Na Breeza

Guru da putaria consciente

Por Anita Krepp

Não usar nenhuma droga pela primeira vez na avenida. Essa é a regra de ouro de quem trabalha com redução de danos para o Carnaval. Nada de cogumelo no meio da 23 de Maio, nada de doce na Sapucaí, nada de MD estreando no bloco. Ah, mas e o álcool? Bom, quando você bebe, sabe quando está ficando bêbado e consegue sair fora relativamente rápido. Mas doce, cogumelo, essas paradas te metem um pé nas costas quando você menos espera, no meio de milhões de pessoas, com seu ex passando, assalto rolando, e você sem saber pra onde correr.

Quem ensina isso é Uno Vulpo, médico, designer gráfico e criador do Sento.Mesmo, o perfil mais pop de redução de danos do Brasil. Com mais de 200 mil seguidores, ele fala sobre sexo, drogas e putaria de um jeito que até conservador segue – e segue mesmo, como ele descobriu quando soltou um post meio à esquerda e recebeu uma enxurrada de gente comentando surpresa. O negócio é que redução de danos não tem partido, ou melhor, é o partido do autocuidado – e quem é de direita, esquerda, centro, em cima ou em baixo, gosta. Ou deveria.

“Redução de danos é apologia ao cuidado, é a gente assumir uma realidade. A gente parar de ser hipócrita e fingir que não usamos substâncias, é parar de fingir que a gente faz boquete usando camisinha, é parar de fingir que a gente transa com capa”, define ele, que vem de família evangélica conservadora e sempre foi aquele amigo que todo mundo procurava pra contar sobre transar, abortar ou ter dado ruim na chapação.

O confidente da galera

Desde adolescente, Uno era o cara que recebia mensagem domingo de manhã, enquanto tava na escola bíblica dominical, de amigos contando que tinham transado, perdido a virgindade, que estavam grávidas ou tinham passado mal usando alguma coisa. Ele não usava nada, mas virou o cúmplice de todo mundo. Para poder receber melhor as noias dos amigos e ser de alguma ajuda, começou a pesquisar sobre essas questões por conta própria.

Durante a formação em medicina, os temas de redução de danos chamaram a atenção dele naturalmente. Em 2016, fundou a ONG Transvest com a hoje deputada Duda Salabert – na época, sua sócia. Era uma escola de Enem para travestis, onde entrou em contato com questões de uso de substâncias no âmbito de maior vulnerabilidade, questões sexuais e de gênero.

“Eu acabei entrando de cabeça nesse contexto. E aí, enfim, acabou o projeto, eu fiquei meio órfão de projetos”, conta ele, que no Carnaval de 2020 fez uma tabelinha de redução de danos pra alguns amigos e o negócio viralizou. Amigos mandavam mensagem dizendo que tinham recebido a tabelinha em outros grupos. Foi aí que pensou: “Putz, pode ser uma coisa legal de fazer outras vezes, ampliando os temas para além das drogas, mas também sobre sexo e outros temas tabu”.

Da tabelinha às surubas virtuais

O Sento.Mesmo começou como um projeto de portfólio de design gráfico. Uno precisava de emprego enquanto se formava na faculdade de medicina e fez uns cards que acabaram viralizando. Quando a pandemia chegou, ele soltou um conteúdo sobre como transar na quarentena, inspirado em uma notícia que tinha lido no New York Times. Viralizou de novo. Foi quando decidiu arrumar um nome para o negócio.

Aí veio a jogada mais insana: as Surubas virtuais. Tudo começou com uma mentira – ele falou que ia fazer uma festa de putaria online pra conseguir e-mails pra newsletter, e depois ia falar que não deu certo por motivos técnicos. Mas chegaram 3.000 e-mails. “Putz, vou ter que fazer essa festa”, pensou, e chamou uma amiga DJ, um amigo que entendia de Zoom, e contratou dois atores pornô.

“Eu achei que seria legal ter esses atores pornô botando a galera no clima, mas não precisou, porque entrou já uma galera mais velha, assim, já pelada, começou a se comer. Entrou gente famosa, cara, entrou gente famosa com o nome real, começou me mandar mensagem pedindo para trocar o nome. Foi um caos”, relembra, rindo. Às quatro da manhã ele desligou a chamada. No dia seguinte, ligaram Folha de S. Paulo, Vogue, Marie Claire. Foi quando a coisa virou.

Sobrevivendo no Instagram

Hoje, a vida de Uno é criar eufemismos e achar metáforas. Ele já teve uma página com 100 mil seguidores que caiu, e lá foi ele, começou do zero de novo e de novo. “Minha vida é criar eufemismos e achar metáforas pro Insta não me derrubar. Gisele pra falar de GHB, Keila ou Kelly pra falar de cetamina. A gente vai usando essas coisas”, explica, aproveitando o vocabulário que já existe no uso de substâncias, tipo dar um tapa na pantera, essas paradas.

Fora o amor que o Uno desperta por aí, por gente agradecida de descobrir maneiras de autocuidado com as quais nem sonhava, também tem a galera do hate pesado. “Rola uma perseguição gigantesca. Já recebi ameaça, já recebi gente me ligando”, conta ele, que lida também com um tipo de ódio paradoxal: tem gente muito conservadora que curte o conteúdo sobre drogas e sexo, mas surta quando ele solta um post à esquerda. São pessoas que você nunca imaginaria que fazem uso de substâncias e são adeptos de práticas sexuais desviantes.

Um dos posts sobre redução de danos que mais rendeu dor de cabeça e xingamento foi quando ficou conhecido como Dr. Crack Recreativo, ao fazer um tweet sobre cada substância para o Carnaval e, quando chegou no crack, falou sobre redução de danos para quem faz uso recreativo dessa substância. Muita gente confundiu com apologia.

“Apologia é ir lá e mentir ativamente, chegar e falar: ‘Gente, usar crack vai fazer bem pra você, você não vai viciar, você não vai ter problemas com dinheiro’. Isso é apologia, tipo tigrinho. Mas quando eu chego e falo: ‘A maconha faz bem em vários sentidos, melhora dor crônica, mas ao mesmo tempo, se você tá usando prensado, tem amônia e outras substâncias que podem gerar ansiedade’, eu tô falando só a verdade. Tô falando o que realmente a gente tem base científica”, explica.

E se alguém for buscar os conselhos de Uno para escolher a sua substância no Carnaval, ele responde na lata: “A coisa mais segura no carnaval é amar. É você beijar na boca, e só. Tudo tem risco. Até beber água demais, se você está usando MD, é arriscado”.