Saindo da estufa

Simas: “Sou adepto da ideia de que você tem de usar não aquilo que gosta, mas aquilo que gosta de você”

O carioca Luiz Antonio Simas é um dos maiores entendedores da cultura de rua de nosso país. Como historiador, como escritor, como compositor de sambas e outras canções. Nesta época de folia, tem a agenda ainda mais demandada por ser a referência intelectual que é em sabedoria sobre nosso Carnaval e nosso samba. Conhecimento que ele compartilhou na entrevista para Filipe Vilicic, editor da Breeza.

Olha como a vida de Simas dá samba. Um de seus livros, o Dicionário da História Social do Samba, que fez com o icônico músico e estudioso Nei Lopes, levou o Jabuti, que é o maior prêmio da literatura nacional. Em 2023, foi homenageado pela Acadêmicos da Abolição e literalmente virou enredo: “Bato tambor, logo existo. Luiz Antonio Simas: a essência e resistência da rua”. Desde 2013, é jurado do Estandarte de Ouro, o Oscar do Carnaval do Rio.

E neste Carnaval de 2025 foi um dos autores do enredo da Unidos da Tijuca, que homenageia o orixá Logun-Edé, ao lado de nomes como Anitta, que canta o samba. De música, aliás, entende muito, escreveu letras para artistas do calibre de Marcelo D2 e Fabiana Cozza.

Na nossa entrevista, Simas defende que a criminalização é um péssimo fruto de um projeto civilizatório de recorte eurocentrado, patriarcal e branco, e que o Carnaval marca o grande embate brasileiro entre a exclusão e os excluídos. Também ressaltou a hipocrisia do Carnaval em enaltecer as marcas de cerveja enquanto a maconha continua proibida. Para ele, a legalização só vai avançar quando as pessoas progressistas concluírem que a falsa Guerra às Drogas é uma guerra a pobres e pretos.

A Breeza fala de temas canábicos e psicodélicos e muitos do nosso público vão beber umas, fumar unzinhos, usar um lança no Carnaval. Como você vê essa associação entre as drogas e o Carnaval? Entre as drogas e algumas manifestações das culturas populares.

Acho que a resposta está dada na pergunta: culturas populares. São elementos vinculados às culturas populares mais diversas. Então quando a gente estuda as festas do Carnaval no Brasil, elas estão muito vinculadas aos princípios, aos intrusos de origem portuguesa. O Carnaval é uma festa europeia que no Brasil vai ganhando conotações diversas a partir dos impactos africanos, dos impactos indígenas. Essa festa europeia vai sendo devorada, vai sendo transformada, num processo cultural muito compreensível. As camadas subalternizadas e excluídas em nosso processo histórico, que é profundamente excludente, vão reconstruindo seus modos de vida a partir exatamente dessas brechas no projeto de estado nação que as festas populares oferecem. Então desde os entrudos, a gente tem referências de que as ruas eram espaços para foliões e estados de alteração de consciência.

“A gente tem referências de que as ruas eram espaços para foliões e estados de alteração de consciência”

Se a gente voltar ao século 17, ao século 18, ao século 19, a gente vê referências sagradas e profanas ao que era conhecido como fumo de Angola, a maconha. Maconha mesmo vem provavelmente de macanha, que é uma palavra do quimbundo, assim como diamba, que era a maneira como em Congo, em Quimbundo, se referia ao cânhamo da Índia. Então isso é um elemento muito presente e, ao mesmo tempo, no séc 20 você tem questões que vão do álcool ao lança-perfume. Então isso acompanha a cultura do Carnaval de uma forma imbricada, e isso não é fazer uma exaltação ou fazer uma exortação, contrária. É constatar um fenômeno da cultura, é constatar um fenômeno vinculado a mecanismos de alteração de consciência que estão inseridos em um contexto marcado pela festa, pela rua, pela folia. Se é positivo ou negativo,  isso é outro debate. Mas é fundamental reconhecer que é um elemento da cultura. É um elemento das culturas das ruas, da cultura festeira, que se manifesta inclusive em processos de criminalização do Carnaval. Ao contrário do que a gente imagina, e eu sempre insisto nisso, o Carnaval nunca foi uma festa de consenso na formação brasileira. Sempre foi uma festa de conflitos. Então os tensionamentos, os conflitos estão acontecendo o tempo inteiro. Uma das chaves para entender isso é a virada do século 19 para o 20, sobretudo virada da Monarquia para a República. Esse é meu vício com a História e não tem como fugir dele, pois naquele contexto você tem dois processos que estão acontecendo ao mesmo tempo: da abolição da escravidão e a queda da Monarquia, a proclamação da República. Nesse contexto, a República vem com um projeto civilizatório de recorte eurocentrado, que operava na tentativa de excluir, disciplinar, domesticar ou criminalizar as manifestações das culturas não brancas, das culturas populares. Esses tensionamentos acontecem o tempo todo e é inevitável passar pelo Carnaval, passa pelas ruas, pelas festas, pela reconfiguração de sentir os coletivos da vida, sem passar também em alguma medida pelos tensionamentos que envolvem de um lado polícia e Estado, e (do outro) um Carnaval que se pretendia rueiro. Essa disputa marca o Carnaval, e essa disputa na verdade marca o grande embate brasileiro entre um projeto de exclusão e aqueles excluídos que vão construindo seus modos de vida.

Você falou de positivo e negativo, como da presença da maconha e das drogas no Carnaval. São duas palavras muito fortes aqui pra cultura canábica. Você tem um posicionamento nisso, acha positivo ou negativo?

Acho uma constatação de um elemento da cultura . Eu tenho um detalhe muito curioso, ao longo da minha vida o Carnaval é um momento que passo absolutamente lúcido, né?, num sentido de não utilizar nenhum mecanismo de alteração da consciência, zero, incluindo aquele que é meu predileto, que é o álcool. Sou adepto da ideia de que você tem de usar não aquilo exatamente que você gosta, mas aquilo que gosta de você. Pois às vezes você gosta, mas aquilo não gosta de você, e aí vai fazer o quê? Então, reconhecer isso vem com o tempo, evidentemente. Mas sou um trabalhador do carnaval, o que é uma peculiaridade. Por exemplo, eu passei os últimos carnavais da minha vida trabalhando como jurado do Estandarte de Ouro. Como jurado, eu ia absolutamente seco. Até porque eu sou um sujeito que estou tentando conhecer os meus limites, até onde eu vou, até onde não vou, o que faço, não faço. Sou absolutamente a favor de que o sujeito soberanamente faça o que ele quiser, isso já é minha posição. Mas eu me conheço. Eu sei que sou aquele sujeito que se você chama pra tomar um chope, não vou tomar um chope contigo, vou tomar uma quantidade que sabe lá o que vai acontecer. Mas esse positivo e negativo que falo é sobre o imaginário social que é construído, porque a gente constrói imaginários sociais muito vinculados a isso. Por exemplo, a gente construiu o imaginário da Guerra às Drogas, que a gente sabe que não é guerra à droga nenhuma. Isso é guerra aos excluídos, às populações não brancas. Isso é guerra ao Brasil. Quando a gente fala da diamba, do cânhamo da Índia, da maconha e tal, a gente tem evidência de uso litúrgico, inclusive nas velhas macumbas, e eu sei isso pelo menos pelo Rio de Janeiro. O omolokô, as referências indígenas, você tem um uso litúrgico aí. Mas o uso litúrgico por um certo momento é sobre os impactos de um imaginário de construção de um certo projeto de Brasil que o ataca, e isso que acho fundamental, ataca não só os corpos, as filosofias, mas também os elementos de ludicidade e os elementos de contato com o sagrado daqueles que foram de antemão excluídos desse processo civilizatório que nós temos. Então essa é uma questão muito séria. Quando a gente debate esse tipo de coisa, quando a gente debate a maneira como se constrói o imaginário dicotômico que é muito marcado inclusive por uma certa tradição da reflexão ocidental, que diz que é isto ou aquilo e que não reconhece elementos das culturas que não são de uma forma muito ampla marcada por esse recorte branco, eurocentrado, patriarcal. A política é essa, uma política de criminalização, uma política de extermínio, uma política de domesticação violenta, e isso de certa maneira é exacerbado no Carnaval. Porque o Carnaval, sobretudo o Carnaval de rua, lida o tempo todo com instâncias bastante complicadas, lida com uma certa visão de ordem pública que é em última análise uma visão higienista. Lida com o imaginário do pecado, sobretudo no contexto em que há o avanço de designações religiosas fundamentadas no racismo religioso, na violência e na intolerância. Mas o Carnaval também é acossado, e isso é um perigo, pela financeirização da vida, né?, pela lógica do mercado. Então é a rua que não comporta, ou se comporta, comporta de uma maneira tensionada, inclusive as folias incorporadas, inseridas nesses mecanismos de alteração da consciência, da ludicidade. Por quê? Porque essa rua e pensada a partir da lógica da circulação de mercadoria, da circulação de capital. Então o que acontece: você pode, por exemplo, proibir um determinado tipo de droga e ao mesmo tempo estimular vigorosamente o consumo de outra. Por que pode ter uma marca de cerveja que compra o Carnaval de rua? Então essa marca de cerveja que compra o Carnaval de rua, patrocina o Carnaval de rua, patrocina o espaço público… então isso aí é de um cinismo impactante, porque o Carnaval de rua é patrocinado na maioria das cidades por marcas de cerveja. E não tô dizendo que isso seja um problema, não. Acho um problema quando o cara quer te obrigar àquilo. Eu posso gostar de outra coisa, posso querer beber outra cerveja, posso querer beber água, posso querer beber uísque, posso querer sei lá, o cara pode querer cheirar lança-perfume, fumar maconha, ele não precisa ficar com aquela marca de cerveja. Mas acho sintomático do ciclismo brasileiro e dessa guerra aos pobres e pretos, que se manifesta tensionada no Carnaval, quando a gente tem discursos higienistas, mas por outro lado temos a financeirização da rua que é muito impactante e que é patrocinada por bebidas alcoólicas.

“A gente construiu o imaginário da Guerra às Drogas, que a gente sabe que não é guerra a droga nenhuma. Isso é guerra aos excluídos, às populações não brancas. Isso é guerra ao Brasil (…) uma política de criminalização, de extermínio, de domesticação violenta, e isso de certa maneira é exacerbado no Carnaval”

É muita hipocrisia.

Sim, a palavra é essa mesma. 

O Dicionário da História Social do Samba me marcou por mostrar como o samba venceu. Uma expressão da cultura marginal, sofreu resistência, teve proibições e venceu. E lembro de uma expressão muito forte que traduz muito bem do que você já chamou de sonho eugênico de branqueamento. Que teve (o samba) de vencer isso. Como  a cultura canábica pode vencer também, assim como o samba ganhou?

Não sei, esse negócio do samba ganhou a gente precisa pensar isso problematizando um pouco. O Dicionário da História Social do Samba é uma parceria minha com Nei Lopes, um mestre absoluto, ali ele é o mestre e eu o discípulo, ele conduz e eu vou atrás. Mas repare numa coisa, essa vitória do samba é um pouco complicada, porque o samba de fato acaba se configurando como uma música consagrada, como a música que representaria uma certa identidade nacional brasileira. Mas ao mesmo tempo essa legitimação do samba não vem acompanhada com a legitimação do sambista. O Brasil é um país tão paradoxal que você pode ter certeza que vai ter muita gente que vai dizer pra você que ama samba, e é racista. Não reconhecendo que o samba é a construção de sentido de vida afrodescendente. Até mesmo nesse processo de legitimação do samba a gente tem um jogo que é complexo, que envolve resistência, negociação, tentativa por parte do estado de domesticação, tentativa por parte dos sambistas de construir espaço de legitimidade.

E quanto à tua pergunta ligada à cultura canábica, rapaz, eu acho o seguinte: a gente tá vivendo um momento muito complicado. A gente tá vivendo um momento além do que todo mundo sabe e tal, do avanço, nem digo do conservadorismo, pois do jeito que a coisa tá feia se fosse do conservadorismo… é do reacionarismo mesmo. A gente tá assistindo a reações pesadas, violentas, complicadas mesmo, a uma série de pautas que estão sendo colocadas com mais consistência nos últimos tempos. Então são pautas que envolvem minorias sociais, são pautas que envolvem questões vinculadas ao debate sobre o racismo, são pautas vinculadas a questões que têm vínculos muito claros com a questão social. Tem tudo isso e, nesse bojo, acho que tem um dos debates mais urgentes que a gente tem de fazer no Brasil hoje, e na minha cidade (Rio de Janeiro), que é a realidade que conheço, é urgentíssimo, que é esse debate que envolve a legalização. Que vai avançar quando as pessoas progressistas e lúcidas, e digo lúcida exatamente nesse sentido e tal, concluírem que isso é uma guerra a pobres e pretos. Não tem sentido nenhum esse tipo de coisa. E eu tenho certa dificuldade de lidar com isso e até com sua pergunta, pois acho um retrocesso tão absurdo, um negócio tão inexplicável. Acho a legislação proibitiva, ou que criminaliza, ou que trabalha com a contravenção de uma série de coisas, dentre elas a cultura canábica, mas um troço tão absurdo que fica difícil às vezes você até refletir. Porque não tem sentido, como você vai dialogar diante de alguém, que diante de todas as evidências… todas, cara. Você tem de defender a legalização sob qualquer aspecto. Aí não tem como, sob qual argumento, não consigo entender. Então a minha dificuldade é que eu não consigo entender nem os argumentos da repressão, eles fogem à minha compreensão completamente.

E aí até estabelecer um diálogo que envolva o contraditório, que é interessante, fica muito difícil. Porque você opera num campo simbólico de um reacionarismo tacanho que é absolutamente fechado ao debate, de antemão você tem o imaginário de negatividade, do horror, da perversão, do desequilíbrio, da vagabundagem, do não trabalho, da destruição do ser, da família, que é inacreditável. Então esse é o combate pontual que tem de ser articulado em combates mais amplos para que a gente discuta o horror brasileiro. E eu acho que a situação está muito complicada pois eu vejo muito impactado o avanço desse horror, o avanço desse horror. E acho que a gente tem de ter consciência, quem defende pautas progressistas, quem defende pautas feministas, não pode excluir dessa defesa um debate consistente sobre legalização, sobre cultura canábica, sobre a cultura do uso de mecanismos de conexão muitas vezes consagrado ou muitas vezes com a ludicidade.

E isso não tem como, cara. Então eu convenço pra você, vou te convencer pasmo, que eu acho um reacionarismo tão tacanho, tão inacreditável que estamos falando disso em 2025, que é difícil até argumentar. O que você vai argumentar com uma figura avestruza, que já vem munida de armaduras do mais absoluto reacionarismo, preconceitos. Não dá, cara. Isso é o que mais me choca. Aí te pergunto, cara: a gente vai encontrar um ponto de convergência e de diálogo, como? Pois, porra, eu sou adepto do mínimo contraditório, que se estabelece do ponto de vista minimamente racional. Aí é muito curioso que a gente fala de elementos de ludicidade ou sagradicidade que operam em mecanismos brincantes e encantados, que não dê alteração da consciência, e que precisam de um debate racional, mas não tem como.

“Um dos debates mais urgentes que a gente tem de fazer no Brasil hoje (…) é esse que envolve a legalização. Que vai avançar quando as pessoas progressistas e lúcidas, e digo lúcidas exatamente nesse sentido e tal, concluírem que isso é uma guerra a pobres e pretos”

Eu te confesso pasmo que acho que a gente tem de continuar falando, acho que a gente tem de continuar se expondo, acho que a gente tem de continuar debatendo, acho que a gente tem de continuar tomando iniciativas, nem que sejam pontuais. Acredito muito em práticas cotidianas e amiudadas de combate, porque a gente tem os grandes combates, mas a gente tem de fazer o combate também nessas brechas do horror. Mas o que me deixa pasmo, assustado, não vou dizer desesperançado nem nada, o que me deixa pasmo é que é absurdo. E diante do absurdo é difícil dialogar de uma forma minimamente coerente. É um muro. É um muro. Vai fazer o quê? Eu acho que deveria ser, e é a minha opinião, ser pauta educativa, conversada de forma ampla, com consistência, inclusive no espaço escolar, onde você está formando gente. Mas sabe qual é a chance da gente conseguir isso do jeito que andam as coisas? Não tem como. Então é política de guerrilha mesmo.

Você fala desse diálogo difícil de acontecer e eu lembro de minha juventude. Um lugar que você via as pessoas se liberando era no Carnaval, na festa, cantando Legalize Já, Legalize Já. De Bezerra da Silva a Marcelo D2, a maconha tá presente nas músicas, levando a mensagem pra juventude e às vezes mudando cabeças. Por que se estabeleceu essa relação tão íntima entre a maconha e a música, as drogas? A música consegue mudar o diálogo?

Não sei se do ponto de vista mais amplo da coletividade, mas acho que consegue estabelecer caminhos que pelo menos despertam as pessoas para necessidade de você entender uma questão cultural que está entranhada na formação da cultura brasileira. Então quando você fala da música, e poderia falar com mais conforto do samba, é um tema que sempre esteve presente. Até porque a cultura do samba é muito vinculada ao cotidiano. Então você tem muitos sambas que refletem a questão do cotidiano. Aí você vai ver, por exemplo, sei lá, lá atrás, muitos antes do Cezerra, muito antes de meu amigo e irmão querido Marcelo D2, você pega por exemplo Wilson Batista, quando ele fala “Vai Chico Brito”:

Chico Brito, fez do baralho seu melhor esporte

É valente no morro

Dizem que fuma
Uma erva do norte

Quando você pega, por exemplo, aquela geração toda do Estácio, Marçal, Brancura, Edgar, Ismael… isso tá presente, tá presente porque é retrato de um cotidiano das ruas. Eu acho que a música tem o papel importante, sobretudo quando cria vínculos com novas gerações, que a gente espera que sejam gerações não tolerantes, porque detesto essa coisa de tolerar, porque é escroto pra caramba você dizer que quer ser tolerado… não quer ser tolerado… quer ser respeitado em suas amplitudes de expectativas de mundo. Né? Então não tem de tolerar nada, cara. Você tem de respeitar integralmente, contanto que não represente uma ameaça à sua vida, e (a maconha) não representa, a gente sabe que não representa. Mas as conexões de mundo que são criadas pelas pessoas das mais diversas, que são conexões que envolvem trabalho, beleza, que envolvem vida, que envolvem morte, e que envolvem inclusive o uso de drogas, que vão do álcool, passam pela maconha, envolve uma porrada de coisas. Mas se o sujeito chega de antemão, e já pauta, e considera isso coisa de bandido, você vai fazer o quê?

E acho mais, porque cruza com sua outra indagação. Acho que a melhor maneira de criar conexões saudáveis sobre esse debate é pela arte, porque a arte ainda é o campo onde esse exercício pode se estabelecer de uma forma mais plena. Então quando você tem artistas que trazem essas questões em plenitude, numa dimensão que é de militância, dimensão que é de responsabilidade, numa dimensão que é também de beleza, a chance disso atingir mais gente para que o debate se estabeleça de uma forma mais contundente, me parece mais forte.

“Quando você tem artistas que trazem essas questões em plenitude, numa dimensão que é de militância, que é de responsabilidade, que é também de beleza, a chance disso atingir mais gente para que o debate se estabeleça de uma forma mais contundente, me parece mais forte

Você tem um livro de samba-enredo, pro qual ouviu mais de 1500 composições Tinha algum sobre a erva, sobre a maconha?

Não. Samba-enredo não, pois samba-enredo tinha de se enquadrar numa dimensão de regulamentação muito vinculada a expectativas em torno de uma certa história oficial. O que é até compreensível porque as escolas de samba estavam buscando caminhos de legitimidade. Me parece que a cultura das escola de samba, e hoje isso tem mudado, mas ao longo dos tempos acaba operando em dimensões não normativas não exatamente nos sambas, nos sambas-enredos, nos enredos, mas em elementos distintos, como nas baterias, na corporeidade das passistas, nesse tipo de coisa. A própria temática, digamos, afro-brasileira, seja ela histórica ou litúrgica, é muito tardia. O primeiro desfile de escolas de samba é em (19)32 e essa é uma temática que começa a aparecer basicamente nas décadas de (19)60 e 70. Mas hoje você tem debatido muita coisa, então hoje eu acho que existe até ambiente dentro das escolas de samba pra essas discussões, inclusive vinculadas a enredos. Nós temos enredos que são muito interessantes neste ano. A gente tá falando de enredo, pelo menos no Rio de Janeiro, sobre a cultura bantu, e o uso litúrgico por exemplo da diamba é registrado em diversos rituais bantus, ao ponto de encontrar referências ao fumo de Angola, que era muito comum se referir a isso. Você tem enredos como Xica Manicongo, que coloca a questão dos travestis desde o Brasil colonial, e essas culturas que foram ao mesmo tempo criminalizadas e que levanta o grito de que eu posso ser o que eu quiser, eu possa fazer o que quiser. Então nas entrelinhas desses gritos soberanos, essas questões todas estão vindo à tona. Em relação às escolas de samba, por incrível que pareça, ligadas a temáticas de enredos, eu acho que a gente vive num bom momento. As escolas de samba hoje, com todas as contradições, elitização do processo e tal, elas vivem um processo orgânico em relação aos enredos que é muito interessante.

E vou dizer uma coisa que talvez te choque. Hoje sou mais preocupado com o Carnaval de rua do que com o das escolas de samba. Acho que esse Carnaval de rua está sendo muito capturado por uma lógica que mistura o imaginário do pecado, daqueles que são contra, mas por outro lado, como eu falei, o imaginário de financeirização da vida, em que a rua está sendo disciplinada de uma maneira que acho perigosa. Porque é aquela disciplina que se estabelece pelo interesse do capital. Eu acho que a gente tem de lidar com isso. Não sei como resolver, mas é uma questão que tem de ser enfrentada.

Nunca pensei nisso, não. Muito a refletir. E você acha que um dia vai ter um samba-enredo de cultura canábica, tem espaço?

Eu acho que o caminho hoje aponta para essa possibilidade, porque já é o que tô dizendo. Vou te dar um exemplo, olha que maluquice, em 1977, foi por aí, 77, 78, não lembro, 79, segunda metade da década de 70, teria de recorrer agora ao livro e não quero cravar a data pra não errar, mas o Salgueiro desfilou com um enredo chamado Do Cauim ao Efó, Com Moça Branca Branquinha. E eu quando vi esse samba pensava que uma moça branca branquinha era uma menina branca, branca azeda e tal. Mas quando ouvi o samba enredo (ele canta):

A moça branca é amiga

Não há quem diga que não tem valor

Só por ser tão boa, vive assim à toa
Sem querer se expor

Ela dá coragem, dá vontade, dá inspiração

E não admite falta de apetite numa refeição

E não admite falta de apetite numa refeição

No salgueiro tem

tem gente que bebe pra esquecer

êê

tem quem sabe beber e comer

êê

A moça branca é a cachaça. E quando você pega a letra, “a moça branca é amiga, não há quem diga que não tem valor / só por ser tão boa, vive assim à toa sem querer se expor”, pensa na diamba nisso (risos). “Ela dá coragem, dá vontade, dá inspiração / E não admite falta de apetite numa refeição e tal” (risos). A Salgueiro vem com um samba do Geraldo Babão lindo sobre a cachaça como elemento da cultura brasileira. Claro que a cachaça pode ser muito problematizada, a gente tem casos absolutamente dramáticos que envolvem o alcoolismo na cultura do samba. Então nao é fazer glamour disso, a gente tem de se preocupar, mas ao mesmo tempo é uma referência cultural que tá aí. Você tem escolas como, no Rio, a União do Parque Curicica, que fez um enredo da história da cachaça. O Império Serrano fez um enredo sobre a história da cerveja, patrocinado por uma marca de cerveja. Então, não vejo problema (em ter um samba-enredo dedicado à cannabis), pelo contrário, acharia muito interessante. Acho mais que daria um enredo bom pra dedeu e daria bom samba. Vejo hoje um clima mais propício, ia criar uma confusão dos diabos, mas vejo um clima mais propício. Na década de 70, a moça branca e amiga. Então…

Simas, você falou da sua relação com o álcool, como é a sua relação com outras drogas, como maconha e esportes? É a sua?

Eu me sinto um cara absolutamente confortável pra falar disso porque só uso álcool. Eu num certo momento da minha vida, como eu te falei, eu descobri que só uso álcool fermentado. Olha que coisa curiosa, não tomo cachaça e uísque, vou até dizer desde quando, desde 2011. É muito raro que eu tome. Tinha coleção de cachaças e tal, mas num certo momento eu continuava a perceber que eu continuava gostando muito da cachaça, mas ela não estava gostando de mim como até certo momento eu julguei que gostava (risos). E a maconha naquele tempo de faculdade era muito curioso, a gente tinha na História, fiz História na UFRJ, e era praticamente impossível que você não tivesse ali, no convívio universitário e tal, algum tipo de relação com mecanismo de alteração de consciência, psicotrópicos e tal. Tinha até pelada de futebol entre a turma que preferia a cannabis e a turma que preferia o álcool.

Tinha até pelada de futebol entre a turma que preferia a cannabis e a turma que preferia o álcool

Você tava do lado do álcool?

Do álcool, sempre. Olha que coisa curiosa agora, nunca tive problema nenhum (com maconha), tive amigos (que fumam) e era absolutamente confiável. Curiosamente você me pega pra dar essa entrevista num momento em que estou devagar inclusive com o álcool, até porque andei fazendo promessa pro Botafogo ganhar a Libertadores, aquele negócio todo. E hoje vejo isso com cuidado porque gosto tanto dela que eu tenho uma tendência, se deixar, de ir todo dia meu irmão, é básico, porque eu gosto. Eu tenho um bar no rio, Bar Brasil e Bar Adonis, dois bares que eu indico pra quem quer conhecer a cultura de bar do Rio de Janeiro, tem chopes que me amam. E é um negócio muito complicado porque eu chego e falo “vou tomar um”, aí eu tomo e aquilo desenrola uma experiência saudável, corporal, de deslumbramento que eu vou, eu amo, eu gosto muito. Sou um cara absolutamente fascinado por isso. Agora, por ser cervejeiro e me declarar um adepto, que eu me sinto em condições morais para dizer que eu não vejo nenhuma razão para que a cerveja seja liberada e a maconha não seja. Sou um sujeito que costuma falar o seguinte: minha opinião inclusive tem valor pois não tô legislando em causa própria, estou legislando com a racionalidade e a coerência de quem não vê sentido nesse tipo de política proibitiva. Então é isso, mas a minha relação queridíssima sempre foi uma relação que foi se acentuando com o tempo, foi com a cerveja.

Espero que todos os cervejeiros do Brasil te ouçam.

Mas eu tenho uma profissão, sou professor, o que me faz acordar muito cedo. Então acaba que eu tenho que me manter dentro de um certo limite que não me prejudique e aí eu digo com tranquilidade, porque eu tô velho e quase me aposentando, que não me prejudicou. Então fiz muita merda na juventude, merda não no sentido de positivo ou negativo, mas merda que você faz mesmo e com a merdas que vai aprendendo as coisas e tal. Mantenho conexões com merdeiros queridíssimos até hoje, mas acho que nós cervejeiros temos que estar nessa luta também, não tenho dúvida nenhuma.

Boa! E quando você experimentou a maconha, que você disse que teve as experimentações na faculdade, foi ela que não gostou de você ou você que não gostou dela?

Nunca gostei. É curioso, não me causou nada que a cerveja não tivesse me causado. E como eu gosto muito da sensação da cerveja, uma sensação inclusive da bebida, que desce, aquele negócio todo e tal, o meu caso de amor é com a cerveja. A cerveja pra mim é brava, cara. Porque se um dia ela começar a me dar um fora, minha vida ia começar a ficar mais triste.

“Por ser cervejeiro que eu me sinto em condições morais para dizer que eu não vejo nenhuma razão para que a cerveja seja liberada e a maconha não seja”

Imagina se baixa uma lei seca.

Porra, agora você imagina. E quer ver uma coisa curiosa, já que você falou. A Lei Seca nos Estados Unidos, por exemplo, aumentou vigorosamente o consumo de álcool. O Ruy Castro é que fala uma coisa: que nunca se bebeu tanto e se produziu tanta cana nos Estados Unidos quanto durante a Lei Seca. É um negócio impressionante e a gente vê pela história da Lei Seca que, no fim das contas, foi uma maravilha para a máfia, que utilizando da Lei Seca começa a entrar nos Estados Unidos nas entranhas do crime, inclusive fazendo comércio, destilando clandestinamente álcool.

Não tão diferente de como é com a maconha e o prensado no Brasil.

Falei da Lei Seca por causa disso. De toda maneira não vamos dar ideia, não, senão daqui a pouco vem uma Lei Seca (risos). Sou a favor da Lei Seca no trânsito, plenamente. Esse é um detalhe que é muito curioso. Até um dia que eu fui pra Conservatória, uma cidade aqui do Rio de Janeiro fria, e eu ia tocar cavaquinho lá numa roda de choro. Hoje eu tô enferrujado, cavaquinho só serve pra fazer uma brincadeira e tal, mas tava tão frio que eu tomei dois conhaques. Rapaz, quando eu fui solar no choro, minha cabeça queria fazer uma coisa e minha mão não ia. Naquele momento me converti completamente para a Lei Seca no trânsito, sou plenamente a favor. Agora, a Lei Seca na vida, não, pelo amor de deus. Aí minha vida fica sem graça.

Simas, tem uma coisa de você que pra mim é encantadora, que você traz todo esse lado culto, esse conhecimento, essa sabedoria, mas com uma linguagem que chega a todo mundo. Você vê isso inclusive nas suas redes sociais. Como a gente faz essas linguagens conversarem, a linguagem culta e a linguagem das ruas?

Eu não sei, eu não saberia. eu tenho uma certa facilidade de me tornar compreensível porque a coisa que eu mais fiz na minha vida foi trabalhar com criança e adolesente, que é o público mais exigente e difícil. Então eu não racionalizo exatamente sobre isso, mas como eu… por exemplo, quando comecei a trabalhar eu tinha de dar aula sobre a diferença da ágora para a acrópole para crianças de 10 anos de idade. Você vai tentando, sem perder o rigor, criar conexões enunciativas para que aquilo se evidencie, porque acho que todo mundo é capaz de compreender as coisas, não tô falando de elementos de complexidade. Mas me parece que no meu caso eu não tenho uma dica, não sei como é isso. Mas no meu caso eu fui sendo forjado pela expectativa das crianças, aí fica fácil, cara, porque você acaba tendo que organizar as coisas na sua cabeça. Acaba tendo que encontrar uma fala que não seja pueril, mas que ao mesmo tempo se conecte com tudo isso. E eu venho de uma família que era ligadona a essa fala rueira. Sou o primeiro que terminou o ensino médio, entrou para uma universidade. Convivi muito em rua, convivi muito em botequim. Apesar das pessoas acharem que eu sou um especialista em botequim, não sou. Sou apenas um observador daqueles que são realmente figuras exponenciais dessa cultura. Mas acho que passa por isso, e aí quando eu tava na faculdade de história, eu trabalho com rua do Rio de Janeiro, mas eu sempre me impressionei muito quando comecei a ler os gregos, por incrível que pareça. Vou falar uma coisa que não sei se já falei com alguém, mas quando comecei a ler Epicuro, Platão, essa turma toda, eu fiquei muito impressionado com como os gregos pareciam ter a capacidade de falar de uma forma compreensível das coisas mais difíceis, enquanto hoje a gente vê muita gente falando das coisas mais fáceis das formas mais complicadas. Lembro que vi uma vez uma entrevista de Autran Dourado, um escritor brasileiro, que ele falava algo desse tipo que me despertou. Falar de uma forma mais evidente sobre os temas mais complexos e evitar falar de forma muito complexa dos temas mais evidentes. Acho que esse é meu caminho, mas no meu caso foi a criançada que foi me educando.