Por Filipe Vilicic, publisher da Breeza

Até perdemos a conta de quantos foliões nos abordaram na Tenda da Breeza perguntando sobre informações de redução de danos no uso de drogas. A bandeira da Breeza marcou presença no meio da rua e nos trios dos blocos Somos Todos Carmen e Ezatamentchy, que ocuparam a Santa Cecília, em São Paulo, na segunda (16) e terça (17) de Carnaval. Em nosso espaço, redutores de danos do Centro de Convivência É de Lei recebiam os festeiros, informando e distribuindo de graça nossos leques que, além de lindos e úteis para bater ao ritmo da música e aliviar o calor, traziam neles a tabela que mostra os efeitos de misturar diferentes substâncias durante o fervo (não deixe de conferir no link).
Curioso é que a ação teve o apoio institucional da Philip Morris Brasil, marca gigante do mercado de tabaco. Há um processo de elucidação que perpassa as empresas, sejam elas da nicotina, das bebidas ou da cannabis (medicinal ou, nos países onde é legalizada, para todos os fins). Sem nada interferir na ação, a marca apoiadora compreendeu que o correto é defender a redução de danos, mesmo que isso signifique vender cada vez menos cigarros.
“O consumo de substâncias precisa muito de redução de danos, que é uma área ainda muito negligenciada pelo poder público. Nós sabemos que a culpa, a criminalização, não vai fazer as pessoas pararem de usar substâncias; a questão do uso é de saúde pública, não de criminalização”, nos disse a vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP), enquanto se abanava com nosso leque.
Essa foi nossa função no meio do babado: informar e conscientizar. Distribuímos 2400 leques para o público, então sabemos que no mínimo passou por nossa tenda essa quantidade de pessoas querendo saber mais sobre o uso responsável (provavelmente, bem mais!). A tabelinha de mistura de substâncias, desenhada em parceria com redutores de danos do É de Lei, é o que chamou mais atenção.



“Tomei uma bala, será que posso misturar com álcool?”. Um dos redutores de danos presente foi assim perguntado. Ao que respondeu: “Não estamos aqui para julgar, mas essa mistura é perigosa. Seja monogâmico com as substâncias, não abuse, se cuide”.
Foram muitas as questões assim, levadas para a Tenda da Breeza, que também atendeu aqueles que se excediam e precisavam de orientações: de tomar mais água e sentar em lugar seguro até ficar tudo mais tranquilo, a ser encaminhado para uma ambulância e posto médico, que estava logo ao lado.
Dogge, artista que marcou presença no trio, mandou a real: “A gente vive numa geração que todo mundo quer fazer tudo ao mesmo tempo. Um conselho que eu dou é usar com mais responsabilidade, a ir mais devagar, o mundo não vai acabar. Temos perdido muitas pessoas que seguem essa de fazer tudo ao mesmo tempo”.
A proposta da redução de danos (RD) começou a se proliferar nos anos 1980 e 1990 como forma de prevenção do HIV/AIDS. Como o uso de drogas injetáveis transmitia o vírus, logo as ações passaram a focar também na troca e distribuição de seringas e agulhas. Com o passar das décadas, percebeu-se o óbvio: assim como nós não deixamos de fazer sexo, é para pouquíssimos a abstinência de drogas, sejam as legalizadas (álcool, cigarro, medicamentos) ou as criminalizadas (como, no Brasil, a maconha), e assim a RD passou a ser sobre como usar de forma responsável.
A consciência sobre a camisinha se tornou senso comum e hoje há, inclusive, abordagens mais modernas ao se lidar com sexo, como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), método de prevenção ao HIV que utiliza antirretrovirais antes da exposição ao vírus, agindo como um escudo do organismo. Com as drogas, houve similar evolução. Se é fato incontornável que foliões vão se drogar nos bloquinhos de Carnaval, de nada adianta tentar proibir, o mais inteligente e produtivo é informar e educar.
Nossa ação no Carnaval é um projeto-piloto que queremos espalhar por outros ambientes onde breezers curtem das suas maneiras, e o que queremos é que saibam fazer sem causar danos a si mesmos e a quem está ao redor. Como falou o deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP): “O Carnaval é a nossa casa, é a nossa festa. Eles que nos aceitem porque a gente não dá um passo pra trás, daqui em diante é ocupar mais e mais espaço”.









