Na Breeza

A maconha como território: da violência à salvação

A bela história de descoberta de Lauro Pontes, psicólogo e referência nas pesquisas sobre maconha, e cuja saga começa na oficina da família, com o pai lhe contando aos 9 anos de idade que fumava, cheirava e bebia

Por Filipe Vilicic

“Ele acordou a gente de forma violenta, como sempre, e vem daí até meu problema de insônia, e então sentou na sala e falou assim: ‘Ó, o negócio é o seguinte: eu fumo maconha, eu cheiro cocaína, e vocês já sabem que eu bebo. É isso’”. Lauro Pontes, hoje referência brasileira em estudos canábicos e psicodélicos, assim nos conta da madrugada em que, aos 9 anos de idade, ele e o irmão ouviram do pai o quanto este estava envolvido com drogas como as citadas.

Para Lauro, o pai não era só violento com a mãe, como a enganava frequentemente. “Como se fosse uma amante, assim, sabe?”. Das drogas, tinha prometido que havia largado a cocaína assim que casaram, o que estava longe da verdade, como a família presenciava no dia a dia. 

A maconha, Lauro sentia pelo cheiro de prensado que saía da sala fechada no segundo andar da oficina de mecânica do pai, para onde ele e os amigos iam para fazer suas rodas de fumo. Era acostumado com o odor, apesar de ter demorado a sacar que aquilo que cheirava se tratava de maconha.

A família vivia em Rocha Miranda, na beira de uma favela, e Lauro se via algo como “os que tinham melhores condições dentre os mais pobres do local”. Ao mesmo tempo, podia frequentar um colégio particular por auxílio da avó paterna, mas se notava em situação na qual alguns colegas esbanjavam, enquanto para ele muitas vezes faltava dinheiro para a comida.

A situação piorou quando houve um alagamento na oficina de seu pai, que também era casa da família. Tudo foi destruído pelas águas e a situação que era difícil, piorou muito. “Era uma favela, uma rua sem asfaltamento, mas meu pai comprou a casa mais bonitinha da rua e a gente tinha telefone, que ninguém (da região) tinha, a gente tinha carro que ninguém tinha, pois meu pai era mecânico; e a casa era toda pintadinha, tinha carpete. Só que aí deu tudo errado de uma hora para outra: a água entrou na casa e levou a porra toda”.

Lauro compartilha que a família enfrentou a fome, sem dinheiro para sequer um ovo, e sobrevivia de ajuda de parentes. O que ele sonhava era em sair de lá, não só pelo cenário de pobreza, mas pela violência do pai, somada a outros comportamentos familiares que o incomodavam e o agrediam. Foi quando ele ouviu de um professor que havia uma ótima escola técnica próxima a onde morava a avó materna, e que ele adorava, em bairro de maiores condições, na região do Maracanã. Empenhou-se para passar no colégio, pois havia prova para entrar, e conseguiu. 

Bem mais que ir estudar em outro colégio, sua ambição era morar com a avó. Assim usou a nova escola como desculpa para sair da casa do pai que vivia sob efeito de álcool, cocaína e agressividade, e sua vida mudou. Foi também quando deu início a descobertas que o levariam a encarar as drogas de outra forma, uma completamente diferente de como foi na infância.

A descoberta da erva

A primeira aproximação com outras possibilidades para o uso da maconha se deu aos 18 anos de idade, quando começou a namorar uma garota que estudava biologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, espaço conhecido por ser legalize. Para ela, a ganja era algo corriqueiro, de gosto e lazer, e logo Lauro foi parar nas rodas de fumo. Na hora que chegava o beck nele, todavia, preferia ainda passar a bola adiante.

A primeira vez que puxou um mesmo foi aos 24 anos, pelo acaso da vida, numa idade bem mais apropriada do que era o costume de seus amigos e amigas da época. Assim começou sua relação de amor com a diamba. “Fui seduzido, passei a ser usuário depois de adulto. De lá para cá, não lembro de ter parado”. 

Por anos, a relação íntima com a planta foi daquele baseadinho à noite, para relaxar antes de dormir. Isso porque compartilha que tinha receio de usar pela manhã e acabar comprometendo sua produção ao longo dia. Na pandemia, o cenário mudou e os fininhos das noites passaram a virar doses controladas ao longo de todo o dia.

“Esse baseado, fiz ontem, né? A gente tá aqui quase 2 horas da tarde, é o mesmo baseado. Quer dizer, eu não fumo muito, eu fumo, apago, fumo, apago, fumo, apago. O grande segredo da vida é a dose, né? Tudo nessa vida é dose”, fala ele durante nossa entrevista em vídeo, enquanto mostra o beck bem bolado do dia anterior. 

Só que aqui pulamos fases, descobertas, aventuras. Entre o primeiro pega aos 24 e o hábito diário de hoje em dia, acumulou estudo, conhecimento, doutorado na área, virou um pioneiro professor do sistema endocanabinoide, coordenou associações de plantio, promoveu o óleo entre mães de crianças-pacientes, tornou-se especialista em atendimentos envolvendo a erva e cogumelos… tornou a maconha o seu território.

“Maconha é meu território de vida”

A mensagem que Lauro me enviou no WhatsApp me abriu os olhos para a sua história. Já o tínhamos ouvido aqui na Breeza uma série de vezes, atrás de seu conhecimento vasto e crescente como psicólogo clínico e pesquisador da cannabis. Numa de nossas trocas de mensagens, frisou com paixão de tamanho que pode ser sentido até via Whats: “Vivo o mundo da maconha e dos psicodélicos, maconha é meu território de vida, de trabalho e de motivação”. Te entendo, parceiro, meu primeiro baseado foi aos 14 (ou seria 13, pois não consigo lembrar?) no estacionamento de um lugar onde a adolescentada ia jogar fliperama, kart, sinuca, boliche, coisa bem anos 1990, e nunca mais parei.

O protagonista dessa nossa história demorou mais a entrar para a roda, mas quando chegou, veio com tudo, corpo e alma. Aos 24, nos primeiros pegas, sua onda profissional era outra, trabalhava com informática, em várias frentes da área. O encanto pela psicologia veio na terapia: passou-se a se ver naquele lugar do terapeuta e, logo, procurou estudar o metiê. 

De início, pensava em misturar os conhecimentos computacionais com as aspirações como psicólogo e acadêmico, fazendo isso no mestrado. Para o doutorado, cogitou pesquisar sobre fetiches na deep web… desistiu ao se deparar com atrocidades para as quais não teve estômago. Em um dia de sorte da vida, deparou-se com uma reportagem sobre uma “seita secreta de cultivadores de cannabis” e foi aí que se tocou que havia um campo crescente de estudos e interesses se multiplicando pelo Brasil e pelo mundo. Conseguiu o contato do advogado Emílio Figueiredo, referência gigante da cena, ligou pedindo dicas e, no fim, acabou convidado a entrar de vez na roda dos pioneiros do ramo em nosso país, nessa “seita”. 

Lauro marcou presença nas festas “secretas” de cultivadores, sobre as quais já escrevemos por aqui. E aí a caminhada não parou: esteve na fundação de uma associação pioneira, a Abracannabis, no Rio, em 2015; espalhou educação em cursos de várias roupagens, virando também professor universitário; aprendeu a cultivar e incentivou mães de crianças-pacientes a fabricarem seus próprios óleos; olha, o currículo dessa fera de nossa cena é extenso, não cabe no parágrafo, talvez nem em todo esse texto.

Quando Lauro olha para o passado, lembra do pai. Mas com a experiência de hoje: “Entendo que ali a maconha para ele servia até como um regulador. Na verdade, seria pior se ele não tivesse usado a maconha, entende?”. Sim, provavelmente seria.

Hoje com 50 anos de idade, Lauro tem dois filhos: uma mulher de 23 anos e que estuda arquitetura e um menino de 9. Quando a filha nasceu, já não escondia seus hábitos canábicos do mundo, mas preferia, durante a infância dela, fumar de forma muito reservada, com incensos pelo espaço, tudo de maneira bem comedida. “Assim, como se fosse um don’t ask, don’t tell, né?”.

Com o filho, o papai já era referência e expert do campo canábico. Aí a história foi outra: “Ele com um aninho e eu tinha plantado a minha primeira plantinha. Assim, um pezinho desse tamanhinho que tava, né?, iniciando o bichinho. Aí ele meteu a mão e arrancou. Até hoje a gente fala disso brincando”. Tanto pela naturalidade ao lidar com o tema, quanto pelo conhecimento acumulado, soube e sabe educar os filhos sobre. Uma curiosidade, por exemplo, é que a filha já adulta é, digamos assim, bem, bem mais careta do que o papai.