
Sônia Guajajara é uma força da natureza que leva esperança e luz a um Congresso tão obscuro. Dizer que ela é pioneira exige um exercício de pleonasmo: foi a primeira indígena a integrar uma chapa presidencial, como vice da candidatura do Boulos em 2018; primeira deputada federal indígena pelo estado de SP, em 2022; primeira ministra indígena, ao assumir o post no Ministério dos Povos Indígenas, em 2023; tida pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do planeta, e pela BBC como uma das 100 mulheres mais inspiradoras. Na conversa com Filipe Vilicic, editor da Breeza, ela se mostra resiliente como sempre para estar na linha de frente contra os proibicionistas e os repressores.
Nas últimas eleições, foi reeleita como deputada federal pelo Psol de SP, mas nos diz que teve dificuldade de comemorar, aflita que estava com a possibilidade de Flávio Bolsonaro se tornar presidente. No segundo turno, com a vitória do Lula, foi para a varanda do seu apartamento gritar: “Bolsonaro nunca mais!”.
Para Guajajara e os indígenas, a vitória de Flávio representaria um perigo direto, pois voltaria ao governo o pessoal que quer passar a boiada, desrespeita a cultura, as reservas e as aldeias dos nativos, e tem vontade de ver os EUA colonizarem o Brasil, como fizeram com os seus há 500 anos. Tanto que, após a derrota e fuga do candidato do clã Bolsonaro, começaram os relatos de agressões de bolsonaristas a minorias e pessoas vulneráveis Brasil afora. No Mato Grosso do Sul, indígenas foram atacados, há investigações sobre mortes e ameaçaram até envenenar a água das reservas, o que vitimaria inclusive crianças. A deputada saiu em defesa, convocando as forças de segurança.
No papo também falamos de maconha, planta sagrada que é central nos costumes do seu povo Guajajara. E de terras raras, de como os EUA de Trump querem nos colonizar por dentro usando Big Techs, de como encarar o Congresso mais conservador e reacionário… olha, ao fim, eu me emocionei, não tinha como não, pelo privilégio de ouvir Sônia Guajajara nesta semana tão simbólica e histórica para o nosso país, justamente quando mostramos ao império do norte que o Brasil não vai voltar a ser colônia.
Deputada Sônia Guajajara, obrigado pelo seu tempo nesta semana tão histórica e decisiva pro nosso país. O domingo (de eleições presidenciais) foi de alegria, não simplesmente pela vitória do Lula, mas pela vitória da nossa democracia. Mas eu tô triste, chocado com a reação extremamente violenta dos bolsonaristas após a derrota. Algumas coisas eram esperadas, como a fuga do Flávio Bolsonaro, mas realmente fiquei deprimido pelo nosso povo ao ver cenas como do jovem que foi assassinado em Santos e dos ataques a mulheres nos metrô. E tiveram os ataques aos povos indígenas, o que está ocorrendo no Mato Grosso do Sul. Quero começar por aí porque é muito urgente essa questão: O que a gente pode fazer para ter resiliência, parar com essas agressões e voltar a ter paz neste nosso país?
Acho extremamente importante a gente trazer as impressões desse resultado histórico, é um momento realmente da gente reavaliar tudo tudo o que a gente fez até aqui, entender que nós estamos num outro momento, noutra realidade do que eram as eleições anteriores, um momento em que você tanto precisa estar muito próximo das pessoas, como também entender muito das redes digitais e saber manusear para o nosso bem. Saber utilizar essa ferramenta tão importantes de maneira positiva, porque a gente tem visto também muita dessa violência ser articulada nas redes sociais, muita dessa incitação ao ódio por meio das redes sociais, com fake news, com mentiras que chegam nos territórios e acabam alienando as pessoas.
Vejo hoje uma juventude que não está preocupada em se aprofundar em temas, estudar, discutir, entender, para divergir de maneira saudável. Não, não está. As pessoas vão pelas manchetes das fake news, vão pelas mentiras que tentam pregar relacionadas a mudanças, porque acho que nessas eleições teve muito essa questão de mudança. Tem que mudar, tem que mudar! Então, mas as pessoas não tavam querendo saber o “mudar para o quê?”. Porque tava muito na cara, escancarado, a mudança que Flávio Bolsonaro prega, e pregou durante toda a sua campanha. Porque uma coisa é você querer mudar apresentando propostas executáveis, possíveis, e Flávio Bolsonaro trouxe muita coisa só para lacração, de mudança que não fazia nenhum sentido, que não é executável pelo sistema administrativo burocrático que a gente tem. Então, é preciso mesmo desburocratizar a máquina pública para tornar políticas públicas mais factíveis, de forma mais ágil, né? O que a gente tem hoje não dá para ser, mas tudo requer tempo, requer transparência, requer prazos. Ah, você vai ter um um SUS no modelo Einstein (promessa do Flávio Bolsonaro)… mas como vai ser isso? Precisa de um concurso público para aumentar os profissionais, precisa de licitação, prazo, publicação de edital, então tudo requer um prazo grande para poder mudar. Não é assim, ah, vai ter um modelo Einstein, e o povo já espera que janeiro mude tudo. Então, você vê que é uma proposta só para enfiar isso na cabeça das pessoas, as pessoas entendem que vai ter essa grande mudança e aí começam a apoiar. Você vê que foi proposta de lacração, em meio a coisas absurdas que foram colocadas ali.
As pessoas, muito alienadas, deixam se levar por isso e aí acabam defendendo. Então é isso, eu acho que tem que ter mesmo uma mudança profunda, mas tudo isso é com estabelecimento de prazos, médio, longo prazo, pra gente melhorar o nosso sistema, desburocratizar mais e ter políticas públicas mais acessíveis para a população. Então, é inaceitável que a gente tenha chegado nesse nível de ter uma disputa eleitoral com o presidente Lula, no nível que ele é, nessa disputa com uma pessoa que é tão, tão pequena, irrelevante pro país. É um negócio que realmente dá raiva, né? E aí antes tinha direita, esquerda, sempre existiu isso, sempre tivemos dois lados, sempre houve divergências, mas sempre foi possível construir. Agora entrou no meio aí o bolsonarismo, que nem é direita, nem é esquerda. É um bolsonarismo raivoso, é um bolsonarismo revoltado, é um bolsonarismo cheio de ódio e que mata. Bolsonarismo mata!
O bolsonarismo hoje divide as pessoas e entra na casa das pessoas, impacta de forma negativa absurda. A gente já esperava que esse bolsonarismo pudesse ter essas reações, porque é um povo também que não consegue aceitar resultado de eleição, não consegue. Começa a contestar, e Flávio também fica alimentando isso, ficou alimentando que é questionável, não sei o quê, né? Isso acaba incitando essas pessoas, que não têm um aprofundamento político, a praticar atos de violência como esse, a ficar atacando, a ficar ameaçando. E é muito perigoso. Nós estamos realmente num momento perigoso no Brasil por ataques dessas pessoas a quem não concorda com suas opiniões. E isso realmente é muito grave. E vejo como grave todos esses crimes que aconteceram, assassinatos, ameaças e ataques como estão acontecendo agora em algumas partes do Brasil. E aqui destacando os Guarani-Kaiowá, com ameaça até de envenenamento da água que o povo bebe. Isso é muito absurdo!
Pelo meu mandato, acionei o Ministério da Justiça, com as forças de segurança, a Força Nacional, a Polícia Federal. Acionei também o governo do estado para entrar ali em atuação para impedir que esses absurdos sigam acontecendo. São coisas pontuais, coisas momentâneas que a gente tem que fazer de forma prática. Mas a gente precisa continuar fazendo política, a boa política. Nós precisamos continuar debatendo o projeto de país. Nós precisamos continuar com projeto de formação política para as pessoas saírem dessa onda violenta, porque política não é isso, não é para ser violenta, não é para ser esse divisor entre as pessoas. Agora é pensar mesmo a médio e longo prazo. No curto prazo, é acionar as forças de segurança, os órgãos responsáveis para conter essa violência, penalizar culpados, mas no médio e longo prazo a gente precisa nos organizar mesmo para preparar um projeto de país conjunto, com o governo federal, hoje com o presidente Lula, a sociedade civil por meio dos conselhos, e discutir políticas reais, participação real das pessoas, para que a gente possa, de fato, ter políticas públicas que atendam as necessidades do nosso povo.
Quando a gente estuda história, parece que esse tipo que atacou os indígenas, esse tipo que tá atacando as mulheres, os mais vulneráveis, os gays como foi em Santos, sempre existiram no Brasil, parece que sempre teve aí, desde a invasão lá dos portugueses. Como é que você descreveria o perfil dessas pessoas que fazem isso? Assim, até pra gente tomar cuidado no dia a dia.
Eu vejo hoje pessoas muito alienadas, pessoas que buscam um enriquecimento fácil. Você pode ver que todas essas pessoas estão muito obcecadas, né? As pessoas estão muito alienadas e estão acreditando no enriquecimento fácil, como esse fenômeno das redes sociais têm promovido, com algumas pessoas, nesse alcance, de influencers, acreditando que não precisa de uma formação e que consegue ganhar dinheiro. As pessoas estão esperando isso, estão esperando um acesso fácil, desburocratizado ou sem trabalho, ao dinheiro, porque eles só falam realmente em dinheiro, né? E aí eles trazem essa pauta da prosperidade, dentro dessa percepção que prosperidade é enriquecimento financeiro, e aí as pessoas estão acreditando que é possível isso. Mistura com essa questão das bets, que muita gente joga acreditando que vai dar certo, que vai ganhar, e aí acabam também ficando depressivos porque não dá certo e acabam se revoltando. A gente tem aí um perfil de pessoas que estão muito obcecadas por se dar bem na vida de uma maneira fácil e, não conseguindo, geram uma revolta em si que descontam nas outras pessoas. É uma onda raivosa que realmente exige cuidado, a gente procura tá sempre em segurança, porque essas pessoas reagem no impulso. Qualquer sinal de que você tem uma posição política diferente deles é um risco, né? Você não pode estar andando de vermelho, você não pode fazer o L, você não pode… sei lá, muita coisa que a gente não pode fazer, que fica como sinais de que é contrário, e aí isso já gera esse impulso de ataque. É realmente preocupante.
Sim, muito preocupante. E falando no que é preocupante, eu vi um vídeo daquela série Revelando, que foi sensacional durante as eleições, e que traz uma entrevista do general Santos Cruz, que foi ministro do Bolsonaro, e ele nos avisa no vídeo de como os Estados Unidos agora estão usando a família Bolsonaro numa tentativa de nos colonizar por dentro. Como deputada, como líder indígena, como a senhora vê a potência do ocidente, os Estados Unidos, mesmo sendo uma potência decadente, querendo nos colonizar por dentro com armas como as Big Techs, a Meta, o Instagram?
Olha, te confesso que eu tenho medo, sabe? Tenho até medo porque os Estados Unidos, aliado com um grupo político aqui que se curva aos interesses do imperialismo… a gente nem imagina do que eles são capazes de tramar. Não é articular, é de tramar, porque quem trama contra o próprio país, como eles tramaram e seguem tramando, articulando tarifaço aqui contra os próprios aliados deles, porque são contra empresários, são contra indústria, contra agronegócio. Se eles tramam contra os próprios aliados deles, imagina contra quem não é aliado. É realmente inaceitável esse tipo de comportamento. Mas a gente mostrou que o povo junto, o povo nas ruas faz uma diferença gigante, e o resultado dessas eleições foi muito prova disso. A gente enfrentou as Big Techs, enfrentou o Trump, enfrentou a própria família Bolsonaro, enfrentou a Meta, ali de um jeito muito dinâmico, inovador até. E bastou uma organização nossa para, assim, conseguir burlar ali o sistema, os algoritmos e conseguir ultrapassar.
Então, é muito perigoso. É um momento perigoso e essa ida do Flávio para o Estados Unidos para se juntar ali ao irmão foragido para tramar mais coisas contra o Brasil… a gente precisa estar muito atenta a isso. E no Congresso nós temos que continuar denunciando, denunciando esse comportamento inaceitável, porque Flávio tem o mandato dele no Senado, é senador da República e, assim como Eduardo perdeu o seu mandato por falta, por não está exercendo a sua função de parlamentar, com o Flávio pode acontecer o mesmo. A gente tem que ficar atento a isso, a essas ausências nas sessões, a esse comportamento de atentar contra o país e a gente seguir denunciando. É o que nós temos no momento, mas que é perigoso, é, porque os Estados Unidos estão com sede no nosso país, com sede em acessar as terras raras. Nós temos já aqui uma lei aprovada na Câmara, no Senado, e já sancionada pelo presidente Lula, que é para poder ter uma regulação da exploração dessas terras raras. Mas os Estados Unidos querem acessar a qualquer custo, a preço barato, levando matéria daqui pra lá para depois devolver com preços absurdos. Então os Estados Unidos tá com muita sede nas terras raras para fabricação de armas, para alimentar as guerras, que é o que tem também ali nos minerais críticos e estratégicos, esses elementos para fabricação de armas. E é lógico que eles estão de olho nisso, né? Então a gente tem de vigiar e se manter vigilante sempre.
Mesmo com o alívio da vitória do Lula, a senhora até mencionou que a gente tem que lidar aí com o que tá aí. E o que tá aí é um Congresso e Assembleias nos estados que estão tomados por conservadores, muitos reacionários, muitos partidários dos Bolsonaro. Como é que ficam as pautas progressistas, como dos povos indígenas, do ambientalismo, da bandeira da cannabis que a gente defende tanto aqui na Breeza, diante desse cenário do Congresso?
Ameaçado, né? Todas as nossas pautas seguem ameaçadas. Foi um alívio a eleição do presidente Lula, um fôlego que a gente tem, porque o resultado dessa eleição não é sobre um candidato que ganha, um candidato que perde, mas é o futuro do nosso país, é o futuro da nossa democracia. É a nossa soberania nacional, é a nossa liberdade, inclusive de continuar votando e escolhendo nossos representantes. É a nossa liberdade de continuar reivindicando, protestando até contra aquilo que a gente não concorda. Mas tem um presidente que escuta essa voz do povo e busca atender. Então a gente tem liberdade para isso, nossa liberdade de continuar reivindicando. Com Flávio Bolsonaro seria impossível até você reivindicar, você protestar, porque ele queria transformar tudo isso em organização criminosa, né? Porque Bolsonaro também já utilizou disso quando o presidente queria criminalizar qualquer movimento que viesse questioná-lo. A gente ganhar essa liberdade já foi ótimo, foi excelente com o presidente Lula, porque a gente tem um congresso reacionário. Eu não quero nem usar conservador, porque nós temos várias pessoas conservadoras, mas que são pessoas ali de bem e que a gente consegue conviver. Esse Congresso é reacionário! Essas bancadas tão aí somente para defender seus interesses próprios, não tão nem aí pro que é de interesse da população, nem aí mesmo. Tá cada um ali totalmente alienado, defendendo o seu interesse ou o interesse dos grandes, muitos ali que são deputados e achando também que já fazem parte dessa elite, dessa burguesia, e aí acaba votando contra a população. E aí eu digo isso até em relação às próprias mulheres, a gente tem aí o maior número de mulheres eleitas, a gente sonhou com isso, a gente brigou para isso, mas o número não quer dizer que nós temos uma maioria de mulheres aliadas. Porque tem mulheres ali que votam contra nós mesmas, que não defendem o interesse das mulheres, como foi o caso da igualdade salarial entre homens e mulheres que assumem as mesmas funções. Dez mulheres, pelo menos, votaram contra esta medida. Então você vê ali mulheres que votam contra.
Não é número, não é quantidade, mas é a qualidade, o compromisso e a pauta que essas mulheres defendem. Trouxe isso das mulheres para fazer esse recorte, mas a Bancada Ruralista, a Bancada da Mineração, a Bancada da Bala aumentaram significativamente, e nós vamos estar ali em uma minoria de representações, mas contando com a força do povo, contando com a força mesmo da sociedade civil junto com a gente, pressionando para aprovar aquilo que é de interesse da população, que é de defesa do meio ambiente, que é de defesa dos direitos humanos, e contra aquilo que realmente significa retrocesso. Eu acredito que é o momento tanto de nós, que somos esta bancada no Congresso, como do próprio presidente Lula contar com a força do povo para governar e para evitar retrocessos no Congresso.
E que nosso povo desempenhe aí o papel, né? É a nossa esperança.
É, eu acho que a nossa sociedade, Filipe, precisa assumir essa responsabilidade conjunta. Democracia não é somente ir lá e exercer o seu direito ao voto. Não é só colocar o voto na urna. É você acompanhar também a decisão do país, é você tá junto, é você reforçar os candidatos que você elegeu, cobrar os parlamentares e políticas públicas, leis que possam realmente beneficiar a população. Então, a nossa sociedade precisa entender isso, o seu papel também enquanto cidadão, enquanto cidadã, de acompanhar essa construção, essa execução das políticas, e assim fortalecer a democracia. Por isso tem que ser essa democracia participativa, direta, onde as pessoas ajudem a gente a exercer essa função que nos é dada. Acho que a sociedade conta muito, faz uma grande diferença, tem muita força, tem poder e a gente precisa contar muito com isso neste momento.
Falando aí da maconha, da cannabis, eu sei que ela tem papel central no seu povo, os Guajajara, em rituais, como medicina, assim como as plantas sagradas têm papel central nos povos indígenas. Conta para nós sobre como seu povo vê a planta, como vê a cannabis, e quais são os usos.
Filipe, o nosso povo Guajajara descobriu que a maconha não era legal muito tempo depois, que era considerada droga, né?, muito tempo depois, porque o nosso povo sempre usou a maconha como uma planta medicinal, como uma erva medicinal, assim como a gente usa tantas outras, o alecrim, o manjericão, alfavaca, e tantas outras plantas, como medicina tradicional. E a maconha, a gente utiliza para fazer pomada da flor, faz pomada tanto cicatrizante como relaxante. A gente usa o chá para dor de estômago, para cólica, para tantas outras coisas. O chá que é da folha verde tirada do pé na hora. A gente usa o óleo da semente, e o óleo é utilizado para 100 coisas, né? Como câncer, obesidade, stress altíssimo. E o caule, utilizado para fazer tecido, a gente não faz tanto o tecido porque não tem essa quantidade toda e também não temos os meios para isso, mas outros países utilizam para fazer tecido. E usa, sim, o cigarro da folha puríssima, da folha mesmo ali para os rituais, que é essa conexão com o sagrado, essa conexão com os encantados, para poder fazer os nossos rituais. É utilizado na festa da menina moça, é utilizado na festa dos rapazes. É utilizado em vários momentos, o cigarro mesmo da folha in natura, que você pega ali a folha, seca e prepara. Assim como no Nordeste se usa muito alecrim, se usa a jurema para beber também o chá, e tudo. Para nós tem ali muitas, muitas utilizações medicinais, de várias formas. E quando começa a criminalizar, ah, porque é uma droga e tal, você fica até meio perdido… mas como, né? Porque foi difícil para nosso povo entender isso, que que era uma droga, porque na verdade sempre foi uma planta medicinal, né?
E qual foi o papel que a maconha já teve na sua vida? Como ela te ajudou aí na na vida pessoal, da Sônia Guajajara?
Para mim, particularmente, não têm um efeito, digamos assim, transformador, mas tem na minha família, sabe, ao utilizar o óleo para determinadas enfermidades. Tem bastante na minha família, amigas, amigos meus que utilizam. E aí cabe a mim o papel de recomendar o uso, pelo que a gente já tem constatado dos benefícios. Agora você vê várias prescrições médicas feitas para muitos pacientes, e aí você tem a dificuldade de acessar aqui porque não tem, né?, porque não é legalizado e é todo criminalizado. Agora, a gente já tem essa autorização para uso medicinal em algumas situações e o plantio de uma quantidade limitada e tal, mas a maioria das pessoas, para acessar um medicamento, tem que importar dos Estados Unidos a preços absurdos, inalcançáveis para muitas pessoas. É muito injusto isso, você tem aqui como cultivar, como controlar de uma forma legal, criar critérios para utilização, e sem ficar dependendo dessa importação. Então, é muito injusto.
Sim, muito injusto. E a senhora assinou há pouco, acredito que em setembro, uma carta de compromisso pela legalização dos usos da cannabis, descriminalização dos usuários. Dos pontos que destaca na carta, quais são os mais urgentes?
Olha, a gente precisa descriminalizar, tirar esse preconceito que existe, essa associação ao tráfico, essa associação que as pessoas são bandidos, são sei lá o quê, tantas coisas que falam, né? Então eu acho que é descriminalizar esse uso, sabe?, e legalizar o plantio de forma controlada, com critérios para que realmente não seja mais um fator de comercialização pro tráfico. Se a gente tem um controle, se a gente tem regras claras, se a gente tem critérios, é possível, sim, a gente ter essa descriminalização e até ajudar a impulsionar tratamentos, do que as pessoas dependem, ajudar nisso. Então eu acho que começa por essa descriminalização e depois você vai vendo os outros pontos, de como avançar. Tudo isso precisa acontecer nesse âmbito da mobilização das pessoas, dos grupos que já fazem essa discussão, mas também no âmbito do Congresso Nacional, que é onde se vota e se aprovam leis. A gente precisa abrir esse debate no Congresso de uma forma muito concreta, muito séria, muito transparente com outros parlamentares, pra gente viabilizar.
Tem um ponto que é colocado na carta, e que pra gente aqui na Breeza é óbvio, mas não para todo mundo, de que a cannabis vai além dessa questão de mercado, de plantar, ela também tem impactos sociais e raciais, a proibição é discriminatória. Como abranger também esses pontos no processo de legalização e de descriminalização para não ficar só uma coisa de mercado, saúde, ciência? Como é que a gente faz até uma reparação histórica?
Primeiro é preciso entender essa questão do uso adulto. As pessoas que usam para uma conexão, uma calma, um relaxamento, muita gente usa para isso. E eu sei que muita gente usa e dá dinheiro para o tráfico porque é proibido. Porque no momento que não for proibido, acabou essa coisa de tráfico, né? Acabou! Então, o povo faz isso, trafica mesmo porque não pode, mas se torna essa questão acessível e legal, por que que vai traficar? É uma forma de você também acabar com essa criminalização que acaba chegando somente para as pessoas pretas e pobres. Pode olhar, não tem ninguém preso por uso de maconha ou por tráfico que é branco e rico. Não tem, não tem. Todo mundo que tá preso por alguma relação à maconha é preto, pobre, indígena. E indígena! Muitos indígenas que nem sabem que não pode, levam seu cigarrinho porque é da prática cultural, leva ali uma pequena quantidade para o uso pessoal, e aí dependendo do policial que pega, pode liberar ou não, porque mesmo aquele critério de quantidade (das 40g descriminalizadas pelo STF), isso tem cor e tem, né, classe, não é empregado o mesmo critério para todo mundo. Tem muitos indígenas que são presos por isso, e eu acho que seria necessário fazer uma reavaliação, sabe? De quem tá preso ali por um uso pessoal, e que é possível de rever o processo, porque tem muita gente presa injustamente por conta do uso da maconha. Eu não tô falando de quem tá preso por tráfico e que foi mesmo por isso e a pessoa precisa cumprir sua pena. Agora, tem muitos que estão lá que não é por tráfico.
Aí é porque foi pego na esquina com um baseadinho.
Muita gente por uma baseado, e no mesmo peso de quem foi pego traficando, sabe?
E não com o mesmo peso do que um homem branco como eu, talvez pego na balada cheirando cocaína.
Exatamente. É um tratamento muito injusto, muito desigual.
Não posso terminar essa entrevista sem perguntar para você como é que você se sentiu durante o primeiro turno das eleições. Porque eu fiquei com o coração apertado depois que vi que o Flávio tava, vamos dizer assim, na frente. E também como é que foi o seu domingo? O processo do domingo, porque eu fiquei acompanhando cada porcentagem, né? Como foi isso para a senhora?
Confesso que no primeiro turno eu fiquei ali totalmente impactada, estática. Eu não consegui comemorar a minha eleição, a minha vitória. Se eu tivesse perdido logo de cara e Lula ganhado no primeiro turno, ou ter saído na frente no primeiro turno, talvez eu tivesse comemorado mais, com certeza com muito mais emoção, uma reação mais feliz. Mas eu ganhando e Lula perdendo no primeiro turno, nossa, para mim foi uma derrota absurda, inaceitável, porque não dá, não dá de forma alguma para você comparar o que foi o governo Bolsonaro com o que foi o governo do presidente Lula, com tantos avanços, com tantas conquistas, com tantas coisas que a gente fez. O Ministério dos Povos Indígenas fez tantas entregas, né? Tantas entregas, uma diferença gigante na política indigenista. E aí as pessoas não enxergarem isso, sabe? E ficar ali no mesmo patamar ou perdendo para quem nunca fez nada…. é inaceitável! É revoltante! Só que a minha revolta é de ficar ali introspectiva e angustiada, não é de sair batendo, brigando com as pessoas. Eu tenho minha reação de revolta muito para dentro, que é diferente da deles (bolsonaristas), que se revoltam e vão pra rua matar, bater, espancar pessoas. E aí agora no segundo turno, sinceramente, eu queria gritar, eu queria contar aqueles décimos ali de diferença, um a um, olhando toda hora. E aí, quanto foi? 2, 5, 7, 9. Eu fiquei assim, contando um a um, celebrando e feliz demais, mas também ainda com um pouquinho de medo. Ai, meu Deus, será que vai? Será que volta? Mas quando deu, foi só alegria, e eu pulei muito, gritei muito, peguei meu megafone, fui pra varanda da minha casa lá em São Paulo e fiquei gritando. Bolsonaro nunca mais! Nunca mais um Brasil sem norte! Com megafone lá na varanda.
Porque na hora que Flávio passou do Lula, eu escutei gritos absurdos ao redor inteiro de onde eu moro, no Pacaembu (bairro nobre de São Paulo). Muita gente gritando, soltando foguete, de todo jeito. E aí quando foi na hora que a gente ultrapassou novamente, fui pra varanda e minha voz não teve eco nos arredores. E eu digo isso para registrar mesmo assim as regiões de São Paulo, o quanto que essas pessoas que tão ali nos seus apartamentos não tão preocupadas mesmo com o povo, não tão preocupadas com as pessoas. Para eles não faz diferença, sabe? Eles vêm contra Lula, mas não serão afetados pelo governo Bolsonaro. É diferente de nós, indígenas, quilombolas, pobres, periferia, é muito diferente, porque a gente é atacado em todos os níveis, diretamente. Mas se volta para uma ditadura como eles pregavam, se coloca a eleição para 8 anos, como ele já tava dizendo que ia defender, então todo mundo seria atacado, todo mundo.
Não adianta você pensar ali só no momento, se você vai ou não ser impactado, porque no futuro próximo, assim como é com a crise climática hoje, todo mundo de alguma forma é afetado por um governo totalmente ditatorial e retrógrado, como significaria um governo do Flávio Bolsonaro. Acho que a gente tá com um alívio, né? Temos 4 anos para fazer uma mudança real, mas uma mudança significativa mesmo na vida das pessoas, não uma mudança para retrocesso. Pra gente continuar o que a gente vinha fazendo, pra gente continuar avançando com políticas, com ações concretas nos territórios. E a gente tem que se dispor também a isso, né? A acompanhar, a construir, a estar junto. Fortalecer nossa democracia sempre.
A senhora foi ministra dos povos indígenas e agora o Eloy Terena tá lá na frente da pasta. A senhora se vê de volta no governo, já tem convite, espera estar no ministério?
Acho que eu fiz ali a minha parte de uma forma histórica, de construir esse ministério, de dar aqueles primeiros passos firmes. Defendo hoje a continuidade do ministro Eloy Terena, essa é a minha posição. Quero continuar na Câmara, eu não exerci o meu primeiro mandato porque eu decidi ir pro ministério, mas agora eu vejo a necessidade de continuar, até porque nossa bancada indígena diminuiu. Nossa Bancada do Cocar diminuiu na Câmara e não tem como eu sair neste momento que exige tanto a nossa presença ali para o enfrentamento que vai exigir esse Congresso. Então, neste momento, a minha posição é continuar na Câmara exercendo meu mandato de parlamentar. É a primeira reeleição indígena da história do nosso país, né? Então eu quero continuar a exercer esse mandato e honrar cada voto que eu tive, fazendo a boa política e defendendo essa continuidade do Eloy Tereno no Ministério.
Deputada Sônia Guajajara, muito obrigado pelo seu tempo. A senhora é uma força da natureza. Eu fico muito feliz, até emocionado aqui com brasileiro, de estar falando com a senhora e de ter a senhora de verdade no nosso Congresso neste momento, porque foram semanas muito difíceis. Então, muito obrigado por estar lá e por representar o nosso povo.
Tamos juntos, viu? Vamos seguir aí conectados, fazendo o que precisar ser feito pelo nosso povo, pelo nosso país.