
Pedro Rhuas ambienta sua escrita, num mundo que ele chama de Rhuasverso, numa utopia progressista onde a diversidade é bem, bem mais abraçada e os temas da vida parecem vistos pela ótica do amor. “A gente vive em uma realidade distópica, para pra pensar em todo o caos que atravessa o mundo, de genocídio a crimes bárbaros contra a humanidade e o meio ambiente. Isso especialmente na pandemia, quando o livro foi gestado e esse sentimento estava ainda maior”, nos diz o escritor. “Havia desesperança entre as pessoas e sobretudo entre os jovens. Desesperança que muitas vezes me refiro como acinzentar a sociedade, nos tirando do colorido que nos leva a sonhar, faz com que o medo e o ódio consigam se espalhar”.
Rhuas se refere ao seu livro “O mar me levou a você”, de 2023, e que, como suas outras obras, é voltada ao público jovem adulto (os que acabaram de sair adolescência e, em seus 20 anos, estão descobrindo a vida mais madura). Escolhi ler “O mar me levou a você”, dentre as escritas de nosso personagem brisado, por na história se destacar o papel da maconha. Mas vale também contar que o escritor tem um best-seller na carreira, “Enquanto eu não te encontro”, além de fazer sucesso pelo o que compartilha nas redes.
A erva é tratada com a leveza do Rhuasverso. Aparece logo no início de “O mar me levou a você”, como símbolo em um boné. Mas é coadjuvante em diversas cenas, indo de mão em mão, entrando nas conversas, da forma natural e saudável como gostaríamos que fosse. Logo o leitor descobre o motivo: na utopia de Pedro Rhuas, a legalização da maconha já é realidade em nosso país.
Em uma cena no que seria uma das primeiras cafeterias canábicas legalizadas no Brasil, o protagonista reflete sobre a utopia da legalização: “Antes, não dava para saber se a qualidade da erva era boa ou não. Todo mundo tinha que comprar com traficantes, o que era perigoso. Agora tudo passa por controle de qualidade, e o governo usa os impostos arrecadados para investir em projetos educativos, de saúde mental e redução de danos”. O pensamento continua, instigando o personagem a levantar questões de sua própria relação com a planta: “curto usar maconha de vez em quando para me conectar comigo e com o Universo. Mas não sou muito fã de usar só para me divertir”.
Nos diz o autor: “(o leitor) Visualizar outras possibilidades do real, se vê na literatura um mundo diferente, idealizado, que quer lutar (por esse mundo), que quer fazer que aconteça… isso pode nos inspirar para lutar para que isso se torne realidade”. Como pela legalização.
A MACONHA COMO PERSONAGEM
Rhuas se vê tirando a diamba de um lugar de sombra e a conduzindo para a luz. Assim ele próprio observa: “A cannabis não é o foco da narrativa, mas matiz, uma nuance desse universo. Que traga contradições, enriqueça o diálogo e permita que o diferente se manifeste. Não queremos construir uma sensação de unanimidade em relação à pauta, mas não queremos que o debate seja tratado como algo que não deve existir”.
Para o autor, “os jovens são alguns dos principais afetados pela falta de diálogo relacionada à cannabis”. Ao ser marginalizado e jogado em um lugar de sombra, impede-se a entrada do assunto em debates públicos e o escritor sente a necessidade de abrir espaços na sociedade para essa conversa.
Usualmente a maconha tem aparecido na literatura, em particular a nacional, como gancho para debates importantíssimos sobre violência policial e racial, preconceitos, a farsa da Guerra às Drogas e outros tópicos urgentíssimos, contudo também carregados de tensão. O trabalho de Pedro Rhuas se destaca justamente por seguir um caminho (quase, pois também entra na discussão social da legalização) oposto, mais leve e introduzindo a ganja de forma natural, corriqueira e agradável nas narrativas.
“Trago bem a perspectiva da cannabis como algo espiritual porque é para esse espaço que tenho buscado levá-la (nos livros e em sua própria vida)”. Ao mesmo tempo, ele concorda que facilita ter essa ótica mais leve do tema por ser de pele branca em um país como o Brasil, “não carrego o estigma do grupo social (os negros) que é encarcerado em massa, por uma política de guerra que é uma política racial”.
O público mais cativo do Rhuasverso tende a ser progressista e por isso a recepção da abordagem da maconha, assim como é com a temática LGBTQIA+, tende a ser muito positiva. “Há uma percepção da coragem de tratar dessa questão, sabendo que (o tema) é colocado como algo marginalizado”. Porém, o autor percebe que os ares mudam quando seus trabalhos começam a furar a bolha. “Passo a receber resenhas que criticam a questão da cannabis, linkam a menção à apologia ao uso”. Evidentemente, aqueles desinformados, e/ou preconceituosos, e/ou extremistas, e/ou malas com os quais infelizmente temos de nos acostumar a lidar (ou a desprezar).
E NA JORNADA DO ESCRITOR
“Não acredito em separação do autor da obra. Estou presente em cada etapa do meu trabalho”. Inclusive na relação com a maconha e outros psicodélicos.
Rhuas percebe que a cannabis também esteve na maior parte de sua vida em um lugar de sombra. Ele não assumia para muitas pessoas, como familiares, pelo “medo de ser afastado, de ser ridicularizado, de perder trabalhos”. Define o hábito nesse passado como o de um “uso assustado”.
O uso assustado somado ao acesso apenas a erva de baixa qualidade o levou a se afastar da maconha por um tempo. A relação começou a ficar mais saudável lá por 2019, durante um tempo morando na Europa, onde conheceu paraísos canábicos como a Holanda. “Vendo a perspectiva menos bruta que a maconha é encarada. Tirando desse aspecto de sombra, do escondido, do crime”.
O escritor então passou a assumir mais a prática, incorporando inclusive nos processos criativos. Contudo, confessa que “Houve um período em que atrelei a cannabis à criatividade. Me fazia acreditar que só podia ser bem-sucedido na criação artística com o uso da medicina”. Com o tempo, encontrou equilíbrio também nesse fim do uso, conta agora utilizar em sessões de escrita, pois a maneira de enxergar o mundo de sua versão sóbria é diferente da de seu modo emaconhado.
Ele gosta de utilizar esse seu outro eu, o sob efeito, como persona para editar seus livros. “Traz uma perspectiva expandida, poética, sagaz. A mente racional nos torna muito sisudos, presos a amarras sociais. A cannabis bagunça essa dinâmica e proporciona relaxamento”.
Compartilha ainda que no ano passado começou um tratamento médico formal com CBD para ajudá-lo a controlar um tremor essencial que lhe perturba desde os 15 anos de idade. “(a maconha) Tem impacto positivo na vida quando bem aplicada e ajustada”.
Pedro Rhuas compartilha então um plano para um próximo livro. Nos conta que está escrevendo uma narrativa de autoficção na qual deve inserir algumas de suas experiências psicodélicas. O autor, que também consagra a ayahuasca, relata que os psicodélicos lhe fizeram “perceber a realidade de outra maneira, ver detalhes que não percebia, sentir coisas que não sentia, e questionar a própria realidade”.
Filipe Vilicic