
Ao nos depararmos com um novo levantamento dos EUA, nos perguntamos “Por que quem é da maconha está com medo do Trump?”. Bem, medo não foi a palavra usada na pesquisa, mas veremos como se pode chegar à conclusão de que os maconheiros estão bem mais receosos com a volta de Donald Trump à presidência. E o que isso tem a ver com o Brasil? Chegaremos lá.
A pesquisa, realizada em março pela consultoria Censuswide e que nos levou à questão central desta reportagem, perguntou o seguinte a mais de 2 mil norte-americanos: “Quanto o seu nível de estresse aumentou ou diminuiu desde que a nova administração presidencial retomou o governo dos EUA?”. Tem uns termos bem estadunidenses aí, como nível de estresse, de “stress levels”, e se trata de uma pergunta típica de estudos lá do Norte. É uma forma de medir o sucesso ou insucesso de um governo.
Em pesquisas gerais, notou-se que 54% da população dos EUA anda mais estressada nestes primeiros meses da Segunda Era Trump, o que reflete a polarização e divisão do país em extremos, como tem sido também (e, em certa medida, replicado) aqui no Brasil nas últimas eleições. Só que quando a mesma pergunta é feita aos adeptos da maconha, esse número salta para 65%.
TÁ TENSO?
Quem melhor para explicar o motivo do estresse senão o próprio usuário? Conversamos com um nome que bem representa e muito, muito sabe do que é ser maconheiro nos EUA.
“Já houve uma série de retrocessos nas leis (após a volta de Trump)”, comenta Brian Box Brown, artista da Filadélfia que ganhou renome contando histórias reais em HQs, como em sua estreia com “Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos”, de 2019 e que conta como os Estados Unidos montaram narrativas falsas para basear a Guerra às Drogas, em especial com movimentos políticos dentre os anos de 1930 e 1960. Agora está produzindo uma sequência, “Legalization Nation” (A Nação da Legalização).
Brown é um grande conhecedor da história da relação dos EUA com a maconha. “Em Ohio, colocaram limites para sementes, reduziram a quantidade que se pode cultivar em casa. Em Nova York, os policiais voltaram a ter o direito de revistar um carro apenas por acharem que vem cheiro de maconha dele”. Ele lista retrocessos, um atrás do outro.
No mês passado, Donald Trump chegou a defender a pena de morte para quem fosse pego vendendo drogas, afirmando que seria uma medida “bem humana” por supostamente prevenir overdose de usuários. Oi? Qualquer um que sabe o básico de redução de danos entende que uma coisa simplesmente não está ligada à outra – como comprova a epidemia de abusos de remédios nas últimas décadas.
Sem explicar como calculou essa porcentagem e nem como chegará lá, em um discurso público na Carolina do Sul, o presidente dos EUA ainda garantiu que reduziria em 50% o uso de drogas no país. O caso de sua contraparte filipina Duterte, que recentemente foi preso pelo Tribunal Penal Internacional pela matança que promoveu com a desculpa de uma guerra às drogas, mostra que números assim são impossíveis de serem alcançados tão rápidos sem políticas preconceituosas, violência, extremismos, encarceramento em massa de usuários (inocentes, sempre). Assim foi com o ex-presidente da Filipinas, responsável pela chacina de 6,2 mil pessoas em seu país usando diretamente o artifício da Guerra às Drogas, sendo que todos seriam sem dúvida inocentes, muitos dos quais perseguidos unicamente por se oporem ao seu regime ditatorial, que destruiu a Filipinas entre 2016 e 2022.
Duterte já foi chamado de “O Trump do Leste”. Ao propor matar quem vende drogas, o presidente dos EUA faz jus ao apelido que poderia ser invertido: “Duterte do Oeste”.
“O presidente assim segue países como a China, que impõe a penalidade máxima também”, avalia Brown. “Está tudo caótico. Mesmo se Trump legalizar, tenho certeza que será o mais restritivo e horrível sistema de legalização que poderia existir”.
A brasileira Thays Alves, que trabalha como gerente de produção de uma empresa enorme de cannabis nos EUA, país em que atua como cultivadora em lavouras de maconha desde 2018, aponta muitos motivos para os stoners estarem estressados. “O país como um todo tem passado por um momento difícil e de muitas incertezas”, nos diz, compartilhando sua sensação diária, assim como a de outros de seus colegas.
Segundo observa, a administração de Trump tem incentivado não só o aumento do policiamento nas ruas, como também que esses policiais sejam truculentos, inventem desculpas para prisões, dentre mais e mais abusos. “Mesmo nos estados legalizados, as pessoas estão com medo de serem flagradas com maconha. Arranjam qualquer motivo para te prender e te manter preso. Se não for um cidadão (dos EUA), aí podem te deportar”. Thays se vê em um cenário de caça às bruxas, com pessoas aflitas de serem as próximas a serem perseguidas.
E NO BRASIL?
Thays, radicada nos EUA faz quase duas décadas e que mantinha um perfil no Instagram no qual mostrava o dia a dia na lavoura de ganja (foi derrubado diversas vezes pela Meta, que sabemos ser censora da cultura canábica), crê que a situação está melhor para os maconheiros brasileiros. “No Brasil, o que a gente está buscando agora é a legalização, a normatização do uso, da venda, da prescrição. Estamos indo num sentido muito oposto”.
É evidente como temos progredido no Brasil e a descriminalização do usuário pelo STF, no ano passado, é apenas uma das evidências. Mas isso não quer dizer que não devemos ficar (bem) atentos.
“Não devemos temer o governo Trump pois ele não tem muitos poderes aqui no Brasil”, opina Daniel Paiva, quadrinista que é algo como nosso equivalente nacional do Brian Box Brown por ter criado, com inspiração em sua contraparte gringa, a HQ Diamba, sobre a história da ganja no Brasil. “Mas a gente sempre deve temer um governo de extrema direita, dá medo, ameaça nossas liberdades em vários aspectos. Não como maconheiros, mas como cidadãos, devemos temer um governo de extrema direita”.
Ele recorda então do governo Bolsonaro como exemplar disso. Trump é nome simbólico, prático e perigosíssimo de uma onda radical que se espalha por muitos países e também contaminou o Brasil. A ele se juntam nomes como de Duterte e Bolsonaro.
Aqui em nosso país, vemos também pipocarem indivíduos dessa linha no reacionário Congresso Nacional. Tanto que logo após a descriminalização finalmente ser aprovada pelo STF no ano passado, deputados e senadores se articularam para retomar na pauta a ameaçadora PEC 45, de 2023, criada como artifício para prender qualquer usuário, de qual droga for. Melhor dizendo, pois aqui na Breeza somos diretos e retos. ferramenta de perseguição e para jogar no cárcere pretos, pobres, os mais vulneráveis. A elite sempre faz o que quer em nosso país, inclusive fumar maconha (ou usar qual droga for a do momento).