Saindo da estufa

Marcia Tiburi: “Conversar com um proibicionista é que nem conversar com um fascista”

É na intersecção entre arte e intelectualidade que a multifacetada Marcia Tiburi encontra cura para todo o mal. Ela, que é professora universitária, filósofa, artista plástica, escritora e política, voltou ao Brasil depois de quase cinco anos em terras estrangeiras, em autoexílio entre França e Estados Unidos.

Voltar ao Brasil não significa voltar a disputar eleições. Embora em 2018 ela tenha se candidatado ao governo do Rio de Janeiro pelo PT (levando 5% dos votos), e continue filiada ao partido, prefere atuar na coxia. Ativa politicamente, mas nos bastidores do poder.

Na conversa a seguir, conduzida Anita Krepp, Marcia Tiburi avalia o posicionamento do PT (ou a falta dele) em relação à maconha, filosofa sobre a função social das drogas e nos ajuda a pensar em estratégias para conversar com um proibicionista.

Você se autoexilou e voltou ao Brasil, e a gente sabe o motivo da partida, mas o que pesou na decisão de voltar?

O motivo da partida, eu também não sei se as pessoas conhecem muito bem, não. Eu mesma não costumo dizer que eu me autoexilei, porque quando você tá em fuga, você não tá em exílio, era uma fuga, é feio até falar isso, né?, talvez seja mais bonito dizer “ah, me exilei, foi um exílio e tal”, e na verdade foi uma fuga. Por que quando você é ameaçado de morte, você foge, entendeu? Você foge. Então, não era assim, só uma disputa política, porque se, digamos, os grandes exilados da história… era uma disputa política, mas uma disputa de ideias, uma disputa de princípios. Em 2018 eu passei por uma emboscada midiática, e aqueles caras do MBL, eles entraram numa entrevista que eu tava dando e no dia seguinte minha vida virou um inferno, teve uma campanha de difamação muito intensa, que até hoje ainda tem respingos, e, claro, depois que você passa por uma coisa dessas, você também fica muito radioativo, nem os teus próximos querem saber de você, sabe?, nem os teus. Aí você vê mesmo quem é teu amigo, quem é que gosta de você, quem é que te defende, quem é que tá do teu lado. Eu experimentei, Jean Wyllys, Manuela Dávila, a gente experimenta muito isso, né?, bom, mas tudo bem, a gente é forte, segue em frente, tem muita gente boa do nosso lado também. Durante todo o ano de 2018 meus lançamentos de livros eram invadidos por fascistas, agitadores fascistas, muitos deles, acho que 100% deles eram do MBL, que são especialistas em fazer isso. Até que quando eu tava numa feira de livro em Maringá, teve uma ameaça de massacre, e aquele dia eu me dei conta que eu tinha que ir embora, porque eu não tava colocando em risco apenas a minha própria vida. Não tenho esse medo, é claro, ninguém quer morrer, mas eu não tenho medo desses bandidos, entendeu?, só que, até porque eu tenho essa minha vida espiritual, meus livros, minhas coisas, eu sou muito jogada na experiência de existir, tá tudo certo, mas eu me dei conta que as pessoas que gostavam de mim, que os meus leitores, que essa gente que vinha com tanto amor para esses eventos, queria fazer foto, queria abraçar, queria ler livro… que não era justo com essas pessoas. Daí eu fui embora, foi isso, e aí depois eu voltei porque, assim, eu fui lançada no exílio e eu era uma pessoa exilada, eu vivi na França quatro anos, eu era chamada para falar sobre o exílio, demandada sobre o exílio, eu não era outra pessoa que não uma pessoa exilada mesmo. Dando aula na universidade, todo mundo queria saber, só queriam saber de Brasil, só queriam saber de exílio, nenhum outro assunto da minha vida interessava a ninguém, a não ser as questões brasileiras, políticas e do exílio. E eu sou muito brasileira, eu gosto do clima brasileiro, eu gosto do caos brasileiro, eu gosto de pensar que a gente vai salvar esse país, que a gente vai resolver os problemas, eu tenho minha família aqui, meus amigos, é meu ambiente. Morar fora também sempre é muito difícil, a não ser que você seja muito rico. Eu sou uma mera escritora, mesmo tendo um salário de professora como eu tinha, era muito difícil, então eu resolvi voltar para ser mais feliz e, de fato, estou muito mais feliz no Brasil. Resolvi voltar porque eu queria ter uma casa, aí eu voltei para uma casa que eu tenho aqui, queria ficar na minha, ter energia mental para escrever minhas coisas e estudar meus textos, escrever meus ensaios. Eu voltei por mim, voltei para mim, e voltei porque o Brasil, por incrível que pareça, é onde eu fico bem, fico feliz aqui.

“Durante todo o ano de 2018 meus lançamentos de livros eram invadidos por fascistas, agitadores fascistas, muitos deles, acho que 100% deles eram do MBL, que são especialistas em fazer isso. Até que quando eu tava numa feira de livro em Maringá, teve uma ameaça de massacre, e aquele dia eu me dei conta que eu tinha que ir embora”

Em 2018, você foi candidata ao governo do Rio de Janeiro e, naquele momento, não rolou, mas e hoje, você tem ainda aspirações políticas?

Olha só, naquela época a gente estava numa situação desesperadora, né?, Anita, todo mundo que tinha consciência da importância da democracia, de como ela estava indo para o saco, para o ralo, todo mundo entrou num estado de alerta. Acabei me tornando candidata por uma série de motivos. Mas eu adoro ficar aqui no background, eu adoro ficar aqui, porque aqui eu posso fazer a minha política profunda, a política com P maiúscula, a política da vida, que é fazer pensar, ajudar a pensar, fazer refletir. E sou uma professora de filosofia, sou uma escritora, sou uma pessoa, um ser humano, uma mulher feminista ligada nas palavras, ligada nas ideias, Anita. Eu estou nos bastidores do poder, prefiro estar aqui, aqui eu posso analisar, aqui eu posso estudar. Mas, ao mesmo tempo, tem esse negócio de que grandes figuras políticas importantíssimas perderam um lugar importante, tipo Jean Wyllys, Manuela Dávila, que são gênios da política, que são pessoas da política, que ao longo da sua vida foram candidatos e foram deputados, e foram pessoas muito importantes e que, de repente, estão aí cuidando de tentar ser um ser humano normal, comum, da vida cotidiana. Eu me situo muito bem nesse negócio de vida normal cotidiana, mas eles, eu acho que fazem muita falta, sabe?, porque eles são muito bons de políticas públicas, de noção de Brasil, eles têm, assim, a minha tendência pessoal é a arte, é a literatura, é o ensaio profundo, essa é a minha tendência pessoal. Se eu fico sozinha, saí para o exílio, voltei a desenhar, sabe?, virei artista visual, fiquei lá escrevendo meus livros, que isso aí sempre foi meu esteio, minha base, meu chão, minha morada, mas o Jean é um homem da política, a Manuela é uma mulher da política, eles articulam, eles organizam, enfim, estou falando deles porque eles são exemplos seríssimos de como também governos democráticos podem ser falhos. Eu fico na minha, entendendo que por parte do governo eu sou desnecessária, por parte da política acho que eu tenho mais a contribuir, se eu fosse hoje para um Congresso Nacional, se eu fosse deputada, eu ia ficar lá brigando com esses ogros e esses lobisomens, como tantas dessas deputadas. Não sei se eu seria mais útil lá tentando fazer leis e me confrontando com machistas cretinos, talvez aqui do lado de fora eu possa ajudar mais, não sei, por enquanto eu estou achando que é isso, sabe, Anita?

Como você, que é filiada ao Partido dos Trabalhadores, avalia o posicionamento do PT, ou a falta dele, sobre a política de drogas?

Tem uns assuntos que são sempre espinhosos, e o PT é um partido que fica ali, no meio do caminho, está cada vez mais no meio do caminho, está cada vez mais no centro, quer dizer, o PT é tão grande também que tem uma esquerda super radical no PT. Da época que eu convivi era um partido muito… cheio de coronéis. Eu fui para o PT por pura solidariedade mesmo, naquela época eu quis dar um exemplo, tem uma coerência das suas ideias, você tem que pagar com as suas ações, se não não faz sentido nem para você, mas eu sou uma pessoa que tenho esse desejo, essa necessidade de que as coisas façam sentido. E eu acho que o PT é um partido tão gigantão que as pessoas não conseguem se articular com uma pauta tão clara, você pega a defesa do aborto, ou a defesa das drogas, desses assuntos espinhosos, mas ao mesmo tempo, acho que o PT tem muita gente que tem uma postura mais progressista nesse campo, tem outros que não querem se meter com o lugar onde vai dar problema com as massas, religião, e também tem uma certa urgência de trabalhar com assuntos mais tradicionais do PT, tipo a fome. E tem gente que não consegue bancar a pauta da maconha, das drogas, é uma pauta também muito específica, que exige muito tempo de luta, muito espaço na vida de uma pessoa para se lutar sobre isso no Brasil atual. Só que acho também que tem todo o histórico da guerra às drogas no mundo, tem toda a questão como ela vem avançando nos Estados Unidos, na Europa, mesmo aqui no Brasil, a coisa acho que cresceu muito nos últimos anos, então acho que certos setores do PT vão acabar casando com esse assunto.

A maconha é uma droga política, virou uma droga política. O aborto é uma questão política, não é uma questão da vida biológica, não é uma questão teológica. Eu associo a questão da cannabis com a do aborto porque despertam o mesmo tipo de ódio pelas liberdades pessoais. Então, tanto o direito de interromper a gravidez diz respeito a uma liberdade pessoal da mulher ser dona do seu corpo, dela decidir sobre o que ela quer para o seu destino. A questão da cannabis tem a ver com isso também, Anita, porque tem um lado do uso recreativo, por exemplo, que tem a ver com liberdade individual. Então, a famosa guerra às drogas que foi construída junto com a Guerra Fria, uma perseguição às drogas, mesmo a construção dessa palavra, drogas, como se as drogas fossem todas iguais. Não são todas iguais.

“A maconha é uma droga política, virou uma droga política. O aborto é uma questão política, não é uma questão da vida biológica, não é uma questão teológica. Eu associo a questão da cannabis com a do aborto porque despertam o mesmo tipo de ódio pelas liberdades pessoais”

Uma das coisas que a extrema-direita adora dizer de mim é que eu sou maconheira e que a minha maconha está muito ruim. E aí eu queria contar uma coisa para você: eu nunca fumei maconha. Eu sou uma pessoa sem maconha. Eu acho muito bom uma pessoa que como eu, que nem curte fumar, mas é a favor da legalização da maconha. Pessoas como eu defendem a legalização da maconha, primeiro que você está defendendo a justiça. Você está apoiando uma causa que é política, mas que é também ética, que diz respeito ao lugar que cada pessoa, que cada indivíduo ocupa no mundo como um sujeito da liberdade. Então eu defendo essa liberdade de ser feliz, a liberdade de jogar bola, a liberdade de ler um livro, a liberdade de dançar, a liberdade de fumar ou de utilizar substâncias relacionadas ao bem-estar, a saúde. Enfim, eu tenho várias amigas e amigos que usam de maneira recreativa e de um jeito muito bacana e que eu não uso porque não é meu caso. Eu prefiro tomar uma taça de vinho, é mais a minha droga, que é uma droga lícita. Tem drogas que você pode usar que elas não viciam, depende do uso que você faz. Álcool vicia, mas você pode usar sem viciar. Cocaína, que eu também não gosto, nunca usei, não gosto, também pode ser usado sem viciar, e várias outras drogas. Mesmo a cannabis pode ser usada sem vício. Aliás, eu acho que raramente vicia.

O que vicia, na verdade? Na verdade, não são as substâncias que viciam você. É você que se vicia. E você pode viciar em tela de celular, em tela de televisão, você pode viciar em pornografia, você pode viciar em sexo, você pode viciar em comida. E você pode viciar num negócio que se chama Deus. Você pode ser viciado em Deus. Eu conheço várias pessoas drogadas, mentalmente viciadas realmente nessa substância divina. Pessoas que não conseguem falar sobre nada que não seja… que são completamente fissuradas. Aliás, esse é um conceito que a gente encontra, por exemplo, num filósofo chamado Deleuze. Ele escreveu sobre a fissura. Eu conheço gente que era drogada em altíssimas drogas e trocou por Deus. Por quê? Tem gente que troca outras drogas por Deus, tanto que existem esses grupos de pessoas, esses grupos religiosos que tentam fazer tratamentos antidrogas na vida das pessoas. Mas tem gente que a primeira droga da vida delas já é Deus. E aí já é um Deus ao qual elas se apegam porque, na verdade, elas têm uma fissura. Um problema que deveria ser tratado emocionalmente, deveria ser tratado com a ajuda de psicólogos, de psiquiatras. Eu tenho que ser uma pessoa que legisla a favor, que luta para que haja esse direito das pessoas de usarem as substâncias que fazem sentido para as suas vidas. Eu não quero que ninguém venha me proibir de tomar minha taça de vinho, entendeu? E tem gente que tem um conservadorismo, muita gente de igreja que demoniza o álcool, né? Gente, pelo amor de Deus, é uma questão de liberdade individual, de responsabilidade individual. Claro que também, muitas vezes, pode ser uma questão de saúde pública, mas aí a gente tem que ter políticas públicas.

O que vicia, na verdade? Na verdade, não são as substâncias que viciam você. É você que se vicia. E você pode viciar em tela de celular, em tela de televisão, você pode viciar em pornografia, você pode viciar em sexo, você pode viciar em comida. E você pode viciar num negócio que se chama Deus

E agora Marçal dizendo que o Boulos usa drogas, e o tamanho que isso foi ganhando na discussão, quer dizer, mesmo que o Boulos fosse usuário, como é que esse assunto chegou a ganhar muito mais espaço que as propostas do Boulos e do próprio Marçal?

Então, pois é, Anita, eu acho que é uma mistificação, também, ali, na artilharia da extrema direita, isso aí vira uma arma, uma arma poderosa. Não dá para usar misoginia contra o Boulos, então se usa a ideia de que ele tenha usado drogas, se inventa esse tipo de coisa. Aliás, é um crime, porque foi uma calúnia montada, e se usou outra pessoa que tem o nome igual do Boulos, e então para dar também esse ar de veracidade, e como advogados importantes, juristas importantes, estão dizendo, teve intenção, teve dolo, então esse Marçal cometeu um crime pesado, ele já cometeu várias ilicitudes, pelo que eu escutei dos advogados, mas, óbvio, a parte que mais me interessa nesse jogo também é ver a espetacularização. Então, entre aspas, droga foi usada dentro desse contexto de “espetacularização”, e o mais engraçado que é a ironia do destino, como se esse, ninguém tem coragem de falar desse Pablo Marçal, porque ninguém quer levar um processo, ninguém quer também levantar falso testemunho, ninguém quer mentir, ninguém quer fazer nada que não tenha provas, óbvio, né?… mas é engraçado o Pablo Marçal falar isso do Boulos, é um jogo em que se vai usar determinadas armas, as que estiverem disponíveis, esse sujeito completamente sem escrúpulo, como toda extrema direita é sem escrúpulo. Então, ética é uma questão que nunca entra na cena, e ter atitudes éticas em relação ao outro não entra no jogo da extrema direita, eles sempre atacam, ofendem, caluniam e assim por diante.

Eu vi o Boulos chorando no Roda Viva, por exemplo, ele deu uma entrevista e o cara chorou porque ele ficou muito arrasado, as filhas dele foram envolvidas nisso. Então imagina como você, fazendo política de uma maneira honesta, tem que estar sempre muito firme, digamos como o povo fala, com o seu psicológico muito em dia, né?, porque senão você fica em estado de choque. E como existe um preconceito em relação às drogas, e um preconceito em relação à marijuana, à maconha, à cannabis, tem esse tremendo preconceito… tanto que a gente começou a usar a palavra cannabis pra proteger a planta, porque você falou da maconha, que é um nome tão poético, os caras começam a te atacar de maconheira mesmo. Quanto mais o Marçal ataca, mais os atacados têm que se defender das mentiras, e mais ele fica protegido, porque aí ninguém vai se perguntar do envolvimento dele com o tráfico de drogas, do envolvimento dele com as maconhas, do envolvimento dele com as cocaínas, do envolvimento dele com o crime organizado, do envolvimento dele com aquela história toda de roubar dinheiro de velhinho e com essa máfia da qual ele faz parte. Um candidato como esse não sabe nada de política, mesmo, não tem proposta para São Paulo, não sabe falar a língua da política pública, a língua da sociologia, a língua da ciência política, ele não sabe falar.

Qual é a função social das drogas na nossa sociedade?

Tem muitas funções, materiais e simbólicas. Funções positivas, funções negativas, tem a função, dentre as positivas, a função ritual, a função recreativa, a função medicinal, tudo isso tem que ser respeitado. E aí, acho que tem uma manipulação também que a gente precisa conhecer, precisa pensar, o próprio conceito de guerra às drogas é um conceito super manipulado, que foi criado para o controle das mentalidades, que tinha a ver no início com o controle do álcool. Mas mesmo o álcool, enfim, eu gosto do conceito grego de substância, de fármaco que, numa determinada medida, é positivo, numa determinada medida é negativo. Então, sempre a questão seria você conseguir ficar no meio termo, produzir um equilíbrio. Cuidados… cuidado é uma palavra boa para a gente colocar nesse vocabulário de pensar as drogas, cuidado de uma maneira generosa, de uma maneira cuidadosa, sem preconceitos. Preconceito não é bom em setor nenhum, né?, mas as drogas têm esse papel na sociedade, enquanto não forem legalizadas, vão ser manipuladas, e manipuladas para produzir efeitos contra as pessoas. A gente pode tomar um vinho publicamente e não pode fumar uma maconha? Você fuma lá no outro lado, no céu aberto, e eu tô aqui no fechado, enfim, a gente vai se organizando de um jeito civilizado, de um jeito democrático, de um jeito respeitos. Quem é que vai dizer que um vinhozinho numa noite de sexta-feira depois de trabalhar é ruim, quem é que vai dizer que café é uma droga? Gente, açúcar é uma droga, tudo isso é droga porque quem vicia é a pessoa.

“Cuidado é uma palavra boa para a gente colocar nesse vocabulário de pensar as drogas, cuidado de uma maneira generosa, de uma maneira cuidadosa, sem preconceitos”

Qual é o valor que você vê na cannabis e nos psicodélicos na abertura de novos pontos de vista?

Então, como não uso nenhum tipo de substâncias, a não ser um vinhozinho, eu conheço isso de ler e de relatos e acompanho algumas pesquisas. Assim, tem muita gente pesquisando, muita coisa boa, sociólogos, antropólogos, psicólogos, muita gente ao longo da história pesquisando sobre as substâncias e toda pesquisa, seja a pesquisa histórica ou as mais ligadas às ciências humanas, seja a pesquisa na psicologia, seja a pesquisa científica relacionada à biomedicina, todas essas pesquisas no campo das ciências em aberto… nas várias ciências sempre se demonstrou que tem uma maneira muito justa e digna de se lidar com essas substâncias e que os usos são múltiplos, diversos, vastos. A experiência com as chamadas drogas nunca é uma experiência única, a experiência com a filosofia, a experiência com o pensamento reflexivo nunca é uma experiência única, a gente não faz filosofia pra todo mundo pensar igual, as pessoas não usam as substâncias pra ter todas o mesmo tipo de efeito, então de tudo que eu já vi até hoje, de tudo que eu li, de tudo que eu acompanhei, eu vi que é diverso, a questão é diversa.

Às vezes as pessoas contam histórias ruins, aconteceu sei lá, uma experiência que não foi legal. Às vezes foi legal, enfim, mesmo com o álcool eu já bebi do jeito que achei que não estava bom, depois aprendi a beber de um jeito que eu acho que fica bom, sei qual é o meu limite. Eu respeito muito os usos rituais, sejam eles urbanos, não urbanos os rituais ligam as pessoas, são socializações importantes. No mundo urbano, que é um mundo de rituais muito pobres, a gente se junta para beber, imagina como seria pobre e triste se as pessoas não pudessem tomar sua cervejinha? Ninguém vai ser contra o relaxamento de uma pessoa que trabalhou de Sol a Sol e que está lá tomando sua cervejinha, é um direito humano. Mesmo não gostando, eu não gosto de tomar cerveja e não gosto de fumar maconha, não faço nenhuma das duas coisas, mas eu não sou contra e acho que essa comparação é uma comparação adequada porque uma é uma droga que até hoje está sendo tratada como ilícita e a outra é uma droga lícita então, assim… não há mal em nenhuma das duas, senão aquele mal que as pessoas projetam, que tem a ver com preconceitos historicamente construídos, e esses preconceitos não ajudam ninguém, nem o objeto do preconceito, nem a vítima do preconceito e nem o autor do preconceito que está simplesmente reproduzindo um sistema que talvez se ele refletisse, se ele pensasse, talvez ele não bancasse. As pessoas defendem preconceitos que talvez não sejam delas, que vieram de fora, e as pessoas também se viciam em preconceitos porque os preconceitos trazem altíssimas compensações emocionais. Sentir ódio, seja de uma substância, seja de uma pessoa, seja de uma ideia, seja de um conceito, isso traz compensação emocional pra gente muito mal resolvida.

Você então não fuma maconha, mas eu jurava que um psicodélico ou outro você tivesse experimentado. Nunca rolou?

Eu tenho um trabalho mental muito intenso, né?, tô sempre muito pensando, pensando, por isso que eu escrevo muitos livros, e eu sempre explorei muito meus estados mentais, os meus sonhos. Na minha literatura boto muito dos meus sonhos, então fui uma pessoa que ao longo da vida sonhei muito, pensei muito, refleti muito, estudei muito, li muito e eu sou muito talvez viciada na minha sobriedade. Eu comecei a tomar um vinhozinho quando eu já tinha 30 anos e eu me lembro da circunstância, foi depois de um sonho que eu achei que eu tava vivendo uma vida muito monástica, imagina, eu era vegetariana, não usava nenhum tipo de substância, nada, nada, nada, não tomava nem um vinhozinho, gente, nem nada, não tomava nem uma Coca-Cola. Teve épocas que eu era uma monja e não fazia sexo, um monte de coisa assim, então eu pensei “não, vou tomar um vinhozinho pelo menos, vou começar aqui, porque eu acho que eu tô ficando muito rígida”. Eu sou muito fissurada na minha sobriedade, gosto de ficar sóbria, mas hoje em dia, já tenho 54 anos eu já curto tomar um vinhozinho, já tomei vodka, tomo cachaça. Mas eu protejo muito meu estado mental, gosto muito de ficar nessa nessa coisa pra escrever, eu tenho que ficar lúcida dominando os conceitos, dominando a produção da linguagem. Eu até acho legal, por exemplo, as pessoas estão usando os cogumelos bem legais e eu fiquei curiosa, mas não cheguei perto, não, eu acho que no fundo talvez eu tenha aquele complexo, tem gente que fala isso, né?, do complexo de Obelix. Como a minha imaginação é muito, muito, muito, assim, se deixar vai muito longe e os estados mentais também essa auto-investigação, eu faço muita terapia, então eu conheço muito a melancolia, os estados depressivos, os estados mentais mais infernais, eu tento fazer uma investigação sobre isso pra literatura. Eu teria medo talvez de uma bad trip, de ir pra um lugar que depois eu não conseguisse voltar, mas falando sério também, eu sempre falo que o mundo já é uma alucinação suficiente para mim.

Partindo da ideia do seu livro, “Como Conversar Com Um Fascista”, ajuda a gente a pensar em como conversar com um proibicionista?

Primeiro, eu tenho que tirar o preconceito de dentro de mim pra poder não ter preconceito em relação aos outros. Talvez eu não use maconha porque eu tenho medo da maconha, talvez eu faça guerra contra a maconha porque tenho medo da maconha, mas ok, esse medo da maconha pode colocar um limite pra mim, eu posso respeitar o meu próprio limite, mas o meu limite não necessariamente é o limite do outro. As nossas escolhas são forjadas por diversos contextos, por diversos caminhos, tem vários fatores que entram no cômputo de uma escolha em relação ao uso de uma determinada substância. Eu tô usando hormônio, por exemplo, eu preferi usar o hormônio na minha menopausa, e é uma substância em relação à qual eu tinha muito preconceito, até que fui ler, fui estudar, fui conversar, fui assistir os documentários, fui entender porque se construiu um preconceito em relação aos hormônios para mulheres na menopausa. Aí você vai entender que mulheres na menopausa são descartadas no mercado de trabalho, são descartadas pelas próprias famílias, quando essas mulheres são heterossexuais, então, elas são descartadas pelos seus próprios cônjuges, muitas vezes. Então é como se você perdesse o seu valor feminino, que você não vai mais parir, seus filhos já cresceram, então você já não é mais aquela mãe produtiva dentro de casa, fora de casa, tá chegando toda uma leva de mulheres mais jovens, de pessoas mais jovens, você vira realmente uma coisa que sobrou no mercado e na indústria também, né? Comparei com a cerveja, agora tô comparando com os hormônios, comparando as drogas, que são demonizadas, como por exemplo a maconha e mesmo os cogumelos, né? Comparar com essas outras drogas que são lícitas porque foram legalizadas dentro do mercado, e a gente sacar que a legalização acompanha o mercado, que essa legalização, ou seja, essa inscrição na lei do Estado tem a ver com as leis do mercado, é importante sacar esse esse jogo, né? E o caso dos hormônios é muito interessante porque mulheres são tratadas como mercadorias e são descartadas e também os tratamentos que melhorariam a vida das mulheres são tratados como mercadorias e eles não entram no jogo porque quase não existe pesquisa

Agora existe mais pesquisa porque tem mais médicas mulheres se interessando por isso, e mulheres de 50+ também se tornaram um público alvo do mercado. Então vamos lembrar disso, que a gente está vivendo num mundo capitalista, que nossos corpos, nossas vidas, nossos gestos, nossas vontades, nossos desejos, tudo isso é reduzido à lógica da mercadoria, tudo isso é transformado em mercadoria, a gente precisa saber disso para saber quais são os jogos de poder, que são jogos econômicos, e estão sendo jogados nas nossas costas. Conversar com um proibicionista é um trabalho difícil, é que nem conversar com um fascista, é que nem conversar com um machista você tem que ter aquela sua boa vontade didática, né? Vamos lá com didática às vezes vai ser difícil, se esse proibicionista for também um fascista ou seja, uma personalidade tão autoritária que tenha os ouvidos fechados, que não tenha a capacidade de reconhecer a alteridade, aí você está numa fria, você não vai conseguir mesmo. Mas se for uma pessoa que tem ainda aquela sementinha da inteligência chamada curiosidade, se isso aí estiver vivo na pessoa, então vai que ela abre o flanco, vai que ela abre os olhos e começa a enxergar um pouco mais longe, né?

“Conversar com um proibicionista é um trabalho difícil, é que nem conversar com um fascista, é que nem conversar com um machista você tem que ter aquela sua boa vontade didática, né?”

A gente não vai melhorar a sociedade fomentando preconceitos, então acho que o jogo também é tentar inscrever essa discussão num outro lugar, que é o que você faz aqui com a sua revista, você busca, na verdade, abrir os olhos, abrir o jogo, falar tranquilamente, é um ativismo incrível num contexto de muita solidão, está aumentando o número de pessoas defendendo essa causa da legalização da cannabis, mas ainda é um território que as pessoas têm muito medo, eu vejo muita gente jovem, acho muito legal, muita gente da minha geração também, mas isso tem que crescer e, sobretudo, esses jogos de poder que se valem dessas retóricas que precisam ser ultrapassadas e só vão ser ultrapassadas se a gente entender como elas funcionam, e aí entra a filosofia como contexto de reflexão. Eu não preciso ter uma religião para respeitar o Deus dos outros, eu não preciso usar uma substância para respeitar o uso que os outros fazem, eu não preciso ser uma pessoa de uma cultura determinada, que usa um determinado tipo de roupa, para entender que o outro tem o direito dele de usar. Então, defender o direito das pessoas nas suas formas de vida faz parte de uma postura democrática que qualquer pessoa deve ter, você não precisa ser interessado em uma questão do ponto de vista mais pessoal para você defender uma causa. Então, por mais que você não é signatário, você pode ser defensor, sabe?