
Depois de participar de três Olimpíadas e conquistar uma medalha de bronze nos 50 metros livre da natação em Tóquio, em 2020, Bruno Fratus era esperança por bons resultados nestas Olimpíadas até há poucos meses. No fim de abril, porém, informou que não competiria em Paris. Um mês depois, foi anunciado como parte da equipe de comentaristas dos Jogos na TV Globo.
Um dos maiores destaques da natação brasileira, ele revela pela primeira vez que faz uso do óleo de cannabis desde 2018, quando encontrou na erva uma bela alternativa aos opióides para acompanhá-lo na recuperação de uma cirurgia que fez no ombro. “Dor, dificuldade pra dormir, ansiedade, depressão, são todos os problemas que o CBD consegue ajudar de alguma forma.”
Vivendo em Miami, nos EUA, há 10 anos, Bruno não tem dificuldade para acessar derivados de cannabis, que compra nos dispensários da cidade, mas confessa sentir-se apreensivo em relação à qualidade e à composição dos produtos, já que embora o uso de CBD não seja mais considerado doping, o THC segue na lista de substâncias proibidas pela WADA, a maior autoridade antidopping do mundo.
Nessa conversa com Anita Krepp, da Breeza, Bruno Fratus anuncia em primeira mão que está investindo em uma empresa de cannabis que deve ser lançada nas próximas semanas; reflete sobre se afinal a cannabis interfere ou não no desempenho de atletas; conta já ter feito uso recreativo; abre os planos de futuro como comentador e competidor (ele diz ainda não ter se aposentado), e confessa estar se divertindo em Paris mais do que em qualquer outra Olimpíada.
Nas Olimpíadas de Tóquio, em 2021, você já usava CBD?
Em 2021… Ah… Usava. Já usava. Eu uso CBD desde… como você sabe que eu uso CBD?
Todo atleta usa CBD…
É, eu comecei meu uso de CBD depois de uma cirurgia que eu fiz em 2018. Lógico que sempre existe um cuidado redobrado, né? Agora tá se buscando melhor tecnologia, melhor pureza e tudo mais. Mas, principalmente naquela época, era praticamente impossível você ter um CBD livre de THC. Então a gente sempre parava bastante tempo antes da competição pra não ter nenhum tipo de contaminação. E também existe a questão da regulamentação nos Estados Unidos. Porque a partir do momento que libera demais e não tem nenhuma organização, nenhuma instituição que regulamenta e que testa esse CBD, muitas vezes você acaba comprando um óleo de amêndoas, um azeite de oliva com corante, um negócio assim. Teve uma pesquisa muito grande em volta de qual marca, de qual produto usar e também de quanto tempo antes a gente deveria parar pra não ter um risco de contaminação. Porque THC é contra o código da WADA. Ele é impedido, de acordo com o código da WADA, em competição. Fora de competição, tudo bem. Então, sim, eu uso CBD desde 2018 até hoje.
Você fez uma cirurgia de quê? Como chegou essa indicação do CBD?
Eu fiz uma cirurgia de ombro, um procedimento chamado tenodese. A tenodese do bíceps, você corta o tendão do bíceps e reinsere esse tendão no ombro com um parafuso. Aquilo dói. Aí entra o controle da dor. E também você tem que ficar dormindo sentado por um bom tempo. Aí vem a dificuldade em dormir. Além de tudo isso, passando bastante tempo fora d ‘água, você é um atleta, um competidor, e você não tá podendo exercer a função de atleta, você não tá podendo competir, e aí vem a ansiedade. E depois de muito tempo de ansiedade, vem a depressão. Então, dor, dificuldade pra dormir, ansiedade, depressão, são todos os problemas que o CBD consegue ajudar de alguma forma. E como tem ajudado, naquela época ajudou, e hoje em dia imagino que seja pra já uma coisa diferente. Hoje, pra mim, cannabis é quase como se fosse uma suplementação. Do mesmo jeito que eu tomo o meu ômega 3, eu tomo as minhas vitaminas, eu tomo a minha coenzima Q10, o meu ácido alfa lipóico e tudo mais, etc. É algo que faz parte do meu dia a dia, é algo que entra no bem-estar, né?
“Dor, dificuldade pra dormir, ansiedade, depressão, são todos os problemas que o CBD consegue ajudar de alguma forma”
Como você acessa o CBD?
Onde eu moro (Miami), ele é mais simples de comprar. Eu consigo comprar de maneira livre nos dispensários. Só que aí tem aquele negócio que eu te falei que é perigoso também. Se você entrar e comprar qualquer um, você pode levar gato por lebre.
Como você faz pra não levar gato por lebre?
Olha, eu nunca tive qualquer tipo de problema. Inclusive, algo que é o orgulho da minha carreira é que eu nunca tive nenhum tipo de contestação relativa a doping. Apesar de eu achar que eu não faço mais do que a minha obrigação. Eu também acho que… é algo que, principalmente hoje em dia, aliás, desde sempre surgiram escândalos de doping. E no Brasil tem bastante também, o que é muito triste, mas eu nunca tive nenhum tipo de problema, e eu costumo parar coisa de quatro, cinco semanas antes da competição. Eu corto qualquer CBD. Já tomo um cuidado muito alto, né? Eu já tomo um cuidado muito grande com o CBD que eu vou comprar, busco um nível de pureza maior, busco uma confiança maior. Só que, mesmo assim, prefiro ter cuidado e parar algumas semanas antes.
Lá em Tóquio você parou também?
Com certeza. Porque eu não tenho como saber. Não tenho como saber, então… vamos supor… Deus me livre, bate na madeira, alguma coisa acontece, até eu explicar que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, aí você já tomou um gancho, a sua credibilidade já foi pro saco, já saiu lá a matéria estampada com o seu nome e com a palavra doping na mesma manchete, sabe? Já tem um dano de reputação e vai gerar um dano financeiro mais pra frente, vai gerar um dano psicológico, emocional. Pra que correr esse risco? É algo que sim, melhora o seu bem-estar, faz parte de um estilo de vida de repente mais saudável, mas você consegue ficar um meizinho sem, sabe?
Se você toma CBD pra controlar a ansiedade, um creme de CBD pra recuperação muscular, essas são coisas que você precisaria manter pra manter o seu nível de competição. Então você abrir mão disso, justamente um mês antes da competição mais importante, como você se sentia?
Não acredito em colocar a responsabilidade da performance em nada, na condição externa, no suplemento. Lógico que o treino tem um impacto gigantesco, mas nem sequer muitas vezes 100% no treino. Eu acredito que a performance está dentro de mim e aí não vai ser mais CBD ou menos CBD que vai me fazer ter mais ou menos performance. Repito, é algo que eu uso pro meu bem-estar, é algo que me faz sentir bem, que eu me sinto bem usando, só que eu preciso ter um entendimento de que não é aquilo que está me dando a performance, senão eu vou ficar dependente daquilo pra ter a minha performance. Foi por isso até que o CBD foi liberado, porque ele não tem ganho de performance e te ajuda no seu bem-estar do dia-a-dia. Inclusive, eu sou investidor numa companhia de CBD no Brasil e que a gente está pra lançar o produto agora em agosto. Então, coincidência maravilhosa estar falando com você sobre isso.
“Acredito que a performance está dentro de mim e aí não vai ser mais CBD ou menos CBD que vai me fazer ter mais ou menos performance. Repito, é algo que eu uso pro meu bem-estar”
Qual é o nome da marca?
Chama Reluz, o produto chama Nex Biopharma. A gente ainda tá pra lançar.
De onde veio a ideia de entrar nesse mercado?
A ideia é justamente a oportunidade que veio através de um outro atleta, amigo meu, que eu prefiro não mencionar, mas veio de outro atleta, amigo meu. E a ideia é justamente resolver essa questão da pureza, da credibilidade, da certificação do produto. A gente quer trazer nível farmacêutico de pureza para o produto pra que o cliente, o consumidor saiba o que ele tá usando. E tenha certeza ali, através de testagem, de selos, que existe uma garantia no controle de qualidade daquele produto e na eficiência dele, é justamente sanar essa questão de você nunca saber o que realmente você tá consumindo e qual que é a porcentagem de CBD que tem ali no produto, qual que é a porcentagem de THC que tem no produto. É uma operação grande, complexa, tem toda a questão da genética da planta, processada na Suíça pra trazer esse nível farmacêutico ao produto, pra ter o melhor nível de processamento possível. É uma operação bem legal e que eu tô muito confiante que vai trazer um dos melhores produtos, se não o melhor produto no mercado.
Você tá desde quando pensando e produzindo esse lançamento?
Não produzo muito, eu só… eu entrei, sento e fico assistindo. Tem muita gente boa envolvida aí que entende de fato do assunto. Eu sou um mero entusiasta e consumidor do CBD. Então, por enquanto eu fico muito mais assistindo. Eu sou muito mais alguém que fica ali assistindo e torcendo pra dar certo. Quando me pedem minha opinião, eu dou, lógico. Claro. Mas tem bastante gente que entende muito do assunto, envolvida no CBD.
“(sobre empresa da qual é sócio) A ideia é justamente resolver essa questão da pureza, da credibilidade, da certificação do produto. A gente quer trazer nível farmacêutico de pureza para o produto pra que o cliente saiba o que tá usando”
Qual é o background dos seus sócios?
Ah, farmacologia, tem gente até de mercado financeiro envolvido também, mas eu não quero dar muito ainda, sabe? Porque ainda vai lançar.
Qual é a sua opinião sobre o THC. É dopping? Não é? A WADA ficou em dúvida sobre o que fazer com o canabinoide, mas acabou decidindo manter na lista de proibidos…
Olha, pra mim, pro meu esporte, eu não tenho dúvida que o THC seria prejudicial. Pelo menos os efeitos que eu… já ia me dedurar, mas os efeitos que eu sinto… mas, os efeitos que a gente sente com o THC, eles são um pouquinho prejudiciais à prova do 50. A coisa da explosão e do esporte de tempo. Mas seria benéfico pra esportes que requerem um pouco mais de concentração. Como um tiro ao alvo, arco e flecha, tudo mais.
Mas você acha que o THC devia seguir nessa lista de substâncias proibidas?
É uma questão complicada, porque, se você libera, acredito que tem que liberar pra todos os esportes, entendeu? Você não pode liberar ou restringir pra esportes específicos. Então… acho que enquanto não tiver um consenso entre todos os esportes, acho que tem que continuar proibido, senão você corre o risco de ter essa questão do ganho de performance em esportes específicos.
Você considera realmente que há um ganho de performance?
Consigo te dizer do meu esporte , nele acredito que teria uma perda de performance. Sobre outros esportes, não tenho experiência competindo em outros esportes, então não consigo te dizer com exatidão. Mas é o que eu te disse, me parece que existem esportes que teriam ganho de performance. Portanto, aí precisa das pessoas desse esporte, responsáveis, profissionais, competidores, entrarem na discussão pra gente entender como podia ser feito.
“Enquanto não tiver um consenso entre todos os esportes, acho que tem que continuar proibido, senão você corre o risco de ter essa questão do ganho de performance em esportes específicos”
Você sentiu algum efeito secundário em relação ao uso do CBD?
Eu não senti nada. E aquela coisa também, não dá pra dizer como seria sem. O que eu sei é que nos períodos em que eu tô usando o CBD, porque são períodos, não uso 365 dias por ano; os períodos que eu tô usando o CBD, eu me sinto bem. Mas não é aquela coisa também que você toma e pá, você se sente bem imediatamente. Eu tomo ali coisa de uma colherinha de chá todo dia e meu sono vai ficando melhor. Meu controle de estresse vai ficando melhor. O que é diferente de um antidepressivo também, já cheguei a tomar antidepressivos. E aí eu tinha dificuldade pra treinar porque não tinha aquela agressividade, aquela explosão pra treinar. Isso o CBD não mexe. Parece que eu consigo gerenciar alguns pontos que tem essa ansiedade, essa dificuldade pra dormir e a dor também.
Você que tá morando nos EUA há 10 anos, tem visto um amadurecimento dessa indústria da cannabis por lá?
Não acompanho de perto. Como falei, meu primeiro contato foi em 2018, justamente porque eu tava buscando alternativas de controle de dor que não fosse a medicação, que não fosse o opióide. Lógico que no pós-cirúrgico você toma um medicamento muito forte pra controle de dor, só que principalmente o opióide, principalmente o corticoide mexe com o seu sono, mexe com o seu metabolismo. Ficava extremamente insone, tinha insônia muito grande. Nossa, ficava constipado, era horrível, mexia com o apetite. Então eu comecei a procurar outras alternativas que não fossem esses fármacos. E aí de repente, sabe aquela coisa, pô, chá de camomila com alfazema, vai me ajudar ou não? Vamos ver o que vai dar. Foi aí que teve uma pessoa que me falou, cara, você conhece o CBD? Você já tentou CBD? Eu falei, não, o que é o CBD? E aí eu fui atrás e comecei a pesquisar, mas não… Não é que sempre foi um interesse meu. Se tornou um interesse por necessidade.
Como é viver em um mundo legalizado?
A cannabis é integralmente legalizada aqui (Miami, EUA). Tem os dispensários, tem o THC, tem o entendimento evoluído. Tem os dispensários, só que aí eu vou ter que te dizer que sou bem careta pra todo o resto. Consumo CBD, mas os outros produtos que eles oferecem, não consumo porque eu não gosto muito, nem álcool gosto muito, porque parece que me tira um pouco da minha linha de raciocínio, do meu prumo. Tudo que me tira do meu centro, não sei, eu não me sinto bem. Gosto de tá sharp ali, raciocinando 100% o tempo todo. Também seria pura demagogia falar que eu nunca provei maconha, já provei, lógico. E não foi algo que eu quisesse manter no meu dia a dia. Então é importante você saber o que você gosta, o que você não gosta, o que você quer, o que você não quer. Pro que eu quero fazer, hoje não é interessante que eu use nada que me tire do meu centro. Então, diferente do CBD, que é algo que se eu posso usar pra me ajudar, como eu falei, ajudar no meu bem-estar, ótimo. Mas a partir do momento que fosse algo que realmente me tirasse do pensamento, do raciocínio afiado. Qualquer coisa que deixasse meu raciocínio menos afiado, já não curto muito.
“Seria pura demagogia falar que eu nunca provei maconha, já provei, lógico. E não foi algo que eu quisesse manter no meu dia a dia. Então é importante você saber o que você gosta, o que você não gosta, o que você quer, o que você não quer”
Como tá a sua rotina aí em Paris?
Como você pode ver, tá a corrida. A gente tá tendo que conversar durante meu café aqui. Agora são 9 da manhã. Eu acordei umas 8:40, porque tô usando o máximo de tempo que tenho para conseguir descansar, recuperar, dormir. Ontem fui dormir por volta das 3h e tem sido assim com bastante frequência. A cobertura, os esforços, a logística da parte da mídia na Olimpíada, ela é muito densa e tem um ritmo muito acelerado. É reativa. Vai acontecendo, vai reagindo, vai respondendo, ao passo que tudo vai acontecendo. Você precisa estar sempre ligado em tudo, você precisa estar sempre disponível para ir nas locações que vão mudando de lugar. Então é algo que você tem que estar bem esperto, bem sharp mentalmente, mas você tem que estar bem fisicamente também. Você tem que conseguir segurar a energia alta o tempo todo.
E me conta, como é que rolou esse convite para ser comentarista?
Eu sempre tive um relacionamento um pouco mais próximo, um relacionamento positivo com o pessoal do jornalismo, mídia, televisão. A gente sempre teve conversa quando eu estava competindo, passava pelas zonas mistas, sempre conversas interessantíssimas e eu me interessava não só ali de fazer o que tinha que fazer, que era falar sobre o que tinha acabado de acontecer, dar notícia e tudo mais, mas também de conversar um pouco com as pessoas. E fazendo isso durante os anos a gente acaba desenvolvendo um certo tipo de relacionamento. Dada a notícia da minha não participação na seletiva, o convite veio quase que de maneira automática, um ou dois dias depois do anúncio, uma vez que eu tô sempre em contato com esses meus amigos jornalistas. E foi uma sugestão de alguns deles, ´cara, sabe o que você devia fazer? Eu acho que você devia comentar´. E aí fui falando com uma pessoa, falando com outra, a coisa começou sondando sobre a possibilidade, se eu realmente queria fazer ou não e a partir do momento que eu falei assim, quer saber? Acho que faz sentido, acho que quero sim. Aí a gente começou a desenrolar todo o processo para fazer isso acontecer.
Como tem sido encarar a função comentarista?
O processo de aprendizado é gigantesco. Toda noite eu tô tendo uma aula, uma clínica de jornalismo com Guilherme Roseguini, tá uma coisa absurda. Eu tenho contato com muita gente boa por muito tempo. Toda vez que eu tenho uma oportunidade, acabo conversando sobre o assunto. A troca é muito intensa, são pessoas que têm muito a acrescentar, são experts, masters, no que eu vim aqui me propor a fazer, mas ao mesmo tempo que eu tô aqui, eu não tenho a pretensão de ser jornalista, de fazer o papel de quem tá aqui pra ser jornalista. Eu tenho noção que eu sou um atleta ainda. Tenho conhecimento do olimpismo, tenho conhecimento do meu esporte; eu tenho conhecimento, acima de tudo, do que é ser atleta na Olimpíada. E é isso que eu tento passar quando me perguntam a minha opinião.
Você anunciou em abril que não participaria das Olimpíadas, um pouco em cima da hora. Quero saber duas coisas: o que aconteceu e como é que tá sendo pra você estar aí como comentarista e não mais como atleta?
Eu tentei, eu tentei até o último segundo. A decisão, esse anúncio, veio no momento que sim, foi bem em cima da hora, só que eu queria usar cada dia, cada segundo, cada hora que eu tinha pra tentar voltar e tá disponível pra competir. Eu sou atleta de natação desde os 11 anos de idade, e hoje com 35, era muito, aliás, até poucas semanas atrás, era muito difícil me ver fazendo qualquer outra coisa, exercendo qualquer outra função nos Jogos Olímpicos. Só que, de novo, eu trago pra esse lado da amizade, dos amigos. Eu tenho amigos que se importam comigo e amigos que querem me ver feliz, familiares que querem me ver feliz. E foi fruto de um incentivo deles que eu tô aqui hoje e eu me propus a viver uma experiência diferente. A ponto de que eu me dou conta que o importante é você estar nos Jogos Olímpicos, não importa a função, o importante é você estar fazendo parte do olimpismo e contribuindo de alguma forma. Essa é a forma que eu encontrei de contribuir nos Jogos de Paris. E eu arrisco dizer que é uma das minhas melhores experiências em Jogos Olímpicos e disparado é a Olimpíada que eu tô me divertindo mais. Lógico que a gente teve a medalha em 2021, só que a medalha foi aquele momento. Aqui eu tô me divertindo a Olimpíada inteira. Todo dia eu faço algo, todo dia eu vejo algo novo, todo dia eu tenho uma emoção vinda de uma fonte diferente. Então, Paris tá, de longe, sendo os jogos mais divertidos pra mim. Mas cansa, viu? O que eu tô andando, o que eu tô andando é inversamente proporcional ao que eu tô dormindo..
Por que andando tanto assim, não tem transporte?
O comitê organizador decidiu por ter os Jogos no meio da cidade. Então, várias das arenas esportivas ficam em praças da cidade. Paris tem muitos parques, muitas praças. Outra questão também é que, como a cidade tem muitas vias bloqueadas, tem um certo trânsito, uma dificuldade de locomoção por carro, as melhores opções são ou metrô ou bicicleta. E aí tem sempre aquela caminhadinha de uma estação pra outra. Até se você pegar uma bicicleta, de um parque pro outro ainda caminha-se bastante. Existem carros credenciados que pegam o chamado Olympic Lane. O Olympic Lane é uma faixa ali na via separada pra veículos envolvidos com Jogos Olímpicos. Mas a situação é que eu tô fazendo parte de três, quatro produções diferentes e nem sempre essas produções falam entre si. Então, em algum momento eu vou ter que pegar o metrô, vou ter que pegar a bicicleta. Vou te falar que eu gosto também, viu? Principalmente hoje, que tá mais fresquinho agora, eu acho que eu vou pro meu primeiro compromisso pedalando.
Quais são os seus planos para as próximas Olimpíadas? Você vai querer continuar como comentarista?
Eu tô vivendo Paris, como eu te falei, de uma forma muito intensa. Gosto muito do que tô fazendo aqui, e vamos ver o que vai acontecer. Não aposentei oficialmente, continuo me mantendo em forma, continuo treinando, não no nível de treinar pra estar na Olimpíada competindo, mas continuo treinando. Eu tenho me divertido muito aqui, e me divirto muito competindo. De todos os problemas, entre aspas, que eu poderia ter, tô tendo o melhor de todos eles, que é ter excesso de opções. Eu tô gostando muito de ser comentarista, tô gostando muito de ser comunicador. Se puder de alguma forma conciliar os dois no futuro, ser comunicador e ser atleta é algo que eu vou querer fazer. Então, não sei, o futuro a Deus pertence. Vou focar uma coisa em cada vez e ver pra onde tudo isso me leva. Do mesmo jeito que não esperava estar aqui em Paris, no começo do ciclo, não esperava estar em Paris comentando, não esperava estar em Paris fazendo esses vlogs diários sobre o que tá acontecendo aqui, e não sei o que pode acontecer daqui a seis meses, daqui a um ano. Então, faz parte desse meu novo entendimento de vida parar de querer controlar sempre o resultado de tudo que faço. É simplesmente focar em fazer um trabalho bem feito hoje.
Quando é que se toma a decisão de se aposentar?
Eu imagino que você sinta, né? Do mesmo jeito que eu senti que o meu corpo me disse que eu não deveria nadar aquela seletiva, eu imagino que você sinta. Converso com atletas, hoje são ex-atletas, e eles me contam que sim, cara, tem uma hora que você sabe. Você simplesmente sabe que tá na hora de se aposentar, de você parar, por qualquer motivo que seja. Eu sinto o contrário, sinto que ainda não tá na hora de me aposentar, sinto que eu ainda tenho um prazer muito grande no processo, na competição e tudo mais. E não é um assunto que eu levo com peso, aquela coisa de responsabilidade, que você já tem que colocar ali ou tá 100% no aposentado ou tá 100% no estou competindo final olímpica pra medalha, sabe? Eu já passei por essa fase e é isso que acredito que isso seja, uma fase. Você passa por fases na sua vida, o ser humano muda. O ser humano é essa coisa maleável, essa coisa flexível. E a gente é essa energia condensada que acabou ficando inteligente demais pro próprio bem. Então, como energia que é, você tem que fluir. Você tem que mudar, tem que evoluir, tem que responder aos sentimentos, responder ao meio. Hoje eu tô numa fase que tô curtindo agora aqui, eu tô me fazendo bem, eu tô escolhendo me fazer bem. Tô escolhendo ser honesto comigo mesmo, muito antes de querer provar ou mostrar algo pra outra pessoa. Hoje eu tô feliz de tá aqui agora e eu tô feliz de ser eu. Então… façam terapia (risos). Ajuda muito (risos). Muito bom.
“Vibrei muito com a ginástica, foi maravilhoso. Eu que conheço as meninas, principalmente a Jade, a Flavinha, a Rebeca, é emocionante ver os seus amigos tendo sucesso”
Qual é a sua expectativa de resultados para o Brasil nos Jogos?
Nossa, eu vibrei muito com a ginástica, foi maravilhoso. Eu que conheço as meninas, principalmente a Jade, a Flavinha, a Rebeca, é emocionante ver os seus amigos tendo sucesso. Muitas vezes você vê amigos muito próximos, muitas vezes você vê gente que você convive no centro de treinamento, aquela coisa do oi e tchau, e você vê o trabalho daquela pessoa. É muito bom, é muito satisfatório você ver gente que você conhece, gente que você tem proximidade tendo sucesso. E… lógico, Pio, Alison Santos, Ana Marcela Cunha, Maia, Maira Aguiar. Zero surpresa que o judô já tá trazendo medalha, então é o que o judô faz nos Jogos Olímpicos. Gostaria de estar vendo um pouco mais da natação, acho que a natação ainda não chegou no nível que a natação brasileira pode chegar, mas é um trabalho contínuo, existe sempre uma renovação. Jogos Olímpicos é a cada quatro anos, então basicamente você tem um time totalmente novo a cada quatro anos.