Reportagens

Cuidado para não recrear com o medicinal

Uso recreativo, lúdico, adulto, social, terapêutico; as disputas estão em aberto no campo das terminologias canábicas
24|10|24

Há dificuldade em determinar onde, afinal, termina o uso medicinal e começa o recreativo da maconha. Indo além, será que “recreativo” seria um termo certo? A proposta aqui é debatermos, entender o emprego de “recreativo” e das demais nomenclaturas que usamos para nos referir ao uso não medicalizado (ou não medicinal) da maconha, e quais os significados que carregam. 

A popularização do “uso recreativo”, importado do inglês, se deu pela imprensa, que em geral nem se perguntou se fazia sentido falar em uso recreativo de maconha; assim como nunca se falou sobre uso recreativo, por exemplo, de álcool. Polêmico que só, há alguns anos o “recreativo” caiu no ostracismo no ambiente mais intelectualizado da cena brasileira.

Recreativo, recreio, hora do recreio, escola, crianças, é uma infantilização da coisa. “Isso fez com que eu tenha evitado por algum tempo usar essa palavra, prefiro ‘uso adulto’ pra frisar até como forma da gente pensar numa psicoeducação”, conta Letícia Laranjeira, coordenadora da subcomissão de maconha e psicodélicos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e fundadora da rede Psicocannabis

Para Letícia, escolher determinadas palavras pode interferir diretamente na forma como as pessoas vão escutar. “Algumas palavras são carregadas de preconceito, o que me remete a uma memória ruim e automaticamente eu deixo de ouvir.” Soa familiar? É porque esse costuma ser o argumento de quem decide trocar “maconha” por “cannabis”, como estratégia para amaciar o interlocutor antes de fazer o chá revelação de que cannabis e maconha são a mesma coisa. Essa é mais uma discussão em aberto no campo do debate canábico de nomenclaturas e significantes.

Outra referência da cena que passou anos evitando “recreativo” é o advogado Emílio Figueiredo. “Eu brigava com quem usava esse termo, mudei minha posição depois de entender que foi cunhado pelo sociólogo Howard Becker há 70 anos, no artigo ´Tornando-se Usuário de Maconha´, onde ele descreve como os músicos de jazz faziam uso recreativo da maconha nas jam session para incrementar a criatividade”, lembra ele, que tem adotado “uso cultural”, pois engloba tudo. “Seja medicinal, terapêutico, ritualístico, recreativo, tudo é manifestação da cultura humana”.

NENHUM USO É UMA COISA SÓ

Para Renato Filev, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, “a coisa da linguagem é tão perversa que a gente demoniza algo que deveria ser bom, que é o ato de recrear”. Por isso, ele também dá preferência à utilização do termo “uso adulto”, de forma mais abrangente – que pode abarcar as esferas do uso lúdico, terapêutico, sacramental, ritualístico – e “social” quando são práticas coletivas, como a recreativa entre pares.

“Importante lembrar que rotular os tipos de uso só pode acontecer se houver a compreensão da tríade biopsicossocial que envolve a substância, o indivíduo e o contexto no qual o uso está sendo praticado”, observa Filev, completando que na maioria dos casos as finalidades também se sobrepõem, dificultando ainda mais uma categorização à risca. 

Em algumas práticas indígenas ancestrais, por exemplo, os indivíduos se sentavam em roda e faziam uma espécie de terapia do riso, contando historias, rindo e fumando madrugada adentro. Mas nem é preciso ir tão longe, a clássica sobreposição de usos acontece com aquela pessoa que sofre de insônia e tem como hábito queimar um baseado à noite para dormir melhor. Quem vai dizer se é recreativo ou terapêutico?

Esses usos que não cabem numa só caixinha são inerentes à natureza da erva, que muito antes da sua criminalização, e durante milênios, esteve incorporada integralmente à sociedade, sem a necessidade de separação dos potenciais terapêuticos, medicinais ou recreativos. Quem tratou de diferenciar os diversos usos foi mesmo a proibição, que há quase um século logrou também que a recreação, o lúdico e o prazer fossem reprimidos. 

“Enquanto isso, a produtividade extrema e a recusa do prazer viraram coisas a serem admiradas, uma lógica que não favorece nossa saúde individual e coletiva”, pontua a psicóloga, especializada em redução de danos, Maryane Grocelli. Apesar de não desgostar de “recreativo”, ela tem preferido “uso responsável”, que deixa subentendido o pressuposto de ter certa idade e estar bem informado a respeito das implicações do consumo da erva.

ALEGRIA É SUBVERSÃO

A origem etmológica de recreativo vem do latim e é derivada do vocábulo recreare, que tem a ver com divertimento, alegria, criar algo novo, dar vigor. “Coisas que também dizem respeito ao uso adulto”, analisa a farmacêutica Renata Monteiro. “Olhando etmologicamente e não culturalmente para esse termo, dá pra reinvindicar a palavra recreativo”, decreta ela, que gosta de usar como sinônimo o “uso consciente”. “Que é a nossa liberdade de colocar pra dentro do nosso corpo aquilo que a gente quiser, é a nossa liberdade de expressão.”

Renata, que, entre outras coisas, é também diretora científica do Instituto Jurema, com foco no estudo e desenvolvimento de psicodélicos, aproveitou para explicar de forma didática em que contexto e com quais substâncias o “uso recreativo” pode ser empregado nas práticas psicodélicas. “Tem substâncias que já trazem uma ancestralidade, como ayahuasca, cogumelos, cactus, aí é inapropriado falar em uso recreativo, porque as experiências podem ser muito mais profundas. Já o LSD e o MDMA são substâncias que não têm tanto contexto ritualístico ancestral, então já dá pra se falar em uso lúdico.”

Lúdico, aliás, é a terminologia preferida de Matias Maxx, jornalista e pesquisador da cannabis desde os primórdios. “Qualquer discussão sobre a regulamentação da maconha que não envolva o uso lúdico é racista, porque essa planta só tá por aqui, salvando criancinhas e voltando a ser uma grande commodity no século 21, porque muitas pessoas arriscaram sua vida, sua liberdade, pra manter essa planta viva. Esses são os grandes heróis da história.”

A discussão sobre o termo mais apropriado para falar de uso não medicalizado de cannabis é infinita, e a bem da verdade, também muito pessoal. Só não vale cair naquela de que todo uso é medicinal, né não, Max?. “Esse papinho de que toda maconha é terapêutica é uma tentativa de tirar legitimidade do uso psicoativo. Qual o problema do uso lúdico? A gente aceita uso lúdico do álcool, da carne, de comidas gordurosas, por que a gente tem tanto problema em aceitar o uso lúdico da maconha?”.

Anita Krepp