Por Filipe Vilicic

A maconha está se espalhando pelos campus universitários, e não estou falando da maneira alarmista que gostam de pregar aqueles que são contra. Acontece que a ganja nunca esteve tão hypada na Academia: virou centro das atenções de estudos de diversos campos, que vão da saúde e medicina, à antropologia e turismo.
Se no ano de 1962 foram publicados apenas 10 estudos sobre a planta na plataforma PubMed, de pesquisas médicas, agora são milhares de artigos do gênero por ano. O boom pra valer é recente, ocorreu nos últimos dez anos, e o interesse começou a aumentar na virada do milênio: no ano de 2000, foram quase 3000 estudos. O salto real se deu de 10 anos para cá, período que concentra 80% de tudo que já foi pesquisado sobre o assunto nas universidades em todo o mundo.
Por que é tão importante a erva estar presente nas salas de aula e nos laboratórios, como hoje já se mostra tão forte nas ruas, como nas Marchas – não esqueça que terá na Avenida Paulista em SP, no próximo domingo (21 de junho)?
É uma pergunta importante de ser respondida quando se considera que o Brasil tem se mostrado entre os líderes nos estudos canábicos, líder absoluto na América Latina. Nesta semana, o IV Seminário sobre Maconha no Brasil Contemporâneo, já tradicional espaço na UERJ, no Rio, para debates acadêmicos em torno da diamba, provou como é diverso o conhecimento que está sendo formado sobre a planta.
As mesas de conversas, das quais participaram os dois cofundadores da Breeza, eu e Anita Krepp, giraram em torno dos temas mais diversos: Legislação; Negócios; Turismo; Artes Visuais; Literatura; História; Cultura. Note que os dois campos nos quais a cannabis é historicamente mais presente, o da Saúde e da Segurança Pública, não estiveram no centro da discussão, que teve como proposta refletir sobre a multiplicidade da ganja para além do medicinal.
“Se não fosse o forte proibicionismo, com o Brasil com papel importantíssimo nesse processo, a gente já estaria falando há muito tempo da maconha nessas outras perspectivas, que não da Saúde e da Segurança Pública”, comenta Thiago Pereira, doutor em Geografia, professor associado do Departamento de Turismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (a UERJ) e a mente que organiza o Seminário. “A história da maconha mostra que a planta está aí desde sempre, desde antes de nós estarmos no planeta, e que seus usos são milenares, múltiplos e aparecem em diversos momentos de nosso cotidiano”.
O que abriu as portas
Para Thiago, um marco brasileiro que ajudou a impulsionar os estudos, principalmente para temas não ligados à criminalização (como segurança pública) ou à saúde, foi a decisão do STF de 2011 que, motivada pelas Marchas que começavam a ser semeadas pelo país, permitiu que se fale da erva, sem isso ser tido como apologia. “A partir do momento em que a gente pode falar abertamente sobre o tema e com segurança jurídica, sem se preocupar em cometer um crime ou ter, por exemplo, um cargo público ameaçado, o tema passou a se espalhar por áreas como serviço social, sociologia, turismo…”, avalia.
Do ponto de vista global, a descoberta do sistema endocanabinoide e, talvez principalmente, o pioneiro isolamento de uma molécula cannabidiol por Raphael Mechoulam em 1992, representaram um grande empurrão. É o que nos destaca o neurocientista Renato Filev, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas: “O sistema endocanabinoide é a descoberta que alavancou a mudança de paradigma. A pesquisa avança, a despeito da persistente e devastadora criminalização global da planta”. A onda de legalização e regularização (inclusive do trabalho nos laboratórios) no novo milênio, contudo, foi determinante para acelerar esse trem de forma exponencial.
O Curso de Extensão sobre o Uso Terapêutico da Cannabis Sativa, parceria da Unifesp com o Movimento pela Regulamentação da Cannabis (MovReCam), criado pelo Padre Ticão e pelo professor e médico Elisaldo Carlini, é referência em como está se popularizando o conhecimento na erva. Chegando agora em sua 14ª edição, e sempre oferecido de forma gratuita, já contou com mais de 150 mil inscritos. A comunicadora Gabi Daineze, uma das organizadoras e que está desde o dia zero, opina sobre como a regulamentação abre portas para acadêmicos: “Cresce com a possibilidade de seu trabalho não ser mais criminalizado. Além disso, foram abertos caminhos como para cultivar em solo brasileiro com o objetivo da pesquisa”.
Há ainda um outro pilar que sustenta o aumento de interesse dos cientistas: o potencial financeiro. O mercado da cannabis está atraindo indústrias como a farmacêutica e a agrícola, e sabemos como os lucros levam esses setores a querem saber mais e mais sobre suas commodities.
A maconha na universidade
A importância mais óbvia de se estudar a planta é por seus benefícios diretos, como para a saúde do corpo e da mente, especialmente no combate a doenças para as quais outros medicamentos não foram efetivos. “É uma fonte de remédios, a planta é integralmente um remédio”, comenta Lauro Pontes, doutor em psicologia, referência no campo canábico e que mediou a mesa “Pesquisas sobre Maconha no Brasil” no seminário na UERJ.
Para ele, a cannabis “jamais deveria ter saído das universidades”, isso porque, antes do proibicionismo que tomou o planeta no século passado, era maior objeto de interesse, principalmente na medicina. “Na psicologia, o CBD é um maestro não só na parte orgânica, como também na mental; uma grande ajuda a pacientes”, complementa ele, usando sua área como exemplo.
O peso da Academia, todavia, vai para além do que é mais evidente. Apesar de nos últimos anos o papel da Universidade ter sido colocado em xeque, principalmente em consequência da polarização política e de febres de fakes news, desinformação e anticiência nas redes sociais, a verdade é que o ambiente acadêmico é a referência máxima de conhecimento. “Chancela e legitima debates”, resume Thiago Pereira, do seminário na UERJ. “Quando conseguimos organizar eventos como o nosso, isso faz com que até os mais conservadores comecem a olhar para a temática com outros olhos”.
Para Gabi Daineze, do curso na Unifesp, isso “desmistifica a planta, quebra a barreira do preconceito que muita gente tinha”. Renato Filev acrescenta à conversa que para que “qualquer mudança de paradigma seja efetiva, o debate deve estar travado e aprofundado em todos os setores da sociedade; a academia também padece de estigma e preconceito, embora em outras proporções; e, na política, a evidência científica e o fato social caminham em descompasso”. Para Filev, o trabalho de ativistas, pesquisadores e articuladores políticos é “tentar colocar essas dimensões no ritmo, em harmonia”.
Se o preconceito espalhou tanta informação errada sobre a ganja, que o conhecimento dissemine o correto e possa apagar as tantas décadas de desinformação. Para isso, também é preciso que as conversas tão fundamentais da Academia não fiquem restritas às suas paredes e possam chegar à mídia, às redes, furar bolhas, e que os cientistas nos ajudem nessa educação canábica se juntando à quem também luta pela causa em outras frentes, como nas Marchas (reforço o lembrete: no próximo domingo, dia 21, tem em SP!).