
A senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) é conhecida por defender a bandeira da cannabis medicinal, mas, nesta entrevista para nosso editor, Filipe Vilicic, vai muito, muito além na conversa. Ela dá sua opinião sobre uso recreativo, da microdosagem de cogumelos, diz que seus colegas no Congresso agem de “má-fé quando querem misturar o assunto com o do tráfico de drogas” e conta até de suas experiências de comprar maconha em dispensários legalizados.
É de sua autoria um Projeto de Lei que procura legalizar o plantio e a manipulação no país para usos medicinal, industrial e veterinário. Hoje com parecer favorável da relatora, a senadora Professora Dorinha Seabra (UNIÃO-TO), e pronto para votação na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, compartilha como parte de seus colegas no Congresso não apoia a questão por agir de “má-fé”, pois “muitos dos parlamentares nem pensam da forma como eles dizem pensar”.
A senadora conta diversas experiências para fins medicinais, por ser medicamento para lidar com os efeitos de sua tetraplegia, consequência de um grave acidente de carro que sofreu em 1994. E também se abre sobre o uso adulto, como em vivências em tabacarias na Suíça.
Mara é franquíssima e não foge das perguntas, avaliando ainda o processo de regularização pela Anvisa, os atrasos no Congresso e como médicos que se dizem contra a cannabis, a exemplo do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, na verdade seriam hipócritas e estariam é fazendo apenas marketing pessoal.
Se preferir, neste link você pode ouvir essa conversa no nosso podcast Saindo da Estufa
Senadora, você adotou a bandeira da cannabis, que também está conquistando muita gente e, com isso, pode trazer votos. Assim como é sabido que você faz o tratamento com o cannabis medicinal. Mas qual foi o momento, o acontecimento, aquela situação da vida que fez você comprar essa missão para você, como luta política?
A minha experiência pessoal acabou me conduzindo e eu acho que com mais um plus, pelo fato de eu trabalhar com doenças raras, desde que eu era deputada federal, desde o começo do mandato. E um pouco de contato com doenças raras, eu já tinha até quando era vereadora e secretária, que a gente queria fazer um compêndio de doenças raras, só que não adiantava porque ninguém vai aprender doenças raras na lei do manualzinho, né? É algo que a gente ainda luta, para que tenha uma disciplina obrigatória na faculdade de medicina, que seria a genética clínica, para que os médicos soubessem melhor sobre doenças raras para poder prescrever melhor medicamentos, porque a gente tá falando de doenças para as quais, na maioria, não tem nem remédio.
E a cannabis medicinal passou a ser um remédio até coringa para muitas doenças que não têm cura. Então, isso acaba melhorando. E o fato de eu ter quebrado o pescoço e ter feito reabilitação fora do Brasil, isso era uma coisa já falada e comentada com muita naturalidade. A minha primeira fisioterapeuta, aqui no Brasil, tinha trabalhado muitos anos na Inglaterra e, no próprio centro de reabilitação… olha, eu quebrei o pescoço em 94… há décadas atrás e, mesmo nessa época, já se usava em clínicas de reabilitação no Reino Unido para melhorar espasmos para lesão medular. Assim, desde o começo eu fiquei bem ligada porque eu queria também melhorar a minha situação, também tinha muito espasmo e nunca gostei de tomar remédio, sabe? Sempre gostei de seguir uma linha mais natural, é muito difícil eu tomar antibiótico. Faço tratamento com homeopatia, com ervas, então, assim, sempre me interessou. E aí quando tive a oportunidade de provar, vi que fazia uma diferença tão grande no meu corpo e, concomitantemente, aparecendo os casos de pessoas que tinham filhos com epilepsia refratária e que começaram a ver essas crianças pararem de ter trinta convulsões por dia, para ter uma, ou não ter (com o uso de medicamentos de cannabis).
Tudo isso foi me encantando, junto com a minha experiência pessoal. Eu fui me usando, sabe, para experimentar. Tanto que, olha que curioso, a primeira vez que eu provei a cannabis medicinal era completamente sintética. Fui um dos primeiros casos lá na Anvisa a ter autorização para importar e vinha da Inglaterra, era sintética e era só CBD, o que a gente sabe que não existe, né? Se você, na natureza, tentar isolar numa planta, é praticamente impossível você conseguir isolar o CBD. E não me fez bem esse sintético, ele acabou desencadeando coisas que eu não tinha antes e aí eu não quis mais tomar o sintético. Continuava estudando, via que melhorava demais. Aí falei assim: “Talvez o meu caso não seja essa quantidade de CBD”. E aí que eu comecei a achar médicos prescritores e que comecei a perceber que outros canabinóides são muito mais importantes pro meu caso do que o CBD. E tudo depende para quê, em que momento, em que horário e qual o objetivo.
Chegou a ter o contato com a cannabis medicinal também lá fora, por exemplo, nos Estados Unidos? Teve testes antes dessa experiência no Brasil?
Tive testes antes disso, nos Estados Unidos, e eu ainda pude testar com uma quantidade maior de THC, que foi o que fez efeito nos meus espasmos. E aquela aquela quantidade permitida na importação que eu fiz, que não tinha, né?, THC nenhum, que foi o remédio que às vezes faz muito bem para outras pessoas, mas para mim, não foi producente. E aí eu fui me adaptando, fui tentando, o próprio médico faz tentativas comigo na prescrição. De quando, poxa, ele presta atenção nos terpenos, presta atenção em outros canabinóides que ninguém fala, como o CBA, por exemplo, e que pode ajudar tanta gente a dormir.
Olha só, a gente tá diante de uma situação que, assim, a Anvisa já reconhece o avanço científico da terapia, porém, o Congresso ainda não chegou no nível da Anvisa. A gente tem que chegar. E eu ainda posso arriscar dizer que muitos parlamentares agem de má-fé quando querem misturar com o tráfico de drogas, que é uma preocupação muito grande, que eu tenho essa preocupação no meu mandato. Eu tenho preocupação com tráfico, com liberação de drogas, mas principalmente com aliciamento de jovens, de crianças pro tráfico. Eu sou palestrante de presídio, então, assim, para mim é muito triste ver um jovem com olhar puro, passando pela primeira vez no presídio por conta de ter sido preso com porte de maconha. Porque, embora tenha determinado as 40g (a descriminalização pelo STF), muitas vezes isso não acontece na prática. Muitas vezes um policial pega um jovenzinho com uma quantidade menor e faz horrores com ele. Assim, tem toda uma parte de educação que eu acho que ela se estende ao Congresso, porque a gente tá falando de doenças, a gente tá falando de um medicamento, um medicamento que reverte depressão muitas vezes, que reverte ansiedade, que reverte transtorno obsessivo compulsivo, sabe? Eu tô passando por um momento não muito fácil, por um burnout. (a cannabis) É um dos melhores remédios que já me prescreveram.
O meu corpo tem lá suas idiossincrasias e geralmente age ao contrário, sabe? Com relaxante muscular, você me dá um relaxante muscular, dá quinze minutos e eu começo a pular. Agora eu quebrei a perna, até anti-inflamatório fez efeito contrário em mim. Isso mostra que cada um é um e a gente tem que olhar cada um com muita atenção, muito cuidado. Não dá para você pegar e generalizar, virar e falar: “Todo mundo tem que tomar quatro gotas de manhã, quatro gotas à noite”. Não é muito personalizado, sabe? É como deveria ser a educação, totalmente personalizada de acordo com a necessidade, com a forma que cada um tende de aprender, a forma que cada um tem de assimilar a cannabis. É uma planta muito viva, é um processo muito dinâmico, sabe? Não é você mandar e comprar um remédio na farmácia, é muito diferente e isso é muito bonito porque mostra um jeito diferente de tratar a saúde e de tratar a ciência, de tratar os recursos que a gente tem de cura, né?, que são chamados de drogas. Mas assim é uma forma diferente, mais humanizada e mais personalizada.
Sinto que o Congresso ainda tem uma parte que tá lá com o pé no chiclete, querendo levar a discussão para (a questão do) crime organizado. E não é essa a nossa discussão. A gente tá fazendo outra discussão, né? Já visto que aconteceu com aquela organização, a Santa Gaia, que foi tratada como caso de polícia. Eles deveriam ter até indenização por danos morais, entendeu? Porque a gente tá falando de remédio.
Senadora, você tocou em vários assuntos importantes. Vamos aos poucos aqui nas perguntas, que surgiram várias. Primeiro, como você viu essa nova proposta, essa nova resolução da Anvisa em relação ao cultivo, em relação aos pacientes? É o suficiente ou falta muito?
Acho que a Anvisa deu um passo gigante, inclusive provocativo com o Congresso, né? Tipo “vocês não vão legislar, então a gente vai resolver”. E estão resolvendo de uma forma muito bonita, porque tão levando em consideração doenças gravíssimas que não têm remédio, que não têm cura e que a cannabis medicinal consegue melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Vamos já começar dizendo que a Anvisa deu esse passo e que ele não é o suficiente porque o Congresso tem que legislar. E eu posso falar com bastante propriedade, porque o projeto mais completo que tem no Congresso hoje é de minha autoria, que é o PL 5511, que, graças a Deus está em boas mãos, que está na nas mãos da competente, sensível, a professora Dorinha, uma senadora que tem empatia. Isso é uma condição básica pro nosso trabalho com cannabis. A gente tem que continuar avançando e pensar que o 5511 trata de cultivo, trata da produção, trata da importação e da exportação, trata da comercialização, do controle, da fiscalização, da prescrição, da manipulação – que é outra questão bastante polêmica –, trata da dispensação e da utilização. A gente tá falando não só de medicamentos para uso humano, mas para uso veterinário e ainda a produção do cânhamo industrial. Por conta da grandeza e da abrangência desse projeto de lei que tem no Congresso, só por isso a gente pode dizer, sim, que a gente ainda tem muito a avançar. Embora a Anvisa tenha aberto uma porta importantíssima, o Congresso tem que agir.
Há ainda muita insegurança, até jurídica, porque pode mudar, pode ser diferente. Com uma lei, o cenário seria outro. O que que a gente precisa fazer pros seus colegas aí no Congresso tirarem então o pé do chiclete, como você falou, e botar para votação esse projeto de lei?
Acho que falta educação, a gente acaba esbarrando nisso. Informação, a vontade de abrir o coração e ter essa empatia com os pacientes. A gente tem que derrubar um tabu, um preconceito, algo que talvez seja já histórico. Acredito que muitos dos parlamentares nem pensam da forma como eles dizem pensar. Por isso que eu falo que às vezes agem de uma má-fé, mas acredito que a informação, o conhecimento de vivências reais, de histórias reais, de histórias de sucesso, consigam ultrapassar essa barreira humana, de querer permanecer como está. O ser humano às vezes tem essa tendência, a de ficar no mesmo lugar, e a dificuldade de enxergar que uma coisa que um dia foi demonizada… puxa vida, muitos desses parlamentares, eu duvido que nunca tenham passado por uma dor e tenham tido a prescrição de um opióide. É uma demagogia, se a gente for pensar, né? E ainda vale lembrar que 50 países já regulamentaram o uso da cannabis medicinal! Poxa, a gente enxerga o Brasil como um país moderninho em certas coisas. A gente tá muito devagar nisso, a gente tem cara de cannabis. A gente tem cara de cultivo de cannabis medicinal!
Assim, neste mês vai me custar por volta de R$ 5.000 essa importação (do tratamento dela com cannabis medicinal). E aí é pensar que 99% da população não tem essa grana para pagar por um medicamento. A gente tá passando uma situação extremamente injusta e desigual, a gente tem que lembrar que esse país é enorme e que a gente ainda pode disparar no nosso agronegócio, fazendo o cultivo da cannabis, a gente pode exportar cannabis, a gente tem solo para isso, tem clima para isso, tem estrutura agro para isso. A gente poderia ser uma das maiores potências do mundo nesse quesito, então precisa acelerar. Acho que o fato de você tá me entrevistando já é uma ajuda muito grande. Um canal como o seu é um canal que ajuda a gente a tirar essa desinformação, sabe?, daqueles que ficam embarreirando algo que é tão positivo.
Eu vejo a minha mãe, que tem 91 anos, e sempre teve aquela cultura de medo da planta: “Maconha é uma droga!”. Hoje, nossa, ela tá com a cannabis, ela tá tomando, e tem várias amigas que também se tratam com cannabis. É uma coisa que faz tão bem pros idosos, entendeu? Dá uma resgatada de vida. Puxa vida, como é que a gente pode deixar isso passar? Como pessoa pública, que trabalho para ver a vida das pessoas melhorarem, nossa, me dá agonia, dá vontade de sair distribuindo, porque a gente sabe que melhora, porque a gente tá assistindo, tem muitos exemplos, né?
Você falou bastante de ser acessível, de como paga R$ 5.000 num mês pelo tratamento. Em uma edição passada da Breeza, a gente conversou com uma garota que teve dois AVCs, e como ela não tinha dinheiro para acesso, teve que recorrer ao mercado paralelo, ao tráfico, para ter o óleo de cannabis. E a gente vê muito também aquela situação do garoto que fuma um prensado na esquina e, ao mesmo tempo, médicos e cientistas falam como isso também pode ser uma maneira de procurar a medicina dele, que ele não tem acesso de outra forma. Como é que a gente aumenta o acesso, chegando nessas pessoas, e resolve esse problema de dois Brasis?
Sabe que eu tenho um pouco de dificuldade de diferenciar o recreativo do medicinal? Porque eu acho que uma pessoa, mesmo sem ter informação, mesmo que ela esteja num grupo de amigos e tal, e resolve fumar um baseado, aquilo faz bem para ela, abaixa a ansiedade. Você pode até falar assim: “Ah, eu uso recreativo”. Mas algum efeito fez para que essa pessoa gostasse daquilo e quisesse ter mais daquela sensação. A gente vive hoje num mundo tão cheio de ódio, tão cheio de dificuldades, de guerra. E às vezes as pessoas espairecem através de fumar um cigarro de maconha. E isso é chamado de recreativo, né? Mas muitas vezes é o remédio dela. Então eu acho que a gente não tem dois Brasis. A gente tem que conseguir regulamentar um projeto que dê para cada um que precisa, aquilo que precisa. E fazendo totalmente essa distinção do que é o crime organizado, entendeu? É uma forma de combater o crime organizado, você conseguir regulamentar o uso medicinal. Mesmo que seja vaporizando (a forma de uso).
Muito acalenta o coração ouvir que é difícil ver essa diferença, porque pra gente aqui na Breeza, não há. É uma planta, é a mesma planta, né? Não tem como diferenciar uma planta na natureza, e é bonito ouvir isso de uma senadora. Eu li seu artigo na Folha de S. Paulo, em resposta ao texto do Ronaldo Laranjeira (no mesmo jornal). E aí você vê que mesmo com tantos avanços científicos, avanços sociais, as questões sociais que surgem, você tem um psiquiatra, como o Ronaldo Laranjeira, que fala contra, fala que não há benefícios, que estigmatiza. Por que ainda há esse tipo de pensamento? E como é que a gente muda o pensamento dessas pessoas, de médicos a seus colegas no Congresso?
Vou ser franca: para mim, o Ronaldo Laranjeira, que eu conheço, ele é uma daquelas pessoas que não pensa exatamente como fala. Eu tenho certeza disso, até porque eu já tive muitas conversas com ele, inclusive sobre CBD. Então, ele também tem, sei lá, é uma forma dele. Será que ele acha que desse jeito está ajudando a combater o crime organizado? Duvido que ele tenha esse pensamento na cabeça. Como é que ele vira e fala que tem resultados ínfimos? Isso não é verdade, isso não é ciência, entendeu? E eu sei que ele tem simpatia por produtos feitos de CBD. Agora, na mídia, demonstra uma outra coisa, talvez seja o jeito dele trabalhar, dele fazer o marketing pessoal dele. Porque é um médico extremamente reconhecido, mas ele já demonizava a erva, e agora tá demonizando o medicamento. Eu acho que ele ultrapassou a linha do bom senso naquele artigo. Acho que tudo tem um limite, até para crítica. Aquela ali, não dá. Porque, assim, eu já tive até conversa com ele sobre o assunto. Sabia que ele me apresentou vários produtos de CBD que eu não conhecia?
Nossa!
Pois.
Então, é uma hipocrisia pelo marketing? Você acredita que é o marketing pessoal dele e dos seus colegas políticos que levam à essa hipocrisia?
Eu sei como ele é, é um cara inteligente, é um cara reconhecido, é um cara que tem conhecimento. Assim, não sei o que o leva a fazer um artigo daquele. Duvido que ele pense daquele jeito, vou ainda ter uma conversa com ele, quero ter essa conversa porque acho que ele atrapalha fazendo isso. Se ele não quiser ajudar, não precisa atrapalhar.
Sim! E acabou de ser feita uma frente parlamentar da cannabis medicinal no Congresso, e você vê lá que tem uma presença muito forte da direita e do centrão, além da esquerda, que inclusive está em número menor do que a presença somada da direita e do centro. É uma pauta que é de esquerda, direita, é de alguém, ou é de todo mundo? E por que a direita tá abraçando tanto? Sendo que quando você vê historicamente no Brasil, a maconha e esse tipo de conversa costuma ser associada com a esquerda.
Acho que a direita começou a ver que ela vai se dar melhor se ela abraçar, né? Porque tudo são evidências, é o que a Anvisa tá fazendo, entendeu? Tá abrindo portas. Assim, quando você fica doente, não tem direita, esquerda, né? Vamos combinar que, na hora da doença, não tem isso. Você quer na hora da dor! A direita se faz conservadora, se faz dessa forma, né? E a direita aderindo a algo assim, ela tá mostrando que está enxergando como um remédio, como um medicamento. Acho isso positivo, acho que a gente tá avançando naquela questão educacional e mesmo que muitas vezes se posicione para ganhar voto, que o faça, sabe? Acho que já perceberam que é melhor estar do lado da planta, porque hoje não faz mais sentido você virar as costas para uma descoberta dessa e que tem tantas vertentes, tanta coisa. E as pessoas, nós… olha a quantidade de pessoas hoje que têm câncer e, assim, além de tirar dor, abre o apetite (no tratamento com cannabis). Pessoas que ficam lá jogadas e com um mal-estar sem fim, você pode pôr fim ao mal-estar. Eu conheço muita gente com várias coisas assim, com especificidades diferentes e que estão se beneficiando desse medicamento.
Quando a gente fala do uso adulto, o uso por lazer, que é difícil aí de distinguir do medicinal, logo pensa nos países, como os Estados Unidos, vários da Europa, onde é legalizado os dois lados, é legalizado o medicinal e é legalizado por lazer. Como senadora, como você acha que deveria ser encarado o uso adulto no Brasil? A descriminalização pelo STF é um bom passo? E quais seriam os próximos passos?
Acho que a gente tem que focar muito na qualidade do produto e no que aquele cidadão vai comprar, porque quando você disponibiliza qualquer remédio, até Tylenol, você pode comprar e tomar errado, né? Pode virar a caixa de Tylenol, morrer de dor de estômago, demorar três dias para acordar, sei lá. Você pode ter uso inadequado de qualquer forma. Agora, eu acho que a gente tem que separar as discussões, porque a gente pensar em segurança pública, pensar em questões penais, enquanto a gente tá falando de doenças, de condições físicas… a gente tem que levar uma outra coisa em consideração, que é a crise de saúde mental que o planeta está passando hoje. E os países que já regulamentaram! Por conta de ser perita lá da ONU, de ter sido eleita já na segunda eleição (na ONU), sou obrigada a ir para Genebra, na Suíça, duas vezes por ano. Você entra em qualquer tabacaria lá e pode comprar. Tem um cardápio e você compra; geralmente a taxa de THC é muito baixa, né? Mas é um tipo de produto que você pode até usar a expressão “recreativo”, que, tipo, o cara tá lá e passa na tabacaria num domingo, compra um cigarro desse que é totalmente legalizado, porque ele não faz mal pra saúde, pelo contrário. E aí, sim, ele pode te trazer bem-estar e isso você pode chamar de recreação, uma recreação que é liberada e ele tá ingerindo substâncias como CBD, com um pouco de THC, com terpenos que fazem bem à saúde dele. Acho que a gente tem que ter muito controle sobre os produtos que serão vendidos, entendeu? Porque se você pega um produto com uma taxa muito alta de THC, aquilo pode causar um efeito psicoativo e aí aquela pessoa pode não tá preparada para aquilo. Acho que tudo tem que ser definido, de uma forma correta. Se entro numa tabacaria, por exemplo… eu não fumo cigarro, não entraria numa tabacaria, assim, normalmente, mas eu entrei para conhecer, para conhecer os produtos, eu provei, entendeu? É legalizado! E, homem de Deus, como eu durmo bem naquela terra (Suíça), porque é um produto muito leve e que você pode consumir. Lá eu trabalho o dia inteiro, sem parar, e chega na hora de dormir, você tá com aquela agitação e você tem que dormir logo, porque você já tem que acordar. Então é um produto que relaxa, e você não precisa consumir quantidade grande, pelo contrário. De repente, você tá dormindo em um sono íntegro. Por isso que eu falo “olha quantos exemplos a gente tem e que podem trazer bem-estar pra população”. Acho que a Anvisa tá fazendo um caminho muito correto, e se a gente conseguir aprovar o mais rápido possível a 5511 (Projeto de Lei criado por ela), a gente tá falando de prescrição, tá falando da manipulação, que muita gente tem medo… como é que vai manipular? A gente tem que ter a fiscalização em cima disso, a gente tem que ter o controle em cima disso. Você vê Nova York, depois que teve a legalização da maconha, teve um boom de lojas. Aí, de repente, a fiscalização passou e foi fechando tudo porque as lojas não tinham direito, elas não estavam de acordo com a legislação.
Em qualquer país tem que fazer (a legalização), mas tem que fazer bem feito. E aquelas lojas que podem, põem até cavalete na rua. “Somos legalizados, vendemos tal produto, temos bala disso, bala que acalma, chiclete que dá fome”. Um monte de coisa que você vê, nossa, cada produto bem feito, cada produto estudado para aquele tipo de condição da pessoa. É isso que eu imagino no Brasil. E a gente acaba com o tráfico de maconha! Isso já é um passo muito grande para a segurança pública, né? Ainda dando mais saúde para as pessoas. E aquele parlamentar que hoje toma opióide, é capaz dele mudar, ficar muito feliz, porque ele vai tomar algo que tem muito menos efeito colateral e não causa o vício que causa o opióide, que todo mundo toma. Isso que me deixa brava!
Mara, a senhora usou como exemplo uma situação de um garoto que é pego com menos de 40g, naquele limite do descriminalizado pelo STF, mas que mesmo assim hoje é preso, levado pra delegacia. Como esse tipo de usuário no Brasil deveria ser tratado pelo Estado?
Ele tem que ser tratado primeiro como ser humano, porque a gente sabe, isso não é segredo para ninguém, que isso acontece com pobre, preto, periférico. Infelizmente existe essa discriminação, que vem inclusive da polícia. Volto a bater na tecla educação, que tem que catar a polícia. A mesma coisa que a gente faz, por exemplo, com acessibilidade, que a gente tem que treinar motorista de ônibus, tem que treinar cobrador, tem que treinar polícia. A polícia prende surdo, pelo menos uns dois por mês, sem razão, porque o surdo não sabe se expressar, não consegue, não sabe se expressar falando. Muitas vezes não foi alfabetizado na língua portuguesa, mas na língua de sinais, e não consegue se defender. Ele solta uns sons… e todo ano muitos surdos são presos por engano no Brasil. É falta do quê? É falta de educação, de ensinar. A gente tem que diferenciar o que é um traficante do que que é um usuário, né? Um que ganha vida vendendo, e um que precisa daquilo para consumo. Acho que a gente precisa fazer uma qualificação na polícia sobre esse tema, principalmente com essas novas regras, para não baterem nos meninos, para não não fazer sacanagem. Isso é muito triste, mas a gente sabe que acontece.
E se você puder estimar o tempo que falta para ter esse Projeto de Lei aprovado, quanto tempo você estimaria? Acha que neste ano, mesmo com eleições aí, com tudo pela frente, a gente consegue aprovar?
Eu tenho isso como objetivo, como uma ideia de vida mesmo. O ideal de vida é conseguir fazer com que esse projeto seja aprovado. Vamos convidar a professora Dorinha (senadora) pro seu programa!
Vamos, vamos sim.
Vamos acelerar porque tá na Comissão de Agricultura e, assim, o parecer é favorável, então a gente precisa acelerar, precisa dos colegas que estão fora do Congresso. Eu fico acelerando lá dentro, mas a gente precisa de ajuda da sociedade civil, fazendo pressão. Todo mundo que precisa, os familiares, os profissionais, os prescritores, o pessoal do agro. Quando eu protocolei o 5511, você acredita que foi uma enxurrada de telefonema de pequenos agricultores? Olha que coisa linda! Imagina a gente treinar os pequenos agricultores. Você tá melhorando a vida dos pequenos agricultores, tá produzindo um remédio em larga escala para pessoas que precisam, pro dia que for acessível pelo SUS, tenho certeza que isso vai acontecer com os nossos pequenos produtores, e os grandes também. Então, assim, você melhora a vida de todo mundo.
A gente chegando aqui no no fim da nossa conversa e eu queria entender como você vê essa essa pauta da cannabis, da maconha nas eleições deste ano, porque parece que vai ser quente nas eleições essa pauta, né?
As pessoas estão reconhecendo, principalmente os parlamentares, que virou uma pauta de saúde pública. Com certeza, vai ser uma vedete das eleições, só que, hoje, acho que com um outro olhar. A gente tem que trabalhar muito para esse projeto ser aprovado, porque a gente tá resguardado de todos os lados. Aí não vai, não tem quem chega para falar: “Ah, porque é perigoso”. Não, a gente tem fiscalização e a gente tem controle. Porque a gente tá trabalhando a comercialização, a gente tá trabalhando a manipulação, a prescrição e a utilização, a gente tá trabalhando o cultivo. Se a gente trabalhar todos esses lados, a gente consegue fazer um belo de um trabalho, consegue diferenciar o usuário de traficante, consegue diminuir o tráfico e, mais ainda, melhora a qualidade do produto, né? Isso é o principal, porque aquele carinha que a gente falou que tava fumando um prensado na esquina, ele nem sabe o que tem lá dentro, que pode ter minhoca, pode ter pedaço, pode ter adubo, pode ter de tudo que ele tá enfiando no corpo dele e a gente também pode evitar que isso aconteça. Quando a gente fala de flores, a gente tá falando de outro produto, não é aquilo, entendeu? Por que que o brasileiro não vai ter direito a um produto de qualidade?
Senadora, muito obrigado pelo seu tempo. Se quiser acrescentar alguma coisa.
Você acha que hoje na Suíça existe prensado?
Exato. E a gente não é menos humano do que eles, né? O brasileiro não é menor do que o suíço.
É desnecessário. Isso aconteceu numa época porque prensava, porque precisava fumar, precisava ser escondido. A gente acaba com tudo isso, entendeu? A gente tá falando de saúde pública, sabe? Mudou, mudou o contexto. Mudamos de lado, a gente tá falando de remédio.
Foi ótima conversa, super aberta, super franca. Gostei bastante. Assim que a gente gosta.
Também gostei, Filipe. Tava engasgada que a gente não conseguia conversar.
Que bom que desengasgou, então.
Depois vamos falar de medicina psicodélica.
Ah, sim, isso é importante. Vamos falar agora, então, antes de terminar, sem problema, nenhum.
Já que a gente tá falando de ciência, porque tem muita gente estudando, estudando os fungos e tendo resultados absurdos. Eu já tive prescrição de microdose, de psilocibina, que é um um cogumelo, que é aquele que está sendo mais estudado. Tem tido resultados tanto para a depressão quanto para drogadição. Filipe, tem pessoas que estão usando e conseguindo parar de consumir crack, de consumir cocaína. É uma droga combatendo outra, mas, assim, a gente pode falar que tá nascendo uma nova fonte de remédios, que são os fungos e cogumelos, e que eles podem trazer muitos benefícios para a saúde da população mundial.