Por Filipe Vilicic

Uma planta de origem africana, cujo uso ancestral remete aos pigmeus, onde hoje é Gabão, Camarões e Congo, está conquistando Donald Trump. A ibogaína virou a estrela da vez por ser o destaque da ordem executiva que o presidente dos EUA assinou para liberar 50 milhões de dólares em investimentos para pesquisas com psicodélicos e provavelmente acelerar tratamentos. Usada costumeiramente para tratamento de dependentes químicos e criminalizada nos EUA, a ibogaína chamou atenção dos apoiadores de Trump por ter tido resultados com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que afeta veteranos de guerras, figuras amadas por lá. Vozes como do podcaster Joe Rogan, associado à direita, compraram a ideia da ibogaína e Trump cedeu, assinando um marco que pode abrir portas para o uso desse e de outros tratamentos de vanguarda com psicodélicos, principalmente para doenças que carecem de tratamentos.
“É um primeiro passo, vai liberar verba para pesquisa. Não é uma aprovação, mas pelo menos pediu essa receptividade e vai ter dinheiro”, avalia o médico, pesquisador e consultor em medicina psicodélica, Bruno Rasmussen Chaves. Referência mundial no campo, Rasmussen está na área desde 1997, já observou tratamentos de mais de 2 mil pacientes, e tem papel central em estudos pioneiros, como um da Unifesp com 75 de seus pacientes e que indicou que 70% deles permaneciam sem abusar de drogas ilícitas ou lícitas (como álcool) um ano depois do tratamento com ibogaína.
Rasmussen é referência no entendimento da ibogaína: “Fato é que os Estados Unidos estão um pouco mais atrasados no desenvolvimento dessa substância, do que países como o próprio Brasil, mais avançado nisso”.
Essa substância vem da raiz da planta africana Tabernanthe iboga, usada ritualmente, como na religião Bwiti. Nos anos 1960, descobriu-se que funciona para tirar a “fissura” de dependentes químicos, atenuando sintomas da síndrome de abstinência. No Brasil, ela não é proibida, fica em uma área cinzenta, pois nem é regulamentada como remédio, nem criminalizada. Para um paciente ter acesso, é preciso importar para uso pessoal. Mas assim também é permitido o estudo e o uso clínico.
Nos Estados Unidos, é proibida e estava estigmatizada pelo preconceito com o uso para tratamento de dependentes. Mais recentemente, porém, o cenário mudou pois começou a se descobrir como medicamento útil para outro transtorno que não tem hoje tratamento 100% aceito, o estresse Pós-Traumático, como em veteranos de guerras, que são figuras admiradas na terra de Trump. O tema seduziu a direita dos EUA, que a abraçou e levou Trump a assinar esse incentivo à pesquisa e meio que um parecer favorável à abertura a tratamentos.
Opina o físico e neurocientista Dráulio Araújo, professor e pesquisador no Instituto do Cérebro, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), e que estuda o potencial terapêutico da substâncias como ayahuasca e DMT: “A popularidade recente da ibogaína nos EUA vem principalmente de três frentes. A primeira é a agenda dos veteranos de guerra. A segunda é o peso político que esse tema ganhou em estados conservadores, sobretudo no Texas, que aprovou US$ 50 milhões para pesquisa clínica com ibogaína. A terceira é a atuação de figuras públicas e influentes, como Joe Rogan, lideranças republicanas e grupos de advocacy de veteranos”.
Na perspectiva de Araújo, o novo movimento dos EUA abrirá espaço também para outras possibilidades. “O texto fala em “psychedelic drugs” de forma ampla, priorizando substâncias que já tenham recebido “Breakthrough Therapy Designation” do FDA. Por isso, as candidatas mais óbvias são as que são dos programas com psilocibina para depressão resistente e depressão maior, além das ligadas ao campo do MDMA para TEPT”.
A ibogaína, porém, não é tão popular no Brasil, mesmo no conhecimento de nosso nicho, quanto é cannabis, ayahuasca, psilocibina, rapé. A Breeza vai explicar o cenário para essa substância, de uso ancestral, e que agora foi adotada pela direita e por Donald Trump.
A onda para se livrar de ondas piores
Psicólogo, doutor em saúde coletiva pela Unicamp e terapeuta psicodélico há 15 anos, Bruno Ramos destaca como ainda precisamos de mais estudos para entender o potencial terapêutico da ibogaína, mas que até o momento já é possível apontar algumas certezas: “O efeito de cortar fissura, a síndrome de abstinência pela falta da substância, atua na redução dos sintomas depressivos, tem intenso efeito neurotrófico, que reduz as consequências de concussões cerebrais e traumatismo crânio-encefálico. Esses sintomas estão todos presentes em muitos dos veteranos de guerra com TEPT, então a ibogaína tem mostrado efeitos positivos não só nos usuários de drogas, mas também em pessoas com traumas”.
Rasmussen destaca que a efetividade de 70% para tratamento de dependentes de cocaína, crack, álcool e alguns opiáceos, é “mais que o dobro do melhor tratamento disponível atualmente” (os modos tradicionais ficam com entre 10% e 30%). Na clínica, ele observa como o “paciente tem uma expansão de consciência (…) entende o tamanho do problema que está enfrentando e ganha com isso o estímulo para enfrentar”. O médico, referência no tema, destaca como essa efetividade é considerável também com pacientes depressivos e com stress pós-traumático. E existem suspeitas que possa funcionar com Parkinson e esclerose múltipla.
Há riscos, mas os pesquisadores defendem que são contornáveis e compensam a regularização do remédio. “Se usada com outras substâncias, estimulantes, opióides, outros medicamentos. O efeito cardíaco pode ser perigoso, com arritmia. Tem alguns casos de óbitos”, alerta Bruno Ramos.
Porém, os casos registrados até agora costumam ser de quando existe essa mistura de drogas e o paciente tem predisposições. Além disso, a ibogaína não é para todos, pois uma minoria, os com históricos de surtos, esquizofrenia, bipolaridade e similares, podem lidar com consequências negativas, como surto psicótico.
O caminho para evitar riscos e se apoiar nos benefícios é seguir a ciência e os protocolos apropriados para os tratamentos. Há uma variedade de precauções, mas a primeira é que a pessoa, como um dependente químico, tem de estar com vontade de fazer. O segundo ponto é que é fundamental que se pare com todas as outras drogas e com alguns remédios específicos. Um terceiro fator fundamental, é fazer em um ambiente onde, caso haja um imprevisto, existam recursos para lidar com os problemas, e isso envolve o médico e o local.
Opina Rasmussen: “Não é uma coisa para você passar o dia inteiro usando. Tem de fazer num ambiente com recurso, num hospital. Não é uma coisa para fazer numa clínica, numa chácara, num sítio. Não é. É uma coisa para fazer dentro do hospital com toda a estrutura, da mesma maneira que uma cirurgia”. Um dos riscos de a ibogaína estar num limbo da legislação brasileira, é que há muitas inadequações e não existem regras para pesquisa e uso medicinal, o que aumenta os riscos para os pacientes. Com regulamentação, estabelecem-se protocolos de segurança.
Conclui o médico, em um pensamento provocativo: “A mortalidade do tratamento com ibogaína é muito menor do que a mortalidade de usar droga. Tem mais chance de morrer e ter uma overdose trancado num hotel, cheirando cocaína o dia inteiro, fumando craque o dia inteiro, do que fazendo um tratamento de ibogaína”. O segundo, porém, pode fazer a pessoa se livrar do primeiro.