
“A metanfetamina não ‘invadiu’ nossa comunidade, ela ocupou o espaço que políticas públicas, empregos dignos e redes de apoio nunca chegaram. Enquanto não resolverem isso, não adianta criminalizar a gente ou fingir que o problema é ‘falta de força de vontade’. Chemsex (expressão para chemical sex, o sexo químico) é só o sintoma. A doença se chama LGBTfobia, capitalismo selvagem e abandono da sociedade. Cura mesmo só com revolução e políticas públicas que enxerguem a gente como humanos, não como ‘problema’.”
Com a palavra, a Transcanábica, primeira consultora canábica trans do Brasil. Em poucas frases ela resume um cenário cheio de problemas que atingem a população LGBTQIAP+.
No dia em que é publicada esta reportagem, a Breeza marcará presença em uma roda de conversa sobre redução de danos na Feira Cultural da Diversidade LGBT+, promovida pela organização da Parada do Orgulho de SP (no domingo, dia 22, a Parada toma a Avenida Paulista, em São Paulo). Se ainda der tempo de ir, é gratuito, no Memorial da América Latina e, para saber como pegar seu ingresso, confira este nosso post no Instagram.
A conversa procura trazer a questão da redução de danos tanto em relação ao uso de drogas (sempre sem qualquer hipocrisia aqui na Breeza, pois sabemos que é prazeroso, mas que também traz seus riscos), quanto em relação a práticas sexuais. O médico Rico Vasconcelos, infectologista do Núcleo de Medicina Afetiva e do Centro de Pesquisa Clínica do HCFMUSP, será um dos presentes. Ele nos alerta: “Nós temos uma onda que em outros lugares, como no Reino Unido, já tem mais de 10 anos; em Nova York, um pouco menos; e, agora, de uns 5 ou 4 anos para cá, o Brasil entrou com tudo no que é esse fenômeno do uso da metanfetamina, associada ao GHB (gama-hidroxibutírico) em sessões de sexo grupal. Isso que lá fora eles chamam de chemsex”.
Segundo avalia, a presença do uso de drogas é maior entre a população LGBTQIAP+: “Tem dados epidemiológicos de que a frequência de tabagistas e bingedrinking (uso pesado de álcool) entre a população LGBT+ é maior, do que na população em geral. E aí existem várias hipóteses pra isso, desde uma forma de se entorpecer, já que tem uma vida mais difícil, mais dura por conta de aceitação, de homo e transfobia. E há também a hipótese de que uma vez ‘transgredindo’, de que você não está dentro da norma da heterocisnormatividade, torna-se mais fácil transgredir em outros pontos da sua vida, né?”.
Infelizmente, dados e números mais específicos e confiáveis sobre o assunto são escassos no Brasil. Porém, além da percepção empírica, é possível dizer que emulamos, mesmo que uns anos depois, comportamentos que, como pontuou Vasconcelos, começaram a ser vistos antes em Nova York.
O cenário
Aqui na Breeza não vamos dizer o que você deve usar ou não. O papo é reto e sem meias palavras.
Rebite, bola, tina, cristal, tem gente que até chama de crack dos ricos, pelo preço elevado em relação a outras drogas. A metanfetamina foi primeiramente sintetizada, acredite, no início do século passado como um tratamento para congestão nasal e problemas respiratórios. É, até ajuda com os dois, mas logo se descobriu que as consequências do abuso e do vício poderiam ser realmente terríveis. Assim, em 1970, a droga, já ilegal, foi classificada pelo governo dos Estados Unidos como uma das mais perigosas que há, ao lado de outras como anfetamina e cocaína.
O abuso começou a se tornar bem preocupante dentro da comunidade de homens que fazem sexo com homens (HSH) já nos anos 1990. O objetivo sexual se evidenciou, com a cristal logo sendo protagonista de festas e surubas.
Na última década, contudo, o problema se agravou ainda mais. Um estudo publicado no ano passado por pesquisadores dos EUA no International Journal of Drug Policy fez uma radiografia do cenário. Em países como a Inglaterra, onde se registrou o maior índice de uso, 23% dos HSH já usaram a substância. Na população geral, o problema também tem se agravado. Em 2022, estimaram-se em 2,7 milhões os números de usuários nos Estados Unidos.
Por ser uma droga de festas, os riscos envolvidos vão além dos efeitos diretos. “Devido ao uso de substância, a pessoa pode nem estar plenamente consciente e/ou apta a usar um método de prevenção de maneira consistente. Numa suruba, a camisinha já não é um método de prevenção que funciona muito bem, uma vez que, pra ser usada de forma consistente, o preservativo deveria ser trocado a cada troca de parceiro, o que não é nem um pouco viável”, diz o médico Rico Vasconcelos.
A droga acaba por expor as pessoas a diversas situações de vulnerabilidade. “Práticas como chemsex têm mais riscos de transmissão de ISTs, porque a gente considera que o risco está presente quando a pessoa faz uma prática com possibilidade de transmissão – fazer xixi na perna de alguém não é uma forma de transmissão de ISTs para quem está recebendo a urina –, mas uma relação sexual, dentro do contexto do chemsex, que muitas vezes ocorre em um contexto grupal, suruba, é uma situação com risco de transmissão, sim”, complementa o médico.
A questão, porém, vai além das ilícitas, que digamos que são as mais óbvias de serem vistas nessas situações. Como bem pontuou Vasconcelos, a presença de álcool e de cigarro também é maior entre os LGBTQIAP+.
Segundo dados da American Lung Association, organização cuja missão é salvar vidas melhorando a saúde pulmonar e prevenindo doenças por meio de educação, redução de danos e pesquisa, a prevalência do tabaco entre homens gays e bissexuais é entre 21% e até 71% maior, a depender do estado norte-americano; já entre lésbicas e mulheres bissexuais, fica entre 70% e 350% maior. Não há, porém, números referentes à população trans, o que mostra um claro preconceito na abordagem das pesquisas.
Segundo a organização: “Evidências mostram que se deve designar a comunidade LGBT+ como prioritária para o controle de tabaco (…) legisladores, organizações de saúde, ativistas LGBT+ podem reduzir o impacto por meio de políticas culturalmente apropriadas, pesquisas e estratégias comunitárias”.
A redução de danos
A política de redução de danos começou no Brasil, no final da década de 1980, encampada pelo Ministério da Saúde, justamente voltada à população LGBTQIAP+, tendo em vista que a política se iniciou para prevenir a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis. Alguns ministérios têm hoje essa população como prioritária para as políticas de redução de danos, como o Ministério da Saúde, o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania e o Ministério da Justiça.
”A gente tem uma tentativa grande do Ministério da Saúde de fazer uma abordagem diferenciada, a partir de 2018, com a chamada prevenção combinada do HIV e de outras ISTs, que entende que o melhor método de prevenção para cada indivíduo é aquele que o indivíduo escolhe e se considera capaz de usar de forma consistente. Porque não importa qual o método em questão, ele só vai funcionar se for usado com boa adesão”, diz o médico Rico Vasconcelos.
A partir de 2018, com a chegada da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição, uma das formas de se prevenir do HIV), o Ministério da Saúde começou a implementar políticas que dão maior autonomia para as pessoas escolherem quais métodos preferem. De lá pra cá, contudo, a incorporação dessa política pública foi heterogênea ao longo do país.
Afirma Vasconcelos: “São Paulo é um exemplo. O município de São Paulo sozinho dá conta de mais de 65 mil usuários de PrEP no Brasil inteiro, e a gente tem hoje 120 mil pessoas tomando PrEP no Brasil. Então a cidade de São Paulo desponta de longe na ampliação do acesso (…) Já em outros lugares do Brasil, nós vemos que não foi dado nenhum passo pra isso avançar e lá continua se falando ‘use camisinha e só’.”
Na cena desde 2016, a Tesãozinho Inicial, festa independente e itinerante, é voltada para pessoas LGBTQIAP+, mulheres e corpos dissidentes que tem como premissa o experimentalismo e a mistura de gêneros musicais. Pedro Athie, um dos fundadores e organizadores, vai direto ao ponto: “Uma política que fazemos é não aceitar na porta a entrada de líquido. Tanto por causa do loló e também pelo GHB e o Boa Noite Cinderela. Então a gente não aceita. Na porta, a gente aceita pequenas quantidades de drogas, mas grandes quantidades ou líquido, não, porque ajuda a diminuir o uso de loló, que é bem preocupante”.
Ou seja, droga, pode, contanto que com responsabilidades consigo e com os próximos. Tipo de festa que muitos, muitas e muites breezers curtem, né? Bom demais.
Mas aqui vale uma regra de ouro: só é bacana se faz bem pra quem tá envolvido. “Nosso desejo enorme é ter uma tenda de redução de danos e espaço para isso na festa, mas custa (…) a gente chegou já a fazer reunião com uma organização de redução de danos, mas isso sempre teve um custo. Ele não é alto se a gente parar para pensar, mas junto de todos os custos da festa, a gente não conseguia considerar”, compartilha Pedro Athie.
O correto seria que existissem políticas públicas que contemplassem essa necessidade. “O ideal é que fosse oferecido kits de redução de danos, com canudos limpos, saquinhos. E que tivesse uma pessoa que fizesse testagem”, comenta Athie. Mesmo sem recursos, a organização improvisa como pode, como na distribuição de cartilhas com orientações e informes sobre uso de substâncias, e com indicações de como as pessoas podem tomar cuidado em momentos de vulnerabilidade.
A Transcanábica complementa de forma certeira essas propostas ao apontar que “redução de danos para pessoas trans é comida na mesa e emprego com renda digna”. Diz ela, apontando o dedo para o mercado da cannabis e dos psicodélicos, mas em crítica que se estende a muitas, a quase todas as esferas da sociedade atual: “Se essa indústria quer falar em cura, que comece curando sua própria LGBTfobia”.
Ela sugere soluções, elencando várias possibilidades, como programas de moradia voltados a LGBTQIAP+, com cotas ou prioridade em programas como o Minha Casa, Minha Vida. “Moradia é redução de danos. Enquanto jovens LGBT+ estiverem na rua, usar drogas será uma estratégia de sobrevivência, não ‘escolha'”, afirma ela. “Para nossa comunidade, drogas raramente são sobre ‘diversão’. São sobre: tentar esquecer a rejeição familiar e social; suportar a disforia em um mundo transfóbico; enfrentar a solidão de quem foi expulso de casa”.
A consultora canábica ressalta métodos como kits de testes de reagentes colorimétricos, que podem evitar que se tome veneno achando que é droga; usar PrEP e PEP se transar sem camisinha; criar uma rede de apoio, pois “ninguém deveria morrer sozinho num apartamento porque misturou GHB com álcool”. A essência está em, em vez de condenar, perguntar: “Como posso te ajudar?”.
Conclui: “É sobre garantir que, se for usar, volte vivo para casa. Enquanto o mundo não mudar, nosso cuidado coletivo será a melhor proteção que temos”.
Reportagem: Gustavo Formenti
Texto e edição: Filipe Vilicic