Reportagens

Como mudou como usamos

Um novo estudo mostra que se está no auge do uso de cannabis, vapes e psicodélicos, e na baixa o de cigarros e fármacos pesados. Analisamos o cenário desde os anos 70
05|09|24

Estamos no pico histórico de uso de cannabis e psicodélicos. Só que temos fumado menos cigarros, nos embriagado mais raramente e diminuído o uso de fármacos da pesada, como Ritalina e OxyContin. É o que revela um novo levantamento, divulgado faz poucos dias, em 29 de agosto.

Breeza mergulhou nas 208 páginas do relatório The Monitoring the Future, parte de uma iniciativa que acompanha desde os anos 1970 como os jovens-adultos dos EUA consomem drogas. Os últimos resultados retratam o cenário atual. Após a leitura do estudo, fizemos comparações com os resultados apresentados em anos anteriores, num histórico que mostra como o Ocidente tem encarado o uso de substâncias que mexem com o corpo e com a mente.

O Brasil carece de estudos sobre modos de usos de substâncias psicoativas, em muito pelos limites que a criminalização historicamente impôs. Nesse aspecto, em o quê e como usamos, também temos grande influência dos hábitos do Norte, com evidentes temperos locais como a ayahuasca. Pesquisas que saem nos EUA, além disso, tem um respaldo de um histórico de análises, pela forma mais livre que se encaram os estudos com cannabis, psicodélicos e demais por lá. Por isso uma análise de The Monitoring the Future nos é esclarecedora também de como tem se transformado a cena no nosso país.

O levantamento foi realizado com mais de 120 mil pessoas. Na maioria, o que se denomina de jovens-adultos, com entre 19 e 30 anos. Só que o The Monitoring the Future, conduzido pela Universidade do Michigan e financiado pelo Instituto Nacional de Saúde, é realizado desde 1978 e tem também como objetivo acompanhar o hábito de uso ao longo do tempo, para retratar como os costumes na juventude podem influenciar os na vida adulta. Assim, uma parcela dos que participaram têm entre 35 e 50 anos (os jovens de antigamente) e, pela primeira vez, foram ouvidos alguns que chegaram há pouco à terceira idade, com mais de 60.

Disse a diretora do instituto, a psiquiatra Nora Volkow, na divulgação dos resultados mais recentes: “Temos observado que pessoas em diferentes estágios da vida adulta têm tido a tendência ao uso de drogas como cannabis e psicodélicos, enquanto estão se afastando dos cigarros de tabaco. Esses achados destacam a urgência de termos pesquisas rigorosas sobre os benefícios e os riscos potenciais da cannabis e dos alucinógenos”.  

OS JOVENS DE HOJE…

Dos jovens-adultos, os com entre 19 e 30 anos, 42,4% declararam ter usado cannabis no último ano, 28,7% afirmaram que ao menos uma vez por mês, e quase 11%, diariamente. Há um pico histórico da maconha, em um crescimento sem parar nos últimos dez anos. A experimentação bem casual, uma vez ao ano, passou de 30,6% para os atuais mais de 42%. O uso mensal saltou de 18% para cada vez mais próximo de 30%. Já o diário, dobrou. Além disso, há maior prevalência entre mulheres (44,1%) do que homens (40,3%), o que é inédito.

A forma de uso que mais tem se popularizado é a vaporização. Os dados sobre esse tipo de consumo são mais recentes, vêm desde 2017. Nos últimos cinco anos, o hábito entre os jovens-adultos cresceu de 15,7% para 22,2% de adesão.

A Breeza não favorece nem influencia nenhuma forma de uso, de nada. O que fazemos é reconhecer a realidade: que se faz uso, e que há benefícios e riscos nisso, assim como formas mais inteligentes de aproveitar qualquer brisa na vida. É notável também como os hábitos se transformam ao longo do tempo. Nas últimas décadas de forma brusca, em tendências que se fortalecem e se enfraquecem.

No caso do cigarro de tabaco, houve redução significativa entre os jovens-adultos, numa diminuição de dois terços no uso costumeiro desde 2004, de 28,8% para 8,8%. Por outro lado, a adoção do vape para a mesma substância, o tabaco, vem aumentando rápido: praticamente dobrou desde 2017, indo de 13,7% para 25,3%.

O estudo também acompanha algumas pessoas desde o fim dos anos 1970. Percebe-se que as formas de uso e as substâncias adotadas são bem diferentes de geração para geração. A nicotina, por exemplo, é a segunda droga mais adotada dentre os com mais de 35 anos, à frente da cannabis – e o inverso de como é dentre os jovens-adultos de hoje em dia. Como era de se esperar, os mais velhos também bebem com maior frequência e quantidade.

…OS DOS ANOS 2000…

Procuramos também compreender o que retratavam as edições anteriores do relatório financiado pelo governo dos EUA desde 1978, em periodicidades que variam a depender da droga estudada. A primeira mudança geracional notável se dá entre a juventude de agora e quem era jovem-adulto nos anos 2000 e início dos de 2010, ou seja, hoje até já próximo ao ou na casa dos 40 anos. 

A última geração já começava a aderir mais à cannabis, no patamar dos 20% (algo como metade de hoje em dia), todavia ainda em menor proporção a como era no fim dos anos 80, então acima dos 30%. Existia, nos 2000, uma disseminação de Ritalina e similares, com um pico de quase 16% dos jovens-adultos usando substâncias “tarja-preta” já perto de 2010. Hoje, o índice é na casa dos 7%, ou seja, caiu para menos de metade.

Os anos 2000 foram dos picos históricos de Ritalina (2,5% em 2006; hoje, 1,2%), Vicodin (10,2% em 2009, sendo hoje 0,7%), Oxycontin (4,5% em 2009, hoje em 1,5%), assim como de tranquilizantes e de heroína. E os anos de 2010 foram pegos pelo Adderall (8,3% em 2018, e hoje tá em 3,7%).

O que se observa é uma tendência contemporânea por se afastar dos remédios “de farmácia” e procurar alternativas como cannabis e psicodélicos. Ou seja, pode estar na maconha e nos cogumelos um caminho melhor do que o da epidemia de estimulantes e tranquilizantes que vinha tomando a juventude até uns 5 anos atrás? 

…E OS DO SÉCULO PASSADO

É curioso ver os resultados do levantamento no século passado, ao longo das décadas de 1980 e 1990. Nesse período, notavam-se tendências um tanto opostas às de hoje. 

Houve um declínio no uso da maconha entre o fim dos anos 80 e o início do século XXI. Isso é principalmente notável ao se analisar o uso ao menos anual da substância, que foi da casa de 30% para 20% na década de 90, até voltar a aumentar, ultrapassando os 40% agora.

Em paralelo, era o auge dos cigarros e do consumo mais frequente de bebidas alcóolicas. De um pico de quase 40% daqueles com entre 19 e 30 em 1998, o hábito de fumar os maços, tão daquela época, caiu para menos de 20% atualmente. Já o costume ao menos mensal de tomar uns drinks foi da casa dos 70% para a dos 60%.

É nítida a diferença do que seria um jovem-adulto em suas experiências com o corpo e a mente no século passado para estes anos de 2020. Os anos 1990 é quando o “cool” era fumar uns maços e tomar uns gorós (não que nada disso seja “cool”, aí fica pra avaliação de cada leitor). Aí os 2000 vieram com os remédios psiquiátricos se espalhando. Agora, os chamados jovens-adultos, aqueles acabados de sair da adolescência, parecem entrar em cena com seus vapes, seus baseados e seus cogumelos.

Filipe Vilicic