Saindo da estufa

Ale Santos: “A história da maconha é conectada à criminalização das populações negras”

O escritor Ale Santos vive em seu próprio universo. Mas não está sozinho, pois o acompanham dezenas de milhares de leitores, que seguem as aventuras de seu fantástico mundo, formados por cidades de nomes de inspiração Rastafari. Narrativas que, segundo o próprio nos conta, usam a “estética da ficção científica para discutir os temas surgidos na tecnocultura do século XX e como eles impactam a comunidade negra”.

Em seu livro “O Último Ancestral”, começou a construir um romance afrofuturista cujas angústias espelham os problemas sociais, políticos e econômicos de nosso país. Os protagonistas da obra são, como o autor, negros. Os heróis, periféricos. Assim é também em “A Malta Indomável”, que lançou recentemente e que traz uma história no mesmo ambiente, mas agora centrada em jovens excluídos que ganham superpoderes.

Seu sucesso comercial é raridade dentre autores de fantasia brasileiros. Depois de já ter sido finalista do maior prêmio da literatura nacional com “Rastros de Resistência”, sua obra de estreia e na qual conta casos reais de pessoas pretas, Ale concorreu ao Jabuti com “O Último Ancestral”. A obra logo chamou a atenção de produtoras cinematográficas e em breve pode sair uma animação baseada nela, como já está planejado outro livro e um jogo de RPG.

Ale Santos foi destacado pelo The New York Times como um dos principais representantes (único brasileiro mencionado) de uma forte onda latina-americana que está tomando a literatura de ficção científica. O universo desse talento da literatura está ganhando os gringos. Faz pouco tempo, escreveu a primeira história brasileira da série blockbuster Assassin’s Creed, em uma aventura que virou HQ e na qual narra um conto cheio de violência nos porões da ditadura brasileira.

Na conversa a seguir com Filipe Vilicic, jornalista da Breeza, Ale Santos sai da estufa, falando de como descobriu a maconha e o Rastafari, que estão dentre as inspirações de suas obras; das diferenças entre comprar cannabis sendo pobre ou sendo rico; além de compartilhar muitas histórias fantásticas, como de quando comprou pela primeira vez um prensado, perguntando na cara dura para o atendente de uma charutaria de onde e como conseguiria unzinho.

O estilo que você é mais associado, que é o afrofuturismo, tá muito popular, até o filme “Pantera Negra” veio disso. O que é o afrofuturismo e o que é a história de Nagast, a cidade de seu livro? Como o afrofuturismo tá mostrando a realidade de hoje em dia?

O afrofuturismo, e vou falar mais em termos da cultura pop, é um movimento extenso, artístico, que envolve música, a comunidade de artes visuais. Mas dentro da escrita, em que atuo, é um movimento que vai utilizar a estética da ficção científica pra discutir os temas surgidos na tecnocultura do século XX e como eles impactam a comunidade negra. Como as tecnologias impactam a comunidade negra, como que os algoritmos impactam a comunidade negra, como o hiper campo tecnológico e os metaversos impactam a comunidade negra. A gente vai usar a estética da ficção científica pra discutir isso. A obra que mais se popularizou no mundo do afrofuturismo é o Pantera Negra. O afrofuturismo acaba sendo uma estética que, em si, fica muito entre as pessoas que gostam de estudar. Mas a importância dele está na perspectiva negra dentro de filmes como Mad Max, Robocop. Não tinha a perspectiva de pessoas negras dentro das obras de ficção científica, como em Isaac Asimov, Júlio Verne. Então o que o afrofuturismo vai fazer é colocar essa negritude na perspectiva de sonhos futuristas que a humanidade sempre teve, mas agora com a comunidade negra. E como também é um movimento de autores negros, ele se torna esse movimento social e político, pois só pode ser feito quando o artista negro tá envolvido. É esse movimento de afirmação da existência das pessoas negras pela perspectiva da literatura de ficção científica.

O que o afrofuturismo vai fazer é colocar essa negritude na perspectiva de sonhos futuristas que a humanidade sempre teve, mas agora com a comunidade negra”

“O Último Ancestral”, por exemplo, que é a primeira obra futurista a chegar a uma grande editora brasileira, pois a maior parte antes era de autores independentes, narra de um distrito, que o nome dele é Nagast, e nesse distrito a comunidade negra foi empurrada pro morro, uma favela. É dominada por andróides que determinaram que a experiência tecnológica é a melhor experiência da humanidade, única que tem salvação e que todas as experiências religiosas deveriam ser eliminadas. Eles exterminaram todos os sacerdotes, os terreiros e tudo mais, criaram um muro pra impedir que as pessoas da favela, Obambo, atravessassem pra esse lugar. É nessa favela, sem nenhuma experiência mística-religiosa tradicional, que um garoto, chamado Eliah, ligado a roubos de carros, desperta o espírito de um Último Ancestral, uma entidade capaz de andar tanto no mundo dos humanos quanto no dos ancestrais. E esse garoto que não tinha nenhuma crença, fé, nem nele mesmo, acaba passando por uma jornada pra resgatar a fé de sua comunidade, com a ajuda de sua irmã e muitas pessoas ali. A Malta Indomável, meu livro mais recente, é meu primeiro juvenil, expande pra uma nova cidade, a vizinha de Nagast, chamada Sumé, e vou discutir também tradições religiosas sempre com personagens negros, mas desta vez coloco eles numa perspetiva adolescente. Três personagens negros que se sentem fracos, relegados, recebem poderes de uma entidade chamada Sumé, que é uma onça mística. Através desse poder vão ter a escolha de destruir ou resgatar a cidade, salvar com o poder da amizade. Agora tô negociando a expansão desse universo com a editora, num livro que vai contar a morte dos sacerdotes pelos andróides. 

É um mundo aí, com jogo de RPG, adaptação audiovisual. Me conta mais desse universo afrofuturista do Ale Santos. 

Eu acredito muito em franquias de histórias, como trabalhei em Assassin’s Creed, sei que essas franquias movimentam gerações, como com Star Wars e Game of Thrones. Acredito nisso desde a época em que jogava RPG. Quero fazer isso, chamo de Universo Ancestral. Um universo de ficção científica legitimamente brasileiro. Se você ler “O Último Ancestral” e a “A Malta Indomável”, vai ter aquela sensação de como essa história só poderia acontecer no Brasil. Não é uma emulação de Pantera Negra em São Paulo. É uma história que só poderia acontecer no contexto brasileiro. Trago na Malta Indomável algumas experiências do congado de Minas Gerais. Trago no O Último Ancestral a experiência do samba, o livro começa e termina num sambódromo. 

Eu acredito que não posso expandir apenas pra literatura, mas pra conectar todo mundo. Pra fazer o universo acontecer, estamos batalhando pra ir pra TV ou cinema, estamos caminhando agora pra virar uma animação. Pra comunidade que gosta de RPG, que me criou no passado, pra ela tô devolvendo esse jogo que virá no segundo semestre, com financiamento coletivo, e vamos ensinar a galera a jogar. Também quero trazer histórias em quadrinhos nesse universo. Tenho um planejamento de quinze anos, com as possibilidades pra onde quero expandir. Cada mídia é uma porta diferente pra trazer as pessoas pro meu universo. 

Eu sinto nos seus livros um ar canábico. O nome da cidade Nagast não é referência ao Rastafari? Tem fumaça mesmo nos seus livros?

Essa é uma referência que poucos leitores pegaram até agora. Mas real, porque Nagast é do Kebra Negast, livro um de uma das [obras] mais respeitadas pela comunidade Rastafari. Conta sobre a glória dos reis. Inclusive esse é outro easter egg que ninguém pegou, mas a forma como escrevi o nome do protagonista Eliah, que é “e-l-i-a-h”, se inverter vira Haile, que é o Haile Selassie, tipo um dos principais sacerdotes do Rastafari. Um imperador etíope que é considerado um dos grandes profetas, que toda a comunidade Rastafari… então, uma parte da minha obra é inspirada não só pelo Rastafari como pelo cânone do cristianismo etíope que tá ali dentro desse imaginário que também impulsionou o movimento Rastafari.

Inclusive, o protagonista Eliah tem uma hora que ele assume que é da dinastia do Leão. Ele é uma das inspirações que são totalmente Rastafari. Os próximos personagens que eu quero inserir nas próximas obras também têm um pouco disso. Não posso dar muitos spoilers, estou negociando ainda algumas coisas com a editora, mas vai ter inspirações que vão deixar as pessoas na dúvida se eu estou falando de uma erva que tá trazendo, construindo a experiência religiosa das pessoas. A religião no meu universo foi devastada e ela precisará ser reconstruída. 

E de onde vem essa inspiração? Você fuma um? De onde veio também a referência Rastafari?

Primeiro sobre o Rastafari. Eu sou um cara que tô há muitos anos querendo questionar minha experiência religiosa. Como a maior parte das pessoas negras de São Paulo, eu venho de uma família católica. Faz dez anos que isso deixou de fazer sentido pra mim, também pela questão racial. Por todas essas questões, então o cristianismo ferrou pra caramba a população preta no Brasil, ao mesmo tempo em que trabalhou para a abolição. Todas essas coisas, que na minha cabeça começaram a me provocar. Então quer dizer que tem uma irmandade negra que é a Irmandade dos Rosários dos Pretos de Minas Gerais, só que ao mesmo tempo as comunidades tradicionais se ferravam? Aí eu comecei a pensar “Deve existir uma experiência que tenha a ver comigo, tá ligado?”. Aí eu fui experimentar. Já tinha tido contato, a minha ex-parceira foi do movimento Hare Krishna, hindu. Na religião hindu eu já tava ligado que a cultura canábica tem também um lado santo pra algumas pessoas que cultuam Shiva e tudo mais. Fui experimentar, como curioso, todas as outras possibilidades. Estudei um pouco do Candomblé, depois tive uma experiência com a comunidade evangélica, não sei por quê. Procurei me conectar com o movimento Rastafari. Fui até procurar experiência evangélica, pela comunidade estadunidense ter uma vivência com a comunidade evangélica, tem lá Martin Luther King e todas essas paradas, achei que poderia fazer algum sentido pra mim, mas não fez. Aí cheguei à conclusão final de que se eu conseguisse fazer parte de alguma experiência religiosa de tradição organizada e que pudesse promover um senso de comunidade religioso, assim, eu estaria próximo ao movimento Rastafari. Se eu tivesse algo próximo a uma religião hoje seria o movimento Rastafari. É um dos movimentos que eu mais me aproximo de algumas visões. Porém, tenho uma treta com todas as religiões e chega uma hora que todas elas são um tanto restritivas para mim. Eu sei por exemplo que o movimento Rastafari é tranquilo em relação à cannabis, mas não gosta de café e tem outras restrições, como algumas questões de gênero que parecem bastante conservadoras. Eu não consigo comprar o pacote de tradição de uma experiência religiosa. 

Acabo gostando como uma experiência cultural, me aproximando como experiência filosófica, mas não fazendo parte de algum grupo. Hoje tem algumas coisas do zen budismo que se aproximam muito de minha crença, como o caminho do meio, o caminho de tentar controlar minhas emoções, de tentar não deixar que minhas emoções se tornem em algo tóxico. Uma das frases que fazem muito sentido pra mim é uma do Buda que diz mais ou menos “pratique o bem, não promova coisas ruins e controle sua mente”. Esses três princípios, tento seguir em minha vida.

A cannabis me salvou na pandemia porque eu estava me afundando totalmente

E a cannabis, ela surgiu na minha vida na pandemia, como tem surgido na vida de todo mundo. Assim,  historicamente, como tenho feito parte do debate público e como pesquisador, ela já tem surgido na minha vida há muitos anos. Mas eu fui atleta profissional dos 12 aos 19 anos, disputava 100 e 200 metros rasos, entrei no ranking brasileiro de sub 18 e todo final de semana eu estava competindo. Tive uma vida extremamente focada na construção do esporte e tinha uma vida extremamente regrada a ponto que nem tomava refrigerante. Não fazia nada que não promovesse o melhor desempenho dentro do atletismo, fiz isso durante muitos anos da minha vida. Passei muito longe de qualquer experiência de cerveja, bebida, maconha, essas paradas todas. Fui ter essas experiências mais tarde, depois dos 20, quando eu tava na universidade e eu não era mais atleta. Aí fiquei mais tranquilo com isso, comecei a experimentar. Onde realmente eu sentia necessidade disso, de falar agora preciso da cannabis, foi na pandemia. Na pandemia eu morava com minha parceira em, Guaratinguetá, uma cidade pequena do interior de São Paulo, e fui daqueles caras que achava que se ficasse três semanas enclausurado em casa, tudo ia acabar. Fiquei três semanas, mas foram virando meses, realmente fiquei dois meses sem pisar fora de casa e meu apartamento não tinha nem sacada, só uma janela e não podia ver o Sol. Tive déficit de vitamina D porque não saía no Sol! Isso me deprimiu demais, com ansiedade, a cannabis me salvou na pandemia porque eu estava me afundando totalmente. Chegou uma hora em que vi que tava precisando de alguma coisa, cheguei a ir em uma endocrinologista, pois estava me sentindo fraco, mal pra caramba, e resolvi fazer um tratamento pra melhorar meu condicionamento físico. Quando fiz os exames, ela viu que eu tava com um monte de déficits que estavam me debilitando, por isso não conseguia dormir. Ela me indicou um remédio para dormir, mas era muito pesado, e analisando o meu contexto eu pensei que não precisava de uma coisa química, tão pesada, pra dormir, pois era uma coisa que meu pai tomava, por exemplo, e que eu via que fazia mal pra ele. Como eu esperava que a pandemia fosse passar e que tudo que eu estava sentindo era consequência daquele momento, não queria ficar preso a um remédio tão forte. Aí falei “Quer saber? Vou procurar a cannabis”.

Tem uma história muito engraçada de como encontrei a cannabis porque, poxa, eu morava no interior de São Paulo, naquela época ainda não tava rolando… hoje é mais fácil importar, você vai no psiquiatra, faz online e tudo mais… mas acho que naquela época quase não tinha psiquiatra online que fazia consulta, passava receita, apoiava você com recomendação da Anvisa, era muito difícil. Aí ao invés de procurar óleo de CBD, fui direto na cannabis, mesmo [fumada, no caso o prensado]. E eu tive uma estratégia muito engraçada pra isso pois pensei “Quer saber, vou procurar por um lugar onde as pessoas devem ter contato com a cannabis”. Aí tinha uma charutaria ligada ao movimento Rastafari e conhecida na cidade, muita galera do rap curtia eles pra caramba. Eu simplesmente fui lá e comecei a comprar o meu kit. Pedi “vou querer esse dichavador, vou querer esse bolador, vou querer essa seda”, e montei tudo. Meu kit lá ficou, sei lá, uns 300 reais o kit que eu tinha montado com uns caras lá. Na hora que terminei de pagar o kit falei pro cara assim, bem baixinho, “aí, mano, você conhece alguém, tem algum contato que tenha, que consegue a erva pra gente?”. Aí ele ficou com muito medo de mim, tipo “não conheço esse cara e já chega pedindo contato pra mim?”. Ele arregalou o olho e tal. Depois olhou pra mim e falou “mas você é amigo daquele nosso parceiro, e tal”. Trocamos umas ideias e ele “toma esse contato”. Foi assim que comecei, e sempre umas duas ou três vezes por semana, assim, pra relaxar, eu começava a fumar, cara. Curti pra caramba e foi o que me salvou na pandemia. Isso foi o que me salvou na pandemia. Depois tive outras experiências mais ligadas ao trabalho, mas inicialmente foi assim que comecei. 

Conte mais dessas experiências ligadas ao trabalho, fiquei curioso. Que trabalho te envolveu com a maconha?

Sei que muitos artistas usam a maconha pra liberar o poder da criação. Eu não faço isso pois tenho outros métodos de chegar nessa solução da criatividade. Mas ela libera as tensões, libera o estresse, pra conseguir começar a entrar no meu processo de criação. Então de algum jeito ela pode ser bastante importante no processo de escrita. Mas na comunidade artística tem muita gente que usa pra se inspirar. Estava comentando com um amigo que trabalha com drinks, sobre isso, pois ele estava falando das experiências dele com narcóticos. Pois ele só consegue criar receitas de drinks novos e acessar o poder criativo dele quando ele está no estado chapadão. Esse estágio que eu acho que algumas pessoas precisam acessar e conseguem acessar, acho legal.

Sei que muitos artistas usam a maconha pra liberar o poder da criação. Eu não faço isso pois tenho outros métodos de chegar nessa solução da criatividade

Sempre tive contato em alguns lugares. Não posso citar todos os nomes aqui e tal, mas eu já trabalhei por exemplo nos bastidores de um reality com alguma coisa a ver com tubarões etc., e lá rolava direto essa conversas, da galera que cultivava mesmo, que conseguia trazer a planta dos Estados Unidos. Por que essa galera que tem mais grana tinha essa experiência totalmente diferente da minha. Eu tive aquela experiência que… muita gente não sabe porque a legalização pode evitar, diminuir a violência em relação ao tráfico de drogas. Por exemplo, quando consegui o contato que me vendia ervas e tal [quando morava em Guaratinguetá], eu tinha que ir nos bairros mais periféricos buscar. Para quem não conhece essa realidade, mesmo sendo do interior de uma cidadezinha, e que não é uma favela, pois uma favela de São Paulo ou uma como a do Alemão [no Rio] é do tamanho de duas cidades do interior, então não tô entrando nesse mérito, mas quando vai para o bairro periférico de São Paulo também, você vai naquele bairro, passo o contato pro cara, avisa que tá chegando naquele lugar, aí tem de baixar os vidros do seu carro todo. Eu tinha muito medo, dependendo da hora que você tava entrando pra conseguir a erva, os caras confundirem você com algum informante, e isso causa muito acidente, e eu não era, não conhecia ninguém daquele bairro. Vai dirigindo e indo por umas vielas em que as coisas começam a ficar mais tensas, começa a ver gente armada nas ruas, caras com fuzil. Chega numa esquina e tem uma galera te encarando, tem de ficar pianinho. Aí chega na rua que o contato falou e aí aparece um cara que nem é com quem falou, te dá o pacote e pega seu dinheiro, e você simplesmente sai. Essa é a experiência das pessoas pobres que precisam comprar cannabis. A experiência da galera rica que eu tive contato, é de caras que cultivavam, conseguiam a planta, plantavam em suas casas e faziam as experiências mais puras possíveis com a planta. Eles, além de ter todos os benefícios de uma erva mais pura e cristalina, com todos os benefícios e tal, eles não passavam pelo risco que tive de passar nas minhas primeiras experiências. E essa galera de trabalho, dessa área de roteiro, de audiovisual, de artistas e tal, da capital de São Paulo, foi com eles que tive a primeira experiência da erva mais pura. Quando comecei a usar a cannabis lá da periferia, você acaba vendo a diferença de ter muitas coisas ali, o prensado que a gente chama, que tem muita coisa que não deveria estar ali, mas está. Aí quando encontra essa galera mais rica vem assim “Mas como assim? Eles são sommelier da erva, eles entendem de todas as strains, têm todas as variações!”. E aí você começa a entender toda essa questão da desigualdade racial, mesmo, que envolve a parada da discussão canábica.

Uma das coisas, isso aqui eu posso contar pra todo mundo assim… não sei se posso contar pois rolou uma investigação sobre isso… mas vou contar. Uma das pessoas com quem tive uma das experiências da erva mais pura que eu experimentei foi com o Monark [influenciador digital associado à extrema direita brasileira e que ganhou holofotes quando defendeu a legalidade de um partido nazista no Brasil!?!?!], do Flow. Foi tipo, eu tava com ele, lá e tal, em alguma situação, antes de gravações, pois trabalhei com ele. Ele me apresentou uma que acho que chama blue label. Uma das strains que na hora em que eu vi falei “caralho, nem tenho ideia de como o cara consegue uma parada dessa, não tenho ideia de como se consegue uma parada tão pura assim”. Então, diferente do interior de São Paulo. Ele tinha uma lá e foi quando experimentei. Foi muito louco porque duas baforadas e já bateu um ar absurdo que nunca tinha batido em mim quando estava experimentando as de prensado lá no interior. Até hoje você não tem ideia de como é a organização dessa galera pra conseguir as cannabis mais puras e como eles conseguem fazer todo esse transporte e levar tudo isso, organizar e distribuir entre eles sem que isso seja realmente investigado.

Engraçado que o cara que vendia pra mim lá no interior, ele tinha tanto medo. Eu morava a dois bairros de distância dele, cara, e uma vez falei pra ele “cara, tem como trazer aqui no meu apartamento, eu pago a mais pra você, só traz aqui pra mim?”. E ele tinha muito medo. Sabia que se fosse de bicicleta, de moto, de algum outro jeito tentando levar isso lá pra minha casa e tal, pra atravessar o bairro, ele seria parado, seria preso, estaria ferrado, isso teria destruído a vida dele. Mas aí você vê que a galera da comunidade mais rica, talvez por não estar sendo monitorada, não tem nenhuma investigação, nenhum olho, eles não se tornam suspeitos, eles não são as pessoas que estão sendo investigadas por isso, e pra eles é super fácil, bem mais fácil conseguir do que a gente lá da periferia. Hoje ainda eu curto pra caramba, mas é isso, mais uma parada de relaxamento. Tô precisando de uma cannabis e vou relaxar. Atualmente a minha companheira faz tratamento de óleo canábico porque ela tava lidando com uma depressão, tomava remédios muito fortes, 120 miligramas de antidepressivos. Aí a gente conversou, ela quis buscar o tratamento canábico, e eu já tinha buscado ajudar minha ex-companheira nisso também, que acabou no futuro conseguindo importar óleo canábico. Vendo que isso ajudou pra caramba, falei pra Bruna, que mora aqui comigo em Belém: “Investe nisso, é fantástico”.

“A galera rica, por não ser monitorada, não se torna suspeita. E pra eles é bem
mais fácil de conseguir do que pra gente lá da periferia”

Cara, teve casos absurdos. Ela reduziu, pra ter uma ideia, quem toma antidepressivos não pode reduzir de 120 pra zero. Os efeitos colaterais no corpo criam essa dependência, de se cortar de 100 a zero, a pessoa fica na abstinência. Mas ela conseguiu reduzir 50% agora. Das 120 gramas que tomava, tá tomando 60 gramas, mais o tratamento com óleo de CBD que a psiquiatra passou. É outra pessoa, tá ligado? Convivendo com ela tenho a certeza de todos os efeitos colaterais que o antidepressivo estava causando, como perturbações do sono. Quem convive com quem toma antidepressivos sabe que causa muita perturbação do sono. E melhorou [o uso do óleo de cannabis] 100% essa questão, e a dor de cabeça, muitos dos efeitos colaterais que o antidepressivo tinha. E aí ela começou a incentivar. A mãe dela tá tomando óleo de CBD, uma pessoa que lidava com ansiedade. Então essa parada começou a mudar totalmente o meu entorno.

E hoje você continua no prensado ou tá no óleo?

O que eu consigo, eu curto. Eu tô muito menos ansioso, em relação à pandemia e tal. É mais recreativo mesmo. Tô com meus amigos, tô tranquilo, curtindo e acabo fumando. Quando tem prensado, é prensado. Mas obviamente dou preferência e sempre procuro pela flor. É mais gostoso, divertido, tudo mais tranquilo. Hoje tenho conseguido ficar mais tranquilo com a flor. É o que gosto. Não faço muito frequentemente, mas mais por diversão. 

No mundo que vocês cresceu, você falou dessa questão dos esportes na juventude, mas teve a questão da fantasia, da ficção científica, de ser um homem preto da comunidade nerd… como a maconha era vista nesse seu mundo?

Cara, no interior de São Paulo não existia isso. Era muito conservador. Vivi a década de 90. Não tinha internet e tinha muitos mitos, como dos Racionais. Lembra aquele mito de que toda hora que tinha um show do Racionais tinha morte? Aí meu pai, um cara bastante conservador, ele vota em políticos progressistas, é petista pra caramba, mas suas visões morais da sociedade são conservadoras pra caramba. Tenho dificuldade de falar com ele. Ele começou um tratamento numa terapia com psicóloga e quando a psicóloga sugeriu a ele cannabis, mudou de psicóloga, pra ter uma ideia. Isso há quatro anos, imagina como ele era na década de 90? Extremamente conservador, e minha experiência na infância foi ultra católica. Minha família não tá aberta a isso [maconha]. Não é uma coisa que vou chegar na mesa de minha avó e dizer “olha como a maconha é legal”. O interior de São Paulo é assim, a região que mais votou em políticos conservadores, e que mais vota em SP, elegeu Bolsonaro. Por conta desse pensamento e imaginário ultracatólico, tem esse lado desse pensamento afastar pra caramba. Aquela região é o berço do catolicismo, onde tem Aparecida, e os evangélicos têm uma repressão muito forte a isso [maconha]. Era uma não discussão. E no esporte também, sendo curioso que eu tive acesso, na adolescência, em um ambiente regrado, a tráfico de esteróides. Com 16, 17 e 18 anos de idade, eu conseguia ilegalmente anabolizantes, se precisava pro esporte. Na família ninguém sabia e só depois foram discutir. Isso que a gente vê hoje, de tiktokers e influencers fazendo tráfico de esteroides abertamente, essas drogas anabolizantes, hiper-caras, tive acesso a isso na minha vida de atleta, mas não tinha a discussão sobre a cannabis. Eu não sei, mas na vida de atletismo, não só, mas na parte desses esportes principalmente aeróbicos tinha essa percepção de que o cigarro destruía sua resistência cardiovascular, seu pulmão. Não era nem preocupação se era maconha, narcóticos e tudo. Era essa condição cardiorespiratória que todo mundo discutia, de que a fumaça ferra o pulmão. Até hoje prefiro indicar pras pessoas o óleo de CBD não por conta das propriedades, mas porque a fumaça, eu acredito, é prejudicial ao pulmão, tá ligado? Não existia  discussão de maconha por conta disso: bem-estar, desempenho… só que poderia estar ligado a drogas esteróides, mas nenhum pensamento possível à maconha. E aí como a galera do rap, periférica, sempre foi ligada à criminalidade, e essa é a grande coisa, o grande gap assim, porque drogas e esteróides não são ligados à criminalidade. Influenciadores fitness, que podem ser os maiores traficantes de drogas do Brasil, não são criminalizados. Mas o preto com três gramas é criminalizado. Então a comunidade do rap é muito criminalizada. Eu tive essa infância, assim, tive que escutar rap em segredo, tive que curtir as ideias de Racionais e essa galera em segredo, ir pros bailes funk em segredo. Não me envolvi com comunidade do funk, do rap, isso só fui fazer depois que saí de casa.

Influenciadores fitness, que podem ser os maiores traficantes de drogas do Brasil, não são criminalizados. Mas o preto com três gramas é criminalizado

Mas saí de casa cedo, 18 pra 19, por que hoje em dia a galera tá com 30 anos e com os pais. Naquela época, saí da casa da mãe, fui viver minha vida e aí eu fui tomar minhas escolhas e tal. E fui me envolver com a comunidade que sempre gostei, do hip hop, rap e tudo mais. E a galera nerd também acho que poderia dizer, ao menos que a convivi, fui viver em Taubaté, onde tive essa comunidade que era bastante conservadora. Talvez alguns deles viraram o que a gente chama hoje de nerdola. Eles tavam lá ainda, não tinha nenhuma discussão social dentro da comunidade nerd, da presença do que é ser um cara negro e periférico dentro de uma galera que não era negra e periférica e que curtia coisas do imaginário, sabe? Não existia a discussão ali sobre cannabis, sobre drogas. Década de 90, 2000, não tinha muito na internet, a galera não discutia isso, principalmente no interior de São Paulo.

E como esse mundo nerd entrou nesse seu outro mundo? Como a fantasia acaba se inserindo nesse jovem Ale Santos?

Tem a ver com aquilo que falei do que uso pra acessar o meu imaginário. Vivi uma vida reprimida, na Igreja, no Esporte, na Música. Quando você é bastante limitado, procura uma porta. E eu era limitado pela experiência do próprio racismo, eu não tinha muitos amigos na escola. A galera que eu conheci no Ensino Médio, ficarei muito feliz se souber que se fuderam pra caramba na vida, pois me ofendiam de todas as maneiras racistas. Hoje em dia a galera discute colorismo, pra quem não me conhece minha pele é clara, com traços bastante negros. Mas não tinha essa diferenciação pras pessoas, não. Eu era o saci, o carvão, era a pior coisa do mundo. Eu não tive amigos no Ensino Médio, era horrível, cara. O que que fazia, mano, é que me mudei pra Taubaté, que é muito contraditória [a cidade]. Pra quem não conhece Taubaté, é uma ode a Monteiro Lobato. E Monteiro Lobato tem histórias extremamente racistas, então ao mesmo tempo em que eu era ofendido pelas palavras do Monteiro Lobato, um amigo chegou na sala e disse “Olha, Ale, tô jogando Pokémon”. E eu “que parada é essa, mano, como assim o cara tá caçando Pokémon?”. E aí ele me mostrou um lance chamado RPG e o RPG deu vazão pra toda a repressão do  imaginário que eu tive. Tudo que eu não podia viver na vida, eu podia viver no RPG. Tudo que eu não podia explorar também, pois hoje em dia é fácil explorar as coisas pela internet, ah quero saber como é lá no Egito, quero assistir uma coisa diferente… naquela época não tinha muitas coisas pra assistir e eu poderia criar graças ao RPG.

Então, isso foi com 12 anos, que eu conheci o RPG. A parada me viciou tanto que a gente jogava RPG na sala de aula. Os professores chamavam meus pais e falavam “eu tô dando aula e seu filho tá com um grupo de 4 pessoas lá no final da sala jogando RPG”. Chegava sábado, a gente ia pro horto florestal e passava o dia jogando também. Historicamente, ter uma família que tinha muito medo de eu ter experiência ruins me favorecia em algumas coisas. Minha mãe pensava “melhor jogar RPG do que ir pro crime”. Meus colegas do RPG também eram atletas, porque a cidade de Taubaté tinha uma parada que eu gostava pra caramba, que toda escola municipal tinha uma quadra com todas as modalidades de treino.Então de manhã eu jogava RPG na sala de aula e à tarde eu ia jogar basquete. Fazia essas duas coisas simultaneamente, o esporte e o imaginário sempre estiveram interligados. Tanto que depois eu voltei a morar na cidade de Cruzeiro, onde nasci, divisa de São Paulo e Minas Gerais, e aí não tinha time de basquete. Eu tinha assistido um filme que tinha mudado a minha vida, “Jamaica Abaixo de Zero”, onde vi aqueles caras corredores de 100 metros rasos depois virar o time de inverno da Jamaica, só que aquela visão deles correndo 100 metros rasos me impactou pra cacete. Aí não tinha time de basquete pra competir, mas tinha a corrida e fui pra corrida. Ao mesmo tempo, fui procurar pessoas ao redor pra montar meu grupo de RPG. Então eu treinava atletismo e tentava encontrar pessoas que queriam jogar RPG. Um dia montei uma comunidade no Orkut, RPG Cruzeiro, e entrou um cara só e eu falei “pô, mano, vâmo montar uma comunidade e se encontrar na praça da cidade?”. Aí eu saí andando e, depois de meia-hora andando, sentei do lado do cara, troquei uma ideia e “pô, vâmo montar um site, um blog?”. Aí a gente conversou, foi embora andando e descobri que ele era meu vizinho. Isso acontece muito no interior, a internet me aproximou com o cara que era meu vizinho. 

Esse cara se tornou meu parceiro, tem até hoje nossa página no Facebook, foi minha primeira experiência profissional desse tipo, chegamos a fechar parceria promocional com a Blizzard [grande empresa do mundo dos videogames], chegamos a cobrir o lançamento de Diablo 3 no Brasil, a gente cobriu a primeira Brasil Game Show, estivemos na Campus Party, ganhamos três prêmios top blogs de melhor blog de games do Brasil. Tínhamos 30 mil acessos mensais falando de RPG. Então meio que isso formou essa ideia de que era possível trabalhar e existir como profissional ativo nessa indústria de jogos e do imaginário. Quando abandonei o esporte como carreira, exatamente quando passei pra faculdade, falei “cara, beleza, esporte não deu futuro pra mim, mesmo conseguindo coisas legais… depois lutei jiu-jitsu, fiz musculação, hoje faço boxe… mas o RPG continuou”. 

Sei que parece que contar histórias sempre esteve na sua vida, mas você começou a ficar famoso pelo Twitter, pelos seu livro “Rastros de Resistência”, que é de não ficção, nada a ver com ficção científica, é de histórias reais, de pessoas negras, e você até concorreu a um Jabuti pela obra. Por que essa curiosidade pela história de pessoas negras, primeiro pela não ficção?

Essas histórias sempre estiveram comigo. Ao mesmo tempo em que fui crescendo, jogando RPG e tendo consciência de “caramba, essas histórias que tô contando são legais, mas não são sobre mim, sobre minha cidade, sobre o morro em que nasci, não são sobre as pessoas que me circulam”. E eu fui buscar novamente quem eu era. E novamente o esporte foi a conexão pra identificar quem eu era. Paradoxalmente, o racismo científico é muito forte no esporte. Então, eu era o corredor de 100 e 200 metros e existia uma crença de que os negros eram os corredores mais rápidos do mundo, e de algum modo ainda são os principais corredores, mas cientificamente não há algo que conecte à raça. Assim como tinham filmes como “Brancos Não Sabem Enterrar”. Então, as pessoas esperavam que eu fosse bom no esporte só porque eu era negro, e isso me conectou com uma galera. Pois parei pra ver quem são os corredores negros, aí, tipo, tinha uma série de corredores negros famosos que ganhavam muitas competições, Olimpíadas daquela época, e que no Brasil eram Vicente Lenílson, Claudinei Quirino, que quando ia estudar a história deles e, pô, e esse cara, o que ele escuta? Aí ele tava escutando 50 Cent, rap. E esse outro cara, esse outro disputou a Olimpíada na Alemanha e levantou o punho dos Panteras Negras. Aí uma coisa levou à outra e vi que esse tipo de coisa sou eu, e levei isso pro RPG. Fui pesquisando a história dessas personalidades, dessas pessoas, estudando rap, história dos Racionais, o que eles diziam na música… aí vai mudando tudo ao redor, você vai se identificando com o que é ser um negro periférico no Brasil, cara. Sempre tive, por conta do esporte, do atletismo… querer saber quem eu era naquele meio. Muitas das histórias que eu contei nesse livro, eu já sabia, por esse meu lado nerd, eu pesquiso as coisas à fundo. Na época em que eu ia montar uma aventura de RPG, abria enciclopédias e ia montando mapas. Esse tipo de coisa, a elaboração de uma história, é o que me ensinou a pesquisar. Quando veio o Twitter, eu ficava contando algumas histórias pra minha mãe, que era viva. Ligava para alguns amigos e falava de umas histórias. Aí vi uma pessoa fazendo uma thread no Twitter e eu achava isso uma idiotice, cheguei a falar isso pro Jack Dorsey [o mais famoso dentre os criadores do Twitter, hoje o X de Elon Musk], que foi criador do Twitter, que eu conheci no Brasil. Eu pensava “que tipo de perdedor é que vai escrever um tuíte e depois comentar no próprio tuíte?”. E aí eu pensava nisso, mas vi alguém fazendo a thread, vi que o engajamento aumentou, e pensei… e se eu contar uma história?

Toda vez que as pessoas tentam encontrar uma desculpa pra impulsionar a prisão em massa da população periférica, e ser periférico no Brasil é ser negro, você cai na discussão moralista da maconha

Aí eu contei uma história, que foi a colonização do Congo pelo rei belga, uma história que eu conhecia há muito tempo. Não tinha noção… só esse tuíte, ele sozinho, chegou a 1 milhão de visualizações. Comecei a contar outras histórias que eu tinha na minha cabeça, como a da Vênus Negra, e foi uma explosão no meu Twitter, foi de 5 mil seguidores para 140 mil. Muita gente legal chegou ao meu redor, Marcelo D2,  Emicida, jornalistas, Daniela Mercury, uma galera muito pesada começou a se aproximar de mim e a me dar atenção, virou meu amigo. Depois virei o cara que escreveu história pro Intercept, pra Superinteressante, pra Vice, e as editoras vieram falar pra transformar em um livro e virou o “Rastros de Resistência”. E novamente foi uma surpresa porque a minha primeira publicação foi finalista do Jabuti, tá no Clube de Leitura da ONU no Congresso dos Estados Unidos e esse livro, tô trabalhando numa expansão dele. Vou tentar trabalhar pra mandar pra fora do Brasil. E abriu caminho pra publicar outras coisas. Depois que você é finalista do Jabuti, as editoras falam “Pô, esse cara sabe escrever. Qual é sua próxima história?”. Aí pensei “Bem, beleza, vai ser ficção científica”. Não queria ser empurrado pelo algoritmo a ser alguma coisa, queria mostrar o que eu era desde o princípio. Foi quando publiquei “O Último Ancestral”, que também foi finalista do Jabuti e está negociado pro audiovisual. A escrita, o Twitter e todas essas histórias me trouxeram pra cá. Eu era escritor antes de ser reconhecido socialmente como escritor,  pela internet. Mas sempre fui por conta do RPG.

Você como contador de histórias, mas também como pesquisador de histórias, vê uma ligação da maconha com a história negra?

Totalmente. A história da criminalização da maconha no Ocidente é totalmente conectada à criminalização das populações negras. Você vê que toda vez que as pessoas tentam encontrar uma desculpa pra impulsionar a prisão em massa da população periférica, e ser periférico no Brasil é ser negro, você cai na discussão moralista da maconha. No Brasil, a maior parte das pessoas encarceradas hoje são por tráfico de drogas. E tráfico de três gramas, assim, a maior parte das pessoas são não-violentas e que, por estarem fumando ou carregando um pouco de drogas no carro, são presas. A gente sabe que os traficantes verdadeiros não estão presos no Brasil e a gente sabe que a comunidade, as pessoas de classe média, rica e alta, conseguem drogas que são muito mais caras e elas passam ilesas por esse sistema e criminalização. Teve esse caso recente da Djidja, que tava fazendo abuso de drogas, da cetamina, que é aprovada pela Anvisa pra tratamento de depressão persistente, e que se você for comprar pelos psiquiatras, chega a ser muito caro. E na família dessa Djidja, eles acabaram comprando com um cara que vendia pra sedar cavalos. Segundo as investigações, ele comprou 93 litros num ano, se uma média de cetamina tá quarenta reais numa casa de animais, devem ter investido uma média de 370 mil reais só nisso, num ano, sem contar esteróides, que tem envolvimento com esteroides. Se você assiste vídeo de youtubers marombeiros e tudo mais, você sabe que eles gastam 15 a 50 mil reais por mês pra manter o shape. A questão é a seguinte: é proibido produzir esteróides no Brasil hoje, como eles não são regulamentados. Novamente é uma indústria que é ilegal, tá fazendo muita grana, e que ninguém discute e criminaliza, não está preenchendo o sistema carcerário com pessoas utilizando esse tipo de droga. O que está preenchendo o sistema carcerário é de pessoas utilizando maconha e a maior parte delas são negras, até 80% no sistema penitenciário brasileiro é por tráfico de drogas, e a maior parte é de pessoas negras e pardas desse país. Você vê o estado do Rio de Janeiro querendo prender qualquer um que fuma na praia, enquanto os que usam as drogas mais caras, os sintéticos, coisas assim, estão em seus apartamentos. 

Não tem como você não perceber que o plano de encarceramento em massa não funcionaria se não tivesse a criminalização da maconha. Por que exatamente por ela ser uma planta, se torna mais acessível pra maior parte da população e tem várias outras discussões porque a indústria farmacêutica não queria isso. Pois aí seria fácil cultivar, e é uma questão de poder. Querem que as pessoas pobres não tenham poder em relação à escolha pela cannabis, tanto medicinal quanto recreativa. E também querem uma forma de controlar o medo das pessoas pretas e pobres… e por isso essa Guerra às Drogas, Guerra à Cannabis, que não faz muito sentido.

O The New York Times te citou como um dos representantes do movimento  latino-americano de fantasia, que tá super forte, um dos mais destacados. Seu livro, super premiado, e agora tem um pra jovens dentro desse universo, e sei que vai virar RPG, e filme ou TV. Se fosse nos EUA, você já estaria em Hollywood. Como está aqui no Brasil?

É um pouco frustrante porque o Brasil é hiperrealista. A gente teve um passado ligado à ditadura militar e o positivismo que enxergava o sonho, as obras do imaginário como de menor qualidade. Por isso que Hollywood estava fazendo filmes de lobisomens e vampiros em 1920, e viagem à Lua, e o Brasil, não. Aqui tinha de ser uma linguagem técnica, realista, de obras que falam de coisas, entre aspas, de adulto. Por isso o primeiro escritor desse tipo de ficção que ficou conhecido na literatura brasileira foi Monteiro Lobato, que escreve pra crianças. Se ele tivesse escrito pra adultos, talvez outras obras de adulto dele não seriam reconhecidas. E isso impacta nosso mercado. Ainda não participei de uma mesa da Bienal que fosse puramente de ficção científica e fantasia, pois aí tem a discussão, ou sempre me colocam numa mesa de pessoas negras pois eu só posso existir quando estou falando pra pessoas negras também, ou eles me colocam numa mesa pra discutir o futuro, por exemplo, com pessoas que não necessariamente estão falando de ficção especulativa, como poetas, filósofos, futuristas. Eu vejo isso, cara, a gente tem um apreço muito forte pela realidade, até a própria comunidade negra brasileira não está ligada à literatura de fantasia. Então, sim, com a experiência de escrita de fantasia negra… é um espaço que tem ainda de construir e eu estou construindo esse espaço.

Quero que todo mundo conheça o Brasil não só pela ótica histórica, mas pela do imaginário e da nossa cultura pop

Tô buscando expandir muito. Com esse trabalho do Assassin’s Creed, trazendo pra ditadura brasileira e tal. Maior hype de minha carreira, varreu o mundo todo. Então tô trabalhando muito para ser reconhecido e para que as pessoas reconheçam a ficção brasileira. Quando geralmente a gente fala da minha expansão da minha obra pra fora do Brasil, as pessoas perguntam “Pera aí, mas ficção científica do Brasil? Nunca vi chegar nada assim”. Então, as pessoas têm muita desconfiança, mas a coisa que mais tive de fazer na vida foi ter de abrir meu próprio caminho, nunca tive um caminho feito pra simplesmente seguir. Estou muito confiante no que estou fazendo, quando essa adaptação acontecer será um marco, o RPG também chegando aí, do “O Último Ancestral”, no segundo semestre. A cultura pop tá num ótimo momento no mundo, se eu tivesse nos EUA as pessoas falariam “olha que foda”. Mas eu também quero muito ver isso acontecer no Brasil, pois eu sou muito nacionalista na arte, eu quero muito o potencial brasileiro, as características do Brasil, da nossa história. Quero ser mais reconhecido na América Latina. Tô na minha segunda obra e, ao mesmo tempo que tenho ansiedade pra acontecer, sei que é uma construção e que leva tempo.

Você comentou de seus passos lá fora, que é a segunda obra dentro desse universo, e que tem o Assassin’s Creed, que já é uma saga popular lá fora. Por que esses passos também lá fora, se você é nacionalista na arte?

Por que o maior palco da ficção científica do mundo hoje é os Estado Unidos, a gente consome tudo que vem deles, do streaming, dos quadrinhos, eles são os maiores produtores, tem o maior palco, tem  estrutura. Se você lança uma história em quadrinhos lá já tem os mega eventos, os pequenos eventos, as grandes revistas críticas, as pequenas revistas, os blogs. Toda uma estrutura de mercado que te impulsiona pra isso. Então aqui no Brasil a gente não tem a grande premiação de ficção brasileira, só pequena-média, mas sem repercussão como o Jabuti. Lá fora tem Hugo e Nebula que têm imensa repercussão, com o mesmo tamanho que o Pulitzer. Aqui no Brasil o Jabuti é nosso Pulitzer, mas não temos nossa grande premiação de cultura pop, de diversão jovem e tudo mais.

Lá acontece! E fazer Assassin’s Creed talvez infelizmente faz eu ser mais reconhecido também aqui no Brasil. Pra quem não sabe é uma franquia bilionária de 15 anos que qualquer pessoa nerd bota respeito. Até mesmo os produtores brasileiros, de editoras, meio que mostram “Olha, o Ale conseguiu chegar lá fora, com uma empresa com a qual é muito difícil de fazer, uma parada foda”. Então as pessoas acabam me valorizando mais, como se eu tivesse recebido uma chancela maior para o público que gosta de cultura pop. Por que tem isso também, premiações como Jabuti são muito legais, mas se chegar na comunidade nerd, nem sempre vão te achar foda por ter  Jabuti. Os maiores escritores brasileiro de fantasia das últimas décadas sequer concorreram ao jabuti. Então, ir pra lá [EUA] é algo que me valoriza, mas também é um passo que eu quero fazer. Ao mesmo tempo em que a gente curti aqui o Miles Morales [o Homem-Aranha negro], eu quero que eles curtam lá o Eliah [protagonista do livro de Ale]. Por que eu quero que todo mundo conheça o Brasil não só pela ótica histórica, mas pela do imaginário e da nossa cultura pop.