
Essa nossa entrevista é com uma figura que pode causar certa confusão nas sinapses. Guto Volpi, prefeito de Ribeirão Pires, é do PL, o partido dos Bolsonaros, da direita à direita da própria direita. Mas ele, veja só, apoia o acesso à cannabis, fez uma parceria com a Associação Flor da Vida e implantou um projeto pioneiro na cidade de Ribeirão Pires: a primeira clínica pública de cannabis medicinal. A clínica é bem recente, começou no ano passado, e já vem atendendo muitos pacientes em situação de vulnerabilidade.
Tem mais! No próximo sábado, 28 de março, Volpi e a Flor da Vida vão fazer, também na cidade de Ribeirão Pires, a primeira Expo ABC. Entrada gratuita, vai trazer conversas com cientistas e políticos, incluindo com o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP), que, aliás, é um nome bem associado à esquerda. O evento tem até o apoio de marcas ligadas ao chamado uso recreativo.
A conversa que o Volpi teve com nossos editores, Anita Krepp e Filipe Vilicic, foi gravada num estúdio da Breeza na ExpoCannabis, e numa hora foi até interrompida pela Marcha da Maconha passando. Aí o Volpi fala se toparia ir na Marcha, conta de porque a direita tá abraçando a bandeira da cannabis, defende que prefeitos da esquerda não fazem o mesmo que ele pela erva e responde até sobre o uso adulto – que alguns ainda insistem em chamar de recreativo. Uma coisa é certa, o cara não é de fugir das perguntas, confere aí.
Você também pode ouvir essa entrevista no nosso podcast, o Saindo da Estufa
Anita: A gente tá aqui com o Guto Volpi, do PL, partido da direita , mas que tem revolucionado o acesso à cannabis em parceria com a Associação Flor da Vida, na prefeitura de Ribeirão Pires. Enquanto alguns modelos de acesso a cannabis pelo governo acontecem via SUS, por compras e modelos de licitação de empresas etc. e tal, o Guto desenvolveu um programa com associações de pacientes. Isso é muito interesse e novo.
Agradeço a oportunidade de estar falando dessa experiência pública de uma cidade pequena, mas que tá praticando cannabis medicinal.
Anita: A primeira pergunta é: você sendo do PL, a cannabis é de esquerda, é de direita, o que está acontecendo?
Essa pergunta todo mundo faz, né? Mas é o propósito. Os resultados da cannabis são espetaculares. Inclusive, disponibilizo os vídeos do resultado deste trabalho com a Flor da Vida, para ter a consciência da importância de ter isso no sistema de saúde pública. Esse é o propósito, desde o começo, quando tive acesso ao trabalho do Caio (França, deputado estadual), da Frente Parlamentar, do deputado (Eduardo) Suplicy, das emendas pros projetos parlamentares da cannabis. E a gente teve a coragem de colocar isso em prática, foi a primeira clínica pública no Brasil, é um sistema híbrido. Tem o quadro associativo da Flora da Vida e a gente atende municipalmente uma galera lá. E tem ido super bem, não há judicialização, não onera em gasto com saúde pública, pelo contrário, a gente ganhou qualidade, tá universalizando o acesso pra quem não pode. Pois tem todos os critérios sociais para o acesso gratuito à cannabis.
Filipe: O senhor trabalha com uma associação de cannabis medicinal, ao mesmo tempo em que tiveram associações, inclusive em outros lugares do estado de SP, que foram invadidas pela polícia. Num dos casos, o delegado tinha sido prefeito pelo PL, o seu partido. Como você vê essa judicialização e criminalização das associações, invadidas com um pouco de show, gravações deles quebrando porta. Como vê esse caso e o caso de associações sendo perseguidas?
Eu quero que a cidade de Ribeirão Pires seja o exemplo para remediar esse tipo de conceito que se tem com a cannabis medicinal. Então nós estamos praticando pra isso, pra conscientizar partidos, políticos, sociedade, religiosos, dos benefícios para cannabis medicinal e no uso veterinário. O próximo passo que vem aí é pros pets da galera.
(a entrevista é ao vivo e passa, próximo ao estúdio na última ExpoCannabis, o pessoal da Marcha da Maconha)
Filipe: Passando aqui, numa poética, o pessoal da Marcha da Maconha. Interessante. Te colocou no meio da marcha, deve ser o primeiro político do PL no meio da marcha, né? Você iria na marcha?
Olha, já fui na do skate, defendo a cannabis medicinal. Tudo se torna muito polêmico, ainda mais nos dias de hoje . Ontem tive na Expo Tattoo, em São Paulo, a maior feira de tatuagem, e fui conhecer um projeto, a Oca Books, que dá a possibilidade, por IA, de qualquer um de nós nos tornarmos um autor autobiográfico. Infinitas possibilidades, estou levando pra Ribeirão, vamos colocar na feira literária, um produto feito por tatuadores. Olha que legal que é! Então, se você deixar de participar, se você se ausentar da participação que a sociedade civil tem, dificilmente tomará boas decisões.
Anita: Conta pra gente se o seu envolvimento com a cannabis chama a atenção de seus pares dentro do seu partido.
Sim, inclusive eu sou um grande divulgador da cannabis em todos os lugares em que vou. Na minha região temos um consórcio intermunicipal que reúne sete municípios da Grande SP, levei pro Consórcio do Alto Tietê. Tenho levado esse tema com o material que nós temos, na prática. Por que às vezes fica tendo uma narrativa ou suposição de resultados, ou judicialização do tema, ou alto custo disso, e eu vou desmitificando a cada par meu, independentemente de partido, com resultados e com prática. Isso é o mais importante. Antes ninguém praticava, ninguém tinha coragem, e eu tenho isso lá tudo relatado publicamente.
Anita: Conta um pouco pra gente dos resultados até agora.
Uma colinha intensa que usei na mesa (de debate, pouco antes da entrevista no estúdio da Breeza) com o (Eduardo) Suplicy, o Caio (França) e a Luciana (Boiteux), do Rio, deixo pra vocês todos os dados e os vídeos, para que a gente possa colaborar com a discussão, regulamentação e a legalização.
Filipe: E o uso recreativo, o por lazer? Vários estados dos EUA tiveram a legalização e lá a bandeira foi assumida pela direita. (Arnold) Schwarzenegger, (ex-governador), da Califórnia, dos republicanos, apoiando. Como vê o uso adulto?
Olha, eu acho que o Brasil está enfrentando dificuldades diferentes do que os EUA enfrentaram para legalizar o uso recreativo. A gente estava discutindo isso. A gente tem de priorizar: se o tema vai começar pela saúde, vamos mostrar pra sociedade os resultados disso. Aí vai ter a sociedade a favor pra entrar mais no tema do recreativo. É um tema que se torna mais polêmico no Brasil e que pode impedir a regulamentação daquilo que a gente tá querendo priorizar, a cannabis medicinal, veterinária. Se souber fazer passo a passo, tendo conquistas, a gente chega num consenso pra todo mundo, tudo legal.
Anita: Mas diga sua opinião pessoal sobre isso. A gente aqui fala sobre Redução de Danos…
Eu vi a cartilha (o nosso Guia da Boa Breeza), achei demais.
Anita: Quando mais a gente fala sobre legalizacao, normalização, a gente acha que tem de andar de mãos dadas para melhorar a nossa relação com a planta, tem maneiras de melhorar. Vamos te dar o Guia da Boa Breeza…
Obrigado. (há um corte de alguns segundos na gravação, por problemas técnicos) É o resgate histórico, cultural, se todos os princípios ativos de farmácia estão aqui na natureza. A gente tem de aprender tudo isso, voltar a dialogar com tudo isso. Por que a sociedade vai impor resistências, e se a gente souber dialogar… a gente brinca com isso: como é do PL e tem a pauta? Mas é acreditar nesse propósito, como eu acredito, das medicinas da floresta da natureza, que são um espetáculo, eu sou um defensor. E também é um ponto que está no calendário cultural da minha cidade (com a Expo ABC, que ocorre em 28 de março). Então, são iniciativas únicas que você não encontra em todos os lugares, mas que tem de servir para essa discussão para a liberação, a boa prática, o respeito aos ambientes.
Anita: Ouvindo assim, dá esperança. Quero saber como foi o seu entendimento sobre essa planta ao longo da sua vida. Foi tabu pra você?
Filipe: Já usou?
Nunca. Também não tenho ninguém próximo, como na família, que tenha precisado da cannabis. Mas foi quando me procuraram ainda, o Dr. Laerte (médico), militante, que prescreve na cidade, com a Dra Margareth, do Mackenzie, e me abordaram com essa pauta, eu fui me envolvendo com isso. Aí foi conhecer o trabalho do Caio (França), me envolvi politicamente com a pauta, e aí veio o trabalho da Frente Parlamentar da Cannabis e a coisa veio se desenrolando muito bem. Aí quando percebi que estavam discutindo, pensei, pera lá, alguém tem de pagar um preço alto pra ir pra prática. Aí eu me propus a por essa política pública na cidade de Ribeirão Pires e tem ido muito bem.
(passa a Marcha da Maconha nas proximidades do estúdio)
Filipe: Vamos deixar a Marcha passar com a mensagem deles.
Tem que ser.
Filip: A gente apoia isso na Breeza. O que falta pra mudar a cabeça dos seus pares de direita?
(por volta de 3min e pouco) Olha, eu não sei dizer o que falta, mas sei dizer o que faço pra dizer o que falta, a prática do que acontece. Meu trabalho na cidade de Ribeirão Pires é mostrar a todos, e não só de meu partido ou da direita, pois se encontra quem está lá no poder (de esquerda) e não pratica. Essa discussão tem de ser dita: tem prefeitos da esquerda que não colocam isso em prática! Tem de colocar, não foi uma bandeira que já se levantou? Mudar as pessoas é através de diálogo, exemplos e boas práticas. É isso que me propus a fazer, é isso que eu faço.
Anita: Qual é a continuação que podemos esperar para esse trabalho, que hoje atende 50 pacientes. Terá ampliação em 2026?
Eu estava discutindo aqui com Caio (França) o seguinte: O governo do estado de SP vai produzir cannabis, mas quem vai fornecer? Vai vir da onde? Vai plantar onde? Essa é a discussão que quero propor, chegou o momento de decidir se o estado vai produzir. Quer maior força e iniciativa do que isso? Se o estado está se propondo a fornecer, então quem vai produzir? De onde vem essa matéria-prima? E uma produção industrial, não se pode desprezar quem começou, que são as associações. Não se pode extinguir esse trabalho que foi resistente e está aí até hoje, tem avançado com força e luta da associação. E o governo agora fez esse papo gigante do Instituto Butantan ter a prerrogativa de produzir cannabis. E agora falta saber: quem vai fornecer e produzir isso aí? E tomara que seja a agricultura familiar, a economia familiar, as associações como a Flor da Vida.
Anita: Assim, Guto, sinto que você tá cada vez mais apaixonado pela pauta da cannabis. Pretende levar para outros cargos da política partidária ao longo da vida?
Essa foi uma bandeira que eu escolhi, posso até ter sido escolhido para ser um dos porta-vozes do tema. Escolhi, vou levar pra onde estiver. Como mostra nossa experiência na clínica, como de uma esposa, de um senhor com Parkinson, que falou que depois de 20 anos conseguiu ter a primeira noite de sono, e ele conseguir ter firmeza num copo de água pra esquentar no microondas e fazer um chá. As coisas simples da vida voltam pras pessoas que estavam acamadas, doentes. Então eu levo pra vida pública, pra vida pessoal, sempre. Mesmo sem nunca ter usado, sem ter na família alguém que tenha precisado. E espero que as pessoas não tenham que usar pra entender a necessidade de ter essa regulamentação, como eu entendi.