Por Filipe Vilicic

Algo que ouço muito sobre a Breeza: “nossa, como vocês repercutem em jornais, sites, revistas, todos os cantos!”. Temos uma equipe enxutíssima e nem conseguimos acompanhar o tanto que ecoam nossas entrevistas e reportagens, que já pautaram Globo, Folha de S. Paulo, Uol, Estadão, Mídia Ninja, Veja, olha só, a mais variada sorte de veículos de imprensa. Nesta semana, tivemos o orgulho de ver a Breeza citada em reportagem da inglesa BBC, ícone global de jornalismo; na revista Superinteressante, o médico Uno Vulpo, do perfil de Instagram Sento.Mesmo, publicou um artigo inspirado em debate promovido por nós na Semana do Orgulho LGBT+ em SP.
Repercutir é essencial para qualquer veículo de imprensa se manter vivo, pois mostramos o quanto a Breeza consegue participar do debate público, colocando na mesa assuntos canábicos e psicodélicos que normalmente não têm portas tão abertas na grande mídia. E se jornais, revistas e agências de notícias estão aceitando mais o tema, temos aí uma parcela desse mérito. Acendemos e passamos adiante!
Na BBC, uma dos maiores conglomerados de mídia do planeta, fundado em 1922, o assunto foi: “Quando o Brasil exportava maconha: o passado de um comércio esquecido”. Uma de nossas reportagens (esta do link) serviu de inspiração:
“Ao longo do século 19, conforme histórico feito pela revista Breeza, as discussões nos jornais brasileiros costumavam defender a importância industrial da planta — como matéria-prima têxtil —, mas condenar seus usos recreativo e religioso, porque estes eram hábitos associados aos africanos e afrodescendentes”.
Furar a bolha canábica e chegar à BBC nos ajuda a colocar a conversa sob perspectiva, como ao romper as fronteiras dos fins medicinais e da segurança pública, incluindo óticas que não podem ser deixadas de lado, como do olhar racista da proibição e de uma planta ser usada como desculpa para fomentar desigualdades.
Por que não ficar só na nossa roda?
Sentimos que por muito tempo a conversa sobre todas as facetas que envolvem a diamba, da ciência ao social, estavam restritas a um grupo diminuto, que vamos chamar aqui de “os convertidos”. Amamos essa roda e nela estamos, inclusive com nossa presença onde os convertidos se encontram, da Head Grow à ExpoCannabis. Porém, fica claro que se a conversa se restringir ao nosso grupo, será impossível legalizar.
Até antes da chegada da Breeza, em março de 2024, via-se que quase sempre que a maconha aparecia na grande mídia, ou era para falar de Saúde e Medicinal, ou de Justiça e Segurança Pública. A narrativa que estava sendo construída era que se tratava de duas histórias: a da cannabis, que seria a “higienizada”, medicinal, e aceita pela sociedade; e da maconha, que deveria ser julgada e reprimida.
Óbvio que cannabis e maconha são a mesma coisa, já versamos sobre isso aqui e falar o contrário é uma atitude ignóbil, pois acaba beneficiando quem tem acesso e dinheiro para a “cannabis”, enquanto penaliza e leva para a prisão quem é da “maconha”. Como é tudo a mesma planta e a mesma coisa, evidencia-se a parte vil desse discurso, mesmo quando não é intencional: batem-se palmas para brancos ricos, perseguem-se os pobres e pretos.
Conseguimos mudar isso quando normalizamos o assunto e começamos a entendê-lo por sua multiplicidade. Assim fez o Dr. Uno Vulpo, com seu texto sobre Redução de Danos na Superinteressante:
“Porque, na vida real, as pessoas usam drogas. As pessoas transam. As pessoas desejam, erram, repetem, se expõem, se arriscam, se cuidam do jeito que conseguem. E quando a única resposta oferecida pelo Estado é a punição ou a abstinência obrigatória, quem vive nas margens aprende a produzir cuidado por conta própria (…) A orientação oficial muitas vezes parecia simples: parem de usar drogas, parem de transar, parem de circular, parem de existir como vocês existem. Mas a realidade nunca funcionou assim. Pessoas continuaram usando substâncias, fazendo sexo, vivendo na noite, trabalhando, desejando e tentando atravessar mais um dia. A diferença é que, diante do abandono, grupos marginalizados decidiram organizar o cuidado que lhes era negado”.
O artigo foi inspirado no debate sobre redução de danos organizado pela Breeza na Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo LGBT+, que fez parte da programação da Semana do Orgulho, dedicada a ações de diversidade como a tradicional Parada realizada na Avenida Paulista. Participaram também da roda de conversa o ex-deputado federal e pré-candidato ao mesmo cargo Jean Wyllys (PT), a psicóloga Maria Angélica Comis e este que vos escreve. Foi o segundo ano consecutivo que realizamos esse evento na Feira.
Ir além das nossas rodas se expande para esse contato tête-à-tête. No Carnaval deste ano, por exemplo, fizemos uma ação de Redução de Danos em blocos de SP, distribuindo ainda nossos leques da Breeza que traziam tabelas e dicas de uso consciente. Se nos incomodamos com a visão desinformada que muitos ainda têm sobre a erva e psicodélicos, vamos até eles para informar.
Bora furar a bolha juntos! Se nos restringirmos aos convertidos, nada mudará no país. Para legalizar, por exemplo, é preciso convencer a maioria, ou ao menos a maioria do Congresso e/ou do STF. Pautar a grande mídia faz parte desse processo. Todavia, há outras frentes necessárias.
A Breeza te convida a fazer o mesmo no seu dia a dia: fure a bolha! Converse com amigos e familiares não convertidos, informe-os sobre tudo que sabe sobre a planta. Apenas se trabalharmos unidos nessa que será possível transformar não-convertidos em convertidos. O que certamente não adianta em nada é ficarmos limitados às nossas rodinhas e corredores, sem abrirmos o leque (ou a cabeça).