
Frango com CBD. Hambúrguer por $4,20. Promoção de “Deliciously Dope Dime Bag”. Desconto em corridas de carros para quem for para points canábicos. Campanha de conscientização para a soltura de presos por porte de maconha.
Quando chega 20 de abril (4e20 no jeito de escrever de lá) nos Estados Unidos, é batata: pipocam campanhas, comerciais, posts patrocinados nas redes sociais de empresas, influencers, organizações, de quem quer chegar junto do público canábico e psicodélico. Se antes eram mais os atores já da cena que atuavam na data (ao menos de forma descarada), uma onda que está cada vez mais forte é a de marcas de fora do meio se interessarem em falar abertamente conosco, nossa comunidade.
O mundialmente celebrado 20 de abril, o 4e20, é exemplar desse fenômeno. Nos últimos anos, acompanhando a legalização nos EUA, viraram praxe as promoções temáticas de cadeias de pizzarias, fast foods, hamburguerias e toda sorte de restaurantes, de manjados dos stoners como o White Castle, a populares como o KFC. Usualmente, apoiam-se nossas figuras e nossos meios, os canábicos.
Publicidade para maconheiros não é de agora, mas antes era feito de forma bem mais comedida, pode-se dizer até escondida. A Budweiser tem uma série de comerciais que são clássicos da publicidade e claramente emulados da cultura canábica, como o “Wassup” (quem já viu aquela comédia maconheira Todo Mundo em Pânico deve se lembrar de cena similar) e a campanha “Make a Bud Get a Bud”(que já diz muito pra quem sabe o nosso sentido de “bud”). Já haviam marcas de fast-food dando nomes brincalhões para suas promoções, pequenas piscadelas assim, mas meio envergonhadas.
O que claramente mudou é que agora as marcas não só querem se comunicar com o público que curte a ganja, como querem fazer isso de maneira explícita. “E não acho que há marcas suficientes falando com os consumidores de cannabis. Aqui nos Estados Unidos, o mesmo número de pessoas que usam cannabis são os que dirigem um carro ou um caminhão da Ford. É ordinário, nada controverso, seguro para as marcas, e as marcas sabem disso”, nos disse Andrew Graham, porta-voz da NuggMD, empresa dos EUA dona de uma plataforma que facilita o uso medicinal, assim como realiza diversas pesquisas no setor, e algumas inclusive já renderam reportagens na Breeza.
Novas mensagens para milhões de consumidores
Quase 40 milhões de pessoas usam cannabis nos Estados Unidos – e aqui no Brasil somos mais de 20 milhões de adeptos, ao menos um em cada cinco adultos. Os números já mostram como o assunto deveria ser conversado, normalizado e, em alguns âmbitos, regularizado e legalizado. O que impede que empresas e instituições invistam mais na área? Infelizmente, ainda há resistência de mais reacionários e moralistas, que são cada vez menos (afinal, senão o bom-senso, as altas possibilidades de lucro acabarão por se impor).
Nos EUA, país de gosto da maior parcela dos conservadores brasileiros, o bom-senso e o lucro já imperam faz tempo. Por isso marcas estabelecidas como Lyft (app de transportes), KFC, Ben & Jerry’s, Bic, Rockstar Games, DoorDash (app de delivery de comida) e tantas outras propagandeiam para o nosso público. Agora sem rodeios, não mais nas entrelinhas, de forma direta e papo reto.
Instituições como a tradicional American Civil Liberties Union (ACLU) têm se unido a marcas para promover bandeiras ligadas à maconha. No caso, a ACLU tem diversas ações que buscam conscientizar e incentivar a pressão para que presos injustamente por porte de maconha nas últimas décadas sejam libertados.
No site dedicado à iniciativa, a organização declara que promove e defende direitos civis: “Estamos lutando não só pela legalização da maconha, mas também pela reparação de décadas de danos (…) Mesmo conforme se torna descriminalizado ou legalizado em mais estados, as disparidades raciais ainda permanecem e milhares de pessoas continuam atrás das grades por penas inócuas em torno da cannabis”. (Infelizmente, muito parecido com o que é no nosso país, que, convenhamos, está ainda mais atrasado nisso).
No mês passado, na época do icônico 20 de abril, a NuggMD fez uma pesquisa para saber como o público canábico recebe os anúncios voltados a eles. Assim descobriram que 76% dos canábicos dizem que aprovam, falando que “amam” e que “acham que a cannabis deveria ser mainstream”. A cultura e os costumes de nossa cultura são vastos e milenares. Pode-se imaginar marcas explorando temas como a larica; o relaxamento e a alegria; a noção de roda e comunidade; a ideia de compartilhamento; os efeitos terapêuticos; a música, a literatura, o cinema que vem de quem gosta de fumar uns.
“Marcas possuem muito poder em estabelecer a agenda cultural”, analisou Andrew Graham, da NuggMD, na conversa com a Breeza. Ainda acrescentou: “O movimento (canábico) deve facilitar para que aliados possam nos ajudar a amplificar a mensagem. Não estamos em posição de recusar auxílio de boa-fé daqueles com poder”.
E o Brasil com isso?
Estamos em um estágio anterior do que se encontra o cenário dos EUA, que costumamos emular. Ou seja, o que se lê acima pode ser tido como uma previsão ou, se preferir, uma aposta para como será daqui a pouco no Brasil.
No Brasil, estamos em um momento precioso no qual florescem e se expandem marcas de nossa área, cada vez maiores, e que se ajudam no processo. Aqui contamos com várias parceiras canábicas que acreditam no nosso conteúdo, como a Bem Bolado, a Flora Urbana, a Blis, a ExpoCannabis e a Humora.
Essa força de comunidade tende a ganhar ainda maior volume e intensidade. Novamente, a cena dos EUA serve de referência e ela é bem simbolizada pelo baseado gigante que tomou o principal outdoor da Times Square, em Nova York, no 4e20 (20 de abril), com apoio de duas marcas poderosas de nosso setor.
Agora, se queremos legalizar, regularizar e normatizar todas as formas de uso, e ainda colocar em debate mais bandeiras de suma importância aos canábicos, é preciso furar a bolha. Como fazer isso? “Penso que passa por mudanças que envolvem produtos e políticas internas. Grandes marcas devem incorporar o consumidor de cannabis em sua linha de produtos”, comenta Graham.
O cenário brasileiro merece uma nova reportagem. Inclusive por suas tantas particularidades, como a de termos outras datas bem fortes para a celebração canábica, como o Carnaval e as marchas da maconha.
Um spoiler: Está evidente como atores de fora de nossa cena começam a se interessar bem mais por ela, por nosso público. Vê-se na chegada ao mercado de investidores de diversos setores, como do esporte e da música (além de vários outros). Observa-se ainda mais no ingresso de marcas de fora da bolha e que acreditam em ideias compartilhadas pelo setor, como é com nosso projeto O Guia da Boa Breeza, sobre redução de danos, e em parcerias e collabs que fazemos com mídias das mais diversas.
Ou mesmo na forma como a Breeza se empenha para espalhar informações e conhecimentos que circulam pelo nosso campo para além dele próprio. Por meio de frases de nossos entrevistados e nossas entrevistadas (ilustríssimos e ilustríssimas!) que ganham destaques em jornais, revistas, sites e nas redes sociais; com nossas reportagens que pautam até mesmo as conversas políticas em Brasília; e com nossas parcerias com marcas que querem ter presença nesse jogo. Se desejamos mudar os ares políticos, as leis, a percepção pública… tudo aquilo que defendemos… temos de nos abrir à conversa com quem tá chegando agora. Só temos todos e todas a ganhar com isso.
Filipe Vilicic