
A pergunta do título foi a que me veio ao começar a assistir a “O Preço da Cura”, um novo documentário que aborda a temática do medicinal trazendo histórias de pacientes, cultivadores, associações, médicos, advogados. Antes de dar o play, desperta na memória o seminal “Ilegal”, responsável por pautar o assunto uma década atrás ao colocar nos holofotes a realidade das pioneiras mães que contrabandeavam óleos de CBD para proporcionar a cura a seus filhos e filhas afligidos por diversas doenças para as quais sabemos que a erva traz alívios imensos. E aí lembro de “The Culture High”, de “Weed People” ou ainda do bom número de outros docs nacionais e de outros países latino-americanos que vi no Festival Internacional de Cine Canábico que rolou na Expo Cannabis do ano passado, em São Paulo.
Perguntei o mesmo, “Por que mais um doc sobre maconha?”, para os idealizadores do novo filme. Ao que respondeu Monica Barcelos, diretora do documentário: “O que mais nos motivou foi o senso de urgência do tema”. Acrescentou o médico prescritor Paulo Vinicius, do Instituto Manga Rosa e produtor da empreitada: “O ‘Ilegal’ tem quantos anos? (acaba de completar 10) A gente está vivendo em um ambiente político e legal diferente a cada ano”.
Evidencia-se a necessidade de atualizar o discurso, como agora no pós descriminalização das até 40 gramas pelo STF. Ao mesmo tempo, é preciso mostrar como ainda está longe de ter avançado o suficiente. “Será que o acesso mudou? Não precisamos bater mais nessa pauta de formas diferentes?”, questiona Paulo Vinicius.
Monica Barcelos, sua colega de empreitada, ressalta um ponto que está na essência do formato de documentários: “Faz parte de um movimento de gerar evidências. Nesse cenário político (…) gera as evidências necessárias para que essas conversas ocorram”.
COMO FURAR A BOLHA?
O documentário traz histórias que são conhecidas para os mais informados: de famílias que lutam na Justiça pelo direito de plantar para ter medicamentos para crianças que enfrentam doenças graves, assim como a de associações, de cientistas, de advogados, de cultivadores. Em alguns momentos, introduz personagens nitidamente fora da bolha usual. Como ao contar a história da família do vereador Aurélio Barros, de Búzios, onde também lidera a secretaria municipal de pessoas com deficiência.
O político compartilha como introduziu a cannabis medicinal no sistema público de Búzios por meio do SUS. Aurélio Barros, cujo filho, autista, também foi beneficiado pelo medicamento, não tem o típico perfil dos apoiadores da causa: é conservador e evangélico. “(seu filho) Já chegou a tomar dezesseis medicamentos controlados na faixa de 7 ou 8 anos de idade. A cannabis veio para fazer a diferença em nossas vidas e o João hoje está numa fase muito boa, a gente quer compartilhar isso com as pessoas”.
Os produtores do documentário percebem a dificuldade da mensagem furar a bolha. Tanto que o início da divulgação será com nossa própria comunidade, os já convertidos, em uma exibição gratuita na Nave Coletiva, a sede da Mídia Ninja no Cambuci, em São Paulo. A estreia, que virá acompanhada de uma oficina de cultivo e extração, está programada para o próximo dia 26.
A esperança é que depois a produção possa viajar para além do nicho. “Nossa estratégia inicialmente é usar canais de distribuição que falem com outras pessoas”, diz a diretora, Monica Barcelos. A meta é que haja exibições públicas, como promovidas por prefeituras, comunidades de mães de pacientes e espaços nos quais se espera entrar com mensagens de como a cannabis é acessível e um assunto de todos e para todos.
“Ainda precisamos sensibilizar as pessoas sobre o tema. A gente (nós, os convertidos) já foi dessensibilizado porque tem contato o tempo todo (com informações) sobre isso”, ressalta ela, com razão.
Para chegar em quem não está na bolha é preciso mesmo conquistar espaços diversos, maiores e que alcançam pessoas que não necessariamente partem da concordância com a mensagem que transmitimos. Sentimos isso na Breeza de forma rotineira, já que está no DNA de nossa revista o “furar a bolha”, o que conquistamos ao, por exemplo, disseminar nossas pautas e as entrevistas que saem em nosso site e em nosso podcast, o Saindo da Estufa, por territórios estranhos ao assunto e à ótica pela qual o abordamos. Por isso que praticamente toda semana nossos leitores e ouvintes, vocês, breezers, veem a Breeza pautando jornais, revistas, sites, de nosso nicho e da grande mídia.
O ESPELHO NA TELA
Uma parte essencial do processo de furar a bolha é conseguir com que aqueles ainda não convertidos ao bom senso (aqui incluindo o bom senso científico, o social, o de saúde pública…) se identifiquem com a mensagem. Por isso é essencial espalhar histórias diversas e de pessoas que vieram de fora do ainda pequeno nicho em que estamos inseridos.
Nisso “O Preço da Cura” é efetivo. Nele são entrevistados os filhos e a mãe de uma família salva pela erva. Sendo que antes de sua filha necessitar com urgência do medicamento, a matriarca nunca tinha tido qualquer contato com a planta. Tem a história do vereador evangélico e conservador, assim como a de cientistas e pesquisadores, e de moradores-cultivadores de um quilombo.
“Os próprios personagens exemplificam muito isso: são de fato fora da bolha”, defende a diretora do doc. “(apostamos na) Identificação das pessoas que assistem pela verossimilhança”. São histórias que poderiam ser destacadas na seção Na Breeza aqui desta revista.
Não por acaso: lá na seção Na Breeza, também procuramos ressaltar histórias com as quais o público, tanto o de dentro quanto o de fora da bolha, se identifica. São aventuras, descobertas, processos de cura e muitos outros relatos fascinantes de esportistas, famílias, empreendedores, artistas e bem mais.
Todavia, vale uma provocação após assistir ao documentário, que é coproduzido pelo Instituto Manga Rosa, que propõe “a fuga da ilegalidade e a conquista e segurança no tratamento”, o que já fez para mais de 3 mil pacientes. Em dado momento, ressalta-se como as transformações estão sendo protagonizadas por advogados, associações, pacientes e médicos prescritores. Na entrevista para a Breeza, a diretora do documentário ressaltou como acredita que a “realidade é essa”, pois a luta da cannabis seria, em sua visão, “construída por esses personagens”.
Fica no ar a pergunta: então onde se situam ativistas, como os que construíram as Marchas; políticos e juristas, como os do STF que descriminalizou, ou desembargadores e ministros que bem antes já eram precursores; e os comunicadores e artistas?; e os que há décadas enfrentam a ilegalidade por meio da desobediência civil, como aqueles usuários que não necessariamente se categorizam como pacientes? Aqui na Breeza acreditamos que parte do processo de furar a bolha é também somar personagens, perfis e caminhos mais diversos ao esforço coletivo e social pela legalização não só da cannabis, mas dos modos de vida que a erva representa e das bandeiras progressistas às quais ela se associa. Com isso seria possível, por exemplo, ganhar maior visibilidade e apoio popular para pressionar por mudanças mais sólidas e rápidas neste nosso Brasil cheio de travas conservadoras, quando não reacionárias.
Filipe Vilicic