
“Vadias do gueto tão fumando ice
Acende, puxa, prende e para
Queimando ice, ice, ice, ice, ice, ice
Queimando ice, ice, ice, ice, ice, ice
Queimando ice, ice, ice, ice, ice, ice
Fumando ice”
A música das Irmãs do Pau tem tomado as baladas de quem curte ice, em ode à nossa flor.
Na semana passada teve estreia para convidados da peça “Diamba”, protagonizada por Luís Navarro, que se alçou a voz e rosto da cena canábica ao ser também a estrela de Pico da Neblina, série que tem na produção Fernando Meirelles, um dos maiores nomes da história do cinema nacional. “Diamba” esta que é inspirada no livro de mesmo nome de Daniel Paiva, quadrinista que em sua obra nos levou pela história da maconha em nosso país, semeada por referências máximas de nossa arte. Aqui na Breeza, Paiva já homenageou a cultura da maconha em um ensaio inspirador.
Maconha é cultura e quem não concorda, só quer saber de reprimir essa cultura. Muito antes de ser ciência ou saúde, a planta faz parte da formação de modos de pensar, de estar e viver neste mundo.
O que é cultura? É o conjunto de conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, hábitos, atitudes, capacidades e quaisquer padrões de comportamento e pensamento que são adquiridos e compartilhados por indivíduos. Em essência, a cultura é a maneira como diferentes sociedades agem e se organizam.
Não só a maconha, mas como várias drogas estão nas raízes culturais dos povos. As bebidas alcoólicas são os mais nítidos exemplos de como fazem parte da forma como nós buscamos motivos de viver e maneiras de interpretar o mundo por meio de substâncias que alteram nossa consciência.
“O vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o seu coração”. “Come com alegria o teu pão e bebe com bom coração o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras”. “Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós”.
Na Bíblia, o vinho é presente de Deus. Foi ao transformar água em vinho que Jesus Cristo se revelou ao povo e aos seus fiéis seguidores, levando alegria e festa. Transformar água em vinho, semente em maconha, é um milagre. Viva Jah! Viva Cristo, cujo sangue é o vinho que tomamos!
A perseguição à ganja, colocando-a no lugar da criminalização, é na prática a punição a povos específicos. No mundo contemporâneo, ela representa o modo de viver e pensar de pretos, latinos, hippies e outros que escolhem estampar em si a nossa planta.
A ascensão do crime organizado em torno do tráfico tem raiz no esforço em transformar em banditismo a cultura canábica. Se não fosse a proibição, não haveria crime em usar ou vender. Assim como a violência das polícias nasce em transformar o modo de viver de um povo no “inimigo”. Sem esses motivos inventados para punir, nem um, nem outro existiram; nem o traficante e nem a polícia. E os líderes de ambos os lados, se é que é possível chamar quem assim pensa de “líder”, teriam menos desculpas para promover guerra, como a que levou à tragédia no Rio de Janeiro em 28 de outubro, com vítimas de todos os lados.
A quem interessa proibir a cultura da ganja? Por que não fizeram o mesmo com o vinho dos cristãos, ou o tabaco de nativo-americanos e dos filmes de Hollywood?
A semente
“Maconha é cultura desde muito antes de Bob Marley, Cheech and Chong, Cab Calloway e Bezerra da Silva. A cannabis estava na origem da cultura humana e nossa convivência com ela foi crucial para que aprendêssemos muitas das características que nos definem como espécie e que resultaram no surgimento da civilização”, nos diz o jornalista Denis Russo Burgierman, autor do livro “O Fim da Guerra”, na qual se debruça sobre a história do proibição da erva.
Em 2021, uma equipe de cientistas suíços e chineses concluiu o sequenciamento do DNA de 110 cepas de exemplares da erva de vários lugares do mundo e, por meio de suas pesquisas, mostraram que a maconha começou a ser domesticada pela humanidade há cerca de 12 mil anos, no período Neolítico. Em um início que se deu, antes de tudo, por impulsos culturais e religiosos.
Os primeiros registros do uso ritualístico da maconha vem de resquícios arqueológicos datados de mais 2,5 mil anos atrás. “Nós podemos começar a montar um quebra-cabeça de uma imagem de um rito funerário que incluía chamas, música rítmica e fumaça alucinógena, tudo com a intenção de guiar as pessoas”, escreveu o arqueólogo Yimim Yang, autor do estudo publicado em 2019 por uma equipe de pesquisadores da Universidade da Academia Chinesa de Ciências e do alemão Max Planck Institute. Os restos de cannabis escavados por Yang na China indicavam usos em rituais fúnebres, assim como em incensos e provavelmente para o puro relaxamento em situações emotivas ou de celebração.
Analisa Denis Russo: “Os livros fundadores da nossa cultura foram quase todos impressos em papel de cânhamo e as pinturas mais importantes da história da arte usaram como suporte telas de cânhamo. Todas as principais religiões antigas – hinduísmo, budismo, islamismo, judaísmo, cristianismo – incorporaram essa planta em algum grau em seus rituais”.
No século 13, a planta chegou à África e, no 16, nas Américas, sendo associada também a frutos da cultura local, como o movimento Rastafári. O propósito da satisfação no uso sempre existiu, evidentemente.
Em “Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos”, o quadrinista Brian Box Brown desenha como se deu a criminalização global da diamba. Os Estados Unidos montaram narrativas falsas para basear a Guerra às Drogas, em especial com movimentos políticos dentre os anos de 1930 e 1960, que se espalharam pelo planeta. Com chancela de políticos como Richard Nixon, o ex-presidente dos EUA que caiu com o escândalo de Watergate, foram fabricados documentos falsos, inventadas pesquisas científicas, manipulados dados e estatísticas, em um modus operandi que espalhou a proibição pelo globo.
Essa farsa global teve como raiz o racismo e um pânico social fabricados por uma elite rica e branca que se indignava em ver povos negros e latinos tomando terreno com suas culturas, com o jazz, o blues, o rap, o funk, o samba. Estudos já muito destacados aqui na Breeza evidenciam como a lei antidrogas é, antes de tudo, enraizada em ódio e preconceitos.
“Onde há uma comunidade humana, quase certamente há também pés de cannabis crescendo. Não admira que, quando a humanidade resolveu empreender o projeto equivocado de se separar da natureza, no século XX, ao embarcar na canoa furada da industrialização, ela tenha decidido exterminar da Terra justamente essa nossa espécie companheira. Tentamos acabar com a maconha porque ela sabia demais sobre nós”, reflete Denis Russo.
Em defesa da nossa cultura
Há alguns marcos da onda de proibicionismo do século XX e um dos principais ocorreu há 100 anos, em 1925. A Convenção Internacional do Ópio, assinada em Genebra há um século, foi o primeiro documento jurídico internacional a criminalizar a maconha em escala planetária.
Em setembro, com motivação também pela data, um grupo de pesquisadores ligados a uma associação estrangeira de defesa à cannabis apresentou para a Unesco um artigo técnico no qual procuram reverter a imagem da cannabis, em busca de garantir seu valor cultural: “O centenário da proibição internacional da cannabis e suas práticas culturais oferece a oportunidade de resolver esse duradouro ponto cego nas políticas culturais globais”.
A Convenção Internacional do Ópio fez com que a ONU oficialmente tornasse crimes os hábitos e costumes de povos excluídos e vulnerabilizados por constantes perseguições, seja nos EUA ou no Brasil. Isso levou ao apagamento de expressões culturais e à não garantia de direitos humanos básicos, como o de transmissão de saberes e hábitos hereditários.
“Plantas e ervas estão ligadas a modos de pensar e viver, à constituição de rituais, mitologias, tradições. Seja em torno do milho, da batata, do açaí, do café ou da maconha”, comenta o escritor Ale Santos, cujas obras de ficção científica bebem das fontes canábicas. “É um dos elementos que compõem a essência de pensamento de vários povos”.
A repressão também visa, portanto, impedir que pessoas sintam e pensem da forma como foram ensinadas a sentir e pensar. Em um processo de aculturação que tem como meta maior a imposição de uma única e dominante cosmovisão (no Ocidente, a branca-europeia), que não permite a abertura de espaço para qualquer diversidade ou discordância.
O escritor Pedro Rhuas, que incorpora a diamba em seus livros, desce a letra: “A cannabis é aliada oculta de uma imensurável teia de processos criativos. Seu impacto cultural não se mede apenas em referências diretas, como uma menção em um livro ou uma letra de música, mas no vasto saber que compartilha entre indivíduos e comunidades, em esferas públicas e privadas, espaços de adoração e de festejo, neste seu poder de despertar repertórios. Os debates, a experiência do ser e tudo o que a cannabis provoca — os movimentos do corpo, as palavras escritas, o timbre cambiante da voz, o questionamento que deságua em filosofia — guiam, consciente ou inconscientemente, direta ou indiretamente, criações e ideias. A proibição tenta invisibilizar essa parceria, mas, sem fronteiras, a cannabis abre brechas para gerar e incitar culturas, movendo a maré da arte, do germinar da ideia ao seu florescer”.
Sem a maconha, haveria menos música, literatura, comédia, história, arte em nosso mundo. Sem uns pegas, o planeta ficaria mais sisudo e sem graça. Sem o vinho, também. Agora, imagine como os cristãos reagiriam no bar se recebessem a notícia de que sua cervejinha ou sua taça de tinto passaram a ser banidos da sociedade?
Quando se reflete sobre o termo Guerra às Drogas, é necessário compreender o que cada um de nós quer para a vida: guerra (ódio, mortes, torturas, sofrimento…) ou drogas (prazer, fé, diversão, amigos; claro, se usadas por adultos e de forma responsável e consciente). Desconfio da humanidade de quem escolhe a guerra.