
De volta à política institucional, Jean Wyllys promete levar para a campanha de deputado federal por São Paulo temas que quase ninguém tem coragem de encarar, entre eles a política de drogas. Se for eleito, quer retomar o projeto que apresentou em 2014 para legalizar e regulamentar a maconha e outras substâncias.
Nessa conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, Jean fala sobre seu papel pioneiro na defesa da cannabis, critica a covardia com que a esquerda aborda esse debate – ou melhor, foge dele – e explica por que o proibicionismo torna as drogas mais perigosas do que elas realmente são enquanto a sociedade normalizou o sal, o açúcar e a farinha de trigo, que ele chama de os três pós brancos mais nocivos à humanidade e circulam sem nenhum controle, adoecendo a população.
O intelectual conta como usa a erva para manter o equilíbrio mental e brinca que, quando exagera no THC, sente que vai morar em Nárnia para sempre. Ao longo da entrevista, Jean tece ideias sobre como as drogas poderiam estar melhor integradas à sociedade, já que seu uso é uma constante antropológica e, por isso, esse debate exige maturidade, conhecimento e coragem. Características que, aliás, não lhe faltam.
Você pode também ouvir essa entrevista em nosso podcast, o Saindo da Estufa
Eu tô sabendo que você está voltando como pré-candidato a deputado federal por São Paulo. Me conta, como rolou isso?
Existe um movimento chamado Um Outro Congresso é Possível, organizado por artistas, intelectuais e empresários de São Paulo, principalmente contra essa degeneração moral do Congresso Nacional, do Senado e da Câmara Federal. O envolvimento descarado desses caras em corrupção, esse discurso reacionário. Diante de tudo isso, esse grupo de pessoas decidiu se organizar para apoiar candidaturas no Brasil inteiro que renovem o Congresso. E uma das pessoas que o movimento procurou fui eu. Eu não estava pensando em retornar à institucionalidade. No ativismo político eu vou estar sempre, porque tudo que eu faço é muito político. Mas esse movimento, que tem a Márcia Tiburi como uma das lideranças, além do João Pacífico, me convidou a apresentar meu nome. Relutei por um momento, por causa de toda a violência que vivi, pelo exílio, por tudo. Mas decidi aceitar. Estou morando em São Paulo desde 2023. Quando voltei do exílio, fiquei um tempo entre Salvador, Brasília e São Paulo, mas acabei me fixando em SP, e é por lá que vou lançar minha candidatura pelo PT de São Paulo.
E a Márcia, inclusive, é uma das pessoas com quem a gente já conversou aqui na Breeza, e ela tinha dito que ela mesma não tem vontade de voltar à institucionalidade.
Não, ela não quer voltar. Mas ela me interpelou de um jeito que ficou difícil dizer não. Ela disse “Olha, você tem que fazer alguma coisa com o seu passado, porque o que você fez foi muito importante como deputado, você deixou um trabalho incompleto, tem algo a ser completado.” Diante dessa interpelação, decidi colocar meu nome. E claro, com ajuda, porque eu disse também que não botaria meu nome se não fosse uma coisa organizada, se essas pessoas não viessem comigo. Não só o partido, quero um compromisso real do PT com essa candidatura, mas também dessa galera que me chamou. Essa galera que me pediu para apresentar meu nome de novo, para botar meu fígado no jogo de novo, precisa estar comigo. Porque botar meu fígado no jogo outra vez implica estar cercado de gente bacana, para que não aconteça o que aconteceu em 2018, quando eu fui deixado no front sozinho. Eles garantiram que estarão comigo e até agora estão. Acho que assim vai seguir.
Você fala dessa coisa horrorosa que é a cara do nosso Congresso, e eu sinto que as pessoas estão muito desesperançosas com a política institucional. Isso não acontece com você?
É difícil. Os meses de dezembro e janeiro foram meses difíceis em todos os sentidos. Parece que minha vida deu uma travada nesses dois meses. Minha vida material deu uma travada. Eu estava muito dentro de mim, pesando os prós e contras, ouvindo minha família, porque tudo isso acaba impactando minha família também. Eu estava nessa crise entre a desilusão e a desesperança, ao mesmo tempo em que encarno, para muita gente, a esperança. Porque como eu fiz dois mandatos muito produtivos e benéficos, principalmente para as minorias, as pessoas depositam uma esperança muito grande em mim. Fiquei nessa dúvida entre a desesperança e dar o recado da desesperança. Porque se eu dissesse não ao convite do Um Outro Congresso é Possível, estaria dando uma mensagem de que a coisa está muito ruim. “Até Jean Wyllys se recusou a voltar.” Então não podia dar esse recado. Tive que encarnar essa esperança. Estou cogitando a possibilidade de me eleger, mas a gente cogita também a hipótese de não se eleger. Mesmo não me elegendo, planejamos uma campanha pedagógica que, ao fim e ao cabo, sirva para fazer uma disputa política importante, tocando em temas fundamentais. Um deles é a legalização e regulamentação das drogas. Se as pessoas saírem dessa campanha mais informadas, acreditando em menos mentiras, com os olhos mais abertos para os desafios da contemporaneidade, já terá sido uma campanha vitoriosa. Se eu vencer, melhor ainda, porque aí estarei na institucionalidade e poderei fazer mais do que fora dela.
Você não sente aquela ameaça que sentiu quando foi para o autoexílio?
Bom, primeiro queria fazer uma correção. O exílio não foi um autoexílio. Foi uma recomendação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. As pessoas têm uma ideia de exílio muito cristalizada, ligada à experiência da ditadura militar. Mas mesmo aqueles exílios não foram proclamados formalmente pelo governo. As pessoas saíram porque o ambiente se tornou perigoso para elas. A Comissão Interamericana pediu uma medida cautelar ao governo Temer, que era o governo nascido do golpe de 2016. Aliás, um golpe que completa dez anos. Em 2018, Temer negou deliberadamente a medida cautelar de proteção, e a Comissão então me recomendou ir para o exílio. Não foi uma escolha, foi uma imposição das circunstâncias políticas em que eu estava vivendo. O risco vai sempre existir. Essas pessoas já foram muito longe em termos de violência. Mataram uma vereadora no Rio de Janeiro, Marielle Franco, por forças políticas de extrema-direita organizadas criminosamente. Lula já foi preso injustamente. A imprensa já difamou a esquerda num nível altíssimo. Imaginar que essas pessoas possam ir mais longe é imaginar talvez só um genocídio aberto, como o que está acontecendo agora na Faixa de Gaza. O medo vai sempre existir, mas eu penso que essas pessoas já foram tão longe que dificilmente iriam mais longe do que já foram. Já estou com o couro mais curtido. De toda forma, estou dentro do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos. E estou com essa galera que está comigo. Essas forças políticas precisam compreender que eu não estou sozinho. Quando você está sozinho, fica muito mais fácil atacar politicamente, muito mais fácil asfixiar economicamente, tirar os trabalhos. Ainda mais eu, que sou um intelectual público que vive de palestra, de livros. Retirar esse espaço é me asfixiar economicamente. Essa classe dominante ordinária e golpista não conseguiu fazer isso ao longo de todos esses anos, desde a saída para o exílio até o retorno. Por mais que ela tivesse tentado me impor um silenciamento, eram portas que eu não queria atravessar de verdade, então não fez muita diferença. E por outro lado, tenho essa rede importante de pessoas que não vão me deixar sozinho.
Jean, você foi um dos pioneiros mais ousados no debate político sobre a cannabis no Brasil. O que te fez ter essa compreensão tão madura sobre um tema que tinha tanto tabu? A gente está falando de 2014.
É muito bom você falar nisso, porque quando fiz o projeto, convidei Paulo Teixeira, que era um deputado tarimbado do PT com muitos mandatos, e que estava mais ou menos próximo dessa agenda. Chamei ele para assinar o projeto comigo, porque não queria que tivesse só a cara do PSOL. Queria dar uma certa heterogeneidade à assinatura, e ele se recusou e disse que eu não deveria apresentar o projeto naquele momento, na virada de 2014 para 2015, porque eu perderia as eleições. E eu disse pra ele “OK, que eu perca as eleições, não importa. O que importa é que eu estou agora na posição de colocar esse debate.”
Para mim, mais importante do que fazer cálculo eleitoral era a transformação política que algo poderia produzir.
Mais importante do que me reeleger era apresentar esse debate para um país que encarcera em massa jovens pretos e pobres. O Brasil é um dos países que mais encarcera, e essa população carcerária está ligada a uma política de repressão às drogas que é, na verdade, uma política racista. Tem o encarceramento em massa e o número alarmante de pessoas mortas por operações policiais que se disfarçam de combate às drogas. Sou uma pessoa que vem da periferia da Bahia. Nasci em Alagoinhas, numa periferia chamada Baixa da Candeia, muito pobre, onde a violência policial esteve presente desde a minha infância. Embora eu não seja um homem de pele preta, integro esse contingente de mestiços que a gente chama de população negra. Sou fruto de um casamento interracial A periferia em que nasci e me criei era majoritariamente preta. Vi os efeitos dessa política de drogas muito claramente na vida das pessoas com quem convivi a vida toda. Tenho um primo, o Guinho, que foi assassinado pela polícia. Estava voltando do trabalho e foi confundido (entre aspas) com um bandido, só por ser um homem de pele preta, e foi executado. Essa é uma história da minha família. Não é uma história que eu ouvi contar. Isso me deu sensibilidade e compreensão de que essa política de repressão às drogas mascara, na verdade, uma política de controle social, de gestão da pobreza, de administração dos pobres, seja pela via do encarceramento, seja pela via do extermínio. E isso não poderia continuar. Eu, como intelectual público e político de esquerda, não poderia seguir fingindo que não é assim que a banda toca. Ao mesmo tempo, sou um homem gay. E a afirmação da minha identidade e da minha orientação sexual é resultado de um movimento anterior a mim, de uma luta pelos direitos civis, pelas liberdades individuais. Então, a liberdade individual de fazer uso recreativo das drogas é algo que a gente deve defender. Uma pessoa não querer fazer uso de droga é um direito dela. Agora, que ela proíba o outro de fazer uso, isso ela não pode. Assim como a gente tem o direito de comprar uma bebida da qual se sabe a procedência, pagando imposto, sabendo que ali não tem um álcool adulterado, da mesma maneira eu achava e sigo achando que é possível regulamentar toda e qualquer indústria de droga. Tirar da informalidade, tirar do crime organizado, dar legalidade, regulamentar, proteger crianças e adolescentes, dar informação aos adultos para que tenham o poder de escolha baseado em conhecimento. Além disso, a legalização e a regulamentação são fundamentais para que haja uma exploração terapêutica das drogas. Você não pode pesquisar se os cogumelos são eficazes no tratamento de depressões ou de Alzheimer se não forem legalizados, se não forem regulamentados. A ciência não pode investir em determinadas pesquisas enquanto criminaliza a substância. A cannabis terapêutica vem sendo usada para controlar condições de epilepsia, fibromialgia, depressão. Combinações de canabidiol com THC têm combatido determinadas formas de ansiedade e até certos tipos de câncer. E os derivados do cânhamo permitem mover toda uma indústria. Fabricar tênis, roupa, macacão, tudo com cânhamo. Uma indústria inteira que precisava ser aproveitada, uma liberdade que precisava ser protegida, uma ciência que precisava avançar. Por isso tudo decidi, em 2014, apresentar esse projeto. É o projeto mais completo, porque não o fiz sozinho, com base apenas nos meus estudos. Articulei diferentes setores na sua construção. Envolvi os organizadores das marchas da maconha. Articulei as mães que estavam organizadas para importar canabidiol para seus filhos com epilepsia. Envolvi pessoas que defendem o uso recreativo. Articulei muitas vozes. Os centros de terapia do abuso de drogas da Universidade Federal da Bahia, através de João Nery. Cientistas de diferentes áreas e disciplinas, das ciências biológicas e médicas às ciências humanas. Um debate sobre as representações da droga na imprensa, essa associação entre traficante e gente preta para justificar toda a violência, porque esse significante “traficante” está colado a uma pessoa preta e pobre. E a gente sabe que os grandes narcotraficantes são pessoas ricas e poderosas que não querem a legalização nem a regulamentação. Foi um projeto construído a muitas mãos, com um debate muito sério, do qual tenho muito orgulho. Quando as pessoas me perguntam se tenho arrependimento, eu digo que nenhum. E como pré-candidato sigo dizendo que essa é uma das minhas bandeiras, a legalização e a regulamentação das drogas. Para que a gente acabe com a mortandade de pessoas pretas e pobres por parte das polícias. Para reduzir o encarceramento em massa. Para garantir a uma pessoa adulta o direito de fazer uso recreativo, assim como ela tem o direito de pegar um tabaco e fumar, mesmo sabendo que pode causar câncer ou AVC. É uma escolha. E é um direito pagar imposto por esse produto para que, caso adoeça, você seja atendido na rede pública. Cada vez que você compra um cigarro legalmente, está pagando imposto. O mesmo vale para bebida. Muitas das mortes ligadas a drogas ilícitas têm a ver com a hipocrisia, com a dificuldade das pessoas de lidar com os casos de abuso. E os casos de abuso não são a regra, são a exceção. O problema é que as pessoas pegam os casos abusivos e usam como regra para construir toda uma política de proibição que nos atinge a todos. Olha, eu bebo esporadicamente, bebo socialmente. Sou filho de um homem alcoólatra. Até os meus 28 anos eu não botava álcool na boca, porque tinha muito medo de repetir a história do meu pai. E sempre que penso nele, fico muito feliz que meu pai fazia uso abusivo de uma droga legal, que é o álcool. Isso fez com que ele morresse num hospital, porque se ele fizesse uso de uma droga ilegal, talvez tivesse morrido numa prisão. A legalização permite que a gente trate os casos de abuso com menos estigma, fale mais abertamente. Quantas pessoas morreram de overdose porque os amigos tinham medo de levar a pessoa ao hospital e dizer que ela estava fazendo uso de uma droga ilegal? Se a gente trata a questão da drogadição como um problema de saúde pública, se vê os aspectos econômicos, se percebe que toda a movimentação econômica desse negócio pode entrar na esfera da legalidade e gerar impostos para investimento em pesquisa científica e educação, a gente vê que esse é o caminho. Não tem outro.
Dá para ser criativo e expansivo.
Dá para ser criativo, expansivo e para ter uma relação adulta com as drogas. Desde a pandemia, tive uma crise de ansiedade aguda e fui diagnosticado, durante o exílio, com uma depressão ansiosa. Esses medicamentos antidepressivos me ajudaram. Isso não quer dizer que todo mundo precise buscar esse caminho, mas é um dos caminhos, e que seja um caminho legal, prescrito por um médico, com bula, com informação sobre contra-indicações e efeitos colaterais. É importante que as pessoas entendam que legalização e regulamentação não é para obrigar todo mundo a usar droga. Não quer dizer que, legalizado, todo mundo vai estar embaixo de um viaduto fumando crack. No Canadá não é assim, em Portugal não é assim, na Alemanha não é assim. E tem um exemplo histórico concreto. Durante a epidemia de heroína na Europa, a Suíça teve uma postura muito madura que reverteu aquele quadro. Aquela cena deprimante de pessoas reunidas numa praça se aplicando heroína, que virou quase uma atração turística, foi resolvida como? A Suíça legalizou e regulamentou, criou um programa de saúde pública em que a pessoa aderia ao programa para deixar a heroína, usando inclusive a cannabis como parte do processo. A própria saúde pública suíça oferecia doses controladas do princípio ativo da heroína para que as pessoas fossem se desmamando do vício, sabendo que aquele produto era de qualidade, sem adulteração. Muita gente morreu porque consumiu droga adulterada, feita em laboratórios clandestinos. E o próprio álcool, antes de ser legalizado, gerou a máfia do Al Capone. Toda proibição cria crime organizado. O álcool que se bebia naquela época era tão ruim que as pessoas ficavam alcoólatras com um copo. Quando você legaliza e regulamenta, passa a ter bebidas com diferentes teores alcoólicos, diferentes sabores, informação. Consegue até proibir a direção alcoolizada, porque é regulamentada. A legalização e a regulamentação são boas em todos os sentidos. Econômico, cultural, científico. Ela garante vidas. Imagine uma chacina como a que aconteceu no Rio de Janeiro no ano passado, em que morreram 120 pessoas. O governo disse que todas estavam envolvidas no mercado clandestino de drogas, o que não era verdade. No meio daquelas pessoas que foram mortas poderia ter uma criança que no futuro desenvolveria uma pesquisa para curar um tipo de câncer, um grande artista, um grande jogador de futebol. Essa política de drogas vem interditando o futuro.
Liberadas, as drogas já estão. Sou contra a liberação. Sou a favor da legalização e da regulamentação.
Quando você legaliza e regulamenta, você diz quem pode e quem não pode usar. Uma criança e um adolescente não podem. Você tem informação sobre o que está consumindo e sobre os efeitos que vai produzir no seu corpo. Vi um vídeo seu maravilhoso que fala sobre a pesquisa mais recente sobre falsas memórias criadas pelos consumidores de cannabis. Olha que coisa, saber que uma droga recreativa que você usa pode te levar a produzir falsas memórias. Pode ser ruim num certo sentido, criar uma falsa memória para lidar com a sua vida. Mas para as artes, para a criação artística, para composição, escrita, pintura, essas falsas memórias são lindas. São memórias que a gente acaba colocando depois na forma da arte. E não quer dizer que você vai criar falsas memórias enquanto faz uso recreativo e que elas vão permanecer. A gente sabe que pessoas com propensão à esquizofrenia não podem fazer uso, porque o THC pode servir de gatilho. Olha como é importante a gente ter a legalização, porque com ela esse tipo de informação pode circular nas escolas, nos postos de saúde. Não tem como ser contra isso. Ser contra é ser a favor do crime organizado, ser contra a ciência e ser contra a liberdade de escolha de uma pessoa adulta.
Não sei se entendi bem, você tratou a depressão ansiosa com remédio alopático ou com cannabis?
No primeiro momento, com remédio alopático, porque a cannabis precisa de tempo. O tratamento com cannabis é cumulativo, não resolve de uma hora para outra. E no Brasil, como a regulamentação ainda está acontecendo aos poucos, a Anvisa liberou determinados dispensários e clubes canábicos para produzir em quantidades limitadas. O protocolo ainda não está claro. Os níveis de THC e CBD permitidos pela Anvisa ainda não são níveis que produzam efeitos a curto prazo. Por isso, os remédios alopáticos ainda são necessários para muita gente. Mas tem muita gente que já abandonou o tratamento alopático pelo canábico. Eu comecei com o alopático porque era o necessário naquele momento. Eu estava numa crise de ansiedade terrível. Estava à beira do abismo mesmo. Juntou tudo, todos os traumas, toda a violência política que sofri desde 2016. O ano de 2018 foi horrível. Vieram os traumas infantis, a homofobia que vivi, o fato de ter me assumido gay justamente quando a epidemia de Aids subia em números no mundo inteiro. Para nós gays, foi algo muito traumático. Depois viveu uma pandemia, no exílio. Fui tratado primeiro com medicamento alopático e agora faço uma substituição pelo tratamento canábico.
Como você acessa o seu tratamento com cannabis no Brasil?
Através do meu psiquiatra e de uma associação. Ele indica a associação que está legalizada para fazer isso, eu apresento as receitas e recebo os medicamentos. Mas ainda é muito caro, porque a regulamentação vem acontecendo aos poucos, não como deveria. Ainda há repressão contra o plantio. Ainda não está clara essa questão do próprio cultivo, porque os clubes podem plantar em quantidades limitadas. O Brasil poderia aproveitar esse imenso sol do Nordeste para ter plantações enormes de cannabis, seja para produção de óleo de canabidiol para enfrentar enfermidades, seja para o THC recreativo, seja para o cânhamo. É uma coisa que ainda está tateando. Por isso, muitos médicos não têm adotado esse protocolo ou têm reservas, justamente porque falta uma regulamentação mais clara.
Mas olha como mudou, olhando dez anos atrás. O Paulo Teixeira não queria assinar o seu projeto…
Exato, porque é isso, os testes já foram feitos, né? Eu, pisciano com ascendência em Aquário, aquele que chega longe, já fiz todos os testes. Já fui lá com o fundo do facão, abri o caminho, recebi todas as pedradas, aí fica fácil, né? E quando tremularam a bandeira da conquista da Anvisa de ter legalizado o uso do canabidiol e da combinação THC-CBD para determinadas enfermidades, apagou-se o meu trabalho. Na hora de comemorar, as pessoas apagaram minha contribuição.
Até a direita está colocando as garras para fora e puxando essa pauta para si, porque a esquerda continua covarde…
A esquerda segue covarde. É ainda muito punitivista. É preconceituosa e não tem muito conhecimento. Tem muitos parlamentares de esquerda que são genuinamente ignorantes em relação à questão das drogas. Tem cara que usa Viagra e toma uísque, mas é capaz de fazer uma fala contra o usuário de cannabis e chamá-lo de maconheiro. Alguém que está se fartando de Viagra, uísque e, às vezes, antidepressivos alopáticos, atacando a pessoa que faz uso recreativo de cannabis ou de cocaína. Um debate maduro não é feito. E a direita está botando as garras de fora porque quer o negócio. Agora que a coisa está se legalizando no mundo inteiro, a direita quer tomar para si. Nos Estados Unidos, ao menos em alguns estados, buscou-se dar prioridade às populações negras e latinas que historicamente sofreram com a repressão, para que agora que o negócio está legalizado essas pessoas tenham prioridade em abrir os negócios. O meu projeto previa isso também. Era tão moderno que previa que as pessoas que viveram do negócio até agora teriam a prioridade de explorá-lo legalmente. Saindo da ilegalidade e do crime, entrando na legalidade. Elas teriam prioridade para abrir dispensários, clubes canábicos, cafés canábicos. A prioridade seria delas, não dos playboys brancos que, depois de toda a repressão, gozaram do privilégio de fazer uso recreativo sem ser importunados. Essa é a verdade. Os brancos ricos fazem uso recreativo e não são importunados. Quem é criminalizado, preso, tratado como traficante mesmo com uma quantidade de uso pessoal é o pobre. Meu projeto era vanguarda até nesse sentido. A esquerda tem medo de encarar determinadas agendas. É punitivista, desinformada, não estuda. Eu estudei muito para apresentar esse projeto. Quando me elegi, acho que era 2012, a Revista Trip me chamou para uma matéria, e eu apareci junto com Fernando Henrique Cardoso, que já estava nessa campanha. Interessante, porque Fernando Henrique foi um presidente que participou da aliança global conduzida pelos Estados Unidos de criminalização das drogas. A guerra às drogas foi travada principalmente nos governos Clinton e FHC. Kofi Annan estava na ONU. A ONU hoje já mudou de opinião, Clinton já mudou de opinião, Fernando Henrique mudou de opinião. E ele entrou nessa campanha de legalização e regulamentação. Nós dois aparecemos na Revista Trip com um quadro negro nas mãos, declarando que somos a favor da legalização e regulamentação, não da liberação. Porque a ideia de liberação parece que vai liberar tudo de uma vez, e não é isso. A gente quer que uma pessoa adulta e capaz faça uso recreativo de uma substância com o conhecimento necessário do que ela vai produzir no seu corpo, da mesma maneira que ela toma um medicamento de farmácia sabendo dos efeitos colaterais. Para que não seja criminalizada, para que não esteja nas mãos de policiais corruptos, para que não corra o risco de morrer por comprar uma coisa que vai dar prazer, a gente precisa da legalização e da regulamentação. E precisa impulsionar ciência e economia. A ciência precisa explorar o caráter terapêutico dessas substâncias. A economia precisa legalizar esse negócio, porque atualmente ele move uma quantidade enorme de dinheiro na ilegalidade, e a ilegalidade favorece o crime organizado que, paradoxalmente, tem interesse na proibição.
Dá para esperar, no seu futuro mandato, um projeto de lei no campo da política de drogas?
Dá para esperar, e pode esperar. Vou recuperar o meu PL, que foi apensado a outro projeto e acabou arquivado. Vou desarquivá-lo, porque a gente já chegou a um estágio em que é possível ter uma discussão mais madura, principalmente se renovarmos o Congresso com pessoas mais decentes, mais inteligentes e menos hipócritas. Essa é uma bandeira que vou carregar sempre, porque está conectada à minha luta antirracista e à minha luta abolicionista. É uma luta por menos prisão, menos encarceramento em massa, uma luta para preservar a vida humana, principalmente a vida dos jovens pobres das periferias. Para que as pessoas possam entrar nesse negócio com ele legalizado, não na informalidade e na criminalidade. Porque se o negócio está na criminalidade, a pessoa entra numa rede criminosa, não num negócio legal.
Em algum momento da nossa conversa você citou a ayahuasca e os cogumelos. Você tem alguma experiência com essas substâncias da natureza?
Nunca usei, nem o cogumelo. Não experimentei nada recreativamente nesse campo. Tenho um amigo que me deu um frasquinho de dente-de-leão, disse que era bom para a ansiedade, mas acabei não tomando. Está lá em casa. O ácido também nunca experimentei, porque sou muito… sou pisciano, sou um artista. Já tenho uma imaginação muito grande, tenho ascendente em Aquário, não tenho terra no meu mapa. Sou muito reservado em relação às drogas e vou com muito cuidado em relação a elas, porque tenho medo da expansão que elas produzem. Minha experiência com ayahuasca nunca rolou porque as pessoas falam muito de uma conexão com o sagrado, de uma abertura mental, de uma purificação do corpo, e eu tenho muito medo de experimentar. Falo comigo mesmo “será que vou viajar demais e vou ficar lá?” (risos). A cannabis já me dá isso, quando uso THC, se fumo mais do que o normal, digamos, entro numa onda mística. Começo a ter insights meio místicos, revelações dos segredos do universo. Fico com um pouco de medo e penso “o sentido de estar aqui é aprender os segredos do universo enquanto se vive. Se eu aprendo tudo de uma vez, vou morrer amanhã.” (risos).
Isso na alegria ou na paranoia?
Dá alegria. Claro que às vezes acontece a bad trip, o estado de angústia e ansiedade. Mas mesmo essa pessoa que entra num estado de angústia precisa saber que pode produzir esse estado, igualzinho ao álcool. Tem dias que você bebe e fica expansivo, tem dias que você bebe e fica deprimido. Tem a ver com o estado de espírito, não com a droga em si.
Ninguém é violento porque usou droga. A pessoa é violenta, ponto.
O que pode acontecer é que o álcool baixe alguns controles do ego, deixe aflorar algo que já estava em você.
Eu, por exemplo, quando estou mais depressiva, paro com tudo e só me permito voltar quando estou um pouco melhor.
E assim deve ser, com qualquer substância. Medicamentos, inclusive. Você usa enquanto precisa, depois não usa mais. O álcool você bebe enquanto está celebrando. Se começa a misturar as instâncias da sua vida, aí está num estado abusivo. E esse estado abusivo tem que ser tratado como saúde pública, não como caso de polícia. Uma pessoa que faz uso abusivo de qualquer substância não tem que ser tratada como criminosa, tem que ser tratada como paciente e ser cuidada. Esse discurso antidrogas punitivista e criminalizador apaga a pessoa. Não existe cultura humana na história da humanidade que não tenha feito uso de drogas. As drogas são uma constante antropológica. E droga é o que você toma também. O álcool, o açúcar, o café. Os três pós mais nocivos para a humanidade são o açúcar, o sal e a farinha de trigo. Não é a cocaína. Consumimos isso em quantidades muito maiores, com efeitos colaterais terríveis. Obesidade, diabetes, hipertensão. A gente tem consciência disso e segue comendo sal. Imagina se o sal fosse criminalizado, se tivéssemos que comprá-lo numa boca de fumo. As pessoas estão se drogando. A drogadição é uma constante antropológica, e a gente precisa de maturidade e conhecimento para lidar com isso. Sem preconceitos religiosos, sem achar que toda pessoa que usa drogas vai parar embaixo de um viaduto. Aquela pessoa que está embaixo de um viaduto já tinha uma vida devastada pela pobreza, pela miséria, sem rede de apoio. A vida humana já não valia nada no contexto em que ela vivia. Ela encontrou uma droga devastadora que a levou para lá. Mas isso não é o destino de todo mundo. É preciso ter maturidade, conhecimento e coragem para tratar desse assunto, e isso não me falta.