
Quem gosta de fumar um sabe bem como é especial demais quando encontramos a roda ideal de amigos para dar um 2. Foram dessas rodas ideais que nasceram os blocos canábicos carnavalescos que têm se espalhado pelas ruas das cidades brasileiras. Uma marcha de fumacê do bom atrai, une e fortifica os nossos e as nossas bandeiras em meio à folia e diversão que também tanto curtimos.
O primeiro bloco canábico carnavalesco surgiu numa das gemas do nosso Carnaval: Olinda, perto de Recife. Criado em 1975, o Segura a Coisa que Eu Chego Já serviu de modelo e inspiração. Sua história é tão rica que guardaremos para contar em detalhes, só ela, em um texto que estará na próxima edição da Breeza.
“Nos inspiramos no Segura a Coisa. Vi que ele saía toda quarta-feira de cinzas e ao lado da polícia, indo tudo bem”, conta Janaína Macruz, uma das fundadoras do Bloco do Manjericão, em Belo Horizonte. Este surgiu em 2010, bem no início da retomada do Carnaval de rua em BH, e também optou por desfilar pelas ruas na quarta de cinzas.
De início, a concentração se dava 4e20 da tarde, por motivos óbvios. “Mas aí enfrentou repressão (da polícia) e decidiu transferir para 4e20 da manhã”, conta Dário de Moura, que como Dário4e20 já se candidatou a vários cargos políticos levantando a bandeira da maconha e é um dos rostos mais associados ao Bloco do Manjericão.
O enfrentamento ao proibicionismo fica evidente até no nome, Manjericão, que qualquer maconheiro sabe que é apelido para nossa ganja. Nos disse Janaína: “Nos primeiros anos, a gente não falava explicitamente que era bloco da maconha, falava só manjericão, que a gente adorava o cheiro de manjericão. A gente comprava carrinhos de supermercado de manjericão e distribuía para os foliões. Falava que por onde o bloco passava, espalhava o cheiro do manjerição”.
Ela conta que repressão e proibições diretas, de fato e oficialmente registradas, nunca ocorreram. Mas para evitar escaladas assim e também que o bloco crescesse muito (hoje já atrai cerca de 4 mil foliões), o que geraria burocracias e desafios a mais, o Manjericão escolheu sair de madrugada por alguns anos.
“Concentrava antes do amanhecer, andava um pouquinho, todo mundo cantando a capela, baixinho, até o dia amanhecer. Aí quando o dia nascia, o bloco explodia”, recorda Janaína. Só que aí os organizadores do bloco, que neste ano fará 15 anos, envelheceram, tiveram filhos. “Por isso tinha essa dificuldade de estarmos disponíveis para puxar bloco às 4e20 da manhã”. Hoje sai às 8h40, mas o local exato só é desvendado, em grupos de WhatsApp e no boca a boca, pouco antes da quarta-feira de cinzas.
Há mais mudanças que mostram o amadurecimento do bloco e da causa. Não há mais receios de repressão e proibições, o bloco é um dos pioneiros do Carnaval de rua de BH e é reconhecido como tal. E também se escolheu abraçar outras bandeiras irmãs, como a do meio ambiente. Por isso a caminhada passa por parques e regiões verdes da cidade, na tentativa de levar a população a desbravar e se aproximar dessas áreas públicas e da causa ecológica.
REPRESSÕES
O receio de represálias, inclusive violentas, esteve ou ainda mesmo continua a estar nos blocos canábicos. Levantar a bandeira da maconha não se trata, sabemos bem, apenas de querer fumar um. Quem acha isso, pelo amor de Jah… vai ler umas coisas, como essa reportagem, ou essa outra, ou ainda essa.
Estampar a ganja no peito e dar uns pegas em praça pública é ato de resiliência, enfrentamento e progressista ao mesmo tempo. Por isso é natural que haja aquela resistência moralista, hipócrita e desinformada (e quando não violenta) com a qual estamos infelizmente acostumados. Uma repressão que evidentemente se volta mais contra a população periférica e preta.
“No nosso primeiro ano, fomos impedidos de sair, a Guarda Municipal travou. No ano seguinte, também, por uma liminar de um vereador, mesmo a gente com todas as autorizações”, lembra Pedro Pajé, um dos fundadores e organizadores do Planta na Mente, que desde 2010 sai pelas ruas do Rio de Janeiro. Se nos dois primeiros anos foi impedido, desde então marchou com liberdade – apesar dos integrantes do bloco já terem sofrido violência policial em Marchas da Maconha no Rio. Conquistou foliões, com uma média de público de 10 mil pessoas e picos de cerca de 14 mil em 2018 e 2019.
Porém, neste Brasil em que vivemos é preciso sempre permanecer de olhos abertos e atentos aos repressores e proibicionistas. “Nunca tivemos problema, desde o início”, conta Digo Amazonas, do bloco Kaya na Gandaia, que desde 2013 leva o samba-reggae pelas ruas de São Paulo. “Mas houve uma exceção no ano passado. Fomos por um trajeto mais largo da via pública e não sabíamos que ia ter uma grade lá, revista, rolou uma operação policial bem ruim, do tipo que nunca tinha rolado (com o bloco)”. A tentativa de melar a festa, porém, não deu certo e o desfile continuou soltando fumaça.
É fundamental ter resiliência para todos e todas que levantam uma bandeira tão ousada quanto a do antiproibicionismo, que é sobre maconha e psicodélicos, só que também sobre antirracismo, a favor do nosso direito ao nosso próprio corpo (como das mulheres de abortar), contra a falida Guerra às Drogas que se revelou uma grande desculpa para perseguir os marginalizados, periféricos e o povo negro. E haveria bem mais a listar pois se trata de uma causa central a tantas outras e vice-versa.
“Rio Claro, uma cidade com 200 mil habitantes e alma provinciana, do interior de São Paulo, onde ainda há muitas questões a serem debatidas, com hegemonia da direita e do liberalismo, de pessoas muito conservadoras… nosso bloco é uma coisa que traz desconforto”, conta Gabriel Gabiru, do bloco Tossiu Xapô, que faz três anos desfila pelo município paulista. Ele conta que vereadores criaram dois projetos de lei na tentativa de barrar a existência do bloco, contudo “somos um grupo de pessoas preparadas intelectualmente, estamos no nosso direito de nos manifestar e conseguimos manter o bloco na rua”. Viva!
DIVERSÃO E POLÍTICA
“Carnaval é diversão e folia, então conseguimos trazer um assunto sério, mas com pitada carnavalesco, de forma alegre e divertida”, resume Janaína Macruz, do Bloco do Manjericão, de BH. “A PM, os bombeiros, eles sabem que somos um bloco da maconha e eles respeitam isso e em uma cidade que transborda cultura, maravilhosa, mas também conservadora”.
São incontornáveis os objetivos políticos de sair com um bloco em homenagem à maconha. “Meu viés no bloco sempre foi dessa luta política institucional”, comenta Dário4e20, que desde 2015 sai pelo Bloco do Manjericão. “É uma forma divertida de conscientizara população e chamar mais pessoas para pronunciarem esse desejo de transformação política”. Ele então emenda em cantar o refrão do hino do bloco: “Vou plantar manjericão. Vou plantar no meu jardim. Se todo mundo plantar um. Manjericão não vai faltar pra mim”.
Quem vai nos blocos canábicos levanta a bandeira da diamba. Mas vai também é para dar uns pegas, em vários sentidos, e se divertir pra valer. “A pessoa vai pra curtir, conversar, flertar, beijar na boca e ainda sai aprendendo alguma coisa sobre redução de danos e de seus direitos. Tem ‘n’ bons motivos para se ter um bloco canábico”, avalia Gabriel Gabiru, do bloco Tossiu Xapô, de Rio Claro. O bloco é uma enorme roda de quem compartilha gostos e ideias.
“(o bloco) Também tem como missão informar e criar uma rede de apoio, de pessoas que pensam igual”, comenta Gabiru. Um clima que tem tudo a ver com a Folia. “O Carnaval tem a parada da liberdade, de sair vestido do jeito que quiser, ou quase não se vestindo. Tem muito a ver com essa liberdade, as pessoas (no bloco) se orgulham da cultura da cannabis, não fazem escondido, não têm vergonha, é um lifestyle”, completa Digo Amazonas, do Kaya na Gandaia, de SP.
Quem sabe um dia a gente não vê uma escola homenageando a erva no samba-enredo no meio da avenida do Sambódromo. Né, não?
Filipe Vilicic