Na Breeza

Cura nossa de cada dia

A conexão espiritual de Catarina Leal com a ganja, que a acompanha numa viagem paliativa entre a vida e a morte

“Sabe que eu não consigo encarar isso como uma tragédia?”, nos descoloca Catarina Leal, paciente paliativa de câncer metastático, frente ao nosso próprio medo da morte. “A única certeza que a gente tem na vida é a morte, mas pra algumas pessoas eu tô mais próxima dela por ter uma doença incurável, e eu recebo isso como um presente, poder viver um dia de cada vez sem pensar no amanhã, aprendendo sobre o presente, sobre o agora”, diz ela que confia no seu diagnóstico, mas não acredita nele.

Catarina não tem suspeita sobre a veracidade do seu diagnóstico médico, mas nem por isso acredita que algo ou alguém possa determinar o tempo de vida que ela tem pela frente. “Se eu permitir que o laudo me defina eu vou ter o tempo do câncer”, analisa ela, que há seis anos ouviu de um médico que sua expectativa de vida era de no máximo seis meses.

“Também já ouvi de um neurologista oncológico que eu poderia vir a usar cadeira de rodas, mas preferi fazer uma aula de surf e pegar uma onda.” Ainda são muito incipientes os estudos envolvendo cannabis no tratamento do câncer, por isso não dá pra afirmar se o uso que a Catarina faz da cannabis contribuiu ou não para os vários meses de sobrevida que ganhou e segue ganhando, mas o que, sim, dá pra botar a mão no fogo é que a sua qualidade de vida melhorou demais quando a maconha entrou na parada.

Ânimo pra levantar da cama de manhã e apetite pra preparar o café da manhã pra ela mesma e para as suas três filhas – que têm entre três e 16 anos de idade –, foram presentes que ganhou da planta, fiel escudeira para atravessar esse momento tão especial, em tratamento paliativo com a cannabis para seguir escapando da morfina e do tramadol. “Eu já amanheço o dia vaporizando minha plantinha pra abrir o apetite, pra melhorar as dores que sempre estão presentes.”

PSILOCIBINA PARA ELABORAR O FIM DA VIDA

Mesmo nas fases mais agudas do câncer que começou em um dos seios e se espalhou para os ossos e demais órgãos, Catarina segue em uma incansável luta pró cannabis e viaja de João Pessoa, onde vive, na Paraíba, a Brasília, Minas, Rio, São Paulo, onde for preciso, onde houver um evento, um encontro sobre cannabis, lá está ela contando a sua história, na esperança de que um dia as pessoas possam escolher se tratar pelo sistema público de saúde, e que o escopo de doenças listadas nas leis estaduais de acesso ao SUS seja muito mais amplo – contemplando, por exemplo, a dispensação de flores para a vaporização.

“Fui escolhida pra viver isso nesse momento e poder falar sobre meu tratamento com a maconha abertamente, poder dizer o quanto essa planta me traz benefícios, alívio, qualidade de vida. A cura que tantos falam eu consigo todos os dias com a minha medicina na minha mente, corpo e alma”, filosofa.

Apenas vaporizar a erva talvez não tivesse o mesmo efeito terapêutico se o ritual não fosse feito na natureza, onde prefere estar “pra eu me conectar com a vida abundante que existe no universo e a troca desse bem-estar, desse alívio”. A doença tem sido usada por ela como oportunidade para repensar os próprios erros e para buscar dentro de si o sentido da vida. 

Além da maconha, Catarina se trata também com microdose de psilocibina para autoguiar rituais de instrospecçao para autoanálise. “Acredito que tá tudo dentro da gente. Procuro ser um ser melhor a cada dia, me coloco no lugar do outro, é um estilo de vida”. Infelizmente, se colocar no lugar do próximo é um exercício que nem todo mundo aprendeu a fazer. Quem dirá os dirigentes de uma  associação de pacientes da qual foi filiada e beneficiária de um programa de isenção total para a compra de medicamento de cannabis ao longo dos últimos dois anos, mas que em novembro passado decidiram cortar o subsídio de Catarina, que sem a medicação e os humores desequilibrados, sem conseguir se alimentar, chegou a pesar 35 kg.

VAPORIZAÇÃO, TÃO MEDICINAL QUANTO O ÓLEO

Nas últimas semanas, ela tem se virado pra conseguir comprar as flores de que precisa. E precisa ser flor, mesmo, porque de tanto tomar óleo de cannabis várias vezes ao dia, ela acabou desenvolvendo uma intolerância intestinal que causa diarréia, um efeito adverso do uso de CBD e THC via oral, não tão comum, mas que pode acontecer. 

De um ano pra cá, Catarina vem praticando a vaporização da flor da cannabis, que além de não exigir tanto do seu corpo quanto a via oral, também apresenta efeitos mais rapidamente, em torno de ¼ do tempo de digestão do óleo, porque entra direto na corrente sanguínea.

A história da Catarina me faz lembrar da estapafúrdia proibição que a Anvisa impôs à importação de flores de cannabis medicinal. Quantos pacientes de cannabis o Brasil deve ter, entre os seus quase 700 mil pacientes atuais, com algum tipo de intolerância ao óleo? Quantos deles precisarão de uma solução tão rápida e efetiva quanto as vaporização de flores? Quem se importa?

Enquanto pede na Justiça que o Estado custeie seu tratamento, Catarina criou há poucos dias uma vaquinha online e pede ajuda para tentar evitar ter que interromper o tratamento, até que o SUS ou outra associação de pacientes se compadeça com a luta dessa mãe de três crianças, que se esforça em deixar “tudo organizado pras meninas para a hora que eu não estiver mais aqui” e faz questão de desfrutar os seus últimos dias vivendo apaixonadamente, pra que quando a morte chegar ela esteja bem viva.

Anita Krepp