
Hana Khalil é uma criadora de conteúdo que busca ir na contramão do que é mais típico entre influenciadores digitais. Em vez de superficialidades, ela prefere mergulhar em temas que nos fazem pensar. Nessa entrevista com nossos editores Anita Krepp e Filipe Vilicic, direto do estúdio da Breeza na última ExpoCannabis, ela abre pela primeira vez o seu universo canábico particular.
Conta que fuma desde os 15 anos, usando a planta de forma recreativa e medicinal para tratar ansiedade, insônia e endometriose, e que cria grande parte de seu trabalho sob efeito da planta. Hana decidiu sair da estufa agora, a nosso convite, pois considera esse um debate que precisa sair da estufa para ganhar as mesas de jantar.
Para ela, é impossível engolir a incoerência que permite publicidade de álcool em todos os espaços, enquanto censura conversas sobre maconha. A cannabis, diz ela, não tem qualquer histórico de mortes e poderia ser uma ferramenta terapêutica, industrial e social em um país que ainda bloqueia seu potencial por medo, desinformação e racismo estruturante.
Um eixo importante da conversa foram as práticas de redução de danos adotadas por ela, começando por conhecer seu próprio corpo e seus limites, e a influencer compartilhou dicas sobre como evitar bads e se proteger quando bate a ansiedade.
Entre recordações da adolescência maconheira e memórias dos reality shows dos quais participou com abstinência compulsória da erva, Hana ainda discorre sobre o caráter proibicionista das redes sociais, que contrasta com a liberação e até impulsionamento de atrocidades como discursos de ódio e sexualização infantil. Louvando o fim à hipocrisia, Hana vem lançar a real.
Anita: Hana, como é a sua relação com a maconha?
É uma honra estar aqui hoje também falando sobre isso, porque eu acho que é algo que por um tempo eu não conseguia falar, acho que porque também é complicado demais, é uma linha muito tênue. A gente sabe todas as questões que envolvem, mas eu não conseguia mais dormir bem sem eu falar sobre isso, sem sentir também que eu tô fazendo algo sobre esse debate, porque a minha relação com a cannabis é de longa data. O primeiro baseado que eu fumei foi quando eu tinha 15 anos. A minha relação com a cannabis é um pouco recreativa, mas eu também me trato de várias formas, já usei em gotas, já usei em gummies, já usei… inclusive, tenho a Humora, uma maravilhosa parceira também, que tem produtos incríveis, suplementos, que não necessariamente estão atrelados ao THC. Então, eu tenho um padrão de canabidiol, com prescrição, porque eu tenho muita ansiedade, muita insônia e tenho também endometriose, que dá muita cólica, que precisa da planta e isso me atendeu sempre muito bem em diversas questões terapêuticas, mas com recreativo, não vou mais conter isso: eu fumo maconha todos os dias, é uma coisa que tá na minha rotina, amplia muito meus horizontes criativos. Ela me dá uma possibilidade muito grande de criar, eu trabalho com criação e isso é muito fundamental pra mim, no meu momento. É uma coisa bem ritualística também. Em certos momentos é um S.O.S pra ansiedade, não vou esconder isso. Tenho minhas ressalvas também a fazer sobre o consumo de maconha, aqui (no Brasil) a gente não tem acesso a plantas legalizadas, então fica difícil da gente acessar o que é bom pra ansiedade e o que não é.
Filipe: Por que além de usar você resolveu divulgar essa bandeira? Tem negócio aí também pra comunicadores, de grana, de mercado?
Olha, eu acredito que tá crescendo, mas eu acho que isso não é muito bom pra publicidade, essa parte mais real. A gente sabe que o mercado não tá preparado, muita gente não tá preparada pra essa conversa. Mas eu acho que de uns tempos pra cá, eu me lancei nessa outra pauta, que pra mim é importante não só por fazer parte de mim, mas porque, gente, eu tenho uma questão pessoal, tem muitos alcoolistas na minha família, vários não estão mais aqui. E é perturbador saber que, enquanto a gente pode fazer publicidade de álcool, enquanto a gente pode colocar álcool estampado nas coisas e incentivar, estimular, ainda que beba com moderação, a gente sabe que não é essa a verdade. A vida das pessoas acaba por causa de álcool, muitas, muitas pessoas. E a gente não consegue conversar muito sobre isso, porque é uma coisa vista como socialmente autorizada. Nesse lugar entrou o meu CPF, pessoa física, humana. Ainda que eu não queira me divulgar como usuária recreativa o tempo todo, eu quero falar sobre como paciente medicinal também, mas não quero só ficar falando como uma não usuária, porque eu também acho muita hipocrisia. Acho extremamente contraditório a gente poder falar sobre álcool, a gente poder estampar as paredes de “beba com moderação”, sendo que eu sei que para as pessoas da minha família que têm uma questão com álcool, é totalmente delicado, é um gatilho, enquanto a gente não pode falar sobre consumir maconha, que é algo que não tem riscos, e os estudos estão aí para confirmar isso. Obviamente, a fumaça a longo prazo oferece riscos, a gente tem essas questões, mas, ainda assim, ela não está nem equiparada ao tanto de gente que morre por causa de álcool. As pessoas não morrem por usar maconha. Acho que a questão da planta ser algo extremamente versátil e ela poder ser a solução de vários problemas do capitalismo e pode nos dar coisas incríveis. Ela poderia agora estar nesse copo de plástico, a gente podia estar usando um copo biodegradável, mas a gente não está. E quando há tanto racismo em relação a isso, que a gente já sabe, a história é extremamente racista, não dá para eu dormir à noite simplesmente falando “Ah, tá, tudo bem, deixa eu proteger só o meu trabalho, o meu ego aqui”. Eu sei que é foda também querer comprar todas as brigas, eu não quero isso, mas é importante a gente falar.
Anita: Essa coisa de beba com moderação, que é uma prática, ainda que muitas vezes só teórica, de redução de danos, que é um tema caro à Breeza, tanto que produzimos o Guia da Boa Breeza, para discutir esse tema, porque à medida que a gente fala sobre legalização e normalização, a redução de danos precisa vir de mãos dadas. Quais são as suas técnicas de redução de danos?
A gente precisa fumar com filtro, gente. Quem mistura com tabaco, eu eventualmente tenho uma relação conturbada com o tabaco que pra mim é o problema, não fumo tabaco puro, mas às vezes eu misturo na planta. A gente ignora isso, porque muita gente que fuma maconha com tabaco às vezes acha que não tá fumando tabaco.
“Mas você fuma, amor”. Zero julgamento, mas fumem com filtro. Eu estou agora fazendo essa campanha com os meus amigos. Muita gente fuma maconha com tabaco. Então quer fumar com tabaco, fuma com filtro. Aquele piteirão, a gente pega o filtrinho, bota dentro da piteira e enrola. O argumento que eu vejo muito das pessoas na internet, principalmente quando a gente fala de usuários de cannabis, é que as pessoas ficam lentas e a maconha trava a vida delas. Por quê? Porque as pessoas começam a ficar realmente entregues a isso toda hora e elas querem usar sem entenderem o próprio corpo. Dá pra fazer um uso recreativo controlado. Eu acredito que o melhor momento pra usar seja o momento em que você sabe a sua dose, pode parecer muito louco eu falar isso, mas o jeito de tragar, às vezes, se você for com muita sede ao pote… Você tá com muita vontade, aí você fuma e dá um pegão e pode te deixar mais ansioso. Você tem que ir aos poucos, entendendo a vibe.
Filipe: Você domina redes sociais, e a gente aqui na maconha tem um problema com redes sociais, tem mídias, associações, médicos, advogados, que tiveram suas contas derrubadas só por falar de maconha. Como você vê esse cenário, como é isso nas redes sociais, no Instagram, pra pautas mais ousadas, mais polêmicas?
Essa é uma pergunta que eu também me faço todos os dias, eu não entendo, porque eu acho que em várias questões, em vários lugares que a gente tenta falar sobre coisas importantes, às vezes na internet é complicado, e isso me irrita muito. Até sobre vibradores, assim, é uma coisa minha, toda essa coisa da saúde sexual feminina, eu também falo muito de vibradores, de orgasmo, e cai também. A gente tem muito problema com isso, a gente não pode dialogar sobre, isso é muito doido, né? Eu não tive nenhum conteúdo derrubado por isso, mas é isso que eu acho que é importante também trazer aqui, que talvez seja interessante, tomar sempre cuidado com as palavras no lugar de driblar a plataforma. Eu me questiono até o uso de palavras que são consideradas ruins pra plataforma, tipo morte, estupro, coisas assim, que são importantes que a gente fale, só que a gente tá, às vezes, alertando, e eles derrubam, diminuem a entrega, diminuem o engajamento. São as plataformas agindo de um jeito muito esquisito, como sempre.
Filipe: E parece que tá perseguindo mais pautas progressistas, agora, né? Tem uma virada aí no início do ano (de 2025), o Zuckerberg se alinhou com o Trump, aquela coisa; na prática, você vê pautas progressistas serem mais reprimidas. Você sente algo assim, na sua percepção?
Com certeza. Inclusive, eu não entendo, assim, quando eles falam de ditadura. É tipo: tá, o que que configura o crime, né? Vocês estão lutando pelo direito de cometerem crimes online, enquanto a gente está lutando pelo direito de falar sobre coisas que podem ajudar as pessoas. É uma diferença muito brusca, desculpa, mas não tem como a gente não ser politizado nisso, sabe? Porque, infelizmente, pra mim, não faz o menor sentido. A gente tá tentando falar, tentando ampliar esse debate sobre coisas importantes, sobre uso de cannabis medicinal, sobre uso de CBD, tentando fazer as pessoas entenderem, e tem um lado tentando barrar isso. O lado que, ao que me parece, acredita que a gente deveria liberar comentários criminosos, homofóbicos, LGBTfóbicos, misóginos, racistas. É enlouquecedor, eu fico em casa, sozinha, maluca com isso. Então, realmente, infelizmente, respondendo à sua pergunta, está havendo, sim, um aumento dessa força, desse outro lado que quer cometer crimes online. E enquanto as pautas progressistas, que estão aí justamente para ampliar o debate, simplesmente caem, o engajamento cai, tá lá a conta do deputado, maluco lá…
Filipe: …o Nikolas Ferreira?
Ai, não queria falar o nome dele, que bom que você falou. Ele pode falar coisas horripilantes e o engajamento cai? Que loucura. Não cai, não cai. Mas se você falar a palavra maconha… você viu o João de Manoel, agora, cara? Ele estava com um tabaco e as pessoas surtaram com ele. E, tipo, os criminosos, os criminosos mesmo, quando são racistas, quando são homofóbicos e tal, eles não querem se responsabilizar pelos crimes que cometem online. Mas ainda recebem engajamento de bandeja, porque eles são muito engajados. Muito doido isso.
Anita: Aqui na Breeza, a gente conversa com ícones da sociedade para tirar eles da estufa, exatamente como estamos fazendo com você agora. Mas vários convites são recusados, e alguns deixam muito claro que o motivo é o medo de perder publicidade. Você acha que isso realmente acontece? As marcas que apoiam aquela pessoa, ao vê-la fazendo um conteúdo sobre maconha, vão parar de apoiar? Ou você acha que isso é viagem da cabeça de quem ainda vive em um mundo pouco normalizado?
Eu acho que depende do quanto isso é importante para eles. Para mim, é muito importante. Eu não consigo dormir à noite sabendo que eu tenho um monte de informação sobre uma coisa e sabendo tudo isso que eu já sei sobre álcool, sobre todas as outras coisas, sobre os outros entorpecentes, e só ficar na minha. Mas a publicidade é um medo legítimo porque todos temos que pagar nossas contas. Então, assim, eu acho que é sobre o quanto isso é importante para você, como você vai falar disso. Não dá para falar disso promovendo o uso sem responsabilidade. Admiro quem faz pra caralho, mas não é a minha. Por quê? Porque eu acho que a minha função é informativa, não é tão entretenimento, entendeu? Eu acho que é político também eu falar que sou usuária de cannabis, então eu vou fazer porque é importante para mim.
Mas eu acredito que, sim, as marcas têm preconceito mesmo, algumas sim, mas se você fizer um bom trabalho, souber se colocar nas horas certas, fazer um trabalho político que valide uma coisa que, infelizmente, aqui no Brasil, é um debate muito atrasado. Porque lá na gringa, eu detesto comparar com gringo, detesto comparar com estadunidense, com europeu, eu tenho horror a isso, porque realmente, ah, Primeiro Mundo, sei. Mas é triste, porque esse país poderia estar gerando muita planta, poderia estar fazendo indústria, principalmente o agro. E vocês sabem, todo mundo sabe, eu tenho milhares de ressalvas com o agro, mas é isso. O agro está acabando com o planeta e agora eles poderiam, sei lá, talvez abraçar essa questão da cannabis, abraçar essa questão do cânhamo, para a gente produzir coisas.
Então, assim, isso para mim é muito importante. Se você souber se colocar em relação a isso, você não vai perder a publicidade. Você encontra o seu caminho no tabu também. Mas é isso, todo influenciador tem que ter um balanço. Eu entendo também, porque, assim, eu não cheguei aqui hoje. Eu estou aí há cinco anos errando pra caralho para aprender, para entender como posso falar disso, como posso falar daquilo. Lá quando eu saí do Big Brother, dos realities, que eu aparecia fumando baseado às vezes num negócio, sem noção nenhuma, não é isso também, sabe, não é isso que eu quero. Porque se você quiser também dá, porque tem uma indústria. Eu também não quero viver com medo. Eu não quero viver com medo de falar das coisas, porque eu acho que existe uma coisa chamada estratégia. Então se você, influencer, creator ou pessoa da indústria canábica, souber abordar os temas de um jeito certo; e eu sei que nem sempre a gente vai estar imune aos preconceitos das pessoas com a cannabis e à desinformação, a gente não vai estar. A gente sempre vai esbarrar em alguém que fala “Ah, não, eu não vou mexer com ela porque ela fez uma publi e falou de cannabis”. Ai, gente, tá, mas olha quanta coisa eu estou falando. Você quer parar para ouvir? Se você parar para ouvir, você vai pensar um pouco. Não interessa quão bilionário é esse cara por conta da marca, porque os bilionários lá também já estão falando “Peraê!”. O bilionário é um bicho de sete cabeças, né? Mas, pelo menos, se você tiver a estratégia a seu favor, eu acho que a comunicação é muito importante, com uma comunicação alinhada, você consegue falar disso. Não tenha tanto medo, porque eu acho que a gente vira muito refém das nossas palavras, mas aí tem que sustentar. A dificuldade é sustentar, porque é difícil depois sustentar de um jeito mais específico, eu fui aprendendo.
Filipe: Você falou de reality show aqui, e o reality show tem essa proposta de refletir a realidade. Como é que seria um BBB ou um De Férias com o Ex se a maconha pudesse entrar, assim como o álcool entrou? Será que a galera ia ficar mais calma?
Eu não sei, não ia acontecer nada. A galera ia ficar… Não, eu acho que assim… Ia rolar um sexo só, sexozinho…. Nossa, ia ter mais sexo! As pessoas iam ficar aí, por nada, transando, comendo. Isso é uma boa ideia. Isso é legal. Ou ia bater uma neurose também, de ficar lá preso, não sei. Mas eu acho que, nossa, se eu tivesse tido acesso à cannabis enquanto eu tava nos realities, teria sido uma experiência muito mais maneira.
Filipe: Você sentiu falta do baseado?
O quê? Eu voltei a fumar tabaco, amor, só porque eu não tinha maconha, entendeu? Foi uma loucura, senti muita falta. Mas aí duas minhas amigas me esperavam lá fora com o baseado.
Filipe: Tem que ter batido mais, né? Depois de um tempo bate bem diferente…
É até ruim, por isso que eu tô te falando. Gente, exemplo de redução de danos: não fumar com muita sede ao pote. Tipo “Ah, tô há muito tempo sem fumar, tô muito afim”. Mas às vezes, se você vai com tudo, vai fumar muito forte e vai dar pico de ansiedade, amor. Dá dois tapas e sente como o seu corpo vai receber, porque você já tá há muito tempo sem. Essa é a minha dica, porque antes eu ficava ansiosa sempre fazendo isso. Ficava, sei lá, muito tempo sem fumar, aí ia fumar de novo, e batia muito forte. Cara, eu acho que eu fumei. Mas é isso. O bom é que essa onda passa. A gente não tem que se desesperar, é uma onda, uma bad trip que passa.
Anita: Pois é, sendo uma maconheira de longa data, eu imagino que você já deve ter passado por momentos de bad e de ansiedade. Como você lidou com esses momentos?
Olha, é… a maconha é uma droga da sensibilidade, da concentração, ela amplia tudo. Enquanto o álcool faz a gente perder um pouco da sensibilidade. O álcool dessensibiliza, ele bloqueia o hipotálamo, que é o lugar que controla nossas ações, que meio que inibe e diz “ô, você tá viajando”. A maconha abre isso. Ela fala “ô, você pode estar viajando muito mais do que você imagina”. Então, às vezes, essa hipersensibilidade pode passar um pouco do ponto. A gente pode fumar demais, pode bater num lugar diferente, e dependendo do nosso bem-estar mental, do que a gente tá vivendo, dos nossos problemas, da pressa de viver as coisas, do que está acontecendo na sua vida naquele momento, aquilo ali pode acalmar ou pode fazer assim, ó, subir demais. E eu acho que, se a maconha fosse legalizada, a gente teria muito menos ansiedade, porque poderíamos saber o que estamos fumando. Saber exatamente o que é. É uma Indica? É uma Sativa? Amor, Sativa é pra quem já é muito calmo e quase não tem ansiedade. Meu irmão é calmo e eu sou maluca. Então, se eu fumo Sativa, eu fico assim: “preciso fazer 30 coisas, preciso escrever 10 roteiros”. E eu escrevo. Indica, pra mim, é maravilhoso. Indica me faz assim, ó… Eu viro um Buda. É uma coisa maravilhosa.
Se a maconha fosse legalizada hoje, a gente não teria tanta gente vivendo ansiedade ao fumar a planta. Por quê? Porque você poderia saber. Você vê num aplicativo: “ah, estou fumando Bubble Kush”. Aí você vê se dá ansiedade ou alivia tensão, relaxa, dá sono, dá fome. Isso aqui deixa mais eufórico, isso aqui deixa mais concentrado, isso aqui é mais físico que mental. Pra quem gosta de fumar e treinar, por exemplo, eu não gosto, não tenho a menor condição, detesto, maconha para treinar, pra mim, não existe (risos). Mas são corpos e corpos. Assim como tem gente que detesta Indica. Meu irmão detesta Indica porque ele fica muito slow, e ele já é calmo, então não rola. A pergunta sobre bad trips vem daí também. Obviamente, nem sempre conseguimos controlar uma bad trip. Às vezes aparece dependendo dos estímulos. Mas tenho um grande amigo que me ensinou uma coisa: sempre que estiver tendo uma bad trip, imagina uma luz e pensa “essa luz está me lembrando que eu só estou chapado”. Você não precisa ir para o hospital achando que está tendo um ataque cardíaco. Calma, espera passar. O que eu faço? Fico lá, levanto as pernas, tento me distrair. É gastar essa vibe, arranjar uma coisa para ocupar a cabeça, e é isso.
Por isso, novamente, eu falo da redução de danos. Pra mim faz todo sentido. Não sei se pra todo mundo faz, mas eu acho que tragar com muita força, ir com muita ansiedade ao pote, não ajuda. Vai sentindo, tudo é dose. Se você der cinco tragadas muito fortes e vier uma bomba na sua cabeça, não vai dar certo, você tem que sentir. É a mesma coisa que beber: você vai bebendo e vai entendendo seu corpo. Com baseado é igual. Sente como seu corpo responde. Porque se você beber três copos de vodka de uma vez, você vai cair. Aqui é a mesma lógica, só que com outra consequência. A diferença é que você não vai entrar em coma alcoólico, nem correr trinta tipos de riscos diferentes. Você só vai ficar muito chapada, depois vai bater muita fome, e você vai dormir pra caramba. É só isso.
Anita: Como é a sua sessão preferida? Você é uma menina das flores?
Eu sou total das flores, total das flores. Gosto muito de fumar para dormir, mas gosto muito de fumar para criar também. Então eu curto sentar, fumar um baseado, ficar sozinha e deixar meu computador aberto, saindo falando. Às vezes eu fumo e já coloco um gravador para registrar minhas ideias. É meu brainstorm, literalmente. Eu sou super das flores. Tenho esse gostinho pelo tabaco também, não vou mentir, eu tenho um fraco. Parei de fumar tabaco por um ano, depois voltei. Aí eu misturo um pouco também quase sempre… E gosto muito de ice, gosto muito de haxixe, mas acho que gosto mais da planta mesmo. Eu comecei a fumar muito cedo, com 15 anos. O primeiro beck bom que eu fumei foi nos Estados Unidos. Que horror, né? De novo, que saco, gente. Sendo o primeiro bom… que merda. Caralho. E aí o primeiro beck bom que eu fumei foi uma Blue Cheese de flor real. Eu falei: “Caraca, que doideira”. Aí eu só passei a pegar flor.
Anita: Você pensa em plantar?
Olha, eu analiso muito o cenário político. Eu não sei como vai ser o Brasil ano que vem, em 2026. Então eu não sei quando a gente vai poder ter uma maior sensibilidade com isso, porque ainda temos aquela questão do habeas corpus, temos essa questão toda. Mas é óbvio, quando eu olho pra frente, pra ano que vem, eu tenho medo. Eu realmente não sei o que vai acontecer, porque os conservadores estão avançando. E esse avanço, pra todo mundo que gosta de política, que está aqui hoje, é algo que a gente precisa pensar também para o ano que vem. Porque ano que vem vem uma bancada conservadora, e isso implica travar o avanço dessas pautas progressistas. Inclusive para a gente… A gente já andou pra caramba, já avançou léguas e léguas, e nesse debate a gente viu que agora as pessoas podem comprar cannabis em óleo, podem plantar no máximo seis plantas e tal. Só que ainda não é tão simples assim. Ainda existem pessoas conservadoras naquela bancada que podem tomar decisões a qualquer momento e a gente pode regredir. As pessoas estão achando que agora está tudo certo, mas e depois, no ano que vem, se entrar uma bancada conservadora, conservadora mesmo…? Nenhum maconheiro pode ser a favor dessa bancada conservadora, é o que eu acho. Acho que a gente tem que pensar muito bem nisso pro ano que vem, pra gente não regredir.
Filipe: Você comentou aí várias políticas, pautas progressistas, falou lá no início sobre sexo, sobre como você fala de sexo, e existe até um paralelo interessante entre a redução de danos e a forma como se discutia sexo lá nos anos 90. A repressão ao sexo naquela época, a resistência ao uso de camisinha, a estigmatização de comportamentos gays… tudo isso se parece muito com a repressão maconheira de hoje. Como é que você acha que as pautas progressistas podem conversar melhor entre si, se defender melhor e se comunicar de forma mais forte, especialmente nesse cenário político que você trouxe?
Eu acho que a gente tá carente de representantes, a primeira coisa é a gente desestereotipar, conseguir explicar como se a gente estivesse explicando pra uma criança de novo, penso assim com tudo. Enquanto a gente achar que tá tudo meio óbvio demais, a gente não vai falar das coisas, sabe?, porque eu penso assim, todo mundo aqui nesse pavilhão tá avançado no debate, será? Será que tá todo mundo letrado? Será que todo mundo aqui sabe do que a gente tá falando aqui? Por isso que às vezes eu fico pensando, eu acho que pra avançar, a gente tem que falar como se a gente estivesse falando do zero. Por isso que, tipo assim, a história da ilegalização, por que a maconha é ilegal hoje e tal, será que as pessoas sabem a história da ilegalização? Será que as pessoas sabem qual a diferença de CBD pra THC? As pessoas sabem pra que que é usado exatamente? As pessoas sabem que não tem risco? As pessoas sabem que também a planta que produz CBD pode se tornar todos os objetos de uma casa? As pessoas sabem que 500 anos atrás as caravelas eram feitas de cânhamo? Essa é a parada. Enquanto não avançar isso e ficar uma coisa restrita, também não dá. Por isso que eu não quero ficar nesse estereótipo. Eu tô falando aqui abertamente porque, pô, tâmo numa boa de maconheira, tâmo vai fumando a cola, entendeu? É isso. Só que, assim, eu não, eu não acho que não é o foco, sabe? As pessoas primeiro têm que pensar “peraí, vamos pensar pra ver se o seu raciocínio faz o mínimo de sentido?”.
Anita: Agora, Hana, pra gente se despedir, conta pra gente uma brisa sua inesquecível.
Teve uma vez que eu tava com quatro amigas minhas, eu era muito novinha, cara. A gente tem várias histórias. Muitas. Umas que dão vontade de se acabar de rir sempre, mas é aquele clássico: na hora foi muito engraçado, depois, contando, nem é tão engraçado assim. Mas, assim, milhares. A gente morava num condomínio que tinha um podrão perto. Era tipo meia-noite, quatro meninas menores de idade, sei lá, eu tinha 16, 17 anos. Não façam isso em casa! A gente foi lá comprar o podrão porque tava com muita vontade, tava chapada. Era a época que eu tava começando a fumar. A gente estava voltando, andando e comendo o lanche quando começaram a passar aqueles lasers, sabe? Aqueles feixes de luz que passam assim. A gente tava muito chapada. Aí do nada apareceu aquela porra. A gente jogou o lanche no chão e saiu correndo, se cagando de rir e morrendo de medo ao mesmo tempo. Tipo pou! A gente ria, mas com pavor. Gente, eu sei que não tem a menor graça. Mas pra gente, naquele momento, foi muito engraçado. Agora, sobre uma brisa boa, que você perguntou. Uma coisa criativa. Quase todos os meus vídeos, eu acho, todas as minhas ideias de vídeo. Não sei, não é algo muito específico. É que eu sempre tô chapada. Então tudo que aconteceu de legal, eu sempre tava chapada. Só posso imaginar que eu estava chapada na maioria das vezes em que alguma coisa legal aconteceu.