
“Eu uso o dia inteiro. Para acordar, (oléo) full spectrum”, comenta Natália Zumba. Mentes preconceituosas já poderiam imaginar que, por ser full-time, ela seria, na falta de outra palavra, lesada. Longe disso. “Também tomo antes dos treinos para melhorar a concentração. Após, para recuperação muscular. Passo pomada de CBD em regiões com lesões. À noite, Delta 8 para pegar no sono.”
Natália tem rotina de atleta. Foi três vezes medalhista mundial de jiu-jitsu, sendo duas pratas, um bronze. Assim como tem um bronze no Pan-Americano da modalidade e um ouro no campeonato europeu. Em 1º de novembro de 2022, contudo, teve a carreira interrompida.
Na final do campeonato brasileiro sem quimono, um golpe lesionou seu joelho. Foi parar na sala de cirurgia.
A ERVA CERTA NA HORA CERTA
Poucos dias antes da lesão, a lutadora havia fechado um patrocínio com uma marca de cannabis medicinal. De início, ela pretendia usar óleo de CBD para ajudar na insônia, no bem-estar e, assim, melhorar o desempenho no esporte.
Natália abriu a cabeça para o tema também por influência da esposa, veterinária. Ela cursava uma pós na área na qual estudava alternativas como a acupuntura. Foi quando descobriu as vantagens dos usos em animais e, nas pesquisas, teve contato com estudos médicos. Ao observar como a cannabis pode ser salvadora em diversos casos, sugeriu à Natália.
“Mas não para mim. Primeiro, para meus avós”, esclarece a lutadora. O avô, enfrenta a demência. A avó, tremor essencial, um distúrbio do sistema nervoso que causa agitação rítmica, levando a tremores, como nas mãos.
Os avós passaram por consulta médica e começaram a se medicar com cannabis. “Para minha avó, representou uma mudança tremenda de vida. Antes, tremia para beber água. Agora, isso é mega controlado.” Já o avô está mais calmo, tem dormido melhor e apresentou melhoras (veja só!) na memória.
A experiência a levou a se aproximar do tema e, um caminho leva a outro, a fechar o patrocínio com uma marca no ramo. “Os primeiros produtos chegaram no dia seguinte de minha cirurgia.”
O que antes seria uma alternativa para ajudar a melhorar o desempenho no esporte, virou um medicamento essencial. “Rompi vários ligamentos. Após a cirurgia, a dor era imensa e tenho certeza que eu não conseguiria dormir se não fosse o óleo.” A falta dos treinos diários e o trauma de um assalto no período também a levaram a momentos de crises de ansiedade. Foi quando, por orientação médica, aumentou as doses e, como conta à Breeza, passou a usar sempre que saía de casa.
Isso foi durante um tempo. Somada à fisioterapia e à resiliência de uma campeão, a cannabis permitiu que voltasse a competir cerca de um ano depois, em novembro do ano passado. Quando se consagrou vice-campeã do Curitiba Open.
Retomou o dia a dia de atletas de alto rendimento. Treina quatro vezes diárias, além de continuar na fisioterapia. “A gente (atletas) vai no limite do nosso corpo. Sempre tá ferrado, com alguma dor, lesão. (O uso) melhora a qualidade de vida, diminuindo nossas dores e aumentando a performance.” Hoje em dia, ela não “se vê sem os óleos”.
NO TATAME
Natália conta que os colegas de treino chegam a fazer piadas com ela. Dizem “vai ficar doidona.” Aí, a lutadora explica que não é nada disso, muito pelo contrário.
“No jiu-jítsu, muitos fumam, de forma recreativa. Só que é um assunto velado. Pura hipocrisia.” A campeã compartilha que, antes da cirurgia, nunca tinha experimentado. Apesar de ser 100% a favor da legalização, comenta que não é adepta de fumar (assim como não bebe álcool). Prefere o óleo e as pomadas.
A atleta de 31 anos conta que a planta melhorou sua qualidade de vida. Ao vencer a insônia e contribuir para a recuperação muscular pós-treino, avalia que colabora com o desempenho nas lutas.
No jiu-jitsu, são poucos os campeonatos que pedem antidoping contra maconha. “Só o mundial, uma vez ao ano, e um ou outro mais.” Para ela, o acesso restritivo à substância acaba permitindo que alguns possam ter benefícios como esses, enquanto outros, não. Por isso, defende que seria justo ampliar o uso entre atletas brasileiros.
“Não é como anabolizante ou algo assim. Pois não aumenta a massa muscular, a força. Não há trapaça”, afirma. Para Natália, a contribuição é para com algo que todos deveriam poder melhorar: nosso bem-estar.
Essa melhora, justamente, a fez voltar com força total para os tatames. Dentre outras medalhas, em dezembro, foi bronze no mundial. Em janeiro, também bronze, aí no campeonato europeu. No momento da publicação desta reportagem, todavia, a lutadora estava sem poder usar a planta. Pois então se preparava para o Pan-Americano.
“Terei de ficar sem THC, como o Delta 8 que tomava à noite, até maio.” Natália compartilha que a recuperação muscular pós-treino foi prejudicada, assim como seu sono. “Os últimos dias estão uma chatice.” Sua médica havia então acabado de receitar o CBD isolado, que começaria a testar contra a insônia, ao longo desse período de competições.