
Tem notado como a maconha virou pauta incontornável? Com a onda da legalização, que chegou ao nosso país pela linguagem medicinal e esperamos que se expanda, o assunto passou a perpassar a saúde, o social, o bem-estar, as questões raciais, a preocupação com a desigualdade social e judicial… foi previsível a entrada da cannabis na política. Bom assim, pois dependemos dela para aprovar as leis que podem nos levar para frente na pauta.
Em entrevista recente aqui para a Breeza e para o nosso podcast Saindo da Estufa, a senadora Mara Gabrilli, conhecida defensora da cannabis medicinal e que nas eleições será candidata a deputada estadual, comentou: “A cannabis vai ser vedete nesta eleição”. Agora voltei a perguntar a ela, do PSD e considerada de centro-direita, sobre suas impressões sobre como a planta virou pauta da esquerda à direita.
Mara Gabrilli avalia: “A pauta deixou de ser encarada apenas sob uma perspectiva ideológica e passou a ser discutida como uma questão de saúde pública. Claro que ainda há muito caminho pela frente, mas hoje existe mais informação, mais pacientes organizados e mais parlamentares dispostos a enfrentar o tema com seriedade”.
Quem saía em defesa da maconha após o início da proibição após os anos de 1920 era historicamente a esquerda e os progressistas. Foram pessoas ligadas a esse lado do espectro político que criaram os primeiros blocos canábicos carnavalescos, as Marchas, movimentos de resistência na política, nas artes e nas ciências.
Só mais recentemente, na década de 2010, com a popularização da cannabis medicinal no país por meio da organização de mães de crianças que necessitam da planta como medicina, a pauta começou a ser abraçada pelo centro e pela direita. Os potenciais econômicos do mercado canábico também despertaram atenção dessas alas, assim como a observação da tendência estrangeira de legalizar o comércio e, assim, lucrar bilhões de dólares com ele.
Os ganhos para a saúde e para a economia quebraram os muros ideológicos. “Veja com bons olhos, com certeza todos tem seus interesses e objetivos, mas o principal é garantir acesso a quem necessita e desenvolver mais pesquisas a fim de ampliar as evidências científicas sobre os benefícios da cannabis”, opina o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP), ícone da esquerda e célebre defensor da bandeira da diamba.
O estado de São Paulo é um exemplo de (quase) pacificação do tema entre esquerda e direita, com o centro naturalmente aderindo. Tem nome o principal articulador desse cenário positivo e progressista: Caio França. O deputado estadual pelo PSB, partido que ele preside em SP e pode ser situado no espectro da centro-esquerda, nos fala que vê na concordância o caminho: “Só consegui avançar aqui em São Paulo porque consegui convencer políticos de todos os partidos na defesa da cannabis medicinal. É uma pauta que ultrapassa divisões ideológicas porque trata, antes de tudo, de saúde pública, qualidade de vida e acesso ao tratamento. Quando uma família encontra na cannabis uma alternativa terapêutica eficaz, pouco importa a posição política de quem está defendendo aquela política pública”.
Concordam, mas não tanto
Aqui na Breeza já contamos a história do prefeito do PL, partido dos Bolsonaros e de direita, que é pioneiro na defesa da cannabis medicinal na saúde pública. “Sou um grande divulgador da cannabis (…) tem prefeitos da esquerda, que não”, provocou Guto Vulpo, prefeito de Ribeirão Pires e que em sua cidade inaugurou a primeira clínica pública de cannabis medicinal, além de ter promovido recentemente um grande evento em torno do tema (leia e entrevista no site, ouça no podcast Saindo da Estufa).
Caio França usa essa história de exemplo de como direita e esquerda levantam a bandeira da cannabis medicinal. Ele, Suplicy e outros políticos estavam entre os convidados que discursaram sobre o tema no palco do evento em Ribeirão Pires. Para França, São Paulo mostra como é possível tornar ampla a aceitação da cannabis, em particular o uso medicinal: “Sou autor da lei da cannabis no SUS (do PSB, um partido progressista), e foi o governador Tarcísio que sancionou a lei, sendo que ele é de um partido conservador (o Republicanos)”. Porém, avalia que há obstáculos maiores no âmbito federal, onde crê que “temos muito a avançar em relação à representatividade (da pauta)”. “Eu diria que o nosso grande desafio é no Congresso Nacional”, resume.
No medicinal, esquerda e direita se encontram, porém, tendem a voltar a se desencontrar quando se amplia a discussão para além de narrativas mais higienizadas, como a do fim medicinal. Leonel Camasão, vereador por Florianópolis e pré-candidato a deputado estadual, concorda com a importância de haver harmonia na conversa sobre o tema. Porém, para ele, que é do PSOL (esquerda), a direita vê a planta de forma diferente: “Tem o lado do espectro político que quer fazer distinção entre maconha, que seria ‘a droga’, e a maconha-remédio, que seria a ‘cannabis’, como se fossem coisas diferentes. É uma dissociação cognitiva absurda, uma contradição imensa do lado da direita”. Justo sejamos, nem todos da direita sustentam essa distinção (Mara Gabrilli, em entrevista para Breeza, é um de alguns exemplos que já trouxemos aqui); mas vale, sim, como uma impressão mais geral.
Camasão ainda ressalta o uso eleitoral da pauta. Para ele, haveria candidatos que só levantariam a bandeira como forma de atrair votos para a legenda pela qual saem, servindo de escada para outros candidatos, aqueles com maiores chances de vitória. “Isso acontece com várias pautas progressistas, de servir de degrau para eleger outros e, muitas vezes, o eleito acaba sendo um fascista que acaba entrando no Parlamento”. Concorde ou não com ele, sempre é preciso mesmo se informar sobre quem votamos.
Se São Paulo é um estado que demonstra muita diplomacia entre esquerda e direita em torno das pautas canábicas, a Santa Catarina de Camasão parece um estado com muros e atritos maiores entre os lados. Exemplo desse contraste é que no SUS catarinense tem cannabis; mas usuários que forem pegos utilizando no estado são multados, o que já serviu de desculpa para penalizar até quem carregava dentro do próprio carro (vamos pensar juntos, nesse cenário, como ficam moradores de rua?; e dependentes químicos?; e pacientes da cannabis medicinal?).
O bom caminho é a conciliação. Ela é possível em Santa Catarina?
No mesmo estado de Camasão, que representa a esquerda, recentemente surgiu o movimento Podemos Cannabis Medicinal, de um partido de direita. Vai ser encontrado o caminho do meio? Essa é uma pergunta que perpassa por todos os estados brasileiros, sendo que em alguns o cenário é mais acentuado.
Assim também é em Minas Gerais, sendo que em BH recentemente foi aprovada uma lei que emula a catarinense, de multar usuários em áreas públicas. Mesmo assim, o pré-candidato a deputado federal Dário de Moura, o Dário 4e20, do PSOL (da esquerda), vislumbra que a saída para avançar com a pauta é o diálogo: “Não existe monopólio para esta pauta do uso medicinal da maconha, isso é uma ilusão. Muitas das leis de maconha medicinal são propostas por políticos de diversos segmentos e o que constatamos é a necessidade de permitir o acesso e o direito à saúde”.
Ainda assim, ele nota diferenças na forma como os lados tratam do tópico:
“Há três vertentes: a das pautas ligadas à cannabis medicinal; a do fim do encarceramento de pessoas jovens e negras; e as pautas regulatórias das empresas ligadas à produção do cânhamo industrial”. Para ele, o medicinal e industrial seriam defendidos por conservadores e progressistas, enquanto apenas os últimos puxariam os temas do encarceramento em massa, do racismo e da desigualdade social.
A senadora Mara Gabrilli opina sobre a cannabis ter se tornado bandeira da esquerda e da direita: “Quando se fica doente, não tem esquerda ou direita. Quando falamos de uma criança com epilepsia, de uma pessoa com dor crônica, Parkinson, autismo ou outras condições que podem se beneficiar desse tratamento, estamos falando de saúde, não de disputa política. Tenho dialogado com parlamentares de diferentes correntes porque essa é uma pauta que une pessoas em torno da ciência, da empatia e do acesso à saúde. O sofrimento dos pacientes não tem partido”.
Maconha sem partido! Afinal, diamba, ganja, cannabis ou como quiser chamar a planta, trata-se de um vegetal, uma dádiva da natureza, apreciada há milênios pela humanidade para fins de lazer, saúde, religiosos e industriais. Uma semente certamente não quer saber se você é de esquerda ou direita.