Por Ale Santos

As noites caem sobre Alencar como um manto de luto, reconhecendo em si mesma a doença sombria que a infligiu pelas ruas, uma abominação que tem ceifado a vida nesta cidade. Outrora, as luzes eram vibrantes com o burburinho da vida cotidiana, mas agora se encolhem sob o peso do medo constituído pelo governo que assumiu a administração pública. O grupo conhecido como “Juízes” alcançou o poder popularmente, porque uma parcela daquela sociedade hospedava em sua mente um ressentimento grande com a modernidade e um anseio ignorante pelo mito de disciplina militar que ecoava nas capitais do país. A tirania dos Juízes pairava sobre a cidade, sufocando a alegria e a esperança. Eles transformaram os discursos mais reacionários da população em um pesadelo social,estabelecendo leis criteriosas e construindo uma atmosfera delirante em torno da crença em uma justiça violenta. O convívio de anos com essa obsessão coletiva em Alencar fez nascer uma doença psicológica aterradora. Queria que essas palavras fossem apenas uma alegoria, porém os cidadãos mais antigos viram, em sua própria prole, o desenrolar da paranoia, por alguns chamados de ansiedade alencarina, mas determinada por todos como o Temor de Alencar.
A doença começou a ser exposta há pouco tempo atrás, quando uma grande taxa de pessoas que abandonaram os empregos repentinamente foi notada. No começo receberam diagnósticos de depressão e outras doenças emocionais que confundiram toda a comunidade médica. Imaginou-se, então, ser uma espécie de psicose coletiva de breve passagem, rapidamente remediada com psicotrópicos potentes, alguns tratamentos resultaram em melhoras significativas, o que acabou mascarando o verdadeiro mal. Por muito pouco tempo.
Logo, as populações mais empobrecidas entupiram o sistema médico com novos sintomas do Temor de Alencar, depois viram esses cidadãos que ainda controlavam os sintomas com remédios, nenhum surtiu mais efeito e por fim acabaram apresentando o mesmo quadro clínico com conjunto de manifestações descritas a seguir:
“Iniciam-se com um estado levemente febril, em alguns é comum sentir leves calafrios, acompanhado de sentimentos de reclusão, poucos pacientes tiveram melhora com a introdução de ansiolíticos, que atualmente só podia ser ministrados após rigorosos formulários de controles da agência reguladora médica com a anuição do centro de controle antidrogas municipal. Dias após os sintomas iniciais, observa-se um ressecamento de pele, com expressões semelhantes a dermatites em pacientes idosos, a irritação eleva os níveis de cortisol e nesse estágio pode surgir um zumbido em um ou dois ouvidos, que foi notado especificamente entre jovens de 20 a 27 anos. Os pacientes de psicotrópicos conseguiram conter o zumbido e uma leve sensação de torpor matinal, costumeiro da ansiedade, mas acontece que a doença escala rapidamente e, em menos de uma semana, após um intenso ataque de pânico (em muitos confundido com psicose emocional abrupta), as funções cerebrais são alteradas e o indivíduo vai entrando em um estado de catatonia. Nesse estágio é perceptível que estamos diante de algo assustadoramente inédito, um estado catatônico ainda a ser investigado para a humanidade. Mesmo leigos do conhecimento médico são capazes de observar alterações extremas nos olhos e nas expressões faciais. O paciente para de reagir a estímulos sensoriais, com a íris dos olhos e todo o entorno se cobrindo por uma membrana cinza, culminando enfim na perda de consciência geral, que é o último estágio do Temor de Alencar e desse estágio, não retornando mais…”
Certamente uma investida científica robusta teria mitigado os danos massivos à população que tal temor ocasionou. “Reúnam os médicos, convoquem os cientistas” – clamou a população, mas o real interesse para evitar uma catástrofe foi substituído pelo ímpeto religioso, o mesmo que ajudou a construir o poder dos Juízes em Alencar. Fanáticos espalharam mais mentiras atormentadoras, impulsionando a ansiedade dos moradores na pequena Alencar.
“Meus amados irmãos e irmãs em Cristo! Vejo em vossos rostos a angústia e a aflição que assola nossa cidade. A doença que nos acomete não é fruto de acaso, mas sim uma manifestação clara da ira divina, conhecida a tanto tempo por nós. Não estejais mais nas sombras, é chegada a hora de reconhecermos a verdade: Alencar está sob o jugo de Asmodeus, sua sombra recai sobre aqueles que se opõem à vontade do Senhor, manifestada através dos Juízes, eleitos por Deus para governar e liderar esse município. A ansiedade alencarina, como alguns a chamam, é na verdade uma maldição! Uma punição divina por nossas apostasias, por termos nos afastado dos caminhos da fé e por termos permitido que a iniquidade se infiltrasse em nossos corações. Aqueles que sucumbem a essa doença são os que mais se rebelaram contra a ordem estabelecida, os que questionam a autoridade em Alencar. A disciplina que eles impõem não é opressão, mas sim a proteção divina contra o mau que ceifa nossas famílias. Sejam vigilantes! Denunciem qualquer desvio, qualquer sinal de rebeldia. Não tenham pena dos doentes, pois eles são a manifestação de Asmodeus como uma ameaça à nossa fé e à nossa segurança. Voltem seus corações para Deus e transformem seus corações em dóceis para afastar o Temor de Alencar. Que o Senhor nos abençoe. Amém!”
O apóstolo Caio se tornou a figura mais pungente na disseminação de mensagens como esta, durante as primeiras semanas de caos com a doença. Tal período obscureceu de tamanha forma a mente da população, que tornou impossível decifrar os fatos dos dias seguintes. O número de vítimas do Temor de Alencar triplicou, ocasionando em uma epidemia generalizada de psicose neural. Por ventura ou destino, dias após emitir o pronunciamento fanático, o próprio apóstolo foi visto com a membrana alencarina nos olhos, reduzido ao estado mais profundo da doença. O Temor não elegeu prediletos, alastrou-se em todas a área urbana da cidade, desintegrando o corpo de médicos da pequena cidade, muitos já haviam se tornado reclusos, pela própria perseguição dos Juízes que controlava a comunicação e a disseminação de pesquisas no sistema de saúde. Alguns ainda estavam buscando solitariamente soluções para reverter o quadro doentio em familiares. Foi assim que um médico de meia idade, no desespero de salvar o próprio primogénito, encontrou uma luz no meio das sombras da cidade, mas não pelos métodos tradicionais.
As palavras a seguir são do diário de Samuel, um dos sobreviventes médicos. Elas podem colocar em risco qualquer um que se atreva a dar credibilidade para o relato e ainda podem levar à morte os Alencarinos que ousarem tornar esses relatos públicos. Que este alerta não seja em vão:
“Lembro-me de minha infância, em uma Alencar longínqua, onde a liberdade florescia como um jardim em primavera. Corríamos pelas ruas de terra, aprendemos com nossos erros, tropeçando e caindo, mas sempre nos erguendo com a força da juventude. A juventude agora vive nesses prédios cercados de aço e segurança, quero dizer, aqueles que têm dinheiro e ainda andam fingindo que não estão se drogando diante dos olhos dos pais, hipócritas que deram força e financiaram esse governo do medo. Eles não são impactados pelas mensagens das guardas municipais e das rondas que receberam o aval judicial para matar qualquer suspeito de portar entorpecentes nas ruas. Essa vigilância ostensiva pareceu uma boa ideia no começo, o problema sempre foi aquilo que muita gente alertou no passado: a definição do que era tráfico, uso individual ou quem tinha cara de traficante, contava apenas com a voz do policial. Agora vai além, o agente da justiça define o que é entorpecente e tem poder para executar a sentença em qualquer lugar, principalmente após o toque de recolher coletivo, às 22hs. O medo se infiltra em cada canto da cidade, envenenando as almas e aprisionando os sonhos. Os sorrisos se tornaram raros, substituídos por olhares furtivos e sussurros carregados de apreensão. A propaganda massiva dos Juízes substitui as fachadas de lojas, é transmitida durante todas as noites em totens pela cidade, alertas de celulares e vídeos disseminados pelas redes sociais ou canais de streamings oficiais, contam a quantidade de mortos diariamente em tom vitorioso. Esses vídeos sempre estiveram em nosso passado, alimentando programas policialescos, eram sadicamente divertidos enquanto os casos transmitidos eram apenas sobre a população periférica. Agora nenhuma família tem certeza se seu irmão, pai, mãe ou qualquer um voltará pra casa, parece que a meta da guarda se tornou matar cada vez mais. Os corpos esticados nas ruas são o maior indicador de sucesso da guerra às drogas, mesmo que sejam apenas de inocentes portando desodorante ou jovens perdidos após o toque de recolher, todo mundo virou “suspeito por entorpecentes”. O que já era um absurdo ficou pior depois que acionaram os drones de vigilância constante, voando pela cidade, acusando cidadãos aleatórios. A diversão e a liberdade acabaram em Alencar, estamos presos em um caldeirão de ansiedade e medo, resultando nessa odiosa doença enfrentada por nossa comunidade médica.
Sempre tive para mim que algo mais depravado ocultava-se nessas mensagens do Juíz em nossa cidade, afinal, sempre soubemos do poço sem fim de obscuridade que é a alma e a moral humana, principalmente desses que se intitulam cidadãos de bem, estes sempre mantiveram os fuzis apontados para alguém. Então me perguntava qual seria o ingrediente macabro, causador da ignição para o surgimento do Temor de Alencar e dediquei-me a uma engenharia reversa de seus efeitos. Identificando áreas do cérebro mais acometidas pela praga, como o sistema nervoso central e o neurotransmissor acetilcolina que, reduzido, pode significar uma função mental enfraquecida. Lembrei-me de um evento onde foi difundida a pesquisa do Doutor Moreira, neurocientista de renome internacional, que utilizava transmissões binaurais para recuperar funções enfraquecidas cerebrais e minha mente perturbou-se em investigar, tais vídeos propagados pelo Juiz.
Fiquei estupefato e enfurecido quando minha análise identificou tais frequências, que utilizadas com a mensagem de medo, estão contribuindo para colocar nossa cidade em um estado de estresse constante, a fim de nos roubar as capacidades racionais e emocionais de decisão.

Por quantos anos estamos todos nessa redoma de hipnose coletiva? Quais parâmetros levam uns a paranóia e outros ao estado vegetativo do Temor de Alencar?
As perguntas são tantas e não podemos tentar respondê-las sem ter nossas vidas colocadas à prova por questionar o governo municipal. Peço que confiram com os próprios olhos ou, na melhor expressão, com os próprios ouvidos, os arquivos das próximas transmissões para tomar ciência de que não minto no relato. Eu entenderei aqueles que questionarem quais são as minhas intenções, para estes eu ainda trago uma verdade mais transgressora. É que por destino ou desgraça, tal temor Alencarino transformou meu único filho, Angelo, em um pária e é ele a causa de todo o afinco com a investigação e foi graças à análise das mesma áreas cerebrais afetadas pela hipnose digital do Juiz, que resolvi seguir pelos caminhos nada ortodoxos da medicina em nossa cidade e consegui reverter completamente a doença. O Temor de Alencar pode ser facilmente solucionado com um tratamento progressivo, de boas medidas individuais com óleos canábicos. Suplico que o leitor, ousado o suficiente para seguir, do meu aviso anterior neste relato, que agora é necessário se organizar para que a comunidade científica de Alencar confronte a tirania e a insanidade revestida pelo discurso de moralidade para salvar outras vidas. Que a ciência seja um farol para nossa cidade, nos próximos dias compartilharei mais páginas dos meus diários de pesquisa para que vocês possam usar de referência e, claro, que diante das circunstâncias, me isento da obrigação de revelar minha localização e a de meu filho.”
Samuel espalhou esse texto com impressos por toda Alencar, se tornando o inimigo número um dos Juízes, ele dera um jeito de imprimir nos porões de casa e deixar em áreas de grande tráfego da comunidade científica, laboratórios e universidades. A resposta veio com a intensificação do toque de recolher, aliada com uma perseguição aos cientistas reclusos em suas casas, na busca de quem seria o transgressor da disciplina municipal.
A verdade era que os Juízes usaram a guerra contra a cannabis como fachada para o pânico moral que só fez bem aos governantes e sua prole. Os magnatas promoviam festas no topo dos prédios, isolados da sociedade, utilizando os próprios drones policiais para carregar entorpecentes de fornecedores externos da cidade. Ao mesmo tempo, usaram exércitos armados até os dentes para higienizar as periferias, desintegrando com sangue e balas qualquer possível concorrência na venda da substância. Na prática, a diversão virou um item de luxo dos 1% da sociedade, a doença e a cura estavam monopolizados nas mãos dos poderosos.
Foi uma manhã de terça-feira quando a força policial atravessou a porta de maneira grossa e ornamentada na casa do Dr. Samuel. Lançaram granadas de fumaça, atravessaram a sala principal pisoteando e revirando tudo. Cerca de 20 homens para prender um médico e seu filho. Confiscaram quaisquer papeis com anotações sobre o Temor de Alencar, páginas do diário que ainda seriam espalhadas e, por fim, encontraram o laboratório onde os experimentos canábicos eram produzidos. Estava vazio. Nem o Doutor, nem seu filho foram encontrados, graças a uma comunicação inesperada que haviam recebido horas antes da meia noite, daquele novo dia.
“SMS RECEBIDO: O JUIZ TE ENCONTROU E EU TAMBÉM, ASS. ESMERALDA, SAIA AGORA, TENHO UM ABRIGO”
Samuel nunca ouviu nada sobre uma mulher chamada Esmeralda, ela era uma fantasma naquela cidade. Como vocês sabem, os Juízes levaram a guerra às drogas até o fim, exterminando todos os integrantes de antigas facções criminosas e muita gente inocente que fazia parte de suas famílias, amigos e crianças que frequentassem os pontos de distribuição no morro. Todavia, tinham subestimado a sabedoria popular. A cura que a atual comunidade médica lutava para conquistar contra o Temor Alencar, já havia chegado nas vielas das favelas muitos anos antes, por outros motivos. O primeiro filho de Esmeralda, Pablo, estava no espectro do autismo. Sem dinheiro e com pouco apoio familiar, foi um desafio intenso cuidar do menino nos primeiros anos, mas o amor que a senhora nutria impulsionou aquela mulher a confrontar os ímpetos mais conservadores da comunidade, da igreja e da família, encontrando um tratamento natural que ela ouvira falar na TV (quando ainda era possível assistir programas com tal informação). Ela conseguiu uma pequena planta ali com os garotos do morro e aprendeu a cultivar para transformar em óleo. Os anos se passaram e muitas mães ao redor perceberam o comportamento de Pablo melhorar, despertando o interesse de inúmeras outras mulheres e cuidadoras da comunidade. Esmeralda ensinou, então, às outras mães o processo para tratar suas crianças. Juntas construíram uma rede, chamada Alvorecer, que despretensiosamente se tornou a maior resistência contra toda a tirania e obscurantismo dos Juízes. Elas monitoram o que acontecia na cidade e foi aí que seus caminhos se cruzaram com o Dr Samuel.
O médico foi levado por uma Kombi para um barraco em um ponto bastante afastado da favela, precisou descer e atravessar algumas quadras andando, se embrenhando no meio das construções, até encontrar um grande mirante que observava de longe o centro de Alencar. Esmeralda se aproximou e colocou as mãos em seus ombros.
– Agora podemos contar com um médico de verdade por aqui. – Ela sorriu e serviu-lhe um chá. Samuel ficou atônito em perceber a ironia dessas palavras, ele observou ao redor e percebeu que o Terror de Alencar não havia tocado aquelas pessoas, ao contrário do que se percebe nas regiões mais urbanizadas da cidade.
Direcionado pela senhora, ele caminhou até a extremidade do mirante, o Sol já estava começando a se pôr e refletiu em tons de dourado sobre todas as plantas que estavam descendo a encosta do morro em um grande jardim de cannabis. Várias mães apareceram para colher algumas folhas. Esmeralda e Samuel observaram o horizonte que acabaria com as trevas em Alencar e começaram a traçar o plano para livrar a pequena cidade da doença que era o obscurantismo.
Nos meses seguintes, a Alvorada confrontou diretamente o poder dos Juízes. Derrubando antenas de transmissão da mensagem binaural. Com apoio de Samuel, Esmeralda e sua rede de mães espalharam cápsulas com o óleo canábico e um pequeno bilhete que dizia: “A cura para o Temor é a subversão do sistema e 3 gotas diárias deste pequeno óleo”.
Acompanhe aqui na Breeza a continuação da história de Ale Santos.
Um novo capítulo todo mês.
Confira a entrevista do Ale para a Breeza e para o nosso podcast Saindo da Estufa.