Por Filipe Vilicic e Gustavo Formenti

(Aviso: o deputado estadual Guilherme Cortez, que nesta semana anunciou a candidatura a federal, cancelou sua participação na roda de conversa)
É maior a presença do uso de substâncias, das lícitas e das ilícitas, na comunidade LGBTQIAPN+. Escrevemos sobre esse cenário aqui na Breeza no ano passado, quando promovemos nossa primeira roda de conversa sobre redução de danos na Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo LGBT+, que faz parte da programação da Semana do Orgulho, dedicada a ações de diversidade e que termina no domingo (7) com a tradicional parada realizada na Avenida Paulista. Na próxima semana, na quinta-feira 4 de junho, vamos fazer uma segunda rodada de conversas, em um encontro com nomes ilustríssimos: o deputado estadual Guilherme Cortez (entrevistado da Breeza e de nosso podcast nesta semana), o ex-deputado federal e pré-candidato ao mesmo cargo Jean Wyllys (PT), o médico e influencer Uno Vulpo – nome por trás do perfil Sento.Mesmo nas redes sociais – e a psicóloga Maria Angélica Comis, referência na área de redução de danos. O debate será mediado pelo Filipe Vilicic, jornalista aqui da casa.
Agora em abril, uma pesquisa da USP revelou mais informações sobre o comportamento LGBT+ no Brasil. Segundo concluiu o estudo, integrantes da comunidade apresentam maiores taxas de uso de substâncias psicoativas, bem como iniciam o consumo mais cedo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína, em comparação com cisgêneros heterossexuais.
Aos números. Um total de 48% dos LGBT+ usam tabaco, frente a 37% dos cis-heterossexuais; 40% são da maconha, versus 27%; 7,4% com cocaína, contra 3,6%. Apenas o consumo de álcool foi semelhante entre os grupos, com 85,9% para o primeiro, e 83,7% para o segundo. As análises também revelaram diferenças em relação ao sexo de nascimento: pessoas designadas como mulheres relataram maior uso de tabaco, cannabis e cocaína, e tendem a iniciar mais cedo, com em média entre 10 e 15 anos de idade, enquanto as mulheres heterossexuais experimentam a primeira vez com 13 a 17 anos.
Os dados são muito similares ao do cenário dos EUA, como relatamos na reportagem passada, e comprovam a importância de destacarmos o tema em praça pública, em busca de políticas públicas e apoio para a conscientização e educação em relação ao uso de substâncias. A Breeza tá longe de ser careta, bem sabemos, e falamos de benefícios ancestrais das experimentações, assim como dos perigos – que são muitos e, depender do que se usa, podem ser drásticos.
“Em vez de prender ou empurrar usuários para a clandestinidade, o Estado pode se aproximar, oferecer cuidado, aconselhamento, tratamento quando necessário e estratégias de redução de danos. Em outros países, como a França, também existem experiências de espaços de consumo supervisionado, justamente para reduzir mortes, infecções, violência e uso em contextos ainda mais vulneráveis”, nos diz Uno Vulpo, que estará no nosso bate-papo na Semana do Orgulho.
Na roda de conversa, vamos ouvir nomes centrais para o debate em busca de compreender caminhos para a solução. “Regulamentar não significa ‘liberar sem regras’. Pelo contrário: significa criar regras públicas, controle de qualidade, informação adequada, limites, fiscalização e políticas de cuidado”, explica a psicóloga Maria Angélica Comis, referência nacional em Redução de Danos e convidada para a conversa.
Hoje, quem usa uma substância ilícita não sabe exatamente o que está consumindo, em qual concentração, com quais adulterantes, ou quais riscos estão envolvidos, o que aumenta a chance de intoxicação, overdose, sofrimento psíquico e outros danos evitáveis. Isso vale para maconha, para cigarros contrabandeados ou vapes piratas.
“A regulamentação também reduz o estigma. Quando a pessoa deixa de ser tratada como criminosa, ela tem mais condições de buscar informação, cuidado e apoio sem medo de punição. Isso é fundamental para a saúde pública”, conclui Comis. “Uma política honesta sobre drogas precisa reconhecer que as pessoas usam por diferentes motivos e que o papel do Estado não deve ser punir, mas reduzir danos, proteger vidas e garantir direitos”.
LGBT+ sob efeito
É fundamental partir de uma leitura não moralista e totalmente desviada: a presença maior de drogas na comunidade LGBT+ nada tem a ver com as pessoas terem nascido LGBT+. “Não é porque a população LGBT seria mais propensa a determinado comportamento, qualquer que seja, pois a identidade de gênero das pessoas não torna elas mais ou menos propensas a nada”, afirma o deputado estadual Guilherme Cortez, mais um membro ilustre de nossa conversa na feira organizada pela Parada. “Fato é que, por conta da estigmatização, por conta da discriminação, a população LGBT foi empurrada para determinados espaços onde se sentia segura, onde podia confraternizar, mas onde ficou mais vulnerável”.
A abordagem tem de partir do não julgamento e do entendimento que cada um tem a liberdade de usar o que quer, ao mesmo tempo que pode ter orientação e informação para fazer o uso seguro. É o que promove nosso Guia da Boa Breeza, referência em Redução de Danos, que distribuímos em eventos, pode ser acessado ou baixado de forma gratuita no site boa.breeza.com.br, e, assim, como o evento da Parada (e a própria manifestação na Avenida Paulista), tem o apoio institucional da Philip Morris Brasil.
Disse Jean Wyllys, convidado da roda de conversa, em entrevista recente aqui para a Breeza: “Sou um homem gay e a afirmação da minha identidade e da minha orientação sexual é resultado de um movimento anterior a mim, de uma luta pelos direitos civis, pelas liberdades individuais. Então, a liberdade individual de fazer uso recreativo das drogas é algo que a gente deve defender. Uma pessoa não querer fazer uso de droga é um direito dela. Agora, que ela proíba o outro de fazer uso, isso ela não pode”.
Para transformar a abordagem da Redução de Danos em políticas públicas, como as voltadas à população LGBT+, o Estado precisa parar de tratar o tema em ações pontuais, complementares, e sem investimentos robustos ou constantes. A Redução de Danos deve ser eixo estruturante das políticas sobre drogas, saúde, assistência social, direitos humanos e segurança pública.
Ensina Maria Angélica Comis: “A resposta precisa ser de acolhimento, não de julgamento. Precisamos de políticas de saúde que conversem com a vida real das pessoas LGBT+: prevenção combinada, acesso facilitado a preservativos, lubrificantes, testagem, PrEP, PEP, vacinação, tratamento para HIV, sífilis, hepatites e outras infecções, além de acolhimento em saúde mental e redução de danos relacionada ao uso de álcool e outras drogas”.
A psicóloga destaca que acha essencial falar sobre o uso em contextos de festa, sexo, aplicativos, sociabilidade e prazer, sem pânico moral. Outro ponto essencial é formar profissionais de saúde, assistência social e segurança pública para atender pessoas LGBT+ sem preconceito. Regulamentar a profissão de redutor é, aliás, um passo fundamental nessa direção. Uma pessoa só fala sobre o uso de substâncias ilegais se confiar no acolhimento. E sem essa escuta, simplesmente não há prevenção.
Uno Vulpo, médico do popular perfil Sento.Mesmo, comenta que “não adianta dizer para uma pessoa ‘pare de usar’, se ela não tem casa, rede de apoio, trabalho, tratamento, vínculo com serviço de saúde ou perspectiva de futuro”. Por isso, inclusive, o único caminho eficiente é investir em campanhas informativas e educativas honestas. Comenta ele: “Sem moralismo, sem terrorismo, que falem sobre riscos, dependência, misturas perigosas, uso em contexto sexual, álcool, tabaco, maconha, estimulantes, opioides e outras substâncias com informação real. O silêncio e o medo não impedem o uso, só fazem as pessoas usarem pior e pedirem ajuda mais tarde”.
No debate promovido pela Parada LGBT+ no dia 4, Uno falará, ao lado dos outros convidados e convidada, sobre questões sobre uso e abuso de substâncias legalizadas ou não. O encontro, de entrada gratuita, será no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, a partir de 12h30, e abre os debates sobre temas LGBT+ da Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo.
“Em um país marcado por LGBTQIAfobia, expulsão familiar, violência, precarização do trabalho e exclusão dos espaços de cuidado, muitas pessoas entram em contato com substâncias em contextos de sofrimento, busca de pertencimento, festa, sobrevivência ou entorpecimento da própria dor”, acrescenta Uno. “Qualquer política séria precisa ir além do discurso moralista de ‘não use drogas’”.