
Quando entrou na graduação de história da UFRJ, o então calouro Gustavo Maia lembra que não tirava uma coisa da cabeça: drogas. “Por ser maconheiro, como usuário, estando nesse lugar, durante a universidade sempre tive o objetivo de pesquisar sobre drogas. Nos trabalhos das disciplinas da faculdade, tentava colocar a maconha no meio”, recorda, na conversa com a Breeza.
No início do curso, o carioca pensava em se tornar professor, mas a ganja conquistou sua curiosidade de pesquisador. Interesse que perpassou as aulas e virou tema de seu TCC, no qual se propôs a estudar notícias antigas sobre a cannabis, em todos os seus tipos e usos. “Houve resistência da própria universidade, meu orientador me confidenciou que outros professores torciam o nariz, achavam que era coisa de ‘doidão’”.
Quando começou o levantamento do noticiário, notou que o que mais aparecia de pronto, o que já era pesquisado, era a abordagem pela história da criminalidade, com termos como “o rei da maconha”. Pela abordagem de Maia ser pioneira, principalmente quando se olha para um passado de mais de 100 anos atrás do Brasil, era difícil achar reportagens sobre o tema.
“Antes do início da década de 1920, quando eu pesquisava o termo ‘maconha’, surgiam resultados a ver com a ‘maçonaria’ (pela semelhança da grafia das palavras)”. Por isso ele optou por concentrar o TCC na segunda década do século XX. Ao aprofundar a pesquisa, focou ainda mais, no período democrático entre as ditaduras brasileiras de meados do século passado, abrangendo entre os anos de 1945 e 1955.
Com o tempo, Gustavo Maia foi se tornando craque na procura histórica pela erva. A precisão se tornou maior ao preferir palavras como diamba e pito do pango. A missão rendeu o livro “A Maconha no Brasil Através da Imprensa: Cânhamo, Cannabis, Pango e Diamba nos Jornais Antes da Proibição (1808-1932)”.
Por trás da fumaça da História
O jornalismo brasileiro ainda incipiente no século XIX publicava mais artigos de opinião do que propriamente notícias factuais. Imperava nas notícias uma guerra de narrativas, mas com maior tendência à demonização da cannabis. Enquanto lá por 1830 era comum que celebrassem as funções industriais da planta, o uso por lazer e religião era condenado, principalmente por serem hábitos do povo preto escravizado. Eram raríssimos os textos que celebravam as funções positivas de usos que hoje são classificados por alguns como recreativo ou espiritual. Na devida intensidade, não tão diferente de um Brasil de hoje, herdeiro dessa mentalidade.
A mentalidade racista imperava no Brasil e as proibições regionais, intensificadas por estados nordestinos, proibiam a diamba em códigos de conduta que cerceavam também direitos de negros se reunirem em público em mais de quatro pessoas, praticarem capoeira, dançarem. Obviamente, nenhuma dessas regras se aplicavam a brancos.
“O discurso desse período era carregado de proibicionismo, eugenia, dessa mentalidade do início da República, em que havia um esforço de embranquecimento da população, o que envolveu a demonização da planta”, avalia Gustavo Maia.




As notícias de hoje
Teve um momento em que o historiador pensou “preciso catalogar o presente, o que tá acontecendo hoje”. Diante da dificuldade de achar registros do passado do país, sentiu vontade de deixar um legado que facilitaria a vida de seus colegas no futuro.
Isso ainda era em 2019, pouco antes de concluir a graduação em História. Enquanto em suas pesquisas acadêmicas olhava para os séculos passados, começou a compilar também as notícias de hoje sobre a diamba.
Além de agregar as pautas do tema, queria dar visibilidade ao trabalho. “Já era inserido na militância, então achei que guardar esse agregador de notícias só para mim era uma perda, queria poder colaborar com as pessoas inseridas no mesmo rolê que eu”. Assim nasceu o Cannabis Monitor, site, perfil em redes sociais, e que teve filhotes como podcast e textos de colunistas. Na semana passada, estreou um novo site. Para fazer o próprio rolê dar certo, gosta de ressaltar que teve de contar com ajuda de gente ao redor, como sua companheira, amigos, o irmão, o cunhado.
Logo percebeu que apenas compartilhar as notícias não bastava. No podcast Maconhômetro, por exemplo, começou a trazer reflexões e debates, propondo a ótica proibicionista diante do noticiário brasileiro. “Incomodava muito a ingerência sobre as notícias. Monte de notícia merda, desinformação, mal escrita, mal feita.”
Com seu trabalho, Gustavo Maia se vê categorizando um período histórico que vai marcar a vitória de um lado em uma disputa de narrativas, e que quem sairá por cima é a legalização e, assim, a maconha, o mercado, a ciência e a nossa cultura canábica. Esperamos que, sim, ganhe o progresso, pois só temos a ganhar com isso.
Filipe Vilicic