
Passei pela jornada do paciente da cannabis medicinal e posso dizer: recomendo. Pelo caminho certo, é rápido, seguro, confiável e prático. Vou contar como fiz, compartilhar dicas, mas antes quero voltar alguns passos.
Meu envolvimento com a maconha começou antes dela se evidenciar um remédio para dores da fibromialgia e ser essencial para manter o bem-estar no dia a dia. Foram décadas de relação até este momento recente de regularizar meu tratamento terapêutico. Pois é todo esse ciclo que compõe a jornada dos pacientes da cannabis, certamente incluindo aí muitos e muitas de vocês.
INÍCIO EQUIVOCADO
Cada um tem sua jornada. Meu primeiro contato com a maconha foi inadequado, com 14 anos de idade, em uma roda de amigos mais velhos no estacionamento de um galpão daqueles dos anos 90 que traziam de tudo, boliche, kart, sinuca, boteco etc. Depois dos primeiros pegas, voltamos para o apartamento da mãe de um deles e lá fumamos outro baseado, assistindo “A Pequena Sereia”; um dos amigos sabia as músicas de cor e essa era a graça da viagem.
Hoje se sabe que o uso antes dos 25 (a idade exata está sob debate) é bem prejudicial ao desenvolvimento cognitivo, se comparado a adotar o hábito após isso, sendo que pode gerar problemas como de memorização e na capacidade de manter o foco e a atenção. Imagina então quando se considera que o fumo era do prensadão (em uma reportagem recente, falamos do perigo do prensado).
O costume foi por anos desregrado e pouco frequente, só veio a se tornar rotineiro na época da faculdade, com uns 18 anos. Depois chegou a virar diário, prosseguiu até por volta dos 23, deu uma pausa até lá pelos 27, até que foi retomado com bem mais informação e conhecimento.
Sempre fui bem nerd e isso se aplicou à diamba. “Legalize já, legalize já”, Planet Hemp tocava no som do quarto, assim como Nativus e Cypress Hill. Só que para além da cultura canábica, que envolvia também autores de livros e HQs, e pela qual eu passei a me interessar logo após os primeiros fininhos, sempre queria saber mais das propriedades da erva. Algo que logo descobri foi sobre os problemas da qualidade do produto ilegal: segundo um estudo da Universidade de Brasília constatou, em 7 quilos de prensado costuma ter 52 fragmentos de insetos, cujas espécies inclusive podem ser identificadas, além de uma penca de outras nojeiras.
Na adolescência, jamais tive contato com a flor como ela é, apenas com a versão prensada. Tão-somente aos meus 20 e poucos que experimentei a erva “in natura” e só após os 30 passei a ter o acesso social e financeiro para um consumo diário com base em diamba pura e de cultivador confiável.
Por todas as perspectivas – social, médica, psicológica… –, meu ciclo não foi o correto e jamais seria recomendado. Porém, aposto que é o mesmo pelo qual passaram muitos de vocês, nossos breezers, incluindo quem hoje têm receita médica e autorização da Anvisa para importação. A legalização, em particular pela jornada do paciente, permite que se escolham caminhos muito mais apropriados e saudáveis. Vou te contar a seguir.

A PLANTA COMO CURA
Aos 37 anos descobri que tenho fibromialgia, uma doença crônica que causa dores terríveis nos nervos, migrando de um ponto para o outro do corpo; problemas intestinais, cansaço, um humor dos piores; a lista de sintomas é longa como bula de alopáticos.
A dor sempre fez parte de minha vida, desde a juventude, quando era mais um incômodo, um mal estar, concentrado nos ombros. Conforme se passaram os anos, aumentou a intensidade e em dados momentos a sensação de nervos queimando, sendo ao mesmo tempo tensionados e agulhados, ia de uma junta para a outra, por vezes se espalhava geral. Médicos chegaram a desconfiar de artrose, artrite e outras variantes e receitavam remédios que não surtiam o efeito desejado, por vezes causavam mais náusea, fadiga e tontura.
Minha aventura entre consultórios me levou a descobertas. A relação de cura com a maconha obviamente vinha de antes de eu dar nome às dores e aflições, incluindo insônia e problemas intestinais. Quando passou a ser um hábito costumeiro, o uso não era normalmente em festas, mas com pouquíssimos amigos, com a namorada e frequentemente sozinho. No último caso, em situações como quando sentia dores nas juntas ou antes de dormir para poder alcançar mais fácil o sono profundo.
Os médicos logo certificaram uma conclusão ao qual eu chegava: meu uso sempre teve intenção terapêutica, mesmo quando de forma instintiva. Na Breeza conversamos com muitas pessoas com histórias e relacionamentos tão distintos com a planta, como pacientes paliativos que nela procuram alívio, esportistas em busca de desempenho e bem-estar, famílias que adotaram como solução para diversos males. É recorrente que o início dessas histórias se dê na ilegalidade, mas com hábitos que já são em si terapêuticos.
Um bom caminho para garantir uma boa relação com a erva é seguir o que já nos disse o icônico produtor musical Nelson Motta: “tem de ter uma baita disciplina”. Seguir a jornada do paciente, além de regularizar o consumo, ajuda a assegurar essa disciplina.
Faz pouco mais de dois anos que descobri a fibro e passei a usar a cannabis de forma mais consciente em relação a dores, insônia e outros sintomas. Só que sempre tive o interesse de realizar um uso bem mais adequado, com doses reguladas e origem rastreada, sabendo exatamente o quanto há, por exemplo, de CBD e THC no que se consome.
RELAÇÃO SAUDÁVEL COM A ERVA
Em dezembro baixei o aplicativo da Blis no celular para realizar o processo. Esperava que fosse burocrático e demorado, mas é totalmente o contrário. Tudo ocorre em quatro passos: primeiro se compartilham algumas informações; depois é realizada a consulta médica; então a importação e compra dos produtos; e chega pelos Correios em casa.
A primeira etapa não leva nem 10 minutos. Além de compartilhar dados mais gerais, responde-se a um questionário sobre o quadro de saúde, como se possui doenças crônicas e os principais motivos pela procura pela cannabis (de ansiedade e burnout a Alzheimer e suporte a câncer). Pode-se ou não emendar na consulta médica, que leva o tempo que tiver de levar a conversa com o paciente.
No meu caso, foram cerca de 20 minutos em trocas de mensagens pela plataforma do próprio aplicativo. O médico perguntou sobre a qualidade de meu sono, das dores da fibromialgia, de minha rotina de atividades físicas, dessas questões privadas que se fazem nos consultórios. Além de detalhar meu cenário, contei de minha vontade de ao menos diminuir a dose, senão cortar de vez a maconha fumada diariamente, e ele me indicou que outras formas de uso podem auxiliar nisso.
A receita recomendou três produtos: dois tipos de sprays, ambos apenas de CBD, e um de goma, aí também com 5mg de THC por unidade. Não vou compartilhar a exata prescrição pois não é para ninguém seguir, cada um tem a sua (destaco que todos os medicamentos sugeridos foram da Humora, e só se pode importar da exata marca prescrita).
Levaram duas semanas para os produtos atravessarem a alfândega e serem entregues pelos Correios, sendo que as mudanças de status de todo o processo podem ser acompanhadas por um link. A encomenda chegou enquanto eu estava em uma viagem e por uns minutos até bateu um típico receio de quem nasceu em um país cheio de proibições: e se o porteiro do prédio ou vizinhos souberem que se trata de cannabis? Logo deixei de me preocupar. Mas há um alívio para quem também se fez essa pergunta: a caixa que embala os produtos é bem discreta.
Posso afirmar que ter uma rotina regrada para o uso levou tanto a maior alívio dos sintomas da fibro quanto a um sentimento de bem-estar. A goma e o spray diurno ajudam a diminuir as dores nas áreas das juntas, em especial o segundo, cuja ação é rápida. Já o spray noturno tem auxiliado a adormecer rápido e a atingir o sono profundo. É como nos disse Ana Júlia Kiss, CEO da Humora, em entrevista recente: “A gente deveria, sim, ver a cannabis como um auxílio do dia a dia e não como o último tratamento, como é visto hoje no Brasil”.
Os novos métodos de uso, por spray e goma, me fizeram deixar de lado o baseado em alguns dos dias, além de diminuir o fumo em todos eles. Achei ótimo, visto que a combustão é a forma mais nociva de uso e quero reduzi-la.
Seria ótimo se as gerações atuais não tivessem acesso à planta da forma nociva que eu mesmo tive nos anos 90. O processo de regularização de agora nos leva a cenários mais saudáveis e conscientes, a começar pela restrição do uso a adultos. A jornada do paciente pela qual passei com muita tranquilidade também me levou a essa compreensão.
Ressalta-se que sabemos que ainda não se trata de uma alternativa acessível a todos, pelo custo financeiro de realizar toda a jornada. Conforme seguir a regularização da cannabis, como da produção nacional, a tendência é que se baixem os custos e se aumente o acesso. “(a cannabis) Poderia ser um produto de prateleira igual é o suplemento, em alguns países já é assim”, nos disse Marcela Machado, da Blis. Que chegue logo essa realidade.
Filipe Vilicic,
em conteúdo apoiado por Blis e Humora