Saindo da estufa

Elas facilitam a jornada da cannabis medicinal

Ana Júlia Kiss e Marcela Machado, da Humora e da Blis, falam de suas jornadas como pacientes, da evolução do mercado e de para onde devemos ir

O acesso à cannabis para fins medicinais no Brasil nunca foi tão democrático como agora. Nos últimos dez anos, o número de pacientes que se tratam com derivados da planta cresceu mais de 9.000% e o caminho da consulta ao início do tratamento tem sido cada vez mais facilitado. A Breeza conversou com duas figuras que estão desenhando com carinho uma jornada mais amena e menos burocrática para os pacientes de cannabis.

A Ana Júlia Kiss, CEO da Humora, que traz produtos de CBD e THC para o bem-estar. E a Marcela Machado, co-fundadora da Blis, um aplicativo super simples para realizar a jornada do paciente de cannabis medicinal.

Nesse papo com Anita Krepp, uma das fundadores da Breeza, ambas falam de suas próprias jornadas como pacientes, da evolução da indústria até aqui e do que desejam para o futuro do mercado da cannabis, que veem no mesmo lugar que os suplementos nas prateleiras de mercados. A entrevista também está no podcast Negócios da Estufa, no perfil do Saindo da Estufa no Spotify.

E olha só que massa: a Blis e a Humora vão também apoiar a jornada que o Filipe Vilicic, cofundador da Breeza com a Anita, fará pra relatar para a nossa comunidade breezada como é a jornada, do primeiro contato com a plataforma da Blis até a chegada dos produtos em casa. Acompanhe no nosso site e no Insta!

Ana Júlia e Marcela, vocês duas têm empresas, a Humora e a Blis, que facilitam o acesso a cannabis medicinal no Brasil através de jornadas mais fáceis e rápidas, então eu quero saber se vocês duas são também pacientes de cannabis e se já fizeram essa jornada do paciente.

Ana: Sim, sou paciente de cannabis medicinal, agora já deve fazer uns 3 anos oficialmente. Comecei primeiro indo em consulta médica dentro de uma clínica, de fato, porque já via os benefícios do tratamento num companheiro meu da época, que tinha uma doença bem, bem crônica. Eu era uma paciente não correta, do dia a dia, e daí, quando eu vi os benefícios, falei “nossa, vou entrar nessa jornada da maneira correta e fazer uso de óleo, de uma marca bem conhecida, americana, estabelecida”. Então eu fiz a jornada mais tradicional. Obviamente, depois que tomei a decisão de fundar a Humora, migrei tudo para os meus produtos, também prescritos e bonitinhos, e sou muito feliz hoje, ainda mais pela questão das fórmulas da Humora serem pra usos desenhados e destinados. Hoje eu tenho uma escuta bem ativa do meu corpo, então quando eu tô com dor, eu uso o alívio, o de dormir é pra dormir e tudo mais. E, quando eu conheci a Blis, também virei paciente via Blis, fiz a jornada com eles e expandi ali o meu uso.

Marcela: Boa! A minha história também é bem assim, sou bem fiel à cannabis. Na verdade, a história da Blis, eu não sei se você sabe, Anita, começou por dores iniciais minhas e do Toninho (sócio da Blis). Então, tanto eu quanto ele, a gente queria ter acesso e era tão difícil, tão demorado, até achar o médico, pra quem não conhece nenhum, até agendar consulta, até comprar e tal. A gente falou “Não, vamos desburocratizar esse mercado”. E criamos a Blis exatamente pela dor do paciente.

“Resolvi testar cannabis depois que virei mãe, por causa dos efeitos anti-inflamatórios, recuperação muscular, melhoria de sono”, diz Marcela, da Blis

Comecei a usar cannabis medicinal já faz uns quatro anos. Eu sou atleta, né? Eu tô até em Nova Iorque porque corri a maratona de Nova Iorque ontem. Então, eu gosto de esporte, fiz triathlon, já fiz ultramaratona e resolvi testar cannabis depois que virei mãe, por causa dos efeitos anti-inflamatórios, recuperação muscular, melhoria de sono. Tava difícil casar minha vida pessoal com os esportes, eu apostei na cannabis pra me ajudar um pouco nessa qualidade de vida e melhoria do meu corpo. Comecei e nunca mais parei. Comecei usando óleos mais tradicionais, mas hoje em dia eu já testei de tudo. Uso também os produtos da Humora, uso os balms, uso o óleo, acabo usando um pouquinho de tudo porque pro meu corpo realmente faz bastante efeito. E já testei coisas também que não fizeram. As gummies, por exemplo, pra mim não funcionam tão bem. O legal da cannabis é que é muito individual e é muito legal você ver o que faz bem pra você.

Hoje em dia a jornada do paciente tá bem facilitada, mas, há poucos anos, era bem diferente, era complicado, demorado. Quais foram as principais mudanças na jornada ao longo dos últimos 10 anos?

Ana: Vou trazer aqui minha perspectiva, que começou como paciente e depois empreendedora e, agora, estando nessa parceria como o canal de vendas com a Blis. A primeira vez era isso, quase achar uma agulha no palheiro, um médico que prescrevesse. Às vezes você achava um médico que estava na sua região, mas daí ele era presencial. E a gente estava vivendo 2020, pandemia, e não servia pra muita coisa ser presencial. Ou senão, ele era de uma patologia que não te atendia, ou era uma faixa de preço fora. Sempre era quase um Tetris encontrar alguém que atendesse seu bolso, seus horários, sua necessidade, e também todos aqueles outros encontros e matches que você quer ter com o seu médico, de valores, do cuidado com o seu corpo. Eu vi, assim como a Humora, outras marcas fazendo uma pré-escolha de parceiros, médicos que a gente gosta de recomendar e que não são parceiros, não são médicos da marca Humora, mas são médicos que a gente confia no tipo de capacitação, em como eles prescrevem, como eles veem a medicina, como eles veem a totalidade integrativa. A gente criou um serviço de “cann-cierge”, que facilitava pra quem buscava esse atendimento pegando pela mão, em vez de vocês ficarem buscando, fazendo aquele Tetris que eu comentei. A Humora fazia isso para o paciente, inclusive, várias vezes gerei leads para outras marcas porque, acima de tudo, a gente queria que o paciente estivesse bem feliz e saudável. Quando veio a inteligência artificial, esse boom de um ano, dois anos pra cá, a Humora já estava buscando alguma maneira de facilitar, a gente sentia que era o futuro e a gente fazia esse papel de “cann-cierge”, mas ainda era muito disperso, muito trabalhoso para o consumidor. Daí encontrei a Bliss e foi muito mais fácil.

Marcela: Acho que a Ana apontou super bem. É um mercado que, como todos, começa bem manual, bem difícil, com dificuldade de acesso, dificuldade de informação também, porque tanto o médico não tinha informação sobre o mercado quanto o paciente não tinha informação do que conseguir, se é bom etc., aí a gente entrou, não só para facilitar a jornada, mas também para alavancar o mercado com dados. Hoje a Blis já tem mais de 7 mil pacientes, e a gente tem dados desses pacientes que podem ajudar em estudos científicos para fazer com que mais médicos queiram entender sobre esse mercado, mais médicos queiram prescrever, e assim também o mercado ir evoluindo com base em dados, com base em tecnologia. A Blis em oito meses de atuação e já vendeu em todos os estados brasileiros, inclusive Acre, Rondônia, Roraima. É só ter internet. A gente mapeia perfis individuais para te sugerir o que é bom para você com base em dados de mercado, estamos evoluindo com a tecnologia para democratizar um tratamento que a gente sabe que faz tão bem no dia a dia estressante que a gente vive.

Interessante você falar disso, Marcela, porque a Humora e a Blis desempenham um papel importante na normalização da cannabis como bem-estar, saindo daquela lógica de que só vale para patologias super sérias – e óbvio que também, mas a cannabis é muito mais do que isso, né?

Ana: Uma das razões da existência da Humora foi estar em um lugar não crônico, entendendo que todo mundo tem um sistema endocanabinoide e todo mundo devia abastecê-lo. Óbvio que há algumas exceções e por isso a importância da gente poder ter estudo, da importância de legalizar, da importância da gente poder fomentar a ciência. A gente deveria, sim, ver a cannabis como um auxílio do dia a dia e não como o último tratamento, como é visto hoje no Brasil. Quando a gente pensa em bem estar, eu brinco que a gente resolve a TPM de uma pessoa com o útero e aproveita e preenche o sistema endocanabinoide dela. A gente está resolvendo uma dor do dia a dia e aproveita e hackeia esse lugar de abastecer um sistema tão importante para o corpo. Quando a gente fez o artifício da “cann-cierge”, é num lugar de entender que as pessoas saudáveis não estão nas clínicas médicas, você vai no médico quando você está com uma dor, com uma doença, quando tá mal, e você ali desesperado. As pessoas que estão saudáveis, que tem sistema endocanabinoide, precisam desse equilíbrio que o proibicionismo nos tirou. As pessoas que podem usar cannabis para o bem-estar estão na academia, em eventos, em festas, e daí a gente entendeu que a gente tinha que ter esse lugar de meio do caminho. Eu gosto muito de pensar que esse bem-estar é para todo mundo. Hoje a gente vive um sistema de doença, a saúde é sempre deixada para depois, é um lugar mais de tratar pessoas com enfermidade do que prevenir, e quando a gente pensa em bem-estar, é um lugar preventivo que vem antes e de uma maneira muito mais suavizada e até menos custosa. Porque você não deixa estourar, e eu acho que bem estar tem que caber no bolso, né? Aqui no Brasil a gente ainda pensa que bem estar é uma coisa associada a luxo, é igual os orgânicos e a feira.

“A gente deveria, sim, ver a cannabis como um auxílio do dia a dia e não como o último tratamento, como é visto hoje no Brasil”, defende Ana Júlia, da Humora

Marcela: É, eu concordo. Quando a gente começou, falavámos muito que estávamos criando uma empresa para fazer com que cada indivíduo se sentisse melhor todos os dias. Dentro da sua rotina, dentro do que você faz, tem coisas básicas em que a cannabis pode te ajudar, como, por exemplo, no sono. Às vezes você dorme meio mal e só de começar um tratamento, você já vê que mudou sua vida, porque no outro dia você vai estar mais ativo, você vai estar mais disposto, produzindo melhor no trabalho, mais focado. São coisas simples da rotina que se você cuida e acha um tratamento que funciona para você, faz você se sentir melhor todos os dias e, consequentemente, ser mais produtivo, fazer tudo que você quer de uma forma melhor, mais saudável e mais disposta. Mais de 90% do público que entra na Blis é para tratar do seu bem-estar, e não de doenças crônicas. “Putz, estou ansiosa, putz, estou mais cansada e tal”, são problemas do dia a dia que a gente consegue resolver. E tem problemas até como, por exemplo, quem fuma muita maconha e quer largar o fumo, porque querendo ou não fumar faz mal para o pulmão, faz mal para a saúde e tal. E isso também é um problema bom de se resolver, a pessoa usa a cannabis mais para o bem-estar, para relaxar, mas fumada, aí quer trocar por uma gummie, quer trocar por um óleo. A gente trata todos esses tipos de pacientes e, no final, tem muitos relatos agradecendo de pessoas que entraram com sintomas de dia-a-dia e que estão realmente vivendo melhor.

Ana: Quando a gente fala em bem estar, a gente pensa nessa amplitude de pessoas, né? Os crônicos são um nicho relativamente pequeno, o potencial é muito maior quando a gente fala de bem-estar. Por isso que ferramentas que dão alcance a produtos com dosagens diferenciadas, menores, dão esse fit também, porque, de alguma forma, quem é crônico talvez vá querer falar com um médico, e talvez esses médicos tenham que falar com outros médicos. É uma jornada muito mais intensa, com exame, laboratorial, tudo mais. Mas, por sorte, a população tende a estar mais voltada ao bem-estar e no lugar do dia-a-dia, é engraçado que a cannabis não era vista com essa amplitude. A gente entra nos dois casos, como soluções para o dia-a-dia, para todo o resto da humanidade que não está nesse lugar crônico, e ainda bem. São jornadas diferentes para pessoas também diferentes.

Meninas, o que é ser mulher na indústria da cannabis? A gente está repetindo os mesmos erros que nas outras indústrias?

Marcela: Acho que as mulheres estão agora num momento de conquistar cada vez mais um espaço de igualdade, estamos buscando muito isso, mas tem um caminho pela frente. Desde que eu entrei na indústria da cannabis, há oito meses, porque eu vim de multinacional, trabalhei doze anos na Whirlpool, depois fui founding team da Yellow e da Loft, que são empresas de tecnologia. Sempre trabalhei com todos, né?, mulheres, homens, todos os tipos de pessoas e tal. Ser mulher traz uma força diferente, ter fundadoras mulheres hoje em dia brilha aos olhos, é positivo. Eu me sinto muito empoderada de poder estar nesse papel de fundadora, mulher, e numa indústria que ainda tem muito preconceito, né?, então acho que a da cannabis é uma indústria que tem preconceito. É muito menos sobre ser mulher ou ser homem, mas sobre a indústria ainda ser vista com preconceito. Ser mulher, pra mim, é ser mulher em qualquer empresa, a gente tem que conquistar nosso espaço, é sobre empoderamento. É muito bom ver outras mulheres, por exemplo, a Ana, cara, ela sempre faz posts super inspiracionais no Linkedin, eu sempre sigo. Acho que a gente tem que estar se fortalecendo também nesse mercado, porque é muito importante. Mostrar que mulheres também são mães e trabalham, eu também sou mãe de duas, e esse ponto da mulher ali em qualquer mercado dificulta muito, as multitarefas da mulher. Mas, no fim, acho que traz muita força.

Ana: É difícil ser mulher, não na cannabis, mas em qualquer mercado. Eu sou investidora anjo de teses de mulheres fundadoras globalmente, e nos Estados Unidos só 2% do dinheiro de venture capital vão pra mulheres, no Brasil tá em 0,4%. E a gente vê cases de que mulheres na liderança dão melhores resultados, e eu fico assim “gente, se dá melhor resultado por que que não acontece na prática?”. A gente tem que ter muita força, muita resiliência, seja na cannabis ou em qualquer outro segmento. Eu não sou mãe, mas o multitasking de ser mãe, o corpo, a demanda, tanto emocional, física, mas também social, das tarefas, das cargas mentais, é onde só são desafios e camadas a mais. Mas vejo que na cannabis tem um lugar naturalmente feminino por que é um lugar de cuidado e é um lugar de generosidade. Mas aqui no Brasil estou vendo monopólio de homens, de héteros cis. Trabalhei muitos anos na indústria química, a visão feminina foi parte de algo que somou muito pro meu sucesso porque tinha ali uma amplitude de cuidado com o meio ambiente, com minha produção, com as pessoas, meus clientes, meus colaboradores, e foi hipervalorizado. Até hoje eu tenho mensagem de “oi, saudades´”, eu falo “nossa, depois de sete anos você ainda é lembrada por sua gestão, pela sua maneira de trabalhar”, e eu sei que no fundo é porque tem um filtro feminino nisso, independente da cannabis, esse problema tá todo dia em vários lugares, do ônibus a qualquer multinacional.

“Na cannabis tem um lugar naturalmente feminino por que é um lugar de cuidado e é um lugar de generosidade. Mas aqui no Brasil estou vendo monopólio de homens, de héteros cis”, observa Ana Júlia, da Humora

Para vocês, que vêm de experiências profissionais em outros mercados, o que tá faltando pra indústria da cannabis amadurecer no Brasil?

Ana: Acho que falta a união da indústria, que fica um brigando com o outro, como se fosse uma concorrência num mercado que é do tamanho de uma ervilha e tem um mercado potencial absurdo, absurdo, seja pelo dinheiro, seja pelos pacientes, seja pelas soluções, e eu sinto que a gente fica aqui numa competição de migalhas, não existe uma união, uma associação, existe sempre a Big Pharma contra a associação, que é contra a marca importada, que é contra o cultivador, que é contra médicos, que é contra soluções de tecnologia, parece que não existe uma união em prol da cannabis como indústria. Óbvio que, assim, é chover no molhado dizer que falta uma questão legislativa, leis, uma compreensão, isso sim, é o óbvio, é escancarado, mas mesmo que a gente tivesse isso, com a atitude atual, a gente tem uma indústria muito desmantelada, de cada um por si, e isso me dói muito como indústria. Eu vim de um lugar que a gente tinha que crescer junto com a indústria química, como um setor de adesivos unido, a gente sentava, fazia fóruns, discutia as boas práticas, normativas que protegessem, fortalecessem o uso. Em vez desse lugar de um contra o outro. Aqui a gente tem que estar contra outros problemas da saúde, contra os transgênicos.

Marcela: A gente comenta muito, eu e o Toninho, que a gente nunca se sentiu assim no mercado. O Toninho é publicitário, eu vim de outras indústrias, e o pessoal perde tempo pra matar os outros ao invés de alavancar os outros. A gente estava muito acostumado com achar o problema, tentar resolver junto, a burocracia, a legislação, a regulamentação, e cada um vai brigar pelo seu, o mercado é gigante, tem espaço pra todo mundo, tá cada um com a sua estratégia, não precisa perder tempo tentando colocar o outro pra baixo. Concordo 100% com isso que a Ana falou, de a indústria ser muito pouco unida e não aproveitar as oportunidades pra se alavancar junto, muito pelo contrário, cada um vai muito por si. A Blis e a Humora, a gente meio que deu o match de primeira, acho que foi a única que abraçou a gente no mercado, sinceramente, o resto da indústria inteira, a gente já tomou um monte de processo, aí gasta dinheiro, gasta tempo pra se defender enquanto a gente poderia estar investindo em crescer, e na maior parte das vezes a gente gasta tempo e dinheiro pra mostrar que a gente tá certo, porque a galera perde tempo. É muito louco isso do mercado, e eu acho que, além disso, é um mercado que, como é muito novo, tem muitos entrantes brigando pelo mesmo espaço, então tá ainda um mercado muito pouco estabelecido. A gente vê um monte de marca de óleo entrando, 500 mil marcas de óleo brigando pelo mesmo espaço, e é um mercado que não dá muito pra saber como vai ser o futuro dele. Então, é meio que mudança de rota o tempo inteiro, por essa instabilidade do mercado.

“Tem espaço pra todo mundo, tá cada um com a sua estratégia, não precisa perder tempo tentando colocar o outro pra baixo”, avalia Marcela, da Blis

Ana: Um lugar que falta de crescer na indústria da cannabis é a profissionalização, e não que a gente não seja profissional, ao contrário, a gente é extremamente, mas é uma sensação que parece que trabalhar com cannabis é só comprar e revender ou ser plantador, e eu fico assim “falta profissional, eu juro por Deus, falta contador da cannabis, alguém de mídia social da cannabis, advogados que entendam legislações mais amplas do que só no Brasil, que conheçam Colômbia, Paraguai, Estados Unidos”. A gente fica concorrendo demais pro sonho de todo mundo ter marca e ficar nessa luta de só fazendo papelaria e mudando o rótulo de óleo, quando a gente podia também estar somando. Mercados maduros têm o cara que é especializado em clone, o outro que é em corte, o outro que é em semente, propaganda, o outro que só faz embalagem pra cannabis. Eu não vejo a hora de conseguir falar aqui no Brasil de embalagem inovadora, embalagem que você pode ver a régua descer, embalagem que a pipeta é melhor, que a borrachinha em cima não resseca, a gente não tem avanço nenhum desse tipo, a gente só fica pensando no óleo, papelaria e todo mundo quer ser fazendeiro.

E vem cá, eu quero saber a opinião de vocês sobre essa polêmica em torno da RDC 660, essa pressão que a via de importação vem sofrendo por entidades de peso, inclusive como o Sindusfarma?

Ana: Vou pegar aqui, porque isso me toca diretamente aqui, Anita. É uma visão muito estreita, porque primeiro a 327 não contempla tudo do que essa medicina pode dar, não contempla nano, não contempla outros canabinoides, e do jeito que a 327 está sendo desenhada, vai ser muito difícil contemplar nano e outras moléculas e avanços tecnológicos, acima de tudo, hoje são esses os pequenos avanços, mas no futuro vão ser muito maiores, porque fica tratando esse produto como medicamento, e medicamento é muito caro fazer, então toda vez que a gente ficar colocando todo esse custo para produzir, para estudo, para comprovar que um fitoterápico faz bem, a gente vai ficar sempre tendo que restringir, porque restringindo a gente tem dinheiro para comprovar, e a gente nunca vai estar comprovando a amplitude que essa planta tem, então acho que primeiro a 327 está muito mal desenhada, porque ela é restritiva, e por ser restritiva, a 660 é onde chega pro paciente as tecnologias, os avanços, os avanços de uso, de gosto, de veículo, de fórmula, de canabinoides novos, de misturas com outros fitoterápicos, de formatos. Pela maneira que está desenhada, a gente fica bloqueando acesso a outros lugares de saúde, a lugares que vão resolver, está todo mundo super fã agora de CBN para dormir e a 327 não contempla CBN, a 327 não contempla a CBG, não contempla THCV. É uma restrição ilógica e, por ser ilógica, a gente precisa da importação. Se a 327 fosse muito mais bem feita, eu amaria produzir no Brasil, hoje eu só produzo fora porque não dá para produzir no Brasil e também pelo propósito da Humora, de ser a base d ‘água, alta biodisponibilidade, coisas que vieram do meu passado como indústria química e formuladora, e daí parece contraditório, parece que a gente está privando as pessoas de acesso à saúde e limitando que a saúde delas só pode vir dessa molécula, desse jeito, por uma big pharma. E me dói muito, porque a gente está privando pessoas de saúde, bem-estar, tecnologia, e é isso que pode fazer o Brasil deixar de ser um país de cópia e ser um país que possa ter liderança. Mas quando a gente fala “nossa, o Brasil vai ser ótimo para plantio, gente”, vai ser ótimo para plantio se a gente também puder estudar e fazer tecnologia, porque aqui é um lugar de abundância da terra, então com certeza a gente vai ser muito bom nisso, mas daí a gente só vai fazer mais do mesmo, quando essa planta é muito maior. É de uma incoerência, e mais do que isso, é de uma maldade com o paciente, porque está excluindo, está tirando o elo fraco, o elo fraco é o paciente que está precisando de outras moléculas de tecnologia no seu portfólio, na sua vida.

Marcela: Esse é um excelente exemplo de como esse mercado é individual e não pensa no ecossistema completo e no quanto pode ser benéfico a gente estar junto em algumas decisões. Hoje 50% do mercado é 660. Se proibir importação de um dia para o outro, a quantidade de pacientes que vão ter que correr atrás desse mercado super burocrático, de difícil acesso e tal. Pensando no paciente não faz nenhum sentido, por tudo que a Ana falou, de poucas opções de tratamento e etc., e também porque hoje as pessoas já estão acostumadas com os tratamentos delas, já estão medicadas, já está funcionando, não tem por que trocar isso agora de uma hora para outra. Se caso em algum momento tivesse essa virada, tem que mudar muita coisa na legislação para dar mais acesso para todo mundo, e para os players do mercado poderem também fazer essa virada, porque senão não vai ser acessível, o custo é muito caro, o formato é muito difícil. É legal fortalecer a 327, todo mundo queria estar trabalhando no Brasil, a logística seria mais fácil, o acesso seria mais rápido, a gente estaria fortalecendo a nossa economia, todo mundo gostaria de fazer isso, mas precisaria melhorar um pouco a regulação do lado do empreendedor.

Ana: Eu honestamente acho que isso é cortina de fumaça, que o assunto é mais profundo. Em março, gravei um podcast e tinha acabado de rolar o lance da PEC, o pessoal estava falando da PEC, que ia proibir, daí outro dia eu estava reouvindo esse episódio e falei “nossa, esse assunto está tão passado já”. Essa coisa de 327 contra 660 vai estar datado também já em março do ano que vem, mas parece que sempre tem um desafio e, honestamente, nunca se olha o paciente, o paciente nunca é tão contemplado, e é engraçado, porque a saúde é constitucional, mas a saúde individual já não sei se é.

Qual é o ideal de legalização que vocês veem pro contexto brasileiro? 

Marcela: Vou falar o que eu gostaria e o que acho que faria sentido hoje, conhecendo e olhando os dados de cannabis medicinal. É uma coisa que pra gente é muito óbvio que a cannabis faz muito bem. Pra pessoa que gosta de álcool, é bom cannabis medicinal, pra pessoa que gosta de remédio, é bom cannabis medicinal, pra pessoa que hoje não faz nada, cannabis medicinal vai fazer bem. Acho que seria o ideal chegar a ser uma suplementação mesmo, igual Whey Protein, igual vitaminas específicas, não acho que precisaria de receita, não acho que é necessário ter um médico prescritor, acho que você precisa saber, claro, o que é bom pra você, igual você vai num nutricionista que te fala se vai tomar um Whey isolado, se você vai tomar uma creatina, ele te fala isso, mas você vai na loja e compra o que você quer. Pra mim, a cannabis poderia facilmente chegar lá, claro, com regulação, com limites de THC, com qualidade de produto e tudo mais. Claro que com todos esses critérios de entrada do produto, mas poderia ser um produto de prateleira igual é o suplemento, em alguns países já é assim.

“Claro que com todos esses critérios de entrada do produto, mas (a cannabis) poderia ser um produto de prateleira igual é o suplemento, em alguns países já é assim”, Marcela, da Blis

Ana: Evoluímos muito, passamos de fase, somos seres humanos melhores, poder plantar, quem quer plantar, planta, gosta de jardinagem, curte abraçar uma árvore, e plantar é legal, óbvio que dá trabalho, mas te aproxima até da natureza. Então eu ficaria muito feliz se a gente tivesse uma condição que pudesse liberar o plantio a todos, mas eu sou uma pessoa que mata planta, mata cactos, eu sou viajante, não dá pra levar as plantas comigo, então eu sou a favor também da leitura que a Marcela traz, de suplementação. Quem é crônico, por qualquer razão, é uma pessoa que tá acostumada a ir no médico e vai, se é prescrito ou não prescrito, esse tratamento ou outro tratamento, quem é crônico tá indo no dia a dia. Mas a cannabis é uma coisa mais rotineira, suplementar, não teria porque precisar de tanta chancela, tanto da importação quanto da prescrição. Ter que passar por um médico é uma grana, você fica com medo, tem que pedir pra Anvisa uma autorização, tem que esperar… parece que a gente não tá entendendo que isso faz bem pro corpo. Se a gente pudesse tratar isso como um suplemento incrível, e de preferência suplemento feito no Brasil, esse país abundante em terra. A cannabis é uma commodity que rende mais do que trigo e soja, e daí de alguma forma a gente devia estar produzindo aqui tanto o cânhamo pra fins industriais, quanto o cânhamo pra extração, e podendo fazer essa manipulação, podendo ver empresas tendo seus diferenciais de formulação, seus diferenciais de abordagem, seus lugares tecnológicos, seu nicho de mercado, patologia, sabor, tantos lugares e a gente não pensa nisso. Água, açúcar, refrigerante, a gente vê que tem tanta marca nessas coisas, devia ser tratado que nem isso, tem gente que quer o orgânico, tem gente que quer o mais barato, tem gente que quer o que tem duas misturas porque ele quer um suco funcional, tem tanto lugar pra gente explorar, e hoje a cannabis, a gente não explora nada, só explora um recorte.

Conteúdo apoiado por Blis e Humora