Por Anita Krepp

Eram quatro da manhã quando tocou o alarme que Rafaela bota às segundas e terças – dias “preferenciais” para as incursões policiais na favela – para despertar a tempo de “sentir o clima do morro” e entender se aquele seria um dia normal ou se precisaria aplicar as “medidas de segurança” pensadas para os dias de invasão da polícia.
Às quatro ainda reinava o silêncio, interrompido às 4h30 por uma rajada, indicando que começava mais uma batalha cujo campo preferencial é sempre a favela. Mal sabia ela que seria a mais sangrenta da história do Rio, deixando mais de 120 mortos entre os quais, até agora, nenhum havia sido denunciado pelo Ministério Público, e muito menos condenado à pena de morte imposta pelo Estado.
Rafa desceu rastejando da cama até o quarto da filha de 15 anos, que é o menos seguro da casa, tirou a menina da cama e a levou rastejando consigo e um colchão até o quarto do filho mais velho, de 20 anos, que fica num lugar mais protegido de sua casa, no Morro do Alemão. “Joguei o colchão dela no chão, do lado do irmão, e botei ela para deitar, pra que pudessem terminar de dormir em paz”, diz, referindo-se a uma paz possível no morro.
Enquanto isso, seu marido colocava um abafador de som na caçula, Maria, uma criança neuroatípica de seis anos de idade que é hipersensível ao ambiente e aos sons. Estrela (apelido carinhoso de Maria) fica especialmente estressada em dias de operação policial no morro.
“Ela ficou desregulada quando acordou às 7h da manhã até as 6h da noite, com o barulho dos tiros. Bateu a cabeça na parede, está toda roxa, toda machucada”, assim como milhares de outras crianças atípicas que vivem em estado de guerra civil e sofrem ainda mais intensamente a violência que lhes é imposta pela chamada guerra às drogas.
Abafar o som dos tiros
Rafaela França é ativista canábica e líder comunitária no Complexo do Alemão, onde atende a mais de 400 crianças de 170 favelas através do NEEM (Núcleo de Estimulação Estrela de Maria), buscando atendimento e acesso ao tratamento com cannabis medicinal. Além do óleo, Rafaela presta assistência como pode às mães e famílias que chegam junto com a criança, dando ajuda no encaminhamento para vagas de trabalho e doações de alimento, roupa e abafadores, aqueles fones de ouvido mais potentes, capazes de abafar os agonizantes sons de tiro.
Como ativista, os pedidos de socorro não paravam de chegar, mas os tiros também não cessavam. “Consegui apenas mandar abafadores para as crianças do Chapadão e deixar minha casa como ponto de apoio para quem conseguisse chegar e pegar um. Muita gente só lembra na hora que o bicho pega”, recorda.
No dia seguinte à incursão desastrosa no Alemão, Rafa saiu de casa às cinco da manhã para atender ao apelo de mães que precisavam de medicamentos para seus filhos. “Eu tinha sete atendidas para distribuir remédios e a mais desafiadora era uma mãe na Chatuba, na Penha. Fui pelo alto, fora da linha de tiro, entreguei o medicamento e, na volta, fui encontrando outros ativistas pelo caminho.”
Rafa se juntou aos outros moradores que subiam até a mata para buscar e remover os corpos até a Praça São Lucas, onde foram enfileirados, a céu aberto, à espera do IML. “Quando cheguei na mata, o cenário era macabro, de destruição, eu nunca tinha tido um sentimento tão ruim, porque você via que os corpos foram torturados, não foi um confronto, eram tiros na nuca, à queima-roupa, ou seja, tinha a oportunidade de levar aquela pessoa cautelada.”
Medo é privilégio?
Mesmo diante do caos e do perigo, ela não parou. “O medo nos paralisa, e eu não posso ficar paralisada, meu papel é cuidar dos vivos”, diz. Entre as entregas de óleo, atendimento às famílias e articulação com os coletivos, Rafa ainda denuncia a negligência do poder público, que no asfalto faz parecer que tudo voltou ao normal.
“O entorno ficou em estágio 2, tudo fechado, mas no dia seguinte botaram a cidade em estágio 1. A galera da favela teve que descer pra trabalhar. Como deixar mãe passando mal em casa, filho sem escola, sem creche aberta e descer para trabalhar como se nada tivesse acontecido?”
Rafa orienta todas as famílias que utilizam cannabis medicinal a imprimir a receita e a autorização da Anvisa e pendurar na parede. “Porque, caso o policial entre durante uma incursão, ele vê que é realmente um uso medicinal”, explica. Ela própria já teve a casa invadida inúmeras vezes.
“Esmurram a sua porta, isso quando não usam uma chave-mestra, que abre qualquer coisa, ou descem pelas lajes e invadem casa de morador pra poder dar tiro”, diz Rafa, que cursa o 5º período de Direito com bolsa integral para poder, daqui a alguns anos, usar a lei para combater as injustiças contra a favela. “Eu já vi mãe vendendo casa pra poder pagar advogado pra filho, e eu acho isso muito injusto, por isso quero especializar em duas vertentes, projetos sociais do governo federal, e penal, que já tá na veia mesmo.”
Até se formar advogada, Rafaela seguirá advogando na prática pelo acesso de famílias periféricas à terapêutica da cannabis, como faz desde 2021. “O mundo da maconha é feito, em sua maioria, por herdeiros, ricos e privilegiados. Nos grandes eventos de medicina canábica, a gente não tem espaço de fala. E esse espaço seria essencial para captar novos médicos, para mostrar que existem projetos sociais precisando de socorro. Depois de um confronto policial, muitas crianças precisam mudar de óleo porque para de fazer efeito. É um trabalho contínuo”, explica. “Ter uma deficiência ou ser autista na favela não é o mesmo que em uma área sem conflito”.