácil pra mim, eu sempre fiquei muito dispersa e desorganizada, então qualquer interação com substâncias perturbava esse pouco equilíbrio que eu tinha.
“Quando usava mais intensamente, não conseguia trabalhar com desenvoltura, do mesmo modo que se eu trabalhava careta, então preferia sempre estar careta para trabalhar, para produzir meus desenhos, minhas ideias”
Você já falava sobre descriminalização e de ter uma abertura em relação ao tema drogas. Como você se aproximou delas?
Foram aproximações diferentes e variadas, porque são também linguagens diferentes. Maconha eu devia ter uns 20 e pouco anos, não foi uma coisa muito jovem, tive contato por causa dos amigos e das turmas que eu andava. Cocaína também, mas veio bem mais tarde, eu tinha 40 e tantos já. A ayahuasca foi o Glauco que me chamou pra ir no Céu de Maria, a igreja dele, e eu tava bem próxima dele, eu tava com uma abertura boa pra esse tipo de experiências.
Como foi?
Foram duas sessões. O Glauco queria esticar a coisa e fazer dessa uma experiência mais longa, mas me dei por satisfeita com duas experiências que eu tive no daime. Foi interessante. Tinha uma parte que era visual, de sensações, que era muito forte, e outra parte que eles chamavam de mirações. São percepções e ideias conceituais que se apresentam, ângulos novos, coisas que a gente não tinha pensado ainda. Eu achei interessante, nesse primeiro contato com ayahuasca foi quando eu comecei a perceber de forma mais importante a presença do gênero nas minhas investigações, a ideia da feminilidade virou quase uma coisa visível, e o Glauco veio me perguntar também o que tava acontecendo, porque eu tava com gestos e coisas assim, e ele falou vamos investigar isso (risos). Eu não investiguei muito mais porque ficou evidente pra mim que era uma busca no momento em que eu tava precisando disso, precisando de uma mexida na questão da expressão de gênero, foi quando eu comecei a me movimentar em direção à feminilidade, em dois mil e pouco [o ano].
Esse primeiro contato foi um primeiro contato ou foi mais uma entendimento completo daquilo? Você ainda ficou em dúvida?
Eu já vinha experimentando determinadas vivências, mas na área de orientação sexual. Eu tinha resolvido me aceitar enquanto homossexual, enquanto alguém que curte transar com homens, que era uma coisa meio tabu pra mim. Durante três décadas deixei aquilo tudo na gaveta, debaixo do tapete, eu escondi isso de mim. Nessa época eu já tinha resolvido abrir esse jogo e aceitar. Acontece que a parte de questionar o meu próprio gênero não tinha aparecido ainda e apareceu nessas idas à igreja do Glauco. Achei uma coisa importante de perceber.
Era uma conversa que você já tava tendo com você mesma, né?
Muito provavelmente. Tinha umas imagens que apareciam também, de você se ver como um animal que voa ou como uma planta que dá frutos, umas coisas carregadas de sentido, de interpretações, e ai é meio claro, frutos, voar (risos), são simbolos meio evidentes. Outros já eram mais obscuros. Saí pensando naquilo, matutando. Mas não tive vontade de prosseguir no uso da substância. O Glauco queria, convidou, mas dei a coisa por encerrada.
Pela intensidade?
Porque eu senti que tinha feito o serviço. Eu fico um pouco insegura quando eu tô alterada. Pra trabalhar é um horror, não consigo. Todas as vezes que eu tentei fumar para trabalhar, ver o que vai sair, não saía nada. Eu achava umas coisas maravilhosas, tomava nota, uma ideia sensacional, aí ia ver e não tinha nada de sensacional (risos), ou era uma coisa um pouco óbvia… eu fiz umas três histórias assim na vida que foram funcionais.
Você lembra de alguma delas?
Era uma história de um zelador, meio boba mesmo, isso anos 80, acho. Uma história de uma página que o zelador tá ajudando uma pessoa que tá se mudando para o prédio, ele tá ali pronto pra dar uma mão, mas tudo que ele pega rasga, cai, quebra (risos). E no final o dono do apartamento conseguiu salvar uma coisa preciosa e o zelador ainda aparece, abre a porta e diz que está à disposição e nesse gesto ele quebra o negócio (risos).
E voltando um pouco, você lembra o animal que você viu no daime?
Era uma coisa com asas grandes e azuis. Não parecia um bicho que existe, parece uma coisa meio mitológica. O Glauco diz que tudo isso são bichos que existem num plano diferente. Eu não comprei muito essa vivência religiosa que o grupo do Glauco tem porque eu não sou religiosa, há muito tempo não sou religiosa.
“Não sei se a gente entra em contato com essas substâncias todas por alguma necessidade, e o processo de transgênero já era maluco o suficiente, eu tava vivendo um negócio pela primeira vez na vida de uma forma inusitada e desmistificadora”
Eu briguei um pouco com excesso de religiosade no daime no começo, você também brigou com isso?
Meio que separei as esferas, porque eu sabia como a turma do Glauco trabalhava com o daime e eu fui lá sabendo disso e pronta para respeitar totalmente o modo deles agirem, então eu me integrei ali, tinha um negócio de dançar, de separar homens e mulheres (risos). Achei tudo respeitável e entendi porque faziam daquele jeito e não teve problema, eu só não incorporei a visão religiosa porque fui religiosa até uns 12, 13 anos, depois fui me afastando, não tem porque voltar, a não ser que eu tenha uma visão, mesmo (risos).
Você falou que o primeiro sinal que te apareceu a respeito da identidade de gênero foi no daime, em algum momento mais adiante no processo já do crossdressing ou depois no trans, você teve ajuda pra caminhar esse caminho com alguma substância?
Não, não. Eu fui indo na caretice, só tomando uns drinks de vez em quando (risos). Porque o movimento em si já me tomava inteira. Eu não sei se a gente entra em contato com essas substâncias todas por alguma necessidade, e o processo de transgênero já era maluco o suficiente, eu tava vivendo um negócio pela primeira vez na vida de uma forma inusitada e desmistificadora também, porque até ali, a pessoa que se travestia era uma coisa ridícula pra mim, era alvo de zombaria, objeto de ridículo, né, você se vestir como uma mulher sendo homem. O contrário, nem tanto (risos). As mulheres já tinham conquistado esse negócio há muito tempo, de se vestirem como quisessem, com calça, botina, camiseta, cortar o cabelo… mas para um homem se apresentar com roupas tidas como femininas era um negócio ridículo, pesado, difícil e e eu comecei de forma bem escondida isso, de alguma forma semelhante a usar uma droga. Eu me reunia com pessoas que faziam aquela coisa, que era ser crossdressing em eventos especiais. A gente se montava, se maquiava, era um grande barato. E quando terminavam, às vezes a gente ia pra um bar no Arouche onde fosse possível fazer essas coisas em público, e quando a noite terminava tinha o momento de chegar em casa e desmontar, um momento meio melancólico, assim, de retomar uma normalidade. Então toda essa vivência tinha de alguma forma uma relação próxima a usar drogas, usar uma coisa que é proibidida, que é vista como um problema. Mais adiante eu liberei a minha franga, e resolvi viver inteiramente dentro dessa feminilidade.
Tem uma boa parte da comunidade homossexual que usa a cannabis pra lidar com o processo, pra lidar com tudo o que tem que lidar ao se assumir…
Sim, mas aí já não fazia mais parte, como não faz, né, parte das minhas experiências possíveis, o uso de qualquer coisa alteradora de consciência, nem bebida eu uso. Eu tomei meus porres e passei minhas rebordosas mais jovem. Acho que é ficar véia mesmo (risos).
Mas isso de ficar véia, cannabis faz muito bem na terceira idade…
Pois é, eu acho que tô numa idade, num contexto em que a cannabis tem a sua contribuição a dar na forma de extrato de cannabis, de canabidiol, formas sem o efeito, sem THC. Isso, sim, eu tenho usado, e é positivo. Um extrato… (mostra o vidrinho) …me trouxeram isso de fora, isso não é um medicamento (risos), aliás, na caixinha eles avisam que não é medicamento (risos). Vem trazido por amigos e amigas dos EUA e esse canabidiol pra mim tem sido positivo no sentido de pacificar um pouco a minha ansiedade, me ajudar a ter um sono mais equilibrado e reparador, então eu tenho feito o esforço no sentido de me prover de canabidiol no Brasil. Eu tive uma consulta com uma médica que me indicou algumas opções, mas não é muito simples, né, porque é visto ainda como um tabu.
“Acho que tô numa idade, num contexto em que a cannabis tem a sua contribuição a dar na forma de extrato de cannabis, de canabidiol, formas sem o efeito, sem THC. Isso, sim, eu tenho usado”
Você sente isso?
Acho que ainda é um país que vê qualquer coisa ligada à cannabis como um grande problema, porta de entrada (risos). Eu faço parte de grupos que lutam ou se esforçam pra mostrar que a coisa da guerra às drogas é uma bobagem, uma coisa que precisa ser superada por nós enquanto sociedade. Mostrar que o proibicionismo traz um prejuízo enorme social, econômico, cultural e tudo mais para o país e que a gente só teria a ganhar num ambiente de legalização. Não é descriminalizar, é legalizar mesmo. Eu faço parte de grupos que trabalhavam nessa direção, mas a gente ainda tá numa pré-história.
Pois é, o STF acaba de descriminalizar, mas quando será que a sociedade vai descriminalizar?
Pois é, acho que vai demorar um pouco ainda, o Brasil é um país ambíguo. A gente é tido no mundo inteiro como uma espécie de paraíso da permissividade, tem uma grande parada LGBT, tem carnaval de rua, as meninas vão peladas pra praia, e quando você vê o modo como a sociedade brasileira lida com a mulher, com a população LGBT, é de uma violência absurda, é um país onde se estupra muito, onde se assassina muito, onde se violenta muito, então é um país que funciona de maneira ambígua. No uso das substâncias, como a maconha, por exemplo, é a mesma coisa, existe de um lado uma permissividade muito grande, ´ah, não tem problema, não, tava lá fumando maconha´, mas ao mesmo tempo, ´tava lá fumando maconha´. Vira um carnaval de culpabilidade, de prisão, de penas, e se a pessoa é negra e pobre entra pelo cano mesmo. É um pais com vários modos de proceder.
Você sempre teve essa posição quanto às drogas?
Quando eu era mais jovem eu não politizava muito. Eu gostava de usar e sabia que era proibido (risos), não tinha uma posição pela liberação daquele negócio. Pelo que eu lembre, não era uma coisa muito comum as pessoas terem essa posição, politicamente defendendo que aquilo pudesse ser liberado.
Como foi viver os anos 70 em relação às substâncias?
Pra mim foi intenso mas eu acho que fazia parte de um grupo que viveu com relativa modéstia o uso de maconha. Eu não me sentia fazendo parte de uma grande revolução. Eu sentia que fazia parte de um movimento em aspectos que não tinham a ver com essas substâncias, por exemplo, na expressão artística. Sentia que fazia parte da mesma época que gerou a Tropicália, grupos de teatro como o do Zé Celso, fiz teatro amador no final dos anos 60, eu sentia parte de uma coisa geral e mundial no usufruto da arte. Quando comecei a fazer quadrinhos, então, aí que eu me senti realmente fazendo parte.