Na Breeza

Vida e cura nas plantas sagradas

Por Filipe Vilicic

Helen Sampaio tem algumas teorias sobre a presença da maconha e outras plantas de poder em sua vida. Ela pode não ser médica ou cientista, mas aposto que você vai gostar de ouvir suas teses e, talvez, concordar com ela. Pois as maiores provas de suas hipóteses vêm de sua própria vida. E, olha, as evidências são fortes.

Cria e moradora de uma área periférica de BH, Helen teve seu primeiro contato com o baseado daquele jeito adolescente, numa experiência que pode ser mesmo errada, pelo ponto de vista social e médico (pois ainda menor de idade), mas pela qual muitos de nós passamos. Porém, o que pode ser tido como, digamos assim, regular em sua vivência, só vai até esse ponto.

Aos 12 anos de idade, a mineira venceu o primeiro AVC. Naquele dia, havia acordado com uma forte dor de cabeça: “Tinha uma prova na escola e aí meus familiares ficaram, tipo, ‘Hum, você tá é inventando isso para não ir pro colégio”. Ela insistiu que nada tinha de invenção e pediu para passar no posto médico, onde receitaram um medicamento, que hoje se supõe que pode até ter piorado a situação. Horas depois, veio o AVC.

Ela venceu e em um mês deram o diagnóstico: Malformação Arteriovenosa (MAV), doença que para alguns é assintomática, mas que, para outros, é grave. Helen está no segundo grupo.

Depois do primeiro entupimento de seu cérebro, ainda tão criança, foi viver uma vida de adolescente. Nesse ínterim, teve contato com drogas, em particular com a maconha, por meio de prensados que fumava em roda com amigas e amigos. Só que, ao mesmo tempo em que dava uns pegas nessa fase tão delicada (e equivocada) para se fazer isso, familiares descobriram e começaram a colocar noias em sua cabeça.

Logo passou a aderir a um pensamento proibicionista e disse não às substâncias, se afastando da cannabis. Nisso veio o segundo AVC, desta vez com um impacto bem maior.

A 1ª teoria

Faltavam poucos meses para seu aniversário de 15 anos quando ela entrou em coma. O segundo AVC viria a ser mais sério por vários motivos e, quando os médicos abordaram seus familiares, disseram que não eram grandes as chances de ela acordar e nem de se recuperar. 

Quando recorda do coma, conta que “era como se eu estivesse presa em um loop de filmes de terror com baixo orçamento, revivendo momentos traumáticos da minha vida e tendo pesadelos constantes dignos de um clichê de horror dos anos 80″. Ao acordar, se sentiu perdida, sem saber onde estava, porque tinham raspado metade do seu cabelo, ou onde tinha ido parar seu piercing.

Quando deixou o hospital, recorda que entrou em depressão e passou a ter crises constantes de ansiedade. Também pudera, os médicos haviam lhe falado que provavelmente teria poucos anos de vida, dificilmente passaria dos 18 anos, segundo eles.

Motivada pelos familiares, Helen havia adotado o pensamento proibicionista e se afastado da cannabis, procurando sempre a sobriedade. Um dia, todavia, já mais próxima dos 18 anos, um amigo chegou em sua casa e a convidou: “pelos velhos tempos?”. Oferecia uns pegas num baseado, como se abrindo a porta para um mundo mágico. 

“Eu já estava num momento que eu tava meio desesperançosa com a vida, porque eu não tinha vivido nada e achava que provavelmente iria morrer e, mesmo que eu não morresse, tava vivendo como morta-viva”. Com a maconha, reacenderam suas esperanças. “Foi um momento incrível, a primeira vez em meses em que eu estava sorrindo. De verdade, no nível de gargalhar! E notei que as minhas dores tinham melhorado, meu  pensamento tava fluindo melhor. Achava que nunca mais ia me sentir daquele jeito”.

Foi como se ela encontrasse um novo caminho. Afeita às artes, com sonho de infância de ser pintora e dom para a escrita, passou a se abrir mais para esse lado. Desenhou grafites e, com o amigo Henrick Tsade, escreveu o livro “A Sol e a Lua”, na qual abre muitas de suas descobertas de uma vida que foi testada tão cedo.

Passou a buscar mais o sentimento que a maconha lhe proporcionou. “A cannabis medicinal não se apresentou na forma de um vidrinho com um óleo, um frasquinho bonitinho, mas através de um prensado que, convenhamos, era feio e fedorento”. 

Começou a ter contato com mais informações das propriedades medicinais da planta, em conteúdos e contatos que fazia pelas redes sociais e com outras fontes, inclusive na aproximação com médicos, como Felipe Mourão, o Doutor Diamba, referência na área e que ela hoje vê como um amigo. Contudo, se via sem dinheiro para comprar óleos canábicos e outros produtos no mercado regular, o que a fez apelar ao clandestino. Além do fumo prensado, arranjou óleos de origens duvidosas e sementes que resolveu plantar em sua casa.

O aumento do conhecimento e do interesse pelo assunto a levou a mergulhar e a se banhar com as águas canábicas. Passou a falar do tema na internet, adotando a alcunha de Dirty Ponto, inspirada por uma música que adorava da banda europeia Studio Killers. Mais recentemente, trocou o apelido para Preta Brisa, porque, segundo ela, “a conexão com a maconha foi mudando para uma reconexão com a ancestralidade e a espiritualidade de matriz africana”. 

Conforme acumulou mais e mais informações sobre as propriedades medicinais da cannabis, chegou à sua primeira teoria da relação que mantém com a ganja. Na visão da Preta Brisa antiproibicionista e ativista de hoje, a erva que tinha como hábito na adolescência, antes do segundo AVC, podia estar, na verdade, lhe ajudando a controlar a doença. Ao ter parado bruscamente naquele tempo, acredita que “foi um dos motivos de ter sido mais grave” (o AVC que a levou ao coma a poucos meses de seu aniversário de 15 anos). Uma tese, aliás, que tem sido defendida pelos médicos que a acompanham nas consultas.

A 2ª teoria

Preta Brisa, agora aos 23 anos de idade, se envolveu pra valer com as plantas do poder. Em 2023, ao participar do I Congresso de Cannabis e Psicologia na UFMG, recebeu em mãos uma revista gratuita de educação canábica, a icônica Kamah. Foi a deixa para entrar para o grupo que, por meio de conteúdos, experiências e conexões, promove conhecimento sobre a diamba.

Nos últimos três anos, sua dedicação só se intensificou. Entrou para a Marcha da Maconha de BH, deu depoimentos em eventos como na II Fala Quilombo, envolveu-se com empreendimentos canábicos diversos. E continua cultivando suas sementes, mas agora com permissão jurídica, conseguida com sua aproximação com o coletivo de juristas da Rede Reforma.

Em suas experiências pessoais, escolheu provar outras plantas de poder. Preta Brisa observa que essas vivências a ajudaram a lidar com o estresse pós-traumático que lhe pega até hoje, como um dos efeitos cruéis dos dois AVCs e da Malformação Arteriovenosa. “A primeira substância que me ajudou a lidar com essa dissociação traumática foi o rapé. Foi a partir do rapé que eu consegui entender que eu era eu. Sou um espírito que tem um corpo e que tá repousando; que tem sentimentos e sentidos”.

Passou então a se abrir para as ondas psicodélicas. Daí vieram também os cogumelos, o LSD, o MDMA e a ayahuasca. Desses caminhos, traçou sua segunda teoria, com certo apoio de seu médico neurologista (mas com o alerta de que “poderia ter dado tão ruim” pra ela e que isso não é uma recomendação pra outras pessoas):

“Em uma consulta recente, ele me disse que a janela de recuperação, da reabilitação física, do pós AVC era para ter se fechado apenas alguns meses ter ocorrido (quando ela tinha 14 anos). Só que eu continuo a me recuperar e estou descobrindo que o motivo para a abertura dessa janela novamente na minha vida é o uso dos cogumelos mágicos. Foram os psicodélicos!”.