Reportagens

Vamos falar dos riscos?

É uma planta, é natural, tem benefícios, deve ser legalizada, é o que sempre destacamos. Mas nesta semana propomos abrir uma conversa sobre os efeitos colaterais

Por Filipe Vilicic

Felizmente tem se tornado popular falar bem da maconha. Aqui na Breeza somos fãs da erva, é claro. Tanto no lazer, o uso adulto, quanto pelos vários fins terapêuticos e medicinais, que vão do controle de dores crônicas e crianças que usam para combater as piores doenças, a até ajudar a conservar os neurônios. São muitos os benefícios, porém há um perigo neste momento de celebração: não atentarmos aos riscos.

Trata-se de uma percepção comum, que vem sido compartilhada por médicos e cientistas ouvidos pela Breeza nestes nossos primeiros dois anos de existência. Já abordamos esse problema pela falta de cuidado em não realizar propagandas infantilizadas e atrair o interesse indevido de jovens, em mercados legalizados, ou ainda pelos perigos de a cannabis estar vindo com níveis elevados de THC. Esses recortes, contudo, escondem um problema maior: Precisamos falar dos riscos da maconha!

Comenta a médica Carolina Nocetti, professora da Unifesp no curso de extensão em cannabis, craque do assunto: “Não é porque a cannabis vem de uma planta que ela está livre de riscos. O rótulo de ‘natural’ acaba criando uma ilusão de segurança que não se sustenta quando olhamos para as evidências. E elas são claras: produtos com altas concentrações de THC estão ligados a problemas sérios de saúde mental, incluindo casos de psicose e até esquizofrenia”.

Não ajuda o fato de tantos mitos terem cercado a diamba: de que nos deixaria violentos, queimaria neurônios, fritaria o cérebro e tanto mais. Com isso, nos vimos compelidos a celebrar as benesses, sejam medicinais, culturais, sociais, políticas, identitárias, quais forem, para combater os preconceitos, a perseguição, o punitivismo.

Só que assim como a onda de legalização, principalmente a da roupagem medicinal, permitiu o maior incentivo de estudos científicos sobre o que a erva traz de bom a pacientes (ou não), também possibilitou que se pesquisasse mais acerca dos riscos – que são muito maiores a depender do usuário (assim como para alguns, podem ser mínimos). 

Calculando os riscos

Aqui não vamos elencar uma bula de efeitos adversos, e nem temos tempo e espaço para tal. O intuito é despertar nossa consciência de que o uso, e bem mais no abuso, pode ter consequências desastrosas.

Venho da experiência em jornalismo científico e peguei esse costume, que não larguei, de acompanhar os estudos científicos que saem todas as semanas, como em um site chamado EurekaAlert!. É nítida a percepção de como nos últimos anos vem disparando o número de pesquisas trazendo resultados de efeitos positivos – pelo ponto de vista medicinal – da cannabis. Assim como de alguns meses para cá houve um revés: aumentaram substancialmente a quantidade de estudos apontando os pontos negativos.

“Os médicos precisam entender os riscos potenciais, principalmente para aqueles com doenças mentais subjacentes. O nível de conscientização do público é baixo. Precisamos aprender como alcançar o público”, opina o médico Jonathan Samet, professor de epidemiologia da Colorado School of Public Health.

Em agosto, ele e seus colegas publicaram um estudo que analisou 99 pesquisas realizadas com mais de 220 mil pessoas entre 1977 e 2023 e que relacionavam o uso de produtos canábicos a efeitos terapêuticos, sejam eles positivos ou negativos. Conclusão: o abuso de maconha com altos níveis de THC é amplamente associado a psicose, esquizofrenia e dependência química.

Em 53% das pesquisas, associou-se também a agravar ansiedade e, em 41%, depressão, sendo que na outra porcentagem, apontou-se o contrário. Contradição? Não. Pois os efeitos dependem muito de pessoa para pessoa.

“Esses riscos não atingem todo mundo da mesma forma, e isso é importante deixar claro. A maioria das pessoas que experimenta ou até faz uso frequente de cannabis não vai, automaticamente, desenvolver esquizofrenia ou um transtorno psiquiátrico grave. O que a ciência mostra é que existem grupos muito mais vulneráveis. Jovens, por exemplo”, comenta a médica Carolina Nocetti.

No site EurekAlert!, aquele que uso para buscar pelas últimas pesquisas científicas (e tenho acesso a partes restritas do site por possuir um cadastra como jornalista), quando se procura hoje pela palavra “cannabis” na busca aparecem, entre setembro e agosto, 9 trabalhos que mostram efeitos indesejados do uso, enquanto outros 5 evidenciam benefícios, além de alguns que trazem balanços entre ambos.

O estudo de Jonathan Samet e seus colegas de Colorado é um dos “negativos”. Assim como outro que indica a possibilidade de cannabis causar diabetes, um que aponta a perigosa tendência de jovens dos EUA de mesclar álcool e maconha, e mais um que indica riscos de paranoia

Na prática, todavia, a planta ainda segue sendo envolta em mistérios. “Nos falta informação sólida e abrangente sobre o que está acontecendo na população em geral. Não há vigilância adequada para as consequências adversas do uso de produtos de cannabis”, avalia Samet.

Como usar com responsabilidade? 

A primeira dica é se informar. Aqui na Breeza temos nossa ação de conscientização sobre redução de danos, o uso consciente, que é o Guia da Boa Breeza. Você pode acessar todo o conteúdo no site boa.breeza.com.br

Alerta a médica Carolina Nocetti: “Se olharmos para o quadro geral, não é um perigo universal. Não estamos falando de uma substância que coloca todos os usuários sob o mesmo nível de ameaça. O que vemos é um risco concentrado em segmentos específicos da população (jovens, pessoas com predisposição genética, pacientes já diagnosticados com transtornos psiquiátricos). E, quando atinge justamente esses grupos mais vulneráveis, o impacto pode ser devastador”.

Ela explica o cuidado necessário para balancear o consumo de acordo com a pessoa: “Quem busca para dor ou náusea, por exemplo, acaba mais exposto ao THC e, portanto, aos riscos psiquiátricos. Quem recorre ao CBD para epilepsia ou ansiedade, enfrenta riscos menores, embora não inexistentes. É esse equilíbrio delicado entre efeito positivo e efeito colateral que precisa ser cuidadosamente avaliado em cada paciente”.

Consultar um médico pelo menos para checar se está tudo Ok com seu uso – sem hipocrisias, inclusive se o hábito for por prazer, produtividade, inspiração, uso adulto, como preferir chamar –, é sempre importante.

O médico Jonathan Samet, do Colorado, diz recomendar a seus pacientes: “Em poucas palavras: é preciso ter cuidado e estar ciente dos potenciais riscos para a saúde mental, especialmente se o paciente já teve problemas de saúde mental. E os pacientes devem ponderar os próprios riscos em relação às suas expectativas ao usar esses produtos — por exemplo, prazer, alívio da dor ou da ansiedade, ou sono”.