Por Filipe Vilicic

É só estar nas redes, ler notícias, quase que apenas estar respirando neste Brasil, para saber que o 1º turno das eleições deste ano foram dominadas pela direita. A presença massiva da direita, ainda mais aquela que vai mais ao centro, não é algo fora do normal na história do nosso país. Porém, desta vez houve outro espanto: a avalanche da extrema direita, aquela que na verdade muitas vezes é até difícil chamar de “direita” por nada ter a ver com princípios liberais ou republicanos, e na prática ser mais composta por gente fora do espectro democrático e que quer botar fogo no parquinho contanto que lucre muito com isso (chocolates e bets de Flávio; Vorcaro e tudo ao seu redor; Careca do INSS; pedindo pros EUA bombardearem o Brasil…). E o que tudo isso tem a ver com a Breeza? Tem tudo a ver.
Cannabis, cogumelos e a maioria das substâncias sobre as quais conversamos aqui, tirando aí as sintéticas, são frutos da natureza cultivados pela humanidade faz mais de 12 mil anos. E nisso é possível incluir tabaco, uva (vinho) e cevada (cerveja). Em tese, plantas não deveriam ser politizadas, eles crescem na terra, florescem, independentemente de quem estiver na presidência, e nos trazem diversos benefícios, dos usos industriais ao adulto, o para relaxar no fim do dia. Tem cabimento falar que uva é de direita ou de esquerda? Que vinho é de direita ou de esquerda? O mesmo deveria se aplicar à maconha.
Mas não é assim que nosso mundo funciona, principalmente desde o século passado, quando começaram a se proliferar leis globais de proibição a alguns desses frutos da natureza, selecionando o que não se podia usar de acordo com… quem usava. Já tratamos várias vezes dessa atrocidade aqui na Breeza, você pode conferir as reportagens nos links ao longo deste texto, não vamos nos delongar aqui. Na prática, as ilícitas foram criminalizadas como forma de perseguir e prender o povo negro, latinos (quando se pensa no cenário importado dos EUA) e pobres.
Foi aí que a maconha virou de esquerda, em particular aqui no Brasil, para a conversa que teremos aqui neste texto (nos EUA ou na Europa, é um tanto diferente). Tornou-se símbolo de resistência e progressismo.
Voltemos agora ao Congresso brasileiro e às Assembleias estaduais.
O PL, partido dos Bolsonaro, levou, sozinho, quase 23% de todos os votos no Congresso. Mais que a soma de PT, PSOL e Rede, os principais da esquerda. A direita mais extrema, como o PL e o Novo, agora representa 25% do Congresso, enquanto a direita mais moderada ficou com mais de 50%. E a esquerda? Apenas 23%. Quando se pensa no contexto democrático, é um desequilíbrio horrível e sintoma de uma nação popularizada, exaurida e que está com o pavio curtíssimo, em muitos sentidos.
A deputada federal reeleita Sâmia Bomfim, do PSOL, voz combativa da esquerda, nos pinta o cenário, em mensagem enviada a nós pelo WhatsApp, no calor do 2º turno: “O Parlamento exige diálogo e articulação para construir maiorias em torno de propostas concretas. Precisamos conversar com diferentes setores e buscar acordos que ampliem direitos e melhorem a vida da população, mas não podemos aceitar a retirada de direitos dos trabalhadores, das mulheres, da população negra e das pessoas LGBTQIA+, tampouco legitimar projetos que ataquem o meio ambiente, enfraqueçam a democracia ou comprometam nossa soberania. Com a extrema direita, nosso papel é fazer oposição firme”.
Mas como negociar pautas progressistas nesse cenário desolador? “Isso exige combinar a atuação parlamentar com a organização popular, a comunicação nas redes sociais e a presença nos territórios”, responde Sâmia. Para ela, o avanço da extrema direita impõe desafios enorme, mas “isso não significa que as pautas progressistas estejam derrotadas”. Acrescenta: “Nos últimos quatro anos, mesmo com uma correlação de forças desfavorável, conseguimos avançar em debates e barrar retrocessos quando a sociedade se mobilizou. Acredito que nosso papel é justamente convocar a população, os movimentos sociais, os sindicatos e as organizações populares para atuar junto com a gente”.
Mandei mensagem também a um ícone da esquerda que tem vasta experiência em levar progresso ao Congresso e às assembleias os estados: Eduardo Suplicy, do PT, ícone da esquerda, reeleito deputado estadual, ex-senador, ex-deputado federal, e certamente uma das figuras mais importantes da história política de nosso país. O que ele nos diz: “Temos que estabelecer um caminho que possibilite que pautas de teor mais progressistas e os avanços e contenção de retrocessos ainda estejam nas agendas das casas legislativas. É preciso diálogo com todos os parlamentares envolvidos, estaduais ou federais, pois será benéfico para todos do povo brasileiro”. Resta saber se o outro lado vai querer diálogo, ou se só quer pau, porrada, bomba, retrocesso e, convenhamos, lucrar com isso (como compartilhei neste vídeo no Instagram da Breeza).
Na bandeira da cannabis, Suplicy é otimista: “Há quem diga que a cannabis é o ouro verde. Não tenho dúvidas que parlamentares de diferentes esferas políticas estejam interessados em avançar nesta pauta”. Sim, a direita costuma se importar muito com lucro. Nos EUA, foi o “money, money, money” que fez o pessoal de Trump e cia aderir à legalização da maconha e aos avanços de estudos de substâncias como a ibogaína.
Um exemplo de como essa lógica funciona vem da pequena cidade de Ribeirão Pires, no interior de SP. Lá um prefeito do PL, Guto Volpi, promove a cannabis medicinal, inclusive quando inaugurou a primeira clínica pública dedicada a tratamentos com a planta. E para fazer acontecer, ele se uniu a parceiros como França e Suplicy, inclusive convidando esses nomes da esquerda para discursar em um grande evento do tema neste ano. Volpi já nos garantiu em entrevista: “Sou um grande divulgador da cannabis”.
Assim como já nos falou outra figura da direita, essa mais ao centro, e que se veste na bandeira da erva, a ex-senadora Mara Gabrilli (que não conseguiu se eleger deputada estadual por SP neste ano): “Quando se fica doente, não tem esquerda ou direita. Quando falamos de uma criança com epilepsia, de uma pessoa com dor crônica, Parkinson, autismo ou outras condições que podem se beneficiar desse tratamento, estamos falando de saúde, não de disputa política. Tenho dialogado com parlamentares de diferentes correntes porque essa é uma pauta que une pessoas em torno da ciência, da empatia e do acesso à saúde. O sofrimento dos pacientes não tem partido”.
Em São Paulo, um grande articulador das pautas progressistas, em especial da cannabis, é Caio França, do PSB, alinhado à esquerda e que foi reeleito deputado estadual. A ele coube, nos últimos anos, negociar com parlamentares de todos os lados, e com prefeitos como Guto Volpi, para tornar SP certamente um dos estados mais receptivos à ganja. Digo mais: não só em sua versão medicinal, mas da maconha como um todo, inclusive da nossa cultura canábica, já que em muito devemos a figuras como ele e Suplicy, que abriram portas para mega eventos dedicadas a defender nossa causa, como a ExpoCannabis. Sem o contexto político favorável, seria bem difícil que rolassem grandes encontros emaconhados como esse, com dezenas de milhares de pessoas.
A maior conquista de Caio França na bandeira da cannabis foi a criação da lei que permite o acesso a tratamento com canabinoides pelo SUS. Ele nos conta: “Sempre tive uma boa relação com parlamentares de diferentes espectros ideológicos na Assembleia. Acredito que essa é uma característica fundamental de quem exerce a política: saber dialogar, construir consensos e colocar os interesses da população acima das divergências partidárias e ideológicas. Foi assim que conseguimos aprovar a Lei da Cannabis Medicinal no SUS Paulista, após quatro anos de tramitação, demonstrando aos colegas de diferentes bancadas que estávamos tratando de uma questão de saúde pública, e não de uma bandeira ideológica”. Para França, ”essa experiência mostra que é possível avançar em pautas consideradas progressistas quando apresentamos argumentos consistentes, ouvimos diferentes posições e buscamos pontos de convergência”.
Aqui já trouxemos também para a conversa Carlos Minc, outra figura icônica da esquerda e que foi por 40 anos deputado estadual na Alerj, no Rio (neste ano do tsunami da extrema direita, não foi reeleito). Minc é outra prova de que é possível avançar com o progresso em meio aos conservadores e reacionários. Ele levou pacientes, associações, diversas pessoas diretamente impactadas pelos benefícios da cannabis até a Assembleia para que seus depoimentos convertessem os do outro lado para a causa. E deu certo. Não só, em quatro décadas foi responsável pela aprovação de uma penca de leis estaduais progressistas, sempre usando a arte do convencimento por meio de informação e bom-senso para angariar os votos da direita. Resumiu ele em nossa entrevista: “Eu tenho jeito de lidar com essa rapaziada aí, né?, mas é difícil”.
Aqui acreditamos na democracia e batalhamos por ela. Se assim é, precisamos entender que é preciso diálogo, debate, alinhamento de objetivos, para realmente conseguir passar as pautas progressistas, sejam nos estados ou lá em Brasília. Na prática, é explicar aos legisladores que progressismo é, afinal, progresso. E que ninguém deveria é querer andar para trás, dando pinta que tem saudade de eras medievais.
Este texto é publicado quatro dias antes do 2º turno das eleições. Seja quem for que leve a presidência no próximo domingo, terá de lidar com um Congresso dominado pela direita. No caso de Flávio Bolsonaro, os que glorificam o atraso, o andar para trás, são os parças dele, então estaríamos fadados à uma paralisia ainda maior do progresso em nosso país. Com Lula, seria outra história, teríamos lá em cima quem pode balancear os anseios retrógrados.
Voto com consciência e reduza os danos ao nosso país.