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Eleições: A Cannabis Perdeu ou Ganhou?

Por Filipe Vilicic

Ao longo e no fim deste texto, o que alguns dos eleitos falaram em entrevistas para a Breeza e para o podcast Saindo da Estufa

Nas eleições municipais de 2024, mostramos como de 31 candidatos de frentes canábicas, apenas dois haviam se elegido, Leonel Camasão em Florianópolis e, em São Paulo, Marina Bragante, ambos para vereador. Um percentual abaixo dos 10%. Neste ano, a Kaya Mind rastreou 44 candidaturas, de 10 partidos distintos, com a bandeira da planta. A Breeza revisitou esses nomes (confira todos no link) e descobriu que 18 foram eleitos, numa porcentagem superior a 40%. É verdade que foi uma eleição cujos resultados assustaram de diversas formas, e aqui queremos entender o impacto para o cenário da cannabis.

O pleito teve vitória de peso da direita, com presença notável da extrema direita. É só abrir o noticiário ou as redes sociais para ver isso, não precisamos nos delongar. Ao mesmo tempo, teve essa vitória significativa das candidaturas canábica rastreadas pela Kaya Mind, e que nem representam a totalidade dos políticos que adoram a missão, ficaram de fora inclusive vitoriosos como Guilherme Cortez (eleito deputado federal pelo PSOL em SP) e Renato Freitas (PT, deputado federal pelo Paraná), ou que saíram derrotados das urnas, como Carlos Minc (PSB, deputado estadual no RJ) e Jean Wyllys (PT, para deputado federal por SP).

O que isso representa? A planta tem lado? É de esquerda? É de direita?

Sim, há quem defenda a legalização, principalmente quando se trata de uso medicinal e industrial, na direita e na esquerda. Guto Volpi e Mara Gabrilli, já entrevistados pela Breeza aqui no site, são exemplos. Porém, isso é raridade e, aliás, a ex-senadora Mara era candidata a deputada estadual, mas não levou. Também se pode argumentar que Tarcísio de Freitas, governador de SP, defendeu o uso medicinal e a adoção pelo SUS.

“Hoje a estratégia do Estado é de tentar esconder, criminalizar. Até hoje isso não conseguiu reduzir o vício em drogas em nenhum país, e criou uma série de outros problemas, como o tráfico. O primeiro passo é você mudar essa estratégia do Estado, tem de começar a entender que uma forma mais eficiente de você lidar com a questão é pela redução de danos, é pela conscientização”, Guilherme Cortez, eleito deputado federal (PSOL-SP), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 108

Agora, quando se pensam em quantidades de apoiadores, são raridades na direita, principalmente os que declaram publicamente o apoio, como aos usos medicinal e industrial. Já na esquerda, a pauta foi abraçado com maior amplitude e afinco. Nomes como Eduardo Suplicy e Erika Hilton, ambos reeleitos como deputado estadual e deputada federal por SP, são exemplos já de líderes da causa (e também foram entrevistados pela Breeza, como será o caso com a maioria dos citados neste texto). Mas dos 18 vitoriosos dentre o levantamento de 44 candidatos, feito pela Kaya Mind, todos são de esquerda ou, vá lá, centro-esquerda. E quando pensamos naqueles que ficaram de fora da lista da Kaya Mind, mais nomes de esquerda vem à mente, de Jean Wyllys a Ricardo Galvão e Ítalo Coelho, sendo Mara algo bem mais único no meio da direita.

“O que a gente quer? Que os egressos do sistema carcerário tenham um protagonismo na associação de cultivo e uso. Se Deus quiser, e Ele quer e nós tá correndo, vai ter muito associados e nós vai poder fumar nossa maconha na cara da classe média, branca, hipócrita”, Renato Freitas, eleito deputado federal (PT-PR), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 89

Também é notável que os movimentos anti-cannabis hoje em dia vem, aí sim, exclusivamente da direita. Ainda mais quando falamos de criminalizar todo o uso, mesmo o medicinal, ou ainda de punir e aprisionar o usuário. A temida PEC 45, que quer criminalizar a posse e o porte, é amplamente apoiada pelo PL, partido dos Bolsonaros (e de Guto Volpi, o prefeito de Ribeirão Pires). O mesmo PL está por trás de propostas de leis que preveem detenção para o consumo pessoal de substâncias ilegais, ou porte em espaços públicos. Em estados como Santa Catarina, a direita articulou leis locais que, por exemplo, multam a posse em espaços públicos. 

No mundo ideal, planta não deveria ter partido ou lado. Mas no Brasil, infelizmente não tem sido assim e é preciso estar atento e forte para os últimos resultados das eleições.

Em outra reportagem aqui da Breeza, debatemos como a planta não deveria ter vínculos com ideologias, ouvindo políticos como Mara Gabrilli e Leonel Camasão (ambas saíram sem vitórias nas urnas de 2026). Esse seria o mundo ideal e, pasmem alguns!, em países como nos EUA, onde hoje a direita reina sob a coroa autocoroada de Donald Trump, e que é de admiração da nossa direita aqui, tornou-se passiva a necessidade de legalização da cannabis e de psicodélicos, inclusive dentro da mesma direita. Ah, já tratamos disso em outros momentos aqui na Breeza, como na reportagem deste link.

“Legalizando a maconha vamos ter uma sociedade menos criminosa e menos chata”, Erika Hilton, reeleita deputada federal (PSOL-SP), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 22

Não podemos ser inocentes, é preciso compreender que, em uma eleição divisiva, inclusive dentro da cena canábica, e num mundo que virou barril de pólvora com o pavio aceso, há muito mais em jogo do que uma planta. Só que politizar até uma erva mostra o cenário polarizado (e há reversão?) em que se encontra o país, em que qualquer assunto tem de ser colocado em um lado do conflito ideológico bélico que enfrentamos, até mesmo flores que crescem naturais nos quintais e que são boas pra saúde, pra economia, pro mercado, e pra momentos de lazer. Afinal, a cannabis tá aí pela Terra há milênios, muito antes de existirem direita e esquerda.

Ao longo desta reportagem, reuni um pouco do que falaram e prometem candidatos que foram eleitos ou reeleitos, e que já deram entrevista aqui na Breeza e pro nosso podcast Saindo da Estufa. Assim agora ficamos no pé deles para cumprirem com os compromissos com os eleitores que apertaram o verde pra eles na urna.

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“A favor da legalização e da regulamentação por uma política que, evidentemente, consiga reverter esse cenário da chamada Guerra às Drogas, que é, na verdade, a guerra aos pobres, né? Então, sim, a favor de um processo de regulamentação antiproibicionista”, Glauber Braga, reeleito deputado federal (PSOl-RJ), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 86

“Meu Deus é um cara maneiro, que defende a legalização com responsabilidade”, Anielle Franco, eleita deputada federal (PT-RJ), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 78

“Se eu fosse policial hoje, não levaria para a cadeia um cara fumando um baseado”, Alberto Fraga, reeleito deputado federal (PL-DF), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 57

“A pauta canábica no movimento antiproibicionista é uma minoria, conto nos dedos de uma mão deputados federais ou senadores que falem disso, que não têm medo da palavra, do termo legalização”, Sâmia Bomfim, reeleita deputada federal (PSOL-SP), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 16

“Melhor legalizar e tirar da mão do tráfico, do poder paralelo”, Pastor Henrique Vieira, reeleito deputado federal (PSOL-SP), para a Breeza e pro Saindo da Estufa nº 8

“É fundamental democratizar o acesso à maconha”, Eduardo Suplicy, reeleito deputado estadual (PT-SP), para a Breeza e pro podcast Saindo da Estufa nº 5

“É uma pauta que ultrapassa divisões ideológicas porque trata, antes de tudo, de saúde pública, qualidade de vida e acesso ao tratamento”, Caio França, reeleito deputado estadual (PSB-SP), para a Breeza

“Vou garantir a fiscalização adequada para que o acesso fácil e rápido aconteça para todas as famílias que fazem uso da cannabis medicinal”, Marina Bragante, eleita deputada estadual (PSB-SP), para a Breeza