Reportagens

Estão trocando o litrão pelo baseado?

A Breeza notou essa mudança entre jovens adultos, uma tendência que tem sido comprovada pelos números e pela ciência. Quais são os impactos em quem usa e em quem está ao redor?

Se você observar com atenção as rodas de jovens-adultos nas festas, folias e conversas, talvez repare como é cada vez menor a presença de um elemento antes mais comum: álcool, seja o litrão de breja ou um copo de uísque com energético, aliás, duas bebidas que se tornaram tão cringe. Por outro lado, deve perceber outra tendência, a da maconha, em baseados, vapes, óleos, comestíveis, canetinhas indo de uma mão para a outra.

As novas gerações de adultos estão substituindo a bebida pelo baseado?

Não estamos sozinhos nessa dúvida, a ciência tem respondido à pergunta que nos fazemos olhando ao redor. O Brasil, como sabemos, não possui bons números comparativos ao longo das décadas para firmar conclusões definitivas sobre o uso de drogas ilícitas de uma geração para a outra, e isso ocorre como consequência de como a ilegalidade limitou os estudos sobre o tema. Porém, nesse contexto costumamos seguir as ondas que vêm dos EUA, seja na era hippie ou agora, em que a ganja começa a ser mais aceita, embora chamada por alguns só de cannabis, naquela tentativa de legalizar por meio da exclusão (lembremos a origem afro de termos tão adorados por quem realmente é da cultura canábica, como maconha e diamba… por que será que alguns rejeitam justamente essas palavras?). 

O mais recente relatório Monitoring the Future, do ano passado, mostra bem como tem sido o vaivém, de uma geração para a outra, dos hábitos de usar substâncias para alterar nossos corpos e mentes. A pesquisa acompanha as relações com drogas de jovens-adultos dos EUA, aqueles entre 19 e 30 anos, desde a década de 1970.

O uso da erva, das mais variadas maneiras, cresceu exponencialmente na última década, dobrando a experimentação, na frequência de ao menos uma vez ao mês, desde meados dos anos 2010. Enquanto isso, o álcool (assim como o tabaco, e este de forma ainda mais aguda) tem caído em popularidade, em uma linha decrescente, sendo que hoje em dia cerca de metade desses jovens-adultos curtem beber – um hábito que já foi de cerca de 70% deles na década passada.

Agora, ressalta-se um ponto central: apesar de insinuar uma conclusão assim, isso não quer dizer necessariamente que as novas gerações estão trocando uma coisa pela outra, os drinks pela maconha. Mas tem um outro estudo que comprovou essa tendência de maneira certeira.

A pesquisa realizada em janeiro pela NuggMD, uma plataforma que auxilia a tirar o cartão de paciente de cannabis nos EUA, certificou a tendência. Foram ouvidos cerca de 400 usuários para compreender como tem sido a relação deles com álcool e maconha.

Não foi surpresa descobrir que 54% relataram que bebem muito pouco ou nada quando estão usando a erva, inclusive quando para objetivos terapêuticos, o que revela o potencial da planta de também servir de escape (bem, bem, bem) mais saudável para quem quer se livrar do abuso do álcool. Além disso, 22% nem vêem relação entre as substâncias, acreditando que cada uma tem sua hora e lugar, 14% opinaram que tudo depende da circunstância e apenas 9% disseram que o consumo de uma droga incentiva o de outra.

Ou seja, mais uma evidência (se é que faltava) de que é uma das balelas mais preconceituosas dizer que a ganja seria “porta de entrada”. Pelo contrário, tem é se provado como uma droga de saída de outras (bem, bem, bem) mais pesadas.

O QUE MUDA PARA QUEM USA…

“Os consumidores de cannabis hoje estão usando a planta mais para bem-estar do que para satisfação”, foi uma das conclusões da pesquisadora Alexandra Arnett, que trabalhou no estudo da NuggMD, e com quem Breeza trocou mensagens na DM do Instagram, o que inclusive nos levou a descobrir que ela não mais está na empresa.

A análise condiz com o que mostram alguns estudos, como um publicado em 2023 pela Associação Americana de Psiquiatria. O levantamento descobriu que enquanto apenas 38% dos estadunidenses têm a erva como perigosa (ou seja, algo como um terço), 84% consideram o cigarro inseguro, assim como 64% falaram o mesmo sobre álcool.

O levantamento considerou todas as drogas mais conhecidas, das ilícitas a remédios de farmácia, e incluiu um elemento curioso: tecnologia. Para quem foi ouvido, a maconha (38%) só seria mais perigosa que a tecnologia (23%). Será?

Ouvimos o psicólogo e professor universitário Lauro Pontes para entender se essa percepção dos usuários, de que a flor é tão menos perigosa do que outras substâncias, como a bebida, estaria correta. “A substituição de um pelo outro (álcool pela maconha) no prazer social leva a mudanças no comportamento (de quem usa). O álcool acaba tendo um componente excitatório maior, a tensão social provocada pela substância é absurdamente maior, o mecanismo de agressividade fica mais atenuado com a maconha”.

Pontes ressalta como os efeitos no dia seguinte revelam a diferença de baque entre as drogas. Segundo ele, após uma noitada onde se fumam uns baseados, a pessoa depois acorda bem, funcional, sem sequelas. Já drogas como álcool, além de outras pesadas, trazem efeitos agudos, que vão da ressaca a deixar a pessoa completamente acabada após o consumo.

“Não precisamos criminalizar nenhuma droga”, pontua o psicólogo. “Só temos de aprender a usar na quantidade e frequência corretas, e tem algumas que é preciso evitar, pois o controle não é tão simples, como cocaína”. Na comparação direta entre bebida e ganja, acrescenta: “O álcool a gente conhece há muito tempo e a maconha, também. O uso pode ser moderado ou baixo, considerando que não há uma dose fisiológica mínima do álcool, que é uma substância danosa em qualquer dose”. A depender da dose, a maconha ganha até fins medicinais e bem benéficos.

…E O QUE MUDA PARA A SOCIEDADE

São muitos os efeitos sociais dessa mudança. Um deles é material: a indústria do álcool está perdendo terreno, enquanto a da cannabis só cresce. Isso é evidente em mercados onde a maconha já é legalizada.

No Canadá, por exemplo, as vendas de bebidas não param de cair e os impostos anuais de cannabis já são maiores (equivalente a 660 milhões de dólares) do que a soma dos de vinhos (205 milhões) e de cerveja (450 milhões). O mesmo se repete em estados dos EUA onde é legalizado, como no Michigan (onde o mercado de maconha equivale ao de cerveja, vinhos e destilados), em Illinois, no Arizona, em Washington, no Colorado etc.

Os efeitos sociais do uso também são quase nulos em relação à maconha, enquanto podem ser bem drásticos quando falamos do abuso do álcool, seja em uma noitada ou ao longo da vida. Uma pesquisa realizada no ano passado com mais de 23 mil usuários de diversos tipos de substâncias na Nova Zelândia indicou como a erva pode inclusive ser ferramenta de redução de danos, como caminho e auxílio no tratamento de dependentes químicos que querem deixar drogas pesadas de lado. 

Para 60% dos respondentes, a adoção da cannabis os fez diminuir ou abandonar a bebida; 44% sentiram menor necessidade de drogas como morfina; e 40% reduziram o uso de metanfetamina. A lógica se repete com a maioria das outras drogas, como o tabaco, sendo que um terço das pessoas que participaram do estudo relataram que a maconha inclusive auxiliou a deixar ou diminuir a frequência do hábito de fumar cigarros.

Em uma tendência que novamente se mostrou muito mais prevalente nas mais novas gerações, as de jovens-adultos, que nessa pesquisa específica se consideram como aqueles com entre 21 e 35 anos de idade. O mesmo estudo ressaltou, inclusive, como outros levantamentos realizados antes por cientistas chegaram a conclusões similares, como um que apontou que o crescimento do uso de maconha nos EUA levou os jovens a realizarem menos “binge drinking”, que é um costume bem estadunidense de tomar uns drinks atrás dos outros, em sequência e em ritmo acelerado, para apressar e intensificar a bebedeira.

Para o psicólogo Lauro Pontes, todo esse cenário representa que as pessoas estão cada vez mais esclarecidas em relação ao uso responsável: “O jovem de hoje é mais informado, ou ao menos tem mais acesso a informações, e aí começa a perceber como o uso frequente de determinadas drogas, como álcool, é infinitamente mais danoso do que o de maconha, que tem danos provocados na queima do baseado, mas até isso pode ser trocado por outros métodos, como vaporizador, óleo e outras formas de ingerir”. 

Conhecimento sobre o quê se usa, portanto, leva a decisões mais conscientes e saudáveis. E é bom exemplo disso a onda de substituir o litrão por uns fininhos nas festas, folias, carnavais ou mesmo para relaxar em casa à noite.

Filipe Vilicic