Reportagens

Atenção: Mantenha longe das crianças! 

Lembra dos “cigarrinhos” em embalagens de chocolate do Brasil do século passado? E se te contarmos que parte dos produtos à base da erva, como gomas e cookies, estão também apelando ao público jovem? Mostramos esse cenário preocupante

Por Filipe Vilicic

Quem tem mais de seus 30 anos de idade, e eu nos meus 39 estou bem nessas lembranças do século passado, deve se recordar daquele chocolate que era vendido em forma de cigarro e tinha crianças fumando em suas embalagens. Se não está nessa idade ou não se recordou, pinte essa cena na cabeça, a de uma criança de seus 8 anos de idade fumando um cigarro de chocolate no rótulo de um doce vendido em padarias, e aí tente trazer algo assim para os anos 2020. Absurdo, não?

Pois vou te contar e provar aqui como os produtos de cannabis estão fazendo quase que o mesmo hoje em dia, o que se evidencia ainda mais nos mercados legalizados. São gominhas, as gummies, vendidas em formatos fofinhos e em saquinhos que lembram aqueles dos docinhos exibidos nos caixas de supermercados. Tem embalagens similares às de bolachas, rótulos com animais desenhados como se saídos de um cartoon, modelos joviais em cenas de aventura, imagens de frutas e laricas, personagens que parecem protagonistas encapuzados de filmes de super-heróis queridos pelos adolescentes.

“Esses produtos são atraentes para os jovens, mesmo que os jovens não possam legalmente comprá-los”, nos disse Stacey Hust, professora do departamento de comunicação da Washington State University, dos Estados Unidos, e cujos estudos são focados em como a mídia influencia crianças, gêneros específicos e abusos de substâncias. Em junho deste ano, ela e colegas publicaram um experimento sobre a percepção de adolescentes do estado de Washington de produtos infusionados com cannabis. Além de enviarem questionários online, entrevistaram 28 deles ao vivo, todos entre 13 e 17 anos de idade.

Dentre os resultados da pesquisa, concluiu-se que “muitos adolescentes percebem os produtos de cannabis como atrativos por suas estéticas, como cores vibrantes e fotos nos rótulos, além do modo de vida que esses produtos promovem”. Ao mesmo tempo, notou-se que “adolescentes mais informados sobre cannabis e seus produtos eram mais céticos quanto às embalagens”.

Nesse cenário de drogas com roupagens infantilizadas, mais uma vez o caminho de educar os próprios filhos, netos, sobrinhos, os jovens ao nosso redor, é forma de protegê-los. “Pais e educadores precisam conversar com os adolescentes sobre os produtos de cannabis e é fundamental que os ajudem a entender que as embalagens são, na verdade, uma forma de publicidade”, pontua Stacey Hust, autora do estudo de Washington.

Entretanto, o problema aqui não está nos cuidadores, mesmo que caiba também a eles informar e educar. Como nos fala o psiquiatra e pesquisador Ryan Sultán, diretor do Laboratório de Psiquiatria Integrativa e de Informações em Saúde Mental da Universidade de Columbia, em Nova York: “Países que desejam legalizar a cannabis precisam de regulamentações federais padronizadas sobre a rotulagem dos produtos. Sem cores chamativas. Sem personagens de desenho animado. Os produtos de cannabis não devem ser vendidos como produtos voltados para crianças, como doces e refrigerantes”.

Não pode infantilizar a droga!

Sultán é coautor de uma pesquisa, publicada na semana passada, em que analisou 88 produtos canábicos vendidos em lojas licenciadas e não licenciadas de Nova York, onde é legalizado. Um primeiro achado do estudo é preocupante, apesar de menos ligado ao assunto desta reportagem: “produtos vendidos em lojas sem licença no estado de Nova York frequentemente não possuem os rótulos obrigatórios de saúde e segurança“. Em resumo, você não sabe direito o que tem dentro deles, em um problema comum na indústria dos legalizados, como tratamos em reportagem recente aqui na Breeza (no mercado ilegal, como no Brasil, aí nem se fala, pois não há a menor certeza do que se está usando).

A análise também indicou que tanto em lojas sem licenças, quanto nas totalmente oficiais, o marketing dos produtos é muitas vezes infantilizado, com embalagens coloridas, desenhos como os de cartoons, formas de apelar a olhares jovens, justamente aqueles que não podem ser o público-alvo. Avalia o psiquiatra Tim Becker, da Weill Cornell Medicine, a escola de medicina da Cornell University, em Nova York, e também autor do estudo realizado com o colega Sultán: “Para reduzir os riscos para os jovens, os reguladores da cannabis precisam eliminar a publicidade ‘lúdica’. Os reguladores podem limitar cores vibrantes, desenhos animados, fontes de marca divertidas, exigir que os avisos sejam exibidos de forma proeminente no mesmo tamanho de fonte que outras informações e restringir certas alegações de marketing como, por exemplo, que a cannabis ajuda no relaxamento, ou é orgânica ou totalmente natural”. Ele cita o Canadá de exemplo, dizendo que naquele país se exige que embalagens tenham “rótulos simples”, para que os pacotes se pareçam mais com os de produtos genéricos de vitaminas do que com saquinhos de doces.

A preocupação de médicos, cientistas e usuários mais conscientes é crescente com esse problema, em particular em países legalizados. Uma das evidências é a crescente publicação de estudos científicos sobre o assunto, além das pesquisas citadas nesta reportagem e que saíram em agosto e junho, tem várias outras deste ano e com resultados similares, como uma de março que investigou o impacto dos anúncios indevidos sobre maconha em jovens californianos.

Nos disse Alisa Padon, autora principal do estudo com adolescentes da Califórnia, especialista em bioética e pesquisadora Public Health Institute, no estado dos EUA onde realizou seu trabalho: “Os efeitos da legalização na percepção dos riscos da cannabis por parte dos jovens são bastante claros: eles acreditam que a cannabis apresenta poucos riscos, um fator crucial para o início do uso. A exposição dos jovens ao marketing da cannabis também está aumentando e estudos têm mostrado que isso está associado ao início e à continuação do uso da substância”.

As consequências podem ser graves

Uma reportagem recente do jornal The New York Times, e traduzida pela Folha de S. Paulo, mostrou como aumentou drasticamente a intoxicação por cannabis nos EUA, de 930 casos documentados em 2009 para mais de 22 mil no ano passado, sendo que se acredita que há bastante subnotificação. O problema ainda maior: 75% das situações envolviam menores de idade. 

Não há consequências fatais diretamente associadas ao uso, mas são relatados casos de crianças intoxicadas e que apresentaram pânico, paranóia e efeitos físicos como vômitos e problemas respiratórios – em uns (raros) casos foi necessário o uso de aparelhos que auxiliavam na respiração. Para intoxicar um adulto de THC, é preciso muita maconha; uma criança, não. Agrava ainda mais a situação que a maioria dos casos de intoxicação ocorrem com comestíveis, sendo que em várias situações os jovens ingerem doces, refrigerantes, gomas e outros derivados de cannabis, achando que se tratam de produtos comuns, como balinhas de supermercado. Nos EUA, pelo menos 38 intoxicações relacionadas à erva levaram a acusações criminais contra pais e outros cuidadores.

Os efeitos em longo prazo podem ser ainda mais preocupantes aos jovens que utilizam com frequência. Nos diz o médico e pesquisador Tim Becker: “O uso na adolescência, seja com produtos regulamentados ou não, é perigoso porque pode atrapalhar as mudanças no neurodesenvolvimento que sustentam a atenção, a memória e a regulação emocional. De modo geral, o uso em idades mais jovens confere maior risco de problemas de saúde mental e dependência. Produtos de maior potência (a porcentagem de THC) representam um risco ainda maior”.

Uma forma indicada pelos especialistas para não ocorrer problemas em ambientes com menores de idade é jamais deixar a ganja exposta. Seja em forma de flor ou, pior ainda, como gomas e outros comestíveis. De preferência, mantenha em recipientes e gavetas fechadas, inacessíveis a crianças e adolescentes.

Também acrescenta Alisa Padon, do estudo californiana, ao afirmar sobre mudanças necessárias na fiscalização: “Os produtos de cannabis devem ser mantidos sem atrativos. Adultos que desejam usar cannabis estão interessados em saber onde comprá-la, a qualidade do produto, o tipo da cepa e a potência. Para que adultos comprem, os produtos não precisam se parecer com doces infantis, ter embalagens com personagens de desenho animado ou ser comercializados com descrições de quão ‘incrível’ você se sentirá”.

O melhor caminho para impedir o uso pelos jovens é justamente a legalização, afinal, com ela vem a fiscalização. No ilegal, como é no Brasil, nem há dados o suficiente para implementar políticas de saúde pública, tanto que temos de usar os EUA como espelho nesse sentido. Além disso, é bem mais difícil regulamentar o nascente mercado do medicinal, aqui legalizado, se os produtos hoje têm de ser importados (quando não são fornecidos por associações ou cultivados sob a proteção de um habeas corpus, o HC). Aliás, importados muitas vezes dos EUA, onde está justamente se evidenciando essa infantilização de uma planta maravilhosa… mas que, se não for por estrita recomendação médica, só deve ser consumida por adultos!