Reportagens

Herança do Padre Ticão

O pioneiro curso gratuito sobre a erva criado na periferia de SP pelo líder religioso, que nos deixou em 2021, acaba de conquistar um prêmio internacional, florescendo ainda mais

Em 2018, dois ícones da cena canábica brasileira juntaram suas ideias para levar o conhecimento sobre a planta para regiões periféricas. Padre Ticão, líder conhecido pelos trabalhos sociais na zona leste de São Paulo, e o professor Elisaldo Carlini, médico e pesquisador pioneiro nos estudos do potencial terapêutico da cannabis e de outras substâncias psicotrópicas, queriam levar educação e informação, mas de maneira democrática, gratuita e em uma linguagem que todos esquecessem. O resultado lembra as melhores iniciativas de Paulo Freire, referência no ensino brasileiro.

Dessa união de vontades nasceu o Curso de Extensão sobre o Uso Terapêutico da Cannabis Sativa, parceria da Unifesp com Movimento pela Regulamentação da Cannabis (MovReCam). Nesses seis anos, as aulas que começaram na paróquia da igreja, e não é  pouco o impacto de um padre educando sobre a ganja em um local sagrado na periferia da maior metrópole do país, viraram online na pandemia e passaram a atrair multidões. Desde então, atraiu cerca de 100 mil inscritos.

Uma multidão que depois espalha conhecimento pela sociedade. “O viés sempre é o de quebrar barreiras do preconceito, a grade é ampla, traz cientistas, médicos, têm aulas que são sobre contexto social  e cultural”, conta a comunicadora Gabi Daineze, uma das organizadoras do curso, que está desde o dia zero.

Há estudantes que saem para construir trabalhos diversos a partir do que aprendem. “Muitas associações começaram aqui; negócios de destaque, com produtos rentáveis; tivemos chefs de cozinha; prescritores que tiveram o primeiro contato aqui”, diz a jornalista Cristina Segatto, também da organização.

A bela iniciativa, que acaba de ser consagrada com um prêmio internacional que será concedido em Portugal em 2025, porém, não chegou até aqui sem perdas e muita luta.

AS PERDAS

Carlini já enfrentava a saúde debilitada quando criou o curso e era menos ativo no dia a dia da empreitada quando, em 2020, chegou a notícia de sua morte. Porém, a ida precoce de Padre Ticão, aos 68 anos de idade, em 2021, veio como um susto enorme.

“Ele era um trator”, compartilha Gabi Daineze. “Fui comunidade da hospitaliazação no Natal e, no Ano Novo, ele faleceu”.

Ticão tinha papel de enorme destaque no movimento canábico, falava sem papa nas línguas. Gabi, que era muito próxima dele, revela que nos últimos meses de vida, o padre também estava se abrindo para outras questões, como da ayahuasca e do Santo Daime.

Ela estava abalada com a perda, é óbvio, mas também sentiu que não podia parar. As matérias em sites e jornais sobre a morte do líder religioso acabaram por chamar ainda mais atenção ao curso. A edição daquele ano, online, atraiu 22 mil inscritos.

“Perdemos esse rosto, que abria caminhos, como para as questões políticas. Mas mantivemos a resistência, com o apoio de muita gente”, afirma. Para ela, projeto tem papel central “na educação canábica no Brasil, de forma democrática e sem custo”, inclusive fomentando ações como “o movimento de HCs (habeas corpus), que tem aí uma pontinha de ajuda nossa”.

AS GLÓRIAS

Para se inscrever, só é preciso ter mais de 18 anos. “Desde o início, não queremos monetizar”, ressalta Cristina Segatto. Além dela e de Gabi, estão na coordenação a professora Eliana Rodrigues, da Unifesp, e o ativista Fernando Eliziário, do MovReCam.

Há pouco tempo, esse time recebeu a mensagem de que o curso ganhou um prêmio em Portugal, o CannaPortugal Global Cannabis Awards, que será entregue em maio de 2025, durante a III Edição da CannaPortugal, em Lisboa. E veja só: o troféu lhes foi dado por uma aluna da iniciativa, Graça Castanho, professora universitária e fundador do CannaPortugal.

A vontade de ir receber a graça pessoalmente é enorme. Porém, como convenhamos que é de costume com o setor da educação no Brasil, faltam recursos. “Pensamos em fazer uma vaquinha para ir”, conta Cristina.

Filipe Vilicic